Faça-me, Quero Ser Tua.
11 Obediente, mas... / Tentativa de Descanso
Notas iniciais
Carlos Daniel, parecendo ter levado um choque, soltou minha mão e exasperado levantou-se da cama. Assustada, me virei para ele, que passava furiosamente uma das mãos nos cabelos. A passos largos, ele caminhou até as proximidades da copa. Frente aos meus olhos, ele desapareceu para outra parte do quarto, enquanto eu com meus pensamentos, ficava mais conturbada. Não sei quanto tempo se passou, mas fiquei parada no mesmo lugar de antes, sentada sobre a cama, completamente assustada. Ouvi o som de passos se dispersando no ambiente, e quando ergui meus olhos, ele caminhava até mim, com uma bandeja em mãos. Assim que compreendi o que ele fazia, vindo até a cama, meu rosto automaticamente corou, e as batidas de meu coração, aceleraram-se deixando-me zonza. Ele queria me alimentar.
Passei a mão livre por minha testa, e coloquei atrás da orelha uma mecha de cabelo que pareceu ficar solta. Carlos Daniel aproximou-se de mim, largando ao lado do criado mudo a bandeja que estava em suas mãos. Engoli em seco quando ele estendeu sua mão até mim e segurou meus dedos trêmulos. E agora, assim como meus dedos, eu tremia por inteira. Ele, puxou-me, e logo fiquei de pé frente a ele, enquanto sentia a energia que nos rodeava passar por nossos dedos. Carlos Daniel inclinou-se um pouco, e agarrou firme as cobertas brancas, puxando-as em seguida para o chão. Engoli em seco outra vez, enquanto por instinto, minha pulsação acelerava.
Ele, sem soltar meus dedos, deu um passo mais a frente, e levemente empuxou-me para trás. Sentei-me na cama, agradecendo por aquele móvel estar ali. Se não estivesse, eu teria derretido frente a ele. Carlos Daniel Pegou a bandeja, e a largou sobre a cama. Seu olhar, parecia em outro mundo, e agora, já não mais procurava o meu. Ele depositou a bandeja entre os lençóis brancos frente a mim, e em seguida fez a volta na cama, sentando-se ao meu lado.
–Coma. –sussurrou olhando para a bandeja.
–Mas, eu... –tentei argumentar com ele, mas no momento em que ele passou as mãos nos cabelos, e respirou fundo, buscando autocontrole, calei-me e decidi comer. –Está bem...
Realmente, eu estava faminta. Não pensei que estivesse com tanta fome, mas eu estava. Comi com um pouco de dificuldade, o enorme curativo complicou um pouco as coisas.
–Boa Garota. –disse ele para mim com aquele olhar carinhoso, mas sempre negro. Ele ficou o tempo todo ao meu lado enquanto eu comia, e parecia que me mirava como se eu fosse uma necessidade sua. Quando ele disse essas duas palavras, me movi sobre a cama e coloquei o prato e o copo sobre a bandeja que estava no criado mudo. Imediatamente, lembrei-me que eu era a responsável pela organização daquele quarto, e quando fiz menção de levantar, Carlos Daniel segurou meu pulso, mantendo-me sentada. Ergui meus olhos, um pouco assustada e meu olhar chocou-se com o dele.
–Não... Você precisa descansar... –disse ele levantando-se da cama, logo dando a volta nela. Carlos Daniel parou frente ao móvel, e reclinou seu corpo próximo ao meu. Suas mãos afofaram os travesseiros enquanto eu olhava-o perplexa.
Meus olhos tentavam assimilar o que ele queria de mim. Se estava sendo apenas educado, ou se... Santo Cristo. Não, ele não faria isso. Pelo menos... Creio que não.
–O que você está esperando? –sussurrou parado a alguns centímetros de mim. Ergui meu olhar pra ele, voltando minha mente para a realidade, e o encontrei ele com as cobertas em mãos. –Deite-se, você precisa descansar.
O que! Eu... eu não ia dormir ali! Nem pensar!
–Senhor, eu...
–Nem pense! –interrompeu ele com a voz já mais grossa.
–Mas... –murmurei novamente... droga.
–Deite-se. Irei cobrir você. Pare de pensar besteiras. Apesar de tudo, não sou o tipo de homem que todos fantasiam... Deite-se, e descanse. Nunca te faria mal.
Me movi sobre a cama ainda um pouco desconcertada. Oh Céus... eu e ele... aqui. Como irei “descansar”?
–Tire o roupão. –ordenou-me com o olhar fixo ao meu. O QUE! –Tire. Ficaras muito desconfortável usando-o.
–Não precisa... –murmurei sentindo o rubor subir por minha pele.
–Tire, ou eu irei ai tira-lo de você.
Oh!
Levantei-me as pressas, e um pouco tonta, e assim, tirei o roupão.
Por um milagre, ele desviou seu olhos dos meus, e com uma pressa de outro mundo, deitei-me na cama, puxando as cobertas das mãos dele.
–Satisfeito? –murmurei tentando ser arrogante com ele, mas, como sempre acontece quando estou ao lado dele, falhei.
–Muito.
O belo homem da voz agora suave, aproximou-se de mim, e como se fosse algo que ele necessitava mais do que eu, afagou as cobertas ao meu redor, criando um casulo para mim.
–Durma. Descanse. Você precisa.
Suas palavras foram suaves, mas frias como o gelo. Tremi completamente por estar onde estava: na cama dele. Em meus pensamentos um tanto confusos, perguntava-me como deixei que tudo isso chegasse a esse ponto. Deus, onde falhei? Era a interrogação que não saia de meu cérebro.
Após vê-lo se distanciar da cama, observei de relance enquanto ele caminhava até o bar. Ali, ele pegou um copo limpo e colocou gelo, logo em seguida, segurou a garrafa de líquido vermelho –o tal licor que antes bebi- e o derramou sobre os cubos cristalinos. Sem me olhar, mirando para um ponto qualquer, ele caminhou até a poltrona o qual estava sentado pelo manhã, ficando de frente para mim. Oh Céus, quase fui pega em flagrante mirando-o. Foi por pouco.
Nervosa ao extremo, e um tanto confusa pelas coisas que a simples proximidade dele causavam em mim, virei-me para o outro lado, enrolando-me ainda mais nas cobertas. Fechei meus olhos tentando esquecer que a poucos metros de mim estava ele, mas foi em vão. Minha mente tentava cada vez mais manter-me acordada com as inúmeras imagens dele em meus pensamentos. Eu realmente precisava descansar, mas como? Como, se... ele esta ali?
Acabei por abrir os olhos outra vez, e um pouco aturdida, virei-me outra vez de frente para ele, precisava tirar algumas dúvidas... e esclarecer um pouco as sensações que esse meu coração traidor tentava dizer-me.
–Por que estás cuidando de mim? –perguntei mirando-o, enquanto ele estava com o olhar baixo, movimentando o líquido quente ao redor dos gelos. O vi sorrir brevemente, e logo, ergueu seu olhar para mim.
–Por que quero.
O que? Como assim? Ele... é louco. Sim! Essa é a única explicação.
Espero que seja essa a explicação. Mas...
–Era só dizer-me aquelas mínimas palavras como: “oh, me desculpe,” ou “oh, perdão” e tudo ficaria bem. Não tinha que trazer-me para cá, nem... essas coisas todas.
–Paulina, Não sou um homem que se arrepende. Não sou o tipo de homem que pede perdão.
OH QUE!
Meu inconsciente deu um salto e sentou-se rapidamente, enquanto anotava aquela frase em um bloco de notas. “-Não sou um homem que se arrepende. Não sou o tipo de homem que pede perdão.”
“-Não sou um homem que se arrepende. Não sou o tipo de homem que pede perdão.”
“-Não sou um homem que se arrepende. Não sou o tipo de homem que pede perdão.”
Mas... Por quê?
–Por quê? –não pude controlar-me, e as palavras voaram.
–Você precisa descansar. Foi um longo dia.
–Não! –gritei em meus pensamentos, mas quando olhei para ele, vi que tinha dito essa mínima frase em voz alta. –é... Eu... Gostaria de ir para casa. –murmurei com meu rosto completamente corado.
–Você irá. Mas primeiro, durma. Não irá sair daqui antes que descanse um pouco. Fique tranquila, não farei nada contigo. Jamais iria te machucar.
Os lábios daquele homem tão estranho –e tão bonito- curvaram-se em um mísero sorriso, quase imperceptível no final da frase. Oh... Céus.
–Descanse Paulina, pelo amor de Deus, Durma.
Relutante, não queria pegar no sono. Mas... depois de um dia como esse, fui vencida pelo cansaço, caindo em um sono onde apareciam taças de licor quebradas, o som de botões estilhaçando contra um piso de mármore branco, misturados com o som de cubos de gelo contra o vidro do copo, respirações ofegantes misturando-se, e pra completar, relances do rosto daquele homem das trevas.
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