Faça-me, Quero Ser Tua.
58 Decepcionada, mas não amando menos
Notas iniciais
—O que deseja? -pergunto com a voz elevada para que ele me escute, mesmo desejando sumir dali.
—Você. -Diz ele em apenas um mover de lábios, encarando-me.
Meu coração falha uma batida, voltando a bater descompassado ao som da música. Seus olhos escuros são capazes de provocar coisas que nunca imaginei poder sentir.
—Saia daqui. -digo encarando-o. Ele sorri passando a lingua nos lábios daquele jeito que tanto me deixa louca. Mas não... não vou fraquejar. Ele me traiu e ponto.
—Quero uma dose de Whisky. -Pronuncia-se seco, a máscara negra das trevas cobrindo seu rosto.
Pego o cartão de sua mão, passando-o na máquina e digitando o código. Entrego o cartão a ele e então me viro para servir a dose. Minhas mãos tremem como se estivessem com um fio desencapado ligado a elas. Coloco as pedras de gelo e estendo o copo para ele sobre o balcão.
—Você não vai me dar uma chance pra explicar? -pergunta-me quando agarra o copo, segurando junto com ele, meus dedos. Vibro com o toque de sua pele na minha.
—Não. -respondo-lhe seca, mirando-o somente por um instante, pegando o cartão de um outro cliente.
Apenas para ajudar a confusão que há dentro de mim, viro-me para entregar o pedido do outro cliente e vejo de relance que ele resolveu sentar-se bem frente a mim. Infeliz!
O que ele está fazendo aqui?!
Que diabos ele pensa que vai conseguir estando aqui, fazendo isso comigo?!
Sirvo alguns cliente enquanto ele continua ali, trocando seu olhar com o gelo e comigo. Por dois momentos nossas miradas se cruzaram e tive de controlar o desespero de sair correndo dali.
Quando acabo de servir uma dose de tequila, ele apoia-se ao balcão e estica na ponta dos dedos o cartão até mim. O encaro esperando que ele peça o que deseja.
—Só quero você e já lhe disse isso. Por qual motivo não pode acreditar em mim?
Lágrimas nada bem vindas ameaçam brotar em meus olhos. Sua mirada ainda me encara, esperando uma resposta que não sei formular. Ele, querendo ou não, me traiu.
Arranco o cartão de suas mãos e com certa fúria o passo na máquina, digitando o código. Ele me encara, mas então o deixo ali enquanto tento engolir o choro.
Sirvo a dose em um copo limpo e entregando-a a ele, apenas murmuro:
—Acreditei e você me traiu.
Ele, agarrando o copo, o vira na pia frente ao balcão,onde preparo os drinks. Seus olhos cobertos de uma nébula me miram com certa descrença. Ele me entrega o cartão novamente.
—Não te trai, em momento algum. Você vai me escutar nem que eu tenha que virar mais duzentas doses de whisky nessa pia. -diz segurando meus dedos quando pego o cartão. Arranco minha mão da sua e faço todo o processo anterior novamente.
Entrego a dose a ele.
—Você vai acreditar nas besteiras de fofocas? -grunhe.
Viro-me sem nada dizer, sorrindo para um outro cliente, atendendo-o. Quando miro de relance, o copo de Carlos Daniel está vazio novamente.
Entrego a bebida do outro cliente e vou até ele novamente. Maldito!
Minhas forças já estão se esgotando, não vou aguentar trabalhar sem chorar com ele aqui. Minhas mãos já estão tremendo.
—Por Favor Carlos Daniel... vá embora. -digo próxima a ele, mirando fundo em seus olhos. -Por Favor. -suplico sem som algum sair de minha boca.
Nossas miradas encaram-se sem saber o que fazer, como agir. Vejo, em um breve instante sua garganta engolindo em seco. Ele baixa a cabeça mirando as próprias mãos. Suas mãos agarram quase que em câmera lenta meus dedos e uma onda de sentimentos me preenche mesmo não sendo bem vinda.
—Você não vai me escutar? Vai colocar no lixo tudo o que vivemos todos esses meses? -questiona segurando meus dedos.
—Você quem fez isso quando esteve com aquela mulher.
—Paulina, por favor... eu saio daqui, mas pelo amor de Deus, você precisa me ouvir.
—Não hoje. -murmuro sem forças mais. -Agora desapareça daqui, Senhor.
Viro-me de costas para ele, ignorando seus olhares e a maneira como ele parece se controlar.
A noite se arrasta e em um momento de esquecimento, viro-me e milagrosamente ele não está mais ali. Meu coração murcha com um desespero estranho. Querendo ou não, amo esse homem, mas... não posso seguir vivendo com ele daquele jeito, não mais. E, além do mais, ele esteve com outra mulher enquanto estava comigo.
Seguro mais uma vez as lágrimas, pedindo em silêncio que a noite acabe logo.
Duas longas horas depois, quando começo a recolher os copos do balcão, encontro um dos copos de whisky completamente cheio. Um calafrio percorre minha espinha. Era o copo que ele estava bebendo... o último que lhe servi. Viro o líquido na pia e com o pensamento longe me disponho a lavar copo por copo.
Passa das 6 da manhã quando finalmente acabo tudo por ali. Me despeço da gerente e saio pela porta lateral, sentindo o frio do início da manhã envolver meu corpo. Caminho duas quadras até a parada de ônibus. Meu agora apartamento fica do outro lado da cidade. Não há muito o que fazer.
Nesse um mês após nosso término, cheguei a visitar minha antiga casa. Infelizmente, ela está completamente inabitável.
Ás 6:45hrs, embarco no primeiro ônibus e ao longe vejo os raios de sol ameaçando dar o ar de sua graça. Sigo pelas ruas por mais 30 minutos, e quando finalmente chego a porta de meu prédio, certifico-me de que nenhum dos carros de Carlos Daniel está próximo e só então agarro as chaves no fundo da bolsa. Abro o portão principal e então pego o elevador para o 16º andar. Entro no apartamento, jogo minha bolsa sobre a mesa e imediatamente entro no banho, deixando que as gotas d'agua escorram por minha pele, lavando o peso daquela madrugada. Instantaneamente, recordo do club de tiro. Sim, hoje seria muito bom.
Alguns dias antes, depois de uma madrugada infernal, decidi ir ao local onde Carlos Daniel levou-me para atirar. Marco, o moço amigo de Carlos Daniel reconheceu-me imediatamente. Acho que ele percebeu que eu não estava muito bem e logo em seguida levou-me para a sala de tiro. As palavras de Carlos Daniel ecoaram em minha cabeça como da primeira e única vez que estivemos ali. Marco, a alguns metros, apenas observava cada ato meu. A Arma era outra, o sentimento em meu coração também, as lágrimas não eram bem vindas mas não a tive como conte-las. No fim, sai de lá mais leve, ainda o amando e com o peito em migalhas. Isso não pode mudar. Mas, eu posso.
Desligo o chuveiro, secando-me em seguida. Visto uma calça Jeans, sapatilha, um moletom preto com ursinhos cor de rosa e então prendo o cabelo com um rabo de cavalo. Pegando apenas alguns trocados em minha bolsa, saio pelas ruas a caminho do club. Ele não é muito longe de minha nova casa, apenas umas 8 quadras. No caminho paro em um café de esquina e pego rapidamente um expresso. Chego ao Club em tempo de terminar meu café.
—Bom Dia Senhorita! -Diz ele limpando uma das armas. -Vai praticar?
—Olá! -sorrio para ele. -Vou sim.
—Carlos Daniel vem com você? Ou quer que prepare outra arma?
Meu coração racha como mel após ser congelado. Engulo em seco sem saber o que dizer.
—Eu e ele não estamos mais juntos, faz algumas semanas. -digo-lhe com a voz já embargada. -Até gostaria de ver contigo como faremos, pois quero aprender direitinho a atirar, e...
—Não se preocupe com isso agora! -Diz ele cortando-me, segurando minha mão e levando-me para a ala de equipamentos. -Esqueça isso, vou buscar a arma pra você.
Alguns minutos depois quando já estou com equipamento, Marco retorna entregando-me uma arma. Ele explica brevemente que é uma arma alemã e que não é muito diferente da que usei das outras vezes.
Às 9hrs da manhã já saio mais tranquila do club. Conversei com Marco e ele disse que o club estará ali a minha disposição. Disse que devo me organizar no novo trabalho primeiro e que posso começar a pagar pela prática somente daqui dois meses. Fiquei bastante agradecida com sua gentileza.
Vou para casa, tomo outro banho e então me jogo na cama, ignorando a falta que o corpo dele me faz. O Cansaço é maior e em pouco tempo apago, sonhando com balas, tiros, e aquele amor latente que grita em meu peito feito louco.
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