Faça-me, Quero Ser Tua.
53 Caprichoso. / Presentes excessivos.
Notas iniciais
Depois de nossa conversa e de termos feito amor como dois loucos, de todas as formas possíveis, Carlos Daniel dorme aconchegado ao meu corpo.
Tiro os sapatos com dificuldade e eles caem da cama em um estrondo. Suas pernas acomodam-se a mim e mexendo-se ele murmura:
—Paulina... te amo...
Meu coração não acredita no que escuta. Minhas mãos começam a tremer, e antes que me dê conta, estou chorando abraçada a ele.
—Te quero tanto, Carlos Daniel... tanto... -sussurro apenas para mim. -Uma pena não poder dizer que te amo como tanto desejo.
Soltando-o de meus braços com dificuldade, bebo o resto do champanhe já quente e esquecido enquanto observo o rosto dele.
Por qual motivo não posso te querer?
Por qual motivo não posso te amar?
Seria ele, Casado?
Não, não... isso não.
Já estamos nisso há bons meses... e a cada dia o quero mais.
É uma dor, um medo de o perder...
De ser enganada...
Uma loucura.
Só sei que amo... amo esse homem com toda sua bipolaridade, sua loucura, seu jeito estranho de me querer.
Levanto-me da cama já cambaleante pelo quarto, abrindo com um pouco de dificuldade a porta do banheiro.
Entrando ali, acendo as luzes e encontro um rosto que não me pertence refletido no espelho.
O Cabelo bagunçado, cachos perdidos. O rímel escorrendo pelo rosto, os seios e pescoço com as marcas de Carlos Daniel... as joias caras penduradas a um corpo tão... sem vida.
—Não sou assim... essa não sou eu... -murmuro entre lágrimas. Um desespero nunca sentido aparecendo para me assustar. É uma vontade de querer fugir de si.
—Paulina, está tudo bem? -escuto dando um salto frente a pia. Viro meu rosto para não mira-lo.
—Está bem sim, volte a dormir Carlos Daniel.
—Você está... chorando?
—Não, não estou... Só acho que bebi demais. Volte para o quarto. -murmuro passando os dedos trêmulos pelo rosto.
—Então olhe pra mim, deixe-me ver você.
Relutante, nem me movo, mas seus braços me envolvem afetuosos, e então acabo erguendo o rosto, mirando-o pelo espelho.
Seus olhos chocam-se quando vem minha face manchada e os olhos inchados.
"É isso que você faz comigo." penso. "E essa não sou eu."
Tiro seus braços de minha cintura e sem relutar ele se afasta, ficando atrás de mim, ainda observando-me.
—Fale comigo... -pede baixinho. -Não quero te causar sofrimento.
—Não mesmo? -indago com o choro livre, as lágrimas escorrendo em meu rosto com força total. -Por Qual motivo você não pode me dizer o que realmente sente por mim? Seus sonhos me dizem mais que sua voz... -murmuro entre soluços.
Agarrando uma toalha pendurada ali, ele me pega pela mão e faz sentar-me na tampa do vaso sanitário.
Não consigo conter minhas lágrimas. Ele abre a torneira e molha a ponta da toalha. Em seguida vem até mim, parando frente meus joelhos, erguendo meu rosto com a ponta dos dedos. Fecho os olhos imediatamente e então ele passa suavemente aquele tecido sobre minhas pálpebras, removendo a maquiagem.
—Me Diz... pelo amor de Deus, Carlos Daniel... eu... não sei mais.
Ele suspira, e então o escuto limpar a garganta.
—Eu não sei. Não estou pronto pra isso. Não são planos que eu tenha. Nunca senti isso, não sei se é isso mesmo que sinto. Só sei que... quando olho a maneira que você me observa, vejo as expressões de minha mãe para meu pai. E acabo de certo modo me vendo nele também. Eles tinham um brilho, uma luz... coisa de outro mundo quando estavam juntos. Eu sinto muito Paulina, sinto muito, mas ainda não estou preparado para admitir isso. Não pra você, mas pra mim mesmo. Não estou pronto para admitir que quero mais outra pessoa do que a mim mesmo.
As lágrimas não cessam. Não consigo nem respirar direito. Sem pensar, apenas murmuro.
—Eu sinto muito por gostar tanto de você, mais do que... você imagina.
—Não, não meu bem... -diz ele rapidamente, ajoelhando-se aos meus pés.
A toalha cai esquecida e então o miro nos olhos. -Eu também, sim... gosto de você... muito! Nunca, nunca duvide do quanto gosto de você. Tudo o que lhe disse até hoje, principalmente hoje,neste dia, tudo é verdade. Não esqueça... tudo!
Antes que possamos pensar, meu corpo já está sobre ele e ali estamos jogados no chão do banheiro.
—Sinto Muito... muito mesmo, Carlos Daniel... -Murmuro antes de cair em um sono pesado entre lágrimas.
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Acordo completamente nua e com o corpo gelado. Carlos Daniel não está na cama. Levanta-mo sentindo a garganta seca, e quando aproximo-me da sala, escuto sua voz. Ele está próximo das janelas.
—...Não me interessa... venda todas as propriedades nessa merda de cidade, não quero ligação nenhuma com esse crápula. Não interessa se vamos perder ou o quanto vamos perder, não vou permitir que ele se aproxime novamente.
Ele parece concentrado, e nem me enxerga ali. Fico com vergonha, mas não consigo me mover.
—Vovó, agora tem coisas que priorizam mais minha vida... -diz ele e então escuta atendo ao outro lado da linha. -Sim, como isso. Não se preocupe, tudo sairá bem. Todos vamos ficar em paz. Mas, por Deus vovó, não espere que eu mantenha uma amizade com ele.
Caminho até a cozinha, e quando acendo as luzes ele se vira assustado, mirando-me ali.
—Sim, eu sei. Já é muito tarde Vovó, a senhora precisa de descanço. Até breve.
Ele desliga o celular e caminha até mim. Encho um copo com água e tomo por inteiro.
—Você está bem?
—Acho que sim. -respondo-lhe, largando o copo sobre a pia.
—Você está brava comigo? -pergunta com a voz baixa, do outro lado da bancada.
Suspiro.
—Não, querido, não estou brava com você. Só estou perturbada.
—Não queria você assim, queria você contente. É o seu aniversário. -diz dando a volta, parando frente a mim, virando-me de costas e me abraçando.
—Tecnicamente já passou da meia noite, então não é mais meu aniversário. -digo acomodando seu rosto ao meu ombro.
—Caramba! -Diz ele e se afasta. -Esqueci do seu presente!
Viro-me em tempo de vê-lo caminhar pelo apartamento até o quarto. O sigo, segurando o riso. Ele parece uma criança que espera o papai noel.
—Sente-se ali na cama, já volto.
Sento-me ali, e meio segundo depois ele está abrindo o que pensei ser somente um espelho, mas é uma porta. Imediatamente as luzes se acendem, e identifico ali como um closset.
Cubro minhas coxas e puxo o lençol até meus seios. Ele regressa segundos depois, carregando uma caixinha vermelha e um envelope de mesma cor. Um sorriso estranho aparece em seus lábios, mas ele parece ansioso.
Encolho as pernas e então ele senta-se frente a mim, entregando-me primeiro a caixinha.
—Antes que você abra, confesso que queria dar-te isso a mais tempo, mas pensei que você iria me estrangular e... -ele ri. -Decidi esperar para o seu aniversário. Feliz Aniversário, Minha Paulina, espero que este seja o primeiro de muitos que passe contigo.
Meu coração se incha. Ele quer passar muitos anos comigo! Caramba!
—Independente do que seja, agradeço, de coração. E também espero passar muitos mais ao teu lado.
Ele ri, e então abro a caixa, encontrando um par de chaves, chaves comuns. Exceto por serem douradas.
Retiro-as da caixinha, mirando-o sem entender. Ele me olha como quem espera uma reação minha e que pede desculpas em silêncio. Então... entrega-me o envelope.
Abro o envelope e encontro o que parece ser a planta de algum lugar, e em seguida, uma documentação de transferência. Leio rapidamente, e somente o que entendo é que ele está passando alguma coisa para meu nome.
—Não entendo... -digo segurando as folhas e a chave.
Ele olha para as paredes e então aponta para o apartamento como um todo.
—Então... feliz aniversário.
Meus olhos o miram incrédulos.
Ele... enlouqueceu?
Miro novamente os papéis, e então me dou conta de que sim, ele passou o apartamento para meu nome.
—É sério isso? -questiono largando os papéis sobre a cama.
—Nunca falei tão sério.
—Mas e... isso não é certo, Carlos Daniel...
—Olhe, irei fazer uma reforma em minha casa. E também, não me sentiria nada a vontade com você... bem, você sabe que sua casa está praticamente impossível de habitar.
—Carlos Daniel, não é assim...
—Lina, todos os dias a maré sobe um pouco. Não gostaria de saber que aconteceu uma tragédia com você e com aquilo que você chama de casa. E aqui, -Diz ele tirando um cartão do bolso. -Está a outra parte do presente.
Pego o cartão de suas mãos sem entender muito bem. Contem o nome dele, e logo abaixo o meu.
—Este cartão é para que você use para terminar a mobília do apartamento. Quinta-feira pela manhã irão buscar suas coisas na sua casa, trazendo-as para cá.
—Você pirou. -murmuro praticamente sem voz.
—Não, não exatamente. Quero te dar todo o conforto do mundo. No closet já estão algumas roupas suas que estavam em minha casa e se precisares de mais coisas, pode usar o cartão. Quero que você deixe esse apartamento como você sonhou em algum momento da vida. Quero que se sinta confortável aqui, e que me queira nele também.
Não consigo raciocinar. Um turbilhão de coisas passam em minha mente. Caramba! Virgem de Guadalupe! Este homem acaba de me dar um apartamento. Um mega apartamento, com tudo dentro. Eu...
—Paulina, sei que sua cabeça deve estar a mil. Imagino que pense um monte de besteiras, mas acredite, estou fazendo isso para o nosso bem estar, o nosso. Irei viajar, e quando voltar espero encontrar esse apartamento com a sua cara. Para isso, também, Manuela estará de folga na sexta-feira, já conversei com ela e quero que saiam para escolher coisas para a casa.
Fico sem palavras. Sem saber o que dizer. Acabamos caindo em um silêncio ensurdecedor. Depois de muito, muito tempo, me ponho a falar.
—Olha Carlos Daniel, concordo com a parte de que minha casa está em um terrível estado. Mas é minha...
—Aqui também é seu, agora. -diz ele cortando-me. O fuzilo com os olhos e então prossigo.
—Acho do fundo do coração, que fizeste isso por mim, mas não quero pensar em momento algum que foi por você me ter apenas para... sexo. Não quero me sentir barata, nem comprada, mas é mais forte que eu.
—Lina, quero que confira as datas no documento. -diz ele me interrompendo novamente. Verifico os papéis, e percebo que já fazem meses que esse papel foi redigido. -Entrei com essa documentação desde a primeira vez que estivemos aqui. Este apartamento, iria parar em suas mãos de qualquer forma. Jamais usaria você para sexo, e muito menos trocaria te ter por isso tudo. Estou fazendo isso, por gostar de você, por querer teu bem estar.
Engulo em seco.
—E se um dia terminarmos? -pergunto-lhe com um nó na garganta.
—Espero que isso nunca aconteça. -Diz ele com os olhos arregalados. -Mas mesmo assim, isso continua sendo seu.
—Então... eu, me sinto barata mesmo assim.
—Se você não tivesse aceitado ficar comigo, manter-se ao meu lado e tudo mais, mesmo assim faria algo para esse apartamento chegar a ti.
—Eu estou chocada, ao mesmo tempo... impressionada... e também muito contente por você confiar em mim para algo tão... caro. -digo largando a chave, os papéis e o cartão no criado mudo.
—Já disse, te daria as estrelas só por capricho. -Diz ele com um sorriso, seus olhos mirando os meus.
Meu coração se incha novamente. A sensação é que ele pode explodir a qualquer momento. Sem pensar na loucura que é esse homem, tiro as lençóis do meu colo e me aproximo dele, beijando-o suavemente nos lábios.
—Muito obrigada. Mesmo.
—Sim, agora, venha que quero essa boca quietinha, apenas beijando a minha. -diz ele já puxando-me para mais um beijo.
Seu corpo cobre o meu e mais uma vez, fizemos aquilo que somos tão bom juntos. Não é preciso juras, promessas, nem essas coisas de casais normais. Afinal, nós não somos normais. Somos conturbados, somos... bagunçados. Uma loucura em forma de homem e mulher. Isso acaba não importando. Assim, uma pele tocando, marcando a outra é o único momento em que não há brigas, não há incertezas. Nos beijamos com furor, nos tocamos com certa devoção, e entre sussurros e gemidos, sabemos que pela primeira vez ambos estão se tocando sem medos, sem rancores... apenas... amando.
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