Faça-me, Quero Ser Tua.
17 O Extremo da Perdição.
Notas iniciais
Ele, suavemente guiou-me para fora do quarto. Agora, pude observar melhor a casa, e realmente era divina. A cor, os móveis... tudo lindo. Esse Local diz muito sobre Carlos Daniel. Pelo menos, creio eu que sim.
Andamos pelo corredor e descemos a escadaria, andando pela sala iluminada por apenas um abajur. Realmente, era uma casa fascinante. Passamos pela enorme sala e pude ver entreaberta a porta de uma biblioteca, ou um escritório. Algo assim. Logo paramos em uma porta de madeira escura –como todas as outras- e ele correu a mão pela maçaneta, abrindo-a e dando passagem a mim. Tentei soltar minha mão da dele, mas ele no mesmo instante apertou mais forte seus dedos ao redor dos meus. Entramos no ambiente que estava completamente escuro. Carlos Daniel deu um passo para longe de mim, mas não me soltou, e em poucos milésimos, duas lâmpadas acenderam-se sobre uma bancada de vidro. Estávamos na cozinha. Sobre a bancada, havia dois sanduiches, uma jarra com suco, um par de copos, e uma bandeja com morangos. Olhei ao redor, buscando por alguém naquele local além de nós dois, mas nada encontrei. Fiquei perguntando-me quem preparou o lanche. A cozinha tinha enormes armários por todos os lados, repleta deles. E diferente do restante do que vi da casa, ela era toda em branco, um branco puríssimo. As luzes que Carlos Daniel acendeu, vinham de luminárias longas com cúpulas... tudo tão... diferente de tudo que já vi.
–Gosto dessa cozinha. Mesmo depois da reforma, lembra muito minha mãe.
Sua mãe? Será que ele morava aqui?
–Venha, vamos comer antes que você passe mal.
Ele, apenas para variar, arrastou-me até um dos bancos próximos a bancada. Ele puxou um dos bancos para que eu sentasse, e assim o fiz, agradecendo a ele com um pequeno sorriso. Um simples gesto que me fascinou. Ele, fez a volta na bancada e sentou-se frente a mim. Sem demoras, puxou um dos sanduiches para próximo de si, e empurrou o outro prato para mim. Eu permanecia imóvel, apenas observando sua maestria para coisas tão simples. Ele segurou a jarra, e completou o par de copos com suco. Assim como fez com os sanduiches, empurrou um copo para mim e pegou o outro levando-o até a boca. Vi o liquido adentrar sua boca e lembrei-me dele bebendo whisky mais cedo... eu bebendo a mando dele... Céus. Ele moveu seu olhar e o colocou de encontro ao meu, e sem descolar seus olhos de minha íris, largou o copo sobre a bancada, fazendo o som de vidro contra vidro ecoar.
–Coma. Tens que ficar bem. Espero que goste.
–Obrigada. –murmurei a ele antes de dedicar-me a matar minha fome.
Comemos em silencio, e o sanduiche estava maravilhoso. Parecia ter um toque diferente de tudo o que já experimentei... e o suco, um sabor adocicado ótimo. Terminamos de comer, e Carlos Daniel moveu-se no banco parecendo inquieto. Ele serviu outro copo de suco para si e completou o meu, que estava quase vazio também. Seu olhar foi de encontro ao meu, e ele desviando-o, pegou um morango. Ele levou o morango até próximo a boca, e antes de comê-lo, perguntou-me com um meio sorriso:
–Não fazia ideia de quem eu era, não é mesmo?
Inquieta, me movi no banco e apoiei meus pulsos sobre o vidro. Limpei minha garganta, e não podendo mentir, balancei a cabeça em negação. Ele sorriu parecendo satisfeito e empurrou a bandeja de morangos para perto de mim.
–Coma, fui eu que os plantei.
–Você? –perguntei incrédula, sem nem ter tempo de segurar as palavras em minha boca.
Carlos Daniel riu frente a mim e acabei sorrindo. Estiquei meus dedos e peguei um dos morangos, levando-o até a boca. Hum! São muito bons! Doces! E madurinhos!
–Sim, eu. Algo de anormal nisso? –debochou-me com o sorriso mais irônico que já vi em minha vida.
–Anormal? Capaz... Tens uma rede mundial de hotéis e planta morangos. Nada de anormal. –Disse eu sem olha-lo, tentando não corar. Não sei como tive coragem, mas tive de desafia-lo. Céus, onde estou com a cabeça?
–Muito engraçadinha senhorita, muito engraçadinha... –sorriu-me com o olhar estreito. –E só para esclarecer, colhi esses especialmente para você.
–Para mim? –serio? Mas, como? Tem um enorme temporal lá fora, e... como?
–Sim, pra você. Colhi enquanto estava no banho. Você Ficou um século naquele banheiro. –Disse enquanto levava outro morango até a boca. Ele olhou-me e sorriu.
–Mas como? Tem uma enorme tempestade lá fora... –Ignorei seu joguinho. Mas minha curiosidade não era capaz de ser contida.
–Tenho uma estufa, onde dependendo a época, planto morangos e alguns legumes.
Uau... Estou impressionada. Ele planta frutas e legumes... é quase impossível de imagina-lo... Imagino-o de terno e gravata, sapatos lustrados, plantando mudas de morango... é quase inacreditável.
–Você esta rindo da minha cara? –olhou-me no fundo dos olhos e vi um sorriso brincar em sua boca. Debochado.
–Não exatamente. –disse eu já sentindo meu rosto corar. Meu Deus, nunca irei me cansar de vê-lo.
–Por que trabalhas no hotel? –perguntou-me mudando o assunto, apoiando os antebraços sobre a bancada, Mirando-me fixamente.
–Bem, -murmurei desviando meu olhar. –Minha mãe ficou doente, e precisei arrumar dois empregos. Eu já trabalhava em um clube, durante a noite, mas com as despesas das medicações, tive de arrumar outro trabalho, então trabalhava a noite no clube, e durante o dia como camareira. Antes de minha mãe falecer, faltei dois dias no clube, e acabei sendo demitida. No dia seguinte ela faleceu, e desde então, trabalho no hotel.
Carlos Daniel estava olhando para mim, mas quando terminei de explicar a ele, baixou seu olhar, e baixinho, pude ouvir um “sinto muito por sua perda” sair de seus lábios. Agradeci com um sorriso, e ele voltou a olhar-me.
–Posso fazer uma pergunta? –Atrevi-me.
–À vontade. –sorriu-me.
–Você quem fez os sanduiches? –sorri para ele mudando o rumo da conversa.
–Sim. Por quê? –perguntou-me ainda com aquele sorriso brincando em seus lábios.
–Estava ótimo.
–Obrigado. –acenou-me.
Sorri para ele e levei o copo de suco até a boca, deixando o saboroso líquido descer por minha garganta.
–Quero fazer-te um convite. -Disse firme. Larguei o copo e o encarrei sentindo o anseio correr por meu corpo. –Quero que passes a semana comigo. Tem tudo o que precisas aqui, e qualquer coisa que necessitares, diga-me e providenciarei.
O QUE! O que ele quis dizer com isso? Eu... o que ele pensa que sou... eu... ah droga. Sem olha-lo, levantei-me do banco e andei a passos largos em direção a sala. Passei pela porta de madeira e ouvi ele seguir-me, mas não disse nada. Não posso ficar assim, próxima a ele, tendo ele essa ideia de mim. Não sou assim! Tenho que pegar minhas coisas e sair daqui. Acelerei meu passo, e quando subi o primeiro degrau da escada, ele segurou-me pelo punho.
–Espere. –sussurrou-me, — vamos conversar.
Virei-me para ele, e com as lágrimas ameaçando a escorrer, coloquei para fora tudo que pensava.
–olha Carlos Daniel, ou melhor, Senhor Bracho: Não sou uma dessas mulheres que o senhor pensa, dessas que levas todos os dias para a cama. Não me vendo! Não sou dessas! Se pensou assim, enganou-te! Como pude pensar que... que... Droga! –respirei fundo, tentando acalmar-me. –Olha Senhor, irei buscar minhas coisas, e irei para casa. Obrigada por Tudo, mas não sou esse tipo de mulher.
Carlos Daniel olhava-me de uma maneira assustada e parecia estar. Soltei-me de sua mão e subi as escadas com pressa, mas quando fui abrir a maçaneta, ele segurou-me pelo braço, e virando-me, me encurralou conta a porta.
–Em primeiro, não quero te comprar. Em Segundo, não quero transar contigo do jeito que esta pensando. E em terceiro, não fiz nada do que fiz pensando em te levar para a cama.
–Solte-me. –murmurei fechando os olhos enquanto meu corpo gelava.
–Escute... Pare de pensar besteiras. Não nego que fazem bons dias que desejo beijar-te, sentir seu toque, mas jamais ofereceria dinheiro para te ter. Sabe há quanto tempo não sinto vontade de conversar, de sair com alguém, de comer um sanduiche no meio da madrugada com alguém ao meu lado? Muito tempo. Não quero ficar sozinho nessa casa enorme, e também, quero conhecer-te. Jamais te obrigaria a algo, jamais. E nunca pensei em oferecer-te dinheiro em troca do que desejo.
Ele queria beijar-me a longos dias... Quer conhecer-me mais... Céus! Minha respiração acelerou-se e tive de controlar-me para não sufocar-me com ela. Abri meus olhos, e Carlos Daniel estava a centímetro de mim com uma expressão indecifrável. Mas não era nenhuma expressão boa. Ele mirou minha íris, e suavemente, afastou seu corpo do meu, libertando-me.
–Por Favor, fique aqui essa noite. Tem uma enorme tempestade lá fora, -disse-me apontando para a janela longa no fim do corredor -...e não me sentiria nada bem em saber que ficaria sozinha. Amanhã, se quiseres, podemos conversar melhor. Durma Bem, e qualquer coisa, pode chamar-me.
Carlos Daniel aproximou-se de mim, deixando nossos rostos a centímetros. Olhei nos olhos dele e me perdi ali, tentando assimilar tudo o que houve. Tão complicado. Não consigo entender o que ele quer comigo, o que o faz disser essas coisas. Minha respiração falhou e acabei prendendo-a quando ele aproximou-se mais ainda e mirou meus lábios por alguns milésimos, fechando os olhos em seguida. Senti o ar quente de seus pulmões sobre minha pele e todo meu corpo ouriçou-se.
–Sinto tanta vontade de beijar tua boca outra vez... –sussurrou-me.
Ah... Não vou suportar... não vou conseguir...
Não pude me controlar e minha cabeça apoiou-se sobre a porta de madeira. Ele abriu os olhos e mirou meus lábios, que pareceram latejar sob sua mira. Ele, com apenas um mísero passo a frente, colou seu corpo ao meu. Minhas mãos espalmaram-se sobre a porta e meu peso pareceu todo desaparecer. Ele empurrou meu corpo e o senti tencionar quando seu peito tocou o meu. Jesus...
–...Fique comigo.
O Que! Não... eu... mas...
Não consegui pensar direito... Suas palavras rodando em minha mente, levando-me a perdição, ou jogando-me no mar gelado... ah céus...
–Fique nos meus braços essa noite.
Ah Carlos Daniel, não... não faça isso comigo...
–Não posso. –murmurei sentindo o frio invadir meu corpo. Tantas coisas Carlos Daniel, tantas coisas... talvez, se eu fosse diferente, se não fosse mais... não... não posso.
–Te Desejo tanto... –sussurrou-me antes de beijar-me forte e avidamente.
Sua boca chocou-se com a minha e sua língua sem demoras invadiu minha boca. Seus dentes roçavam-se aos meus lábios e ele pressionava-os cada vez mais contra mim. Seu sabor invadiu-me e sua língua entrou em uma guerra contra a minha. Seu sabor com toque de morango, o melhor sabor que já provei em minha vida. Gemi em seus lábios e ele não cessou seus ataques. Suas pernas afastaram as minhas e seu quadril movimentou-se de encontro ao meu. Morri mil mortes quando senti seu desejo latente crescendo entre nós, e com um choque de realidade, levei minha mão sã entre nós e o afastei.
–Não posso, não posso. Entenda. –murmurei ofegante tentando controlar minhas batidas cardíacas. Seu gosto ainda estava em mim, e quando o senti desfazer-se em meus lábios, desejei-o mais ainda. Não sei o porquê, mas ele me deixa exatamente entre o céu e o inferno.
–Paulina, tudo bem, tudo bem. –Disse ele aproximando-se de mim mais uma vez. Seu corpo colou no meu e minha mão pressionou contra o ombro dele, tentando impedi-lo de prosseguir. –Só quero te beijar mais uma vez.
Seu corpo pressionou-me outra vez contra a porta, e ansiando pelo seu toque, não consegui afasta-lo de mim. Como pode... Conheço-o a pouquíssimas horas, mas parecem dias, meses, quem sabe, anos...Ele acabou de pedir para que eu dormisse com ele, e mesmo isso sendo extremamente errado, Anseio por conhecê-lo, e... ah Pai Amado.
Seus dedos correram até minha mandíbula e deslizaram por ali, fazendo o contorno de meus traços faciais. Ele levou-os até meus lábios, e mudando o “ritual,” atacou minha boca em um beijo lento, cheio de encantamento. Sua boca explorava a minha, apenas lábios com lábios... Seu gosto mesclando-se ao meu, anestesiando-me, mudando meu rumo. Seus dedos descendo por meu pescoço, correndo pelos meus ombros, perdendo-se em minha nuca. Perdi o controle, e minha boca se abriu para melhor receber os lábios dele. Sua língua moveu-se para dentro de minha boca e carinhosamente, movia-se de encontro a minha. Toda minha pele clamou pelo seu toque, mas eu não devia deixar que ele continuasse, não devia. Meu corpo clamava por mais dele e entreguei a ele em um simples beijo, tudo o que necessitava. Corri minha mão por seu peito e meus dedos tocaram a pele exposta de seu pescoço. O senti tencionar e o beijo que era lento, ganhou velocidade, deixando-me ofegante. Meus dedos seguiram seu rumo, correndo pela pele exposta de seu pescoço em rumo aos seus cabelos. Enlacei-os nas madeixas negras e ele aprofundou o beijo arrancando um gemido de mim. Céus, não irei aguentar... quero senti-lo, quero tanto... mas sei que não devo! Perto dele meu autocontrole desaparece. Movi-me em busca de mais do toque dele e nossos corpos roçaram-se um ao outro. Carlos Daniel gemeu em minha boca e sua outra mão correu de minha cintura para minhas coxas. Suprimi os sons que meu corpo produziu com tamanha sensação, e quando decidi deixar as coisas acontecerem, e seguir o clamor de minha pele, ele afastou ofegante sua boca da minha, deixando-me em pernas bambas.
–Amanhã iremos conversar, e então, quem sabe, poderei te ter como desejo.
Sua boca atacou a minha outra vez, e não tive tempo nem de respirar. Ele rapidamente afastou-se outra vez deixando-me tonta em seus braços. Seu toque suavizou, e logo, seus dedos abandonaram minha pele. Abri meus olhos e ele encarava-me com o olhar negro. Carlos Daniel deu um passo atrás e colocando as mãos nos bolsos da calça, caminhou em direção a porta de seu quarto. Eu continuei ali, congelada da maneira que ele deixou-me. Meu coração acelerado deixando-me tonta, e o sabor de sua boca possuindo-me por inteira. Ele parou frente a sua porta, e com a mão já na maçaneta, olhou-me nos olhos.
–Boa noite, durma bem. E lembre-se: qualquer coisa, me chame.
E em milésimos, ele desapareceu. Abri a porta do quarto e joguei-me na cama enterrando o rosto entre os travesseiros. Deus! Como deixei as coisas chegarem a esse ponto? Não sei o que me passa quando estou com ele, meu mundo desaparece, deixando apenas nós dois. Ah Droga, e agora?
Primeiro, não devia tê-lo obedecido hoje cedo... segundo, nem ao menos aceitado –mas eu quase fui obrigada- a ficar na suíte dele... Em terceiro... Deixei que me beijasse... ali, ali foi meu fim completo. Nunca imaginei atrair-me por um homem da maneira que fiquei desde que o conheci. Lembro-me das vezes que Oswaldo tentou levar-me para a cama, com todas as tentativas falhas. Realmente, eu não estava pronta pra isso. E agora? Estaria eu, pronta para tal conhecimento? E Ainda mais... com ele? O que esse homem viu em mim? O que? Ele tem um mundo aos seus pés, e quer que eu passe uma semana com ele... não posso fazer isso. Não sou mulher para ele. Não sou o tipo de mulher que ele necessita... ele ainda vai me fazer sofrer...
Levantei-me da cama e caminhei até o banheiro, acendendo um interruptor de energia. Escovei meus dentes com a escova que ele havia deixado para mim, e logo voltei para o quarto. Cheguei próxima a cama e tirei o roupão, deixando minha pele parcialmente exposta ao frio.
Jamais teria ficado sem aquele roupão na frente dele. Era quase... Chega! Tenho que dormir antes que faça mais besteiras. Amanhã, eu e ele iremos conversar, e tudo isso terá um basta.
Deitei-me na cama, e logo puxei uma das cobertas vermelhas para cobrir-me. Frio! Que Frio! Mergulhei novamente no travesseiro, e mesmo tentando mil vezes, seu gosto, seu toque... permaneciam em minha mente. Adormeci lembrando-me de suas expressões, de seus lábios sobre os meus, e do simples fato de colher morangos para mim. Adormeci simplesmente... Pensando nele.
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