Faça-me, Quero Ser Tua.
57 Mudança Brusca / Tempos em Tempos
Notas iniciais
—Paulina! Sei que esta aí! Abra essa maldita porta!
Mas que...
Olhei para o relógio de coração ao lado da cama. Merda. Merda. merda. 1 da manhã. O que me acordou mesmo?
Ouvi socos na porta do quarto e dei um salto da cama, me enrolando a minha coberta cor de rosa.
—Lina... anjo meu... vamos conversar... destranque essa porta, sim?
Ele estava aqui. Dentro de meu apartamento, com apenas uma tábua de madeira nos separando.
—Porra Paulina! Deixe-me explicar as coisas!
—Não! -gritei sem pensar, achando que era só minha mente falando.
—Lina... foi um jogo de fatos... Lina... Não foi como está lá... me escute.
Sua voz estava baixa o bastante para me fazer tremer ali de pé.
Me aproximei da porta, colando minha testa a madeira fria.
—Porque Carlos Daniel? Porquê? Estava tudo tão bem... -murmurei com a voz já embargada pelo choro.
—Eu sei... e foi um mal entendido. Abra a porta...
O homem que eu amava estava ali, me pedindo pra conversar enquanto eu não era capaz de escuta-lo. Não queria... Não podia. Ele a beijou... ela provavelmente transou com ele... duas semanas, ha! Eu duvido que ele não a tenha tocado inúmeras vezes nesses 15 dias... merda!
—Vá embora Carlos Daniel! Saia da minha vida! Vá embora!
—Paulina! Eu te quero... preciso de você... abra essa porta, minha linda...
Me joguei na cama mais uma vez, enfiando meu corpo debaixo das cobertas por inteiro, e ali me encolhi tentando sumir do mundo. Em algum lugar entre meu cansaço e os remédios que tomei, a voz de Carlos Daniel sumiu de meu alcance e apaguei.
...
Um mês depois...
...
Depois daquela noite, nunca mais o vira. Pelo menos não pessoalmente. Meus sonhos eram acompanhados por sua presença contínua. Ora me beijando, ora me fazendo sua... as vezes, me traindo descaradamente frente aos outros.
Hoje era minha primeira noite no emprego novo e eu estava ansiosa. Trabalhar era algo que me fazia bem. Sempre fez.
A campainha do apartamento soou, e depois de me certificar que não era ele, a abri. Manu entrou com um sorriso contente e cheia de sacolas. Entrando no apartamento sem dizer nada, ela foi para a cozinha e começou a mexer nas coisas.
—Boa noite pra você também Manuela. Não sabia que invadir casas era um hobby seu.
—Se torna um hobby quando a pessoa que você considera uma irmã para de comer e está com o rosto cheio de olheiras.
Oh... merda. Problemas...
—Isso não quer dizer que...
—Olha Paulina, é bom você calar essa boca e ir tomar um banho. -Virou-se ela para mim, bufando, segurando uma colher de pau. -Vou fazer algo pra você comer e depois vou tirar essas olheiras da sua cara. Você tem que arrasar hoje.
—Tem horas que te odeio. -murmurei me virando e saindo da cozinha. Ela tinha razão.
Tomei um banho quente, e fiquei a secar meus cabelos com o secador e a escova. Eles ficaram mais lisos que o normal e me agradou. Bom assim.
Mas... algo estava errado e Manu tinha razão. Fazia alguns dias que não via o espelho e a visão que eu tinha agora me assustou um pouco. Eu estava mesmo cheia de olheiras. Meu rosto estava pálido e com manchas escuras. Droga. Eu nunca estive acima do peso, mas agora... eu estava mais abaixo do que jamais tivera. Estava magra demais. Abrindo o roupão não me reconheci.
Era possível ver os ossos de meu quadril. Que horror. Tenho que parar com isso... esse inferno tem que acabar. Esse homem não merece meu sofrimento.
Fui para o quarto, e vesti meu uniforme de trabalho. Não era algo muito agradável e não me deixava muito a vontade, mas tudo bem. Coloquei uma calça jeans de cintura alta para disfarçar a blusa curta e a sapatilha que ganhei de Manu.
Assim que entrei na sala, o cheiro do que Manu fazia abriu meu apetite. Hm.. quanto tempo faz que não como algo de verdade? Além de biscoitos de água e sal e barras de cereal?
—Uau! -Gritou Manu quando entrei na cozinha. -Esse é seu uniforme?
—Perguntou-me sorrindo travessa. Bufei sentando-me a mesa.
—Sim. É esse...
—UAU.
Bem, meu uniforme não era muito convencional mesmo. Era um colete jeans em tom de verde militar. O decote em v era razoavelmente grande demais. Coloquei um top de malha por baixo para esconder um pouco aquilo tudo.
Manu acabara de colocar um prato de panquecas de estrogonofe frente a mim com arroz, brócolis, cenoura, e queijo quente.
—Não tenho o que te dizer Manu... o que seria de mim sem você? Sorri levantando-me e indo até ela. A abracei forte e vi que ela respirou fundo. A soltei e vi seus olhos marejados.
—Coma logo antes que esfrie!
...
—Você vai arrasar! -afirmou Manu prendendo os últimos grampos ao meu cabelo.
—Estou nervosa. -disse a ela que me olhou atravessada pelo espelho.
—Você vai arrasar com aquilo garota. Você vai se dar bem lá. É uma boate chique, e você há de concordar que jamais entraríamos lá para uma festinha. Aquilo é caríssimo. Uma noite naquilo seria o nosso salário de dois meses.
Tive de rir com o comentário de Manu. É, ela tem razão.
O salário inicial que me foi ofereceram era bom o suficiente para me manter. Ganharia mais do que ganhava no hotel. E ainda teria a porcentagem paga de gorjeta pelos clientes. Isso poderia ser bom.
—Pronto! -sorriu Manuela satisfeita. Concentrei-me no reflexo daquela bela mulher no espelho. Ela estava magra demais mas estava bonita. As olheiras já não estavam mais ali, e agora seus olhos estavam marcados de um prata brilhante e delineados de preto. Manu caprichou no tom de roxo do batom, quase preto.
—Vou deixar minhas maquiagens aqui pra você. O básico para o hotel tenho em casa. Você as precisará mais que eu. E você está linda... -disse ela contente.
—Manu, será que...
—NÃO! -Disse firme. -Você trabalha em uma boate... é o mínimo. Agora vamos lá. Vá e quebre tudo por lá, arrase. E não pense naquele cretino.
...
Cheguei na boate mais cedo do que planejara, mas acabou sendo ótimo. Conversei com as outras meninas e tudo mais, certificando-me de como seria a noite e como tudo deveria funcionar.
Ás 23:00hrs o público começou a adentrar as portas da boate, enquanto a música já tocava alta lá dentro. Cartões de comanda eram passados com rapidez enquanto os drinks eram entregues aos clientes.
Tudo estava indo bem. Por dentro de mim, um sorriso orgulhoso se formava até que ao virar-me para atender outro cliente, encontro olhos castanhos que muitas vezes mirou-me fixo ao fazermos amor.
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