— Eu vou com você.

Sharon imediatamente congelou em completo estranhamento. De todos os desdobramentos que imaginara para sua decisão, aquele jamais passara por sua cabeça. Franzindo o cenho, o acompanhou se levantar antes de se voltar a ela, meramente resignado.

— Apenas por enquanto.

— Do que está falando? – Perguntou, ligeiramente confusa.

— Não concordo com o que está fazendo, mas... – O acompanhou checar as armas que carregava sob a jaqueta de couro e, depois, dentro da bota de combate. – Eu te devo uma. E agora posso pagar.

— Isso não vai acontecer.

Bucky a ignorou completamente e foi até o closet, buscando a mala antes esquecida no cômodo destruído por eles minuto antes, colocando ao lado dela aos pés da cama, antes de estender a pistola com a qual tentara acertá-lo minutos antes.

— Você não tem armas de verdade?

O viu olhar ao redor, mas Sharon apenas suspirou contrariada e se colocou de pé, guardando a pistola no cós da calça.

— Eu tenho o suficiente. – Ela chutou os sapatos de salto para o lado e alcançou um par de botas no armário, calçando enquanto continuava. – Sei que o cerco está se fechando, mas posso fazer isso sozinha. De qualquer forma, prefiro que continue me devendo o favor. Vou encontrar o momento certo de cobrar.

Deu de ombros de maneira casual, o que, obviamente não o deixou satisfeito. Após alcançar um casaco mais confortável e tentar passar por ele para pegar a mala e sair, Bucky alcançou seu braço, fazendo com que diminuísse o passo. Tinha de admitir que a adrenalina pela ansiedade de ter que sair do país tomava todo seu corpo e precisou realmente respirar fundo para encará-lo com alguma estabilidade.

— Sharon. – Ele não apertava realmente e, definitivamente, não a forçava, mas havia algo no tom mais persuasivo que a fez ouvi-lo, considerá-lo de verdade. – Você não deveria ter sido punida daquela forma pelo o que fez por nós. Eu sei que Steve queria me ajudar, nós o conhecemos o bastante para compreender seu instinto mais natural, mas também entendo como... No processo, fez muitos pagarem por isso.

A loira apertou os lábios desgostosa, pois a questão era: também pensava assim. Steve não tinha o direito de exigir tanto de todos em nome de sua amizade mais antiga. Zemo havia incriminado Bucky pelo assassinato de T’Chaka e a injustiça disso era, sim, imensurável, pois já havia passado por muito.

Steve, entretanto, desde o minuto zero fora o tipo de pessoa que reunia os ideais de todos que o rodeavam, angariando lealdade e admiração, e podia reconhecer o mérito disso – assim como o resto da América – mas também deveriam apontar as consequências. Após o atrito com Stark, fora exilada; Maximoff, Lang, Barton e Wilson foram presos como se muito perigosos e o próprio Capitão América considerado traidor por um tempo. Os ideais não valiam muito quando já não interessavam aos grandes nomes, que coordenavam as cordas do jogo em que eram somente peças.

Num suspiro, ela forçou para que a soltasse e cruzou os braços, contrariada. Ainda que tivesse conseguido sobreviver como podia, e não se arrependesse de seu papel nos últimos anos, tinha consciência de que, em seu íntimo, não perdoara Steve por simplesmente abandoná-la à própria sorte. Ele não mobilizara os Vingadores em nome dela e isso ainda lhe cortava como uma navalha.

— Há algo que podemos concordar aqui. – Admitiu de má vontade. No fundo, estava agradecida pela oferta, pois, por muito tempo, ninguém se dispôs a fazer isso por Sharon. Era ela por si mesma, apenas. Porém, voltando a encará-lo com seriedade. – Mas é melhor não se indispor tão cedo com o governo. Você acabou de se restabelecer, okay? Não faz mal desfrutar de alguma... Paz, eu acho.

Ele estreitou os olhos, analisando se realmente estava sendo sincera e Sharon percebeu que, talvez, fosse a primeira vez que o fosse em algum tempo. Assim como, talvez, fosse a primeira vez que pensaria no bem estar de alguém, que não o seu próprio e de sua família, em anos.

De certa forma, não se lembrava como a sensação de recompensa era... Satisfatória, apesar de estranhamente distante, como se apenas acenasse em sua direção, pois dali alguns minutos a máscara do Mercador do Poder estaria de volta, praticamente intacta. Às vezes, sentia falta de si mesma. Todavia, não dedicava muito tempo ao sentimento de angústia que lhe crescia sempre que notava estar adentrando um poço cada vez mais fundo de escolhas irreversíveis.

— Steve iria querer que alguém cuidasse de você.

Tentou evitar o gosto amargo no sorriso ante a insistência resignada dele, mas foi inevitável.

— Não tenho tanta certeza disso. Steve tinha outras prioridades, posso lidar com isso. – Deu de ombros, enxergando com facilidade a contrariedade em todas as expressões do sargento. À sua frente, claramente podia enxergar o homem que Bucky teria sido não fosse os experimentos da HYDRA e o Soldado Invernal. Agora, parecia apenas a sombra desse alguém do passado, tentando reaver alguns valores, afinal... Ele cuidava de Steve, o garoto do Brooklyn. Por fim, suspirou e alcançou o ombro dele, pressionando-o de maneira segura. – Bucky... Você não tem o dever de me proteger.

Afirmou sem qualquer hostilidade, dessa vez, embora fosse tão verdade quanto o fato de ele se sentir na obrigação por saber que Steve não o fizera. Bucky parecia estar sempre fazendo reparações por escolhas do passado. Apesar do rumo não o agradar, contudo, o viu apenas anuir com um apertar de lábios, mantendo-se sério, como sempre, ao notar a franqueza dela.

— Tudo bem.

Sharon sorriu, satisfeita por ser compreendida e, num impulso, o puxou para um abraço. No fim das contas, Bucky era a única despedida que poderia ter em algum tempo, o que a fez apertar um pouco mais os braços ao redor dele, apoiando o queixo no ombro direito de maneira temerosa. Por mais que soubesse que esse dia – de evacuações súbitas e imprevistos – pudesse chegar, não conseguia evitar a apreensão pelos próximos passos que teria de dar.

— Vou entrar em contato. Você sabe... Caso precise cobrar aquele favor.

Sentiu o breve sorriso de concordância contra seu corpo e, por um momento, notou que estava mais confortável do que deveria naquele abraço. Por isso, se forçando a manter a tranquilidade, recuou um pouco para encará-lo e, embora não fosse o suficiente para se afastar de verdade, pois o braço dele ainda a rodeava, era o bastante para notar quão perturbadores os olhos azuis pareciam de tão perto.

— Nos vemos.

Se Bucky tivesse dito em voz alta, talvez houvesse se afastado imediatamente, mas soava mais como um murmúrio contra seu rosto. Tanto quanto Sharon, ele pareceu se concentrar em seus olhos, suas feições, suas respirações repentina e atipicamente misturadas e, de repente, sua boca. Engoliu em seco, desfrutando da adrenalina intimidadora de toda a situação por um segundo quase totalmente perdido em que se aproximaram, instintivamente buscando o “mais” daquilo tudo.

Contudo, ambos hesitaram; literalmente em estranhamento, subitamente se dando conta de toda aquela realidade e passado esmagando-os. Engoliu em seco, mal conseguindo pensar direito com o perfume dele a invadindo sem permissão e a boca tão perto da sua que seus narizes praticamente se tocavam. Por isso, apertando o ombro dele como fizera antes, mas um pouco mais forte, como que a fim de dispersar toda aquela sensação quase irresistível instalada ali, se forçou a concordar com a cabeça – com o que quer que fosse, já não importava.

— Sim. – Respirou fundo, se afastando realmente e mantendo as próprias mãos para si, embora não conseguisse deixar de olhá-lo. Estreitou os olhos quando o viu prender um sorriso ante a distância que, claramente, colocou entre eles ao finalmente soltá-lo e se sentiu uma garota tola quando quase correspondeu, mal resistindo aos olhos claros sobre os dela. Não teve certeza se Bucky fazia de propósito, pois ele era uma incógnita, mas a persuasão, no espaço pequeno entre eles, soava... pesada demais. Apesar de sempre sério, de certa forma sabia que queria ver até onde teriam coragem de ir. – Adeus, Bucky.

O viu menear a cabeça ao passar por ele e, finalmente, conseguir respirar fundo de verdade enquanto fechava os dedos sobre a mala e seus pertences pessoais, se dirigindo para a porta. Com uma olhada no relógio, notou que não poderia demorar nem mais um minuto e, além disso, não poderia ou queria se perturbar pelo que acabara de acontecer.

— Sharon? – Já com os dedos em torno da maçaneta, se voltou ao soldado, percebendo a postura pacífica dos ombros baixos e das mãos guardadas no bolso da jaqueta de couro. – Se cuida.

Era reconfortante que ele respeitasse sua decisão e não tinha ideia se seus caminhos se cruzariam tão cedo, por isso, não conseguiu evitar sorrir em agradecimento... Em reflexo ao brilho de cumprimento nos olhos dele antes de se voltar à saída de vez.

Notas finais
último capítulo! me digam suas opiniões e se devo voltar em histórias desse universo ;) até breve ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!