Fault of Boys- Bray

3 As ruínas do castelo de cartas


Notas iniciais
Playlist: ♥ Say something- A Great Big World feat. Christina Aguilera Am feeling so small It was over my head I know nothing at all And I Will stumble and fall I'm still learning to love Just starting to crawl Say something I'm giving up on you I'm sorry that I couldn't get to you Anywhere I would've followed you Say something I'm giving up on yo

Pior dia de merda.

Fazia algumas semanas em que eu andava por aí com um sorriso estupido, espalhando-o por todo lado como um maldito vírus de felicidade. Eu estava descuidada, quase flutuante. Minha mãe se encontrava preocupada. Ela já tinha um pé atrás, pois Bray era todo o motivo de eu andar por aí exibindo expressões abertamente felizes, e minha mãe e Stela Henley tinham um histórico de mal relacionamento.

Não que eu entenda bem o porquê de mamãe e a Senhora Henley se odiarem, ou mesmo que eu tenha sequer uma ideia, porque eu não tenho. Algo aconteceu entre elas no passado, um onde eu era uma pequena garotinha, e de onde achar lembranças se tornou uma tarefa difícil; perguntar a minha mãe foi inútil também. Sua única resposta quando eu questionei foi a seguinte: Se fosse para você saber, eu já teria te contado, Jessica.

Mas o fato de Bray ser filho de sua arquirrival, Stela, não era a única coisa que marcava um vinco de preocupação na testa da minha mãe. Acho que ela nunca tinha me visto agir dessa forma, e isso a assustava. Bom, ela não era a única, no entanto. Eu também me encontrava morrendo de medo de quão bem e fácil as coisas com Bray estavam indo. Eu tive um namorado declarado durante minha finita idade de 24 anos. Meu relacionamento com Hank durou dois anos e foi destrutivo. Ele é um idiota, mas sempre foi bonito; e eu era apenas uma garota ingênua que ficou encantada com a atenção.

Durou até muito, se eu tenho que ser honesta. Eu era apaixonada por ele na época, e ele me traiu de todas as formas que é possível que uma pessoa trair outra. Hank se foi levando com ele todo o descuido que eu tinha em mim, e quebrando meu coração em mil pedaços pequenos que levaram um inferno de tempo para se fixarem de volta no lugar. Desde então eu sou quase uma superfície impenetrável, como titânio ou uma merda assim.

Eu não deixava as pessoas se aproximarem facilmente, e, devo admitir, dificilmente também não. Foi algo que eu vi minha mãe fazer por anos desde que as coisas ficarem difíceis e se tornar uma striper era a única opção disponível. Eles não podiam machucar se você não dava abertura, como sempre disse a minha mãe. E era exatamente isso que eu fazia, me fechava, até que Bray resolveu que eu era digna de sua atenção.

Minha mãe parecia encarar minha nova atitude como um sinal claro de um novo coração partido.

Eu acordei esta manhã mais cedo do que o normal. Minha mãe ainda estava na cama, o que era bastante comum se você, como ela, não foi dormir até as cinco da madrugada. O trabalho dela podia não ser considerado digno por muitas cabeças retrogradas, mas era o que pagava nossas contas e mantinha um teto sobre nossas cabeças, e eu não me envergonhava disso, nem mesmo sob os olhares julgadores com os quais eu cresci. Como o que a mãe de Bray me lançava a cada vez que tinha o desprazer de passar por mim.

Parecia uma boa ideia fazer o café da manhã, então foi exatamente isso que eu fiz. Toda minha satisfação orgulhosa pelos pratos cheios na minha frente desapareceu rapidamente quando mamãe entrou na nossa pequena cozinha, desperta de seu sono.

Minha mãe não era a senhora raio-de-sol pela manhã, mas em especial hoje, sua carranca já era bastante profunda quando ela deu um passo para dentro do arco da porta, olhando estupidamente da mesa enfeitada, para a panela que eu estava terminando de lavar e então para o meu rosto.

— Alguma data especial que eu esqueci? — Ela questionou.

— Nop. — Eu respondi com um aceno e um sorriso.

— Então por que diabos você está fazendo o café da manhã?

Ela parecia genuinamente espantada. Eu dei de ombros em resposta, sinalizando que não havia nenhuma razão. Pela cara dela você assumiria que eu nunca cozinhei antes, o que não é verdade. Eu apenas evito, desde que cozinhar não está na minha lista de coisas preferidas a fazer.

— Nada? Jessica, você nunca cozinha. Algo está errado com você, querida?

— Mãe, — Respondo revirando os olhos. — não seja uma rainha do drama.

— Porra, Jessica. — Minha mãe amaldiçoou, quando passou a mão em sua massa de cabelos ruivos em um gesto de frustração. — Eu posso ver isso vindo a um quilometro de distância. Tudo de novo, baby. — Ela suspirou. — É como Hank maldito, tudo outra vez. Não faça isso com si mesma, Jess.

Eu olhei para o rosto dela reconhecendo a preocupação marcada ali. Quando o meu relacionamento com Hank chegou ao fim, da forma trágica como chegou, minha mãe foi a única a estar ali para catar cada caquinho do meu coração e me ajudar a colocar no lugar. Ela sofreu como eu sofri, junto ao meu lado.

Eu lhe ofereci um pequeno sorriso grato, mas eu não concordava com ela.

— Mãe, Bray não é nada como Hank.

— Eu sei que não, Jess. — Ela suspirou em derrota. — Mas isso não quer dizer que ele não vai quebrar o seu coração. — Eu abri a boca para defende-lo, mas ela me parou com um aceno negativo. — Ouça, baby. Eu vi a forma como ele te olha, e sei que ele não te machucaria sem se ferir no processo. Vi também a forma como você olha para ele, é como se cada respiração que você tomasse fosse tendo ele como única razão. E isso me preocupa mais do que se ele olhasse para você da maneira interesseira que Hank olhava. — Ela me deu um olhar triste. — Mas, Jess, cedo ou tarde, as diferenças vão cobrar seu preço sobre vocês. Não vai ser sua culpa, tão pouco será do menino, mas vocês destruirão um ao outro. É inevitável, baby.

Eu não queria mais ouvir um segundo de suas palavras suaves e com tom de sabedoria e experiência. Não queria ver o quão fácil foi para ela derrubar cada uma das cartas que eu vinha montando num frágil castelo ultimamente. E, tão certo quanto eu não queria que isso acontecesse, eu sabia que o que ela falava era a verdade. Mas o pensamento de deixar Bray doía fisicamente em mim, como nada nunca doeu antes. Lágrimas caiam pelo meu rosto quando eu me movi do lugar, sem rumo, sem saber para onde eu ia, mas apenas querendo sair dali. A paredes pareciam me sufocar, a presença da minha mãe era como um ferro quente, permanentemente marcando em brasa todos os motivos pelo qual eu não teria um conto de fadas com o meu príncipe encantado.

Bray me chamava de princesa, e não sabia ele que este foi o mais próximo de viver o grande final feliz que eu pude estar, ou jamais estaria. Mamãe estava certa. Não faria bem a qualquer um de nós que estivéssemos juntos, porque, por mais que eu pudesse claramente nomear o que eu sinto por Bray como amor, e por mais que eu soubesse, já neste instante, que eu nunca deixaria de chamar meus sentimentos por Bray de amor; eu também tinha o conhecimento de que nos despedaçaria lentamente.

Se eu ficasse com ele, sua família nunca me aceitaria, e eu nunca o faria escolher. Em algum momento sabia que iria murchar, eu ia me acabar, culpando a mim mesma pelo ódio da sua família, e começando, assim, a ter vergonha de quem eu sou. Ou, eventualmente, Bray tomaria raiva de sua mãe por toda a situação. De uma forma ou de outra teríamos que fazer concessões muito pesadas apenas para estar na companhia um do outro, nos ressentiríamos disso então. O amor se transformaria em ódio muito rapidamente, e, por mais que doesse, eu nunca iria permitir isso.

Eu faria apenas uma concessão, tomando para mim a decisão do fim, e todas as marcas que ele deixaria. Eu iria abrir mão dele.

E por mais que isso fosse me ferir com a força de mil golpes de espadas, em algum momento se tornaria anestesiado, como qualquer outra ferida profunda. Seria reaberta uma ou duas vezes durantes os anos futuros, seja por memórias, ou por ver ele seguir em frente com seu conto de fadas, com sua princesa, que nunca seria eu. Mas voltaria a se fechar, e eu seria feliz por sua felicidade, mesmo que a cicatriz da ferida fosse ser para sempre uma lembrança constante do que eu não pude ter.

Mais lágrimas borram minha visão com o reconhecimento do que eu teria que fazer, e eu as limpei para fora do caminho para que eu pudesse ver mais claramente, tanto a decisão certa, como a estrada que meus pés percorriam sem o meu consentimento.

Passei por minha mãe na porta, ainda sem saber para onde eu estava indo, mas eu não me importava onde eu acabaria. Eu apenas temia uma coisa neste momento: o futuro.

— Jess.

Minha mãe chamou, me fazendo frear meus passos, no entanto eu não me virei para ver a dor marcada em seu rosto, como eu sabia que estaria. Esperei em silencio e encarando o assoalho desgastado debaixo dos meus pés descalços, abraçando a mim mesma de forma protetora, ansiando para que ela transmitisse um pouco da força que eu precisava para que todo o meu corpo parasse de tremer, e eu pudesse seguir em frente, para qualquer tiro no escuro que me espera no futuro.

Minha mãe inspirou rapidamente, reunindo a coragem que precisávamos, antes de colocá-la em palavras para mim.

— Apenas corte o mal pela raiz, baby. Nós cuidaremos do resto, juntas.

E por isso ela quis dizer para eu fazer o que tinha de ser feito, e que no final, seriamos apenas nós duas, como sempre foi, e sempre será, recolhendo, remendando e, eventualmente, fixando os cacos irregulares nos quais meu coração seria transformado.

Notas finais
"I didn't mean to break your heart" - Sitando Ed Sheeran no fim deste cap para dizer que, qualquer dano sentimental deixado no leitor, foi uma consequência involuntária. Yeah, is it too late now to say sorry? - (Entendedores entenderão!) E aí, pessoa do outro lado da tela, como vai? Espero que bem. :) Gostou do cap? não se esqueça de me dizer! Baijos, até o next.