Apressada, bateu a porta do apartamento e digitou o código do sistema de segurança, deixando a bolsa, as chaves e o celular junto ao sofá e seguindo direto para a cozinha, onde abriu a geladeira para pegar um copo d’água. Percebeu que suas mãos tremiam de maneira discreta, um hábito adquirido nos últimos anos após tanto se colocar em situações onde precisava se controlar sob a pressão de ser descoberta.

Contudo, as coisas desandaram na última semana quando começaram a investigar um fornecedor de armas biológicas para um grupo supostamente paramilitar da Rússia. Havia retomado ao posto de Agente 13 na S.H.I.E.L.D sem muitos percalços dentro da própria agência. Por mais que houvesse ajudado o Capitão América, o mesmo não era mais considerado um traidor e ela própria era encarada como apenas uma ferramenta do herói.

Havia sido assim desde o instante zero e tudo o que gostaria de evitar sobre Steve Rogers foi se tornando mais e mais impossível, pois ele era como uma espiral magnética de problemas. Não parecia haver um fim para as complicações o envolvendo e aos Vingadores, principalmente se considerassem o nome Stark. Respirando fundo, terminou a água e colocou o copo sobre o balcão com um baque seco, se direcionando imediatamente ao quarto.

Podia sentir o suor aquecendo a nuca, logo abaixo dos cabelos loiros que, agora, mantinha mais compridos e cacheados, como naturalmente eram. Por isso, tirou o terninho preto, jogando-o sobre a cama antes de ir até o closet, na semiescuridão do fim de tarde. Ignorando todas as portas, correu a terceira à direita e se agachou, retirando sem cuidado as caixas de acrílico cheias de acessórios supérfluos para enxergar o fundo falso sob as roupas de festa.

Com o toque de sua mão, uma luz azul automaticamente se acendeu para ler suas digitais e, em seguida, a parede falsa do closet deslizou para baixo num ruído quase silencioso. Visualizou em seguida um cofre analógico e antiquíssimo, feito por um dos maiores especialistas do ramo, morto no século anterior. Sua tia conhecia as pessoas certas. Rapidamente, encontrou os números e, de lá, puxou uma mala estruturada em verniz negro relativamente mediana, mas completamente arrumada e pesada.

Ajoelhada junto ao armário, digitou no minúsculo painel touchscreen da mala considerada de alta segurança por seus contatos um novo código e a abriu, imediatamente vendo três conjuntos de documentos com nomes e origens diferentes, incluindo passaportes, e dinheiro nas moedas de vários países. Junto, havia ainda ao menos cinco trocas de roupas em modelos funcionais e na tampa, dois pares de botas de couro em saltos baixos.

Sempre fora prática e, principalmente, prevenida. Sabia que, em algum momento, precisaria fazer uso de outra mala como aquela e, assim que se mudou para aquele apartamento, providenciou o necessário para montá-la. Mordendo os lábios enquanto se forçava a raciocinar com estratégia, se preparou para fechar a mala, mas se colocou de pé assim que notou a presença logo atrás de si.

Era sutil e silencioso, mas fora habilitada desde muito jovem a fazer uso de seus melhores reflexos nas mais diversas áreas. Fisicamente, eles eram ótimos. Porém, assim que se virou, pronta para atacar ou de defender, estacou ao notar de quem se tratava o invasor.

— Olá, Sharon.

O tom de voz dele era sempre baixo e linear. Para além do Soldado Invernal, o qual carregava consigo uma aura muito pesada e perturbada, Bucky sustentava diariamente um semblante quase que totalmente vazio, como que entediado demais daquele mundo depois de tanto tempo. Não era como se não houvesse se adaptado àquela realidade, como o Capitão, mas como se tivesse visto demais e evitasse com todas as forças dispender esforços sobre o que não valia a pena.

— Bucky. O que está fazendo aqui?

Parado junto à porta do banheiro, de braços cruzados na típica jaqueta de couro combinando com as luvas negras, no entanto, ele parecia empertigado, mas atento. Atento demais a ela e a óbvia afobação, além da mala comprometedora, a qual se forçou a não encarar a fim de não parecer ainda mais culpada.

— Acho que essa não é a pergunta correta. – Ele retrucou com tranquilidade. – Aonde vai com tanta pressa?

O homem encarou a mala com falso interesse e voltou a olhá-la, de maneira inquisitiva.

— Eu não te devo satisfações do que faço ou não. – Andou até o móvel central, se preparando para o que quer que fosse acontecer em seguida. – Como entrou aqui? E porquê?

— Ouvi histórias... E comecei a pensar. – Bucky finalmente deixou sua sentinela à porta do banheiro, parecendo examinar as roupas milimetricamente organizadas enquanto se aproximava. E, por mais que julgasse pessoal demais tê-lo ali, num lugar muito íntimo, não se prendeu a tal detalhe e apenas o acompanhou atentamente. – Esse último vazamento de dados realmente prejudicou a S.H.I.E.L.D. Quer dizer... Ter revelado os lugares onde as armas biológicas usadas secretamente pelo país são armazenadas?

— Pelo o que sei, os russos conseguiram apenas um terço dos dados... – Jogou verde, no que ele sorriu, estacando do outro lado do móvel central logo à sua frente.

— É. Porquê levariam apenas parte dos dados quando podiam ter tudo? – Sharon respirou fundo, evitando um revirar de olhos.

— Onde quer chegar com todo esse interrogatório, Bucky?

— Soa estranho que a S.H.I.E.L.D esteja passando por esses problemas com vazamentos de informação logo após seu retorno, não acha?

Sharon o fitou firmemente por um segundo, notando que agora a pacificidade nos olhos claros não estava mais presente, pois ele esperava respostas.

— De repente, você parece muito preocupado com a S.H.I.E.L.D.

— Estou preocupado com você.

Apenas molhou os lábios e soltou um riso amargo, discretamente estendendo a mão para a parte debaixo do local onde guardava seus acessórios, procurando as armas sempre deixadas ali por precaução.

— Bucky... Nós não somos amigos. E não sei se acredito muito nos seus motivos, desde que também aceitou entrar para a Organização.

Levantou uma sobrancelha, mas ele não pareceu perturbado e encarou exatamente o local onde sua mão estava, como se a visse tateando o móvel sem encontrar qualquer coisa que pudesse colocá-la em vantagem ali.

— É isso o que procura? – Ele sacou a arma da parte detrás da calça, retirando o pente de munição antes de colocá-la sobre o vidro da tampa entre eles, emulando uma oferta de paz. – O que está planejando e por que está fugindo?

Fitando-o brevemente pode perceber que, realmente, não tinha intenção de machucá-la, mas não podia gastar mais tempo conjecturando sobre Bucky e seus motivos quando o soldado sequer deveria estar ali e ela, supostamente, deveria estar a caminho de um jatinho que estava à sua espera. Suspirando, se abaixou para pegar a mochila de mão.

— É melhor que não se meta nisso, Bucky. – Se voltou à porta da saída, mas o homem agilmente se colocou à sua frente, impedindo que saísse, o que a deixou imediatamente ultrajada. – Saia do meu caminho.

— Porquê está vazando informações para os russos, Sharon?

Notas finais
Olá! Essa é minha primeira fic do Universo Marvel e acho que não havia forma melhor de começar "tateando essas águas" do que explorando um personagem tão dramático quanto Bucky - quem conhece minhas outras histórias sabe (!). Por aqui, é ainda um teste e eu escolhi ele e Sharon porquê vejo o potencial dos dois juntos e, principalmente, o potencial gasto de Sharon Carter. Eu gostaria que ela tivesse uma personalidade, uma vida e uma história com camadas e que fosse bem aproveitada, mas em Falcão e o Soldado Invernal fazem a mesma coisa que sempre fizeram nos filmes, servindo apenas à conveniência de roteiro. Apesar de tudo isso, uso como pano de fundo a história que ela ganhou na série, adaptando ao que eu gostaria para a fic e para as questões que Sharon é capaz de ter. Enfim, me deixe saber se curtiu a história - eu espero que sim!