— Porquê está vazando informações para os russos, Sharon?

Ele insistiu novamente, em tom baixo, fazendo-a tensionar os dedos ao redor da alça da mala. Porém, pode perceber como também notou sua hesitação.

— Pare de me interrogar.

Rapidamente alcançou a arma esquecida sobre o móvel e avançou sobre Bucky. A direcionou na têmpora do outro, imediatamente bloqueada sem dificuldade, mas foi rápida para soltá-la e fincar um gancho no estômago antes de empurrá-lo em direção ao armário esquerdo do closet, quebrando a porta de vidro com o peso de ambos num estrondo audível.

O antigo soldado claramente apenas tentava bloqueá-la, enquanto atacava. Assim, aproveitando que seu pulso estava bem seguro pela mão mecanizada, rodeou o ombro dele, puxando a cabeça em direção ao móvel atrás de si. Porém, antes que pudesse atingi-lo, Bucky soltou seu braço e rapidamente a empurrou contra o móvel, fazendo com que perdesse a respiração por um segundo pelo impacto diretamente em seu pulmão.

— Já podemos ser civilizados?

Ele perguntou meramente entediado, mas atento aos seus movimentos. É claro que sabia que não tinha chance contra o ‘soldado perfeito’, criado em laboratório, mas tinha que sair dali o mais rápido possível e não queria adentrar mais a fundo no diálogo que insistia em estabelecer. Gostava quando Bucky era mais silencioso e meramente observador.

Recuperando-se rapidamente, o golpeou com a perna no flanco esquerdo e tentou o mesmo golpe do lado direito na cabeça, mas ele segurou o impacto e, finalmente, atacou. A possibilidade do impacto do braço dele em seu rosto a assustou por um segundo suficiente para se distrair. Por isso, Bucky alcançou seu pescoço e a levou contra o closet quebrado, mantendo-a presa com o peso de seu corpo, pressionando o pescoço o bastante para não se mover.

— Me solta. – Ofegou. Já se sentia a adrenalina fugindo de seu corpo para dar lugar a pequena vazão de ansiedade que fora treinada a controlar. Bucky não era uma variante com a qual havia contado em seu plano. – Bucky...

— Você está fugindo. Alguém descobriu o que fez?

— Eu não fiz nada! – Tentou fazer força para empurrá-lo, mas ele a apertou ainda mais. – Saia, me deixe ir!

— Porquê está fugindo?

Ele abaixou o tom, pronunciando cada letra como uma ameaça velada. E, embora soubesse do potencial destrutivo que o rodeava, não se encolheu nem hesitou quando o empurrou, pois queria respostas e não exatamente machucá-la.

— Por que estou cansada! – Bucky soltou seu pescoço franzindo o cenho pela falta de compreensão. – Estou cansada há muito tempo. De S.H.I.E.L.D à Capitão América, Steve Rogers e Peggy Carter. Estou cansada de carregar um fardo que nem é meu.

O silêncio repentino instalado no closet cortado apenas pelas respirações ofegantes de ambos soou quase perturbador no espaço pequeno, mas agora que abrira aquela tangente não sabia se queria fugir da meia verdade, que finalmente verbalizava.

— Não sabia que se sentia assim sobre... o passado.

Tardiamente, notou os próprios olhos lacrimejando, algo tão incomum que precisou parar para racionalizar enquanto respirava fundo e enxugava uma gota de suor insistente em escorrer por sua têmpora devido a toda a movimentação anterior.

— A questão é: eu não pertenço a este lugar. – Molhou os lábios com um meneio negativo de cabeça. – Nunca pertenci à realidade dos dias de glória das grandes criações e pioneirismo da S.H.I.E.L.D, quando o Capitão América era apenas o soldado perfeito que cumpria sua missão na guerra e não tinha... Qualquer ligação comigo ou minha família.

— As coisas não eram mais fáceis como está dizendo quando Steve era só mais um homem-modelo a serviço do exército, havia conflitos e interesses diferentes e...

— E havia Peggy Carter. – Pronunciou como se explicasse tudo e, de alguma forma, Bucky parece ter finalmente compreendido. – Estou cansada de tentar pertencer a um mundo que ela criou ou...Viver sob as expectativas do nome dela, porque sei que não sou nada como ela.

— Bem... Peggy provavelmente não estaria vendendo informações secretas para outro governo. – Sharon revirou os olhos pelo tom displicente e cruzou os braços, quando ele meneou a cabeça e passou a analisá-la sem qualquer tato. – Não era necessário cruzar essa linha para se distanciar de tudo o que ela representa.

Imaginou se ele estava se referindo à líder Peggy Carter ou a mulher que Steve Rogers amava. Porém, não tinha mais tempo para conjecturar sobre eles, suas escolhas e aquele passado, em específico. De qualquer forma, sua história com o Capitão América também havia sido há tempo demais, tão breve que provavelmente seria apenas uma nota de rodapé na história da vida dele; ao passo que a sua fora completamente mudada, como num clique.

— Oh... – Sorriu com um apertar de lábios, se abaixando para alcançar a mala novamente, ajeitando os fios totalmente desalinhados pelo breve confronto. – Parece fácil quando não foi você a ser banido do país por mais de cinco anos por ser considerada cúmplice de um traidor da pátria.

Passou por Bucky para, finalmente, alcançar a porta de saída do closet, empurrando-o sem delicadeza alguma, o que pareceu deixá-lo imediatamente indignado, pois a seguiu sem hesitação.

— Não, é diferente. Eu era o criminoso mentalmente instável. E você estava lá. – Ele alcançou seu braço e a virou para si, impedindo que chegasse à porta. – Então, da forma que eu vejo? Está sendo apenas covarde por jogar suas justificativas nas ações dos outros.

— O quê?! – Soltou seu braço com brusquidão e o viu apenas dar de ombros, tranquilamente. Bucky nunca parecia realmente abalado pelas interações humanas, como se os processos pelos quais passara houvessem bloqueado a parte emocional de seu cérebro. Tal inércia agora parecia terrivelmente estressante, pois ele alcançara um nervo específico que a fazia querer apenas socá-lo. Então, se aproximou, também abaixando o tom e mantendo o contato visual. – Eu fiz o necessário para sobreviver com o que sabia quando o governo americano tirou tudo de mim. Eles me criaram, quase como criaram Steve, Walker e todos os outros.

— Então pretende passar a vida fugindo, como está fazendo agora? Fingindo para si mesma que vêm sendo um câncer no sistema enquanto não passa de mais um problema que o governo precisa eliminar? – O soldado continuou a questionar quase amenamente.

No fundo, sabia que Bucky estava certo, que mesmo que tivesse muita bagagem, conhecesse todos os piores nomes criminosos do mundo, seus interesses, suas fraquezas e conseguisse o poder que precisavam – quando precisavam – por um preço completamente exorbitante, nunca seria o bastante para enfrentar um governo que rapidamente quereria eliminá-la.

— Argh! Por que você não sai do caminho? – O empurrou novamente, com mais força dessa vez, mas Bucky aparentava apenas resignação. — Você não tem nenhum dever quanto a mim!

Continuou empurrando e socando no tempo de cada palavra, mais trêmula do que sob controle. Sequer estaria ali, questionando suas próprias escolhas, se Bucky não tivesse aparecido com tanta desconfiança, perguntas e opiniões. Entretanto, quando provavelmente já estava farto, ele segurou seus pulsos, impedindo que continuasse a agredi-lo sem um motivo aparente.

— Eles descobriram? – Bufando, tentou se soltar, mas não conseguiu e, então, o outro soava um pouco mais determinado. – Sharon! Alguém sabe o que o que vêm fazendo?

— Talvez. – Desviou os olhos dos mais claros dele, dando de ombros. – Há a possibilidade de terem me relacionado ao Mercador do Poder de Madripour. Havia uma investigação em andamento na S.H.I.E.L.D, que eu não tinha conhecimento até... Até ser convocada para supervisionar uma ação de campo, que acabou com um dos meus contatos morto há algumas semanas. Desde então, a Organização vem fazendo suas próprias deduções.

— Acredita que eles chegaram até você?

O soldado continuou a pressionar, mas dessa vez a soltou e, finalmente, Sharon se deixou cair sobre a cama apoiando a cabeça levemente dolorida em uma das mãos, sentindo todos os músculos de seus ombros duros e tensionados

— Cometi um erro, Bucky. – Confessou em tom baixo. – As informações sobre as armas biológicas foram plantadas. Mas não fui cuidadosa o bastante e, por isso, não percebi a isca.

— Você ficou confiante. – Confirmou com um aceno quando ele se acomodou ao seu lado.

— A S.H.I.E.L.D sabe que é alguém de dentro. Não vai demorar até chegarem ao meu nome. Quando isso acontecer, preciso estar bem longe daqui. – Repetiu para si mesma o próprio plano, como um mantra e, por um momento, quando o encarou se distraiu pela atípica mecha fora do lugar caindo sobre a testa em contrariedade aos cabelos sempre bem penteados. – Não pretendo passar a vida fugindo, mas também não vou me deixar ser condenada novamente pela justiça desse país. Não denovo, não depois de tudo o que fiz por todos e pela Organização.

O viu apertar a mandíbula em resignação e praticamente evitar um revirar de olhos particular em meio ao suspiro silencioso, antes de declarar.

— Eu vou com você.

Notas finais
Faça esta autora feliz e me deixe saber se está gostando da história ;) O próximo será o último capítulo!