Fazendo Mágica

2 O pedido de natal do Charmy


Notas iniciais
Vou por 2 capítulos de uma vez, pq talvez eu goste de chorar, não sei.... Talvez

A neve começava a cair vagarosamente fazendo as árvores parecerem estar cheias de bolas de algodão, o vento uivava varrendo as ruas das últimas folhas que caíram no início do inverno anunciando que mais uma noite gelada se faria presente. O dia de natal estava chegando e como todo ano via vários de seus amigos pedindo brinquedos, outros pedindo coisas de crianças mais velhas como uma bicicleta, nunca quis nada disso, pois o seu desejo mais profundo sabia que de alguma forma seria impossível de acontecer e por esse motivo sempre se contentou com o que ganhava de Victor e Ellen, mesmo sabendo que seria mais uma camisa e uma calça.

De joelhos no assento do sofá e debruçado no encosto suspirava mirando pela janela as árvores balançando e flocos de neve flutuando com o vento como se brincassem no meio da escuridão, sua mente imaginava figuras dançando, felizes e sorrindo se divertindo entre a tempestade, fazendo bonecos de neve com galhos, um chapéu e um cachecol e com essa visão seu coração ficava triste e uma pequena lágrima escorria de seu olho, a limpou rapidamente, Victor sempre dizia que “homem não chora” e tinha medo de que ele descobrisse e assim passasse vergonha, mas era impossível segurar algo que todo ano o machucava muito.

Pulou do sofá indo correndo para o seu quarto, fechou a porta, abriu a gaveta da cômoda ao lado de sua cama pegando um lápis e um caderno antigo, o abriu na última folha e jogou o corpo sobre a cama começando a escrever:

“Querido Papai Noel.

Todo ano eu escrevo uma cartinha te pedindo um brinquedo novo, mas eu nunca ganhei, acho que o senhor acha que eu sou um garoto mau e por isso não mereço ganhar, esse ano eu não quero um brinquedo, nem uma bicicleta como a Clara, eu quero ver a minha mãe... Por favor, papai Noel, eu nunca vi a minha mãe eu só queria saber como ela é, eu prometo que eu serei um garoto bonzinho daqui para a frente, não vou mais desobedecer a Ellen e nem provocar o Victor, mas acho que eu sou um garoto muito mau pro senhor me ouvir... Talvez eu tenha quebrado um copo ou outro, tirado uma nota ruim na escola, eu sei que eu fiz muitas travessuras, mas por favor me ajude a encontrar a minha mãe...”

Mesmo sabendo que “homem não chora” não conseguiu segurar e conforme foi escrevendo foi molhando a cama e o papel com suas lágrimas.

“Acho que eu estou pedindo demais papai Noel, mas pela primeira vez na minha vida, não me dê uma caixa vazia e nem com carvão por pedir isso, eu só quero uma vez sentir o que a Clara sente quando a mãe dela abraça ela, eu quero saber o que é o amor de mãe, bom papai Noel, eu espero que me escute esse ano.

Assinado: Charmy. ”

Dobrou o papel e o guardou embaixo do travesseiro, ali era o seu lugar seguro, enxugou os olhos e desejou com todo o seu coração que aquele seu pedido, um pedido sincero de um coração abatido se tornasse realidade. Durante o ano todo foi um aluno bom, uma criança obediente, talvez esse ano seu pedido fosse ouvido e pela primeira vez pudesse sorrir na noite de natal.

A noite avançava, e chegada à meia noite mais uma vez uma simples ceia de pão, bolinhos e o café que foi feito de manhã, comeu com euforia por querer dormir, os dois que considerava seus irmãos o olharam assustados com que ferocidade engolia seu bolinho, era estranho ver uma cena dessas, já que em praticamente todos os anos Charmy (seu nome mesmo era Matheus, mas o chamavam de Charmy, foi assim que o bilhete que em sua cesta dizia quando o acharam) sempre comia vagarosamente, triste e cabisbaixo, alguma coisa não parecia normal, definitivamente não estava normal. Chegada a meia noite a troca de presentes começou e como de costume Ellen e Victor ganharam desenhos sem muito sentido feito por uma criança de sete anos e Charmy como previa, uma camiseta “nova”. Deitou em sua cama fechando os olhos com força pensando que assim conseguisse dormir mais rápido, mas a insônia pela ansiedade o pegou e estava tão acordado que poderia brincar a noite toda e quem sabe a metade do outro dia.

Escutou um barulho vindo da cozinha, logo pensou que seria um velho senhor de roupas vermelhas, correndo descalço sem fazer muito barulho para não atrapalhar os irmãos adotivos que dormiam migrou para o cômodo vendo que o motivo do barulho era um gato desconhecido que invadiu a cozinha, parecia tão esfomeado que bebia com vontade e tomava todo o leite que havia deixado com os biscoitos para o senhor que já estava atrasado.

Tirou o gato de cima da mesa depois que ele bebeu todo o leite e sentou na cadeira aborrecido, o que serviria agora? O gato intrometido estragou seus planos, frustrado e ansioso, seus olhos lacrimejaram, a vontade e o desejo que tudo acontecesse, mas as horas não passavam, nada mudava, era coisa demais para um coração pequeno suportar. Sua respiração começou a ficar pesada, enxugou os olhos com força, limpou o nariz escorrendo na camiseta, desceu da cadeira e voltou pra cama. O gato o seguiu e mesmo tocando o infeliz bichano cinza listradinho de amarelo ele não ia embora, quando sentou na cama, viu quando o gato pulou junto e ficou olhando pra ele e não importava quantas vezes jogasse e colocasse ele no chão, ele sempre subia de volta, até a hora em que ele começou a esfregar em sua mão procurando carinho ronronando e desistiu de tocá-lo, então se deitou.

O gato se enrolou ao seu lado perto de sua mão encostando sua cabeça na barriga de Charmy, fez um carinho naquele bichinho e nem percebeu que a ansiedade, o medo e tudo mais havia passado. Era bom ouvir aquele barulhinho de “ron ron”. Aos poucos foi caindo no sono, e seus olhos estavam tão pesados que não conseguia mais mantê-los abertos por mais que quisesse. Dormiu profundamente. Começou a sonhar que estava brincando na rua em um dia de verão, soltava uma pipa, quando sentiu duas mãos que pousaram em seus ombros.

Olhou para trás, era uma moça, uma mulher muito bonita de pele clara e cabelos negros o olhava com carinho, passou a mão em seu rosto e lhe sorriu. O brilho no olhar dela, a paz que ela lhe dava, brincou o dia todo em seu sonho que nem viu as horas passarem. Ela tinha um colar com uma bolinha vermelha no meio. Ela o abraçou e lhe disse que o amava muito e que não importava as circunstâncias, sempre o amaria. E que ela foi obrigada a ir embora cedo demais, mas de onde ela estava nunca deixou de vigiá-lo e seguir seus passos. E que ele era seu filho amado.

Fora o sonho mais bonito que já teve em sua vida e o mais gostoso. Mas por melhor que fosse ainda era um sonho e como tudo, ele também teve um fim. Então despertou, era de manhã. Se levantou e foi para a cozinha, estava numa mistura de tristeza e felicidade, pois era só algo da sua imaginação, não era real e o que queria de verdade não iria acontecer.

Pegou uma xícara de leite e foi para o seu quarto, talvez aquilo que pediu era algo grande demais para o senhor Noel fazer, levantou seu travesseiro para pegar a carta e jogá-la fora, mas ela não estava mais lá. Havia sumido, procurou e não mais a achou, chateado foi até o sofá e se debruçou para olhar pela janela, foi quando viu o gatinho que apareceu a noite do lado de fora, ele estava do lado de um boneco de neve com chapéu e cachecol, quem teria feito aquele boneco? Ele não estava lá durante a noite passada, então o gato se virou de frente a janela, foi então que viu uma coleirinha com uma bolinha vermelha no meio.

Saiu correndo descalço, derrubou a xícara de leite no sofá, iria tomar uma bronca, mas não ligaria, quando abriu a porta o gato tinha sumido, mas pela primeira vez tomaria uma bronca sendo a criança mais feliz do mundo.

Notas finais
É isso, se chegou até aqui, obrigada por ler :*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.