Fazendo Mágica

1 A vida por outros olhos


Notas iniciais
Estou me aventurando em uma nova categoria pra mim.

E realmente eu choro quando escrevo pois coloco toda a minha emoção e sentimento em meus textos.

Eu realmente espero que gostem

A vida é uma viagem somente de ida para algum lugar ainda desconhecido, somos todos passageiros de um trem e em cada estação alguns chegam e outros se vão; há pessoas que estão no mesmo vagão e não conhecemos e que são esquecidas, umas que passam por nós, mas não fazemos questão de lembrar, outras nos marcam momentaneamente e há aquelas que ficam para sempre, mas a única certeza é que algum dia todos nós teremos que desembarcar.

Saber que um dia o assento daqueles que nos acompanham ficará vazio e que não haverá mais momentos compartilhados faz com que cada segundo que podemos estar juntos seja aproveitado com alegria, afinal às vezes é difícil dizer adeus para quem vai embora. A saudade chega a machucar, a viagem parece mais longa e vazia e o único conforto é imaginar que um dia as pessoas que amamos estarão na estação esperando o nosso desembarque. Mas há momentos bons como a chegada e é nesse momento em que tudo o que acontece nesse meio tempo entre o nascimento e a morte pode valer a pena.

Hoje eu me vejo neste trem sentado olhando pela janela e vendo as árvores uma a uma passando, assim como os dias. Fecho os meus olhos e sinto o vento que bate em minha pele já cansada e balança meus poucos cabelos brancos que restam, mas por dentro ainda me sinto a mesma criança que não alcançava o chão e balançava os pés pela a ansiedade do que iria acontecer, não vi tudo o que eu queria ver e nem fiz tudo o que eu queria fazer, porém acho que eu fiz uma boa viagem. Os barulhos que as rodas fazem percorrendo os trilhos ainda novos por nunca terem sido usados me avisam que a minha parada é em breve.

Algumas vezes me perguntei até onde essa estrada vai e quantos ainda irão subir, por onde esse trem ainda vai passar... Agora nenhuma dessas respostas me interessa mais, já fiz muitas durante muitos anos, grande parte fora respondida e outras que jamais serão. Não sinto remorsos, sinto muita falta de pessoas que há muito se foram e queria ter conhecido aquelas que me colocaram aqui, mas partiram assim que cheguei como os meus pais.

O trem começa a frear e de longe já começo a ver a estação e todos os que estão me esperando, será muito bom voltar a conviver com eles, enquanto eu era pequeno eu era muito travesso e hiperativo, mas uma criança sozinha... Eles foram a minha família e tudo o que eu tive em minha viagem. Sinto uma mão suave que aperta a minha, viro minha cabeça e olho para a pessoa que está do meu lado e a vejo chorando, é impossível que eu contenha as minhas lágrimas também. Ela sorri, mas não consegue disfarçar sua tristeza e eu me aborreço com isso.

— Está tudo bem querido — ela me diz com a voz cortada — eu te verei em breve, eu sei — e tenta me mostrar um sorriso, mas eu sei que ela está mal. Eu dividi minha vida com ela, passei os melhores anos que alguém pode se passar junto dessa mulher — só nunca se esqueça de mim e que eu te amo.

— Nunca vou me esquecer de você. E quando você for desembarcar eu estarei lá esperando por você — seguro a mão dela mais forte e sinto a parada brusca do trem, finalmente chegou a minha hora, esses é um dos momentos tristes que eu disse, se despedir de quem amamos — você ainda tem um caminho a seguir, mas eu não vou mais te acompanhar. Eu vou te esperar — passei minha mão pelo rosto dela pela última vez e dei-lhe um último beijo, levantei de minha poltrona e fui seguindo pelo corredor a vendo chorar amargamente, aquilo partia meu coração, minhas malas de tudo o que eu aprendi e o que eu consegui levar desse meu tempo já estavam no chão da estação, com dificuldade eu desci as escadas e finalmente parti.

— Hey Joe, finalmente você chegou! — eles vieram em minha direção, estavam jovens e fortes.

— Oi Victor, Ellen! — minha voz saiu fina e percebi que havia voltado a ser uma criança, o som do apito avisava que o trem iria partir em seguida, as portas se fechavam e ela estava na janela chorando, às rodas começaram a se movimentar e ela me acenava em despedida eu acenei de volta enquanto a via indo embora.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

— Senhora, senhora, pare de chorar, ele se foi, mas tenho certeza que ele vai esperar por você.

— Cinquenta e sete anos juntos – ela soltou a sua mão da dele, estava chorando – feche os olhos dele, por favor – a enfermeira atendeu ao pedido — mesmo sendo numa cama de hospital é como se ele estivesse dormindo. Ele foi e eu fiquei...

A moça olhou alguns papéis no prontuário — senhora Ana, ele estava fartos de dias nessa terra... — Ana a interrompeu com a sua mão enrugada pelo tempo, seus cabelos brancos demonstravam que o peso da idade já lhe avançava muito também.

—Não diga nada, pois os dias que passei com ele valeram toda a minha viagem, em breve nós voltaremos a viajar juntos, em breve... — a enfermeira não disse mais nada colocando a prancheta entre os braços se comovendo com a cena. Enquanto a mulher a sua frente voltava a segurar a mão de seu finado marido e sentava a seu lado como se relembrasse cada momento que passou em sua vida, nos dias alegres, nas noites de tempestade, de todos os mais simples e pequenos detalhes que poderiam ser lembrados. E dos votos cumpridos de estarem juntos na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza e finalmente até que a morte os separasse.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Embora eu estivesse triste por estar a vendo seguir sozinha e eu ficar aqui, também estou feliz os demais estão vindo para me receber, mas eu sei o que tenho que fazer... Eu vou esperá-la na próxima estação.

Notas finais
Em breve eu estarei colocando mais capítulos :)