Fault of Boys- Asher

1 Fantasma de um passado não tão distante


Notas iniciais
Playlist: ♥ Jar of Hearts- Christina Perri I've learned to live, half alive And now you want me one more time ♥ Here by me- 3 Doors Down I can't take another day without you ‘Cause, baby, I could never make it on my own I've been waiting so long just to hold you And to be back in your arms where I belong



O que são cinco dias, quando você já sofreu a pequena eternidade de dois anos longe da mulher que ama? Para mim foram cinco dias de puro martírio. Não foi o suficiente dedicar dois anos da minha vida para a marinha no Afeganistão, quando enfim piso em solo dos Estados Unidos da América, tenho que esperar mais cinco. Fodidos. Dias. Antes de voltar para casa.

Minha barba, antes sempre inexistente, já forma uma sombra em meu rosto pela hora em que eu consigo me livrar de todos os relatórios e prestações de conta e subo em um avião para Montana. É por volta de uma da tarde quando enfim atravesso os limites da pequena cidade de Jackson Falls, com meu carro alugado. Foram mais longuíssimas uma hora e meia do aeroporto mais perto até aqui.

Eu estou ansioso, como se ao invés de voltar para casa, eu estivesse novamente sob ameaça de guerra. Uma estranha sensação toma conta do meu peito, a mesma que vem crescendo em mim desde que pus os pés em solo americano, e que eu não sei como nomear. O Sr. Deep, meu terapeuta de TEPT, me disse que é só nervosismo em rever novamente minha família que está mexendo com minha cabeça, mas não me parece ser só isso... essa coisa que estou sentindo não é nervoso, porque estaria? Eu finalmente estou de volta em casa. Não estou nervoso, estou em êxtase.

Eu, Sargento Asher Henley, estou praticamente saltitando de fodida alegria.

E assim como eu quero muito rever minha mãe e irmãos, não é para lá que eu vou em primeiro lugar. Eu não precisei pensar, fui onde meus pés (ou pneus) me levaram primeiramente. Fui onde deixei meu coração há dois anos.

E quando eu virei a curva para nossa casa e estacionei meu carro do outro da rua, me permitir tomar minha primeira respiração profunda em dois anos. Ela estava lá.

Eu não podia ver muito, afinal, Nox estava curvada com metade do corpo dentro do seu carro, que estava estacionado na frente da casa que comprei para nós dois anos atrás. Exatamente onde eu sabia que ela estaria.

Agora que minha vida é toda minha novamente, eu me sinto leve. Me sinto leve como uma pluma, agora sei que finalmente posso dar a minha menina a estabilidade que ela precisa. Vamos enfim nos casar, encher essa casa com nossas crianças e enrugar juntos. Apenas minha ideia de futuro, e eu tive certeza de estar na mesma página que Nox antes de partir. Assim, eu sabia que ela esperaria por mim.

Então, quando ela enfim parou de empinar sua bunda bonita no ar e tirou a cabeça de dentro do carro, eu parei de pensar e comecei a agir. Ela já tinha se virado quando eu atravessei a rua, mas não tinha ido muito longe. E, quando eu dei o meu primeiro passo sobre o gramado verde na frente da casa, ela congelou completamente.

Todo seu corpo tencionou, apenas como se soubesse que eu estava aqui, bem atrás dela. E ela sabia, porque se virou para mim com a rapidez de um Jedi, apenas para me encontrar com o mais ridículo dos enormes sorrisos.

E foi aí que aquela sensação indescritível me atingiu com a força de um raio, e agora eu sabia. Sabia que alguma coisa estava errada, eu estava tendo um pressentimento. Um mau agouro. Porque Nox Nial, a menina por quem eu era apaixonado por toda vida e que retornava meus sentimentos com tanta força quanto eu aplicava; a mulher com quem eu sonhava em me casar; a garota que sempre foi minha garota; que sorriu para mim cada dia e todo o momento desde que a Senhora Walker nos emparelhou na aula de economia doméstica, não estava sorrindo para mim agora.

Seu rosto era uma máscara de descrença.

Eu dei um passo à frente instigado pelo imã que me atrai para ela desde que ela balançou suas tranças loiras para mim no quinto ano.

— Nox? — Chamei seu nome ao dar outro passo. — Nox?

Eu chamava por ela, mas ela estava paralisada, não movia um musculo sequer. Suas mãos estavam tão apertadas em volta do saco de compras que os nós dos dedos estavam brancos.

Intrigado com sua reação, eu fiz a única coisa que eu penso em fazer desde que saí do país há dois anos: Eu a puxei para os meus braços, por que nada parecia mais certo no mundo do que ter essa mulher em meus braços.

O saco de compras caiu no chão entre nós com um baque abafado quando eu a envolvi em meu aperto, mas ela não estava retribuindo de forma desesperada como eu pensei que ela faria. Não, Nox parecia rígida no círculo dos meus braços. E, ao invés das juras de amor que esperava ouvir, recebi um coro de:

— Não. Não! Não pode ser!

Nox se debatia tentando se afastar.

— NÃO PODE SER! — Gritou.

Eu a soltei por que o meu toque parecia lhe causar dor. E isso partiu meu coração em tantos pedaços que eu nem poderia contar.

— Nox? — Outra voz conhecida chamou, e Nox se virou para a casa antes que eu pudesse ouvir os passos descendo a escada da varanda.

Então ela correu para longe de mim, e direto nos braços do meu irmão.

Bray abriu os braços e ela se jogou contra ele, que a apertou contra o peito. De onde eu estava, ainda podia ouvir os lamentos desesperados dela. — Não. Não pode ser! Ele não está aqui. — Mas eu estava olhando direto nos olhos do meu irmão. Do homem que era o meu melhor amigo.

Ele não disse nada para mim, mas abraçou a minha mulher e cochichou algo em seu ouvido. Nox não parou de chorar, mas saiu de seus braços e correu para a porta de onde Bray tinha saído momentos antes, sem nem olhar para trás uma última vez.

Eu estava doente com a cena que meu cérebro pintou.

— Ash? — Bray chamou. — Ash, é você?

— O próprio. — Respondi em tom duro. Eu não entendia o olhar confuso em seu rosto. Na verdade, não entender se tornou o modus operante do dia. — Que porra está acontecendo Bray?

Ele olhou nos meus olhos com um misto de confusão e entorpecimento quando disse: — Você está morto.

As palavras que levariam meu mundo a baixo.

O quê? — Arquejei.

Bray levou mais um passo em minha direção.

— Você está morto. Você está morto há um ano e meio.

— Foda-se Bray, se isso é o que você disse a si mesmo para ter a minha mulher, é mais baixo do eu pensei que você pudesse ir.

Ele sacudiu a cabeça horrorizado.

— Não! Não Asher. Eu enterrei você. Baixei o seu caixão na terra. Lamentei sua perda, caralho!

Era a minha vez de parecer horrorizado. — Pareço morto para você?

Ele não respondeu, apenas sacudiu a cabeça. Ele não me abraçou, e essa já era a segunda decepção em termos de boas-vindas que eu recebia hoje.

Merda! Eu sabia que algo estava errado. EU SABIA! Eu tinha um nome para minha estranha sensação: instinto.

Eu não entendia o que no inferno sangrento estava acontecendo, mas pude refletir sobre algumas coisas agora. Como o fato de eu não ter sido bombardeado com ligações no momento em que eu retornei a base nos Estados Unidos. Ou o fato de eu ser um soldado que voltou da guerra para sua pequena cidadezinha no interior de Montana, e não ter nem sequer uma faixa com o meu nome na cidade, ou um fodido balão sequer. Não que eu exigisse um, mas eu cresci vendo o cortejo e indo a festas de soldados que retornaram vivos a Jackson Falls. E bem, não há uma maneira no inferno que a minha mãe deixaria eu voltar para casa sem uma maldita festa se ela soubesse que eu estava vindo, a única coisa que faz sentido a falta de tudo isso, é eu estar morto.

— Bray, me diz o que está acontecendo! Porque Nox está fugindo de mim? Por que você está parado na minha frente, e me diz que eu estou morto?

— Eu vi o que restou do seu corpo. — Ele olhava fixamente para mim, ainda parado a dois passos de distância, com incredulidade brilhando no seu rosto como luzes na noite de natal. Bray estava em negação.

— O que você viu não era eu, porra! Eu estou. Bem. Aqui. Caralho! — Ele ainda não se mexeu, nem estava respondendo e minha paciência tinha se esgotado. — Eu estou indo ver minha mulher. — Declarei.

Comecei a andar para passar por ele, mas Bray saiu de seu estupor e se pós no meu caminho para Nox.

— Saia da minha frente, Bray! — Exigi, quando me movi envolta.

Mas ele apenas balançando a cabeça, parecendo sair do seu estupor. Bray me segurou pelos ombros e me puxou de volta. Eu estava fodidamente cansado, querendo um longo banho, jantar e segurar a minha mulher. Precisava entender que porra estava acontecendo, concertar, e seguir com a minha vida. Não tinha tempo a perder com qualquer que fosse o drama que Bray estava criando. Eu estava farto, mas ele estava apenas começando.

— De jeito nenhum! Você não está indo importuna-la Asher! Um ano sofrendo por sua causa foi o suficiente para ela. Vá embora, deixe minha mulher em paz!

Ele gritou na minha cara, e esse foi o momento em que eu acertei sua cara. Não porque ele estava sendo para lá de babaca, mas por causa de como ele havia se referido a Nox.

Só um cara podia usar aquelas palavras para descrever Nox, e esse seria eu, porra.

Com a força do meu soco, Bray cambaleou para trás, mas foi apenas porque eu lhe peguei de surpresa. Ele é um filho da puta grande, um pouco maior que eu, numa luta justa poderíamos ter brigado como iguais, mas essa luta não era justa. Ele roubou minha mulher, e ele estava indo para pagar por isso.

Ele reagiu e eu desviei de seu contra-ataque, dando outro murro em sua cara. E outro, antes que ele conseguisse me acertar o primeiro golpe. Estávamos xingando um ao outro como meninos de fraternidade a essa altura, sem sequer nos importamos em estar na rua.

Algum tempo se passou antes que parássemos para respirar. Bray limpou com as costas da mão o sangue que escorria do seu nariz, eu apenas apertei minhas mãos em punhos enquanto esperava sem desviar os olhos dele. Eu ainda não havia terminado.

Nunca tinha sentido tanta raiva de alguém fora da linha de combate. Dei um passo na direção dele, pronto para recomeçar, mas uma voz feminina interrompeu qualquer que fosse o próximo movimento que eu ia fazer. Estava com o instinto tão em alta que ainda não desviei os olhos do meu alvo, nem para olhar de quem vinha a intromissão.

— Mas o que no inferno maldito está acontecendo aqui? — A voz familiar exigiu.

Nenhum de nós olhou para ela, mas Bray falou sem deixar de me encarar.

— O que você está fazendo? Saia daqui, Jess!

Ouvi o bufo de Jess, sem ter que me virar para ela.

— Acredite, não é o que eu estava esperando de uma quinta-feira à tarde, ter que separar uma briga entre dois Henleys, mas vocês não parecem estar fazendo um bom trabalho pensando, então achei que seria educado oferecer o meu cérebro para que vocês percebam a merda que estão prestes a fazer.

— Vá embora Jess! — Bray rosna para ela, mas Jess prontamente ignora e se coloca entre nós, na minha frente e de frente para ele.

— Não. — Responde categoricamente. — Que merda Bray! Tire esse olhar de urso raivoso do seu rosto. Eu ouvi o suficiente. Você está o culpando pelo que? Por estar vivo, porra?

Ela empurrou seu peito, com mais força do que você a teria julgado capaz. Tudo que eu conseguia fazer era assistir, porque eu estava confuso de tantas maneiras e com raiva por tantos motivos que eu não era capaz de firmar uma linha de raciocínio completa.

— Você deveria ter vergonha de si mesmo, Bray. Nem Miss América merece tudo isso. — Jess afirma em tom de decepção, ao mesmo tempo em que gesticula para onde Nox tinha desaparecido.

Então ela se vira para mim e faz a única coisa que eu vinha esperando desde que cheguei aqui. Ela me abraça.

— É bom ver você, Ash. — Ela diz antes de se afastar e me puxar pelo braço, lançando um olhar fulminante a Bray. E se tem uma coisa que eu aprendi durante os quase vinte e dois anos em que conheço Jess, é que você nunca quer estar na linha desse olhar.

— Vamos, eu vou te levar para casa. — Comanda, ainda me segurando pelo braço.

Eu não respondi, eu não disse nada. Apenas deixei Jess me puxar para sua caminhonete. Eu não me importei que eu já tinha um carro e o estava deixando para trás, eu realmente não conseguia me importar o bastante. Gastei o restante dos meus preciosos pensamentos tentando entender o que em nome de Deus foi tudo isso.

Dois anos sonhando em voltar para casa, e quando enfim chego aqui, não encontro o lar que imaginei. Não encontro uma comemoração, nem se quer um ‘bem-vindo de volta, Asher!’, tudo o que me jogaram até agora foi remorso, culpa e raiva por algo que eu não tenho controle, e que nem sequer consigo entender, muito menos explicar.

É alguma coisa quando sua vida parecia estar melhor quando você estava na guerra. Por que a paz que eu vim almejando por tanto tempo, encontrei e alguém a quem eu nunca dei uma segunda olhada.

Jess, assim como o resto de nós, cresceu e foi criada em Jackson Falls. Eu cresci vendo ela balançar seu cabelo cor de canela por aí, e deixar um rastro de meninos caído sob a poeira dos seus pés. Mas Jessica Hill não ´´e nem sequer a quarta pessoa que eu pensaria que me daria o meu primeiro ‘boas-vindas ao lar’.

Morávamos na mesma cidade pequena, frequentamos o mesmo colégio, mas fora os raros momentos em que a ajudei quando alguém a estava importunando, não me recordo de ter tido uma efetiva relação de amizade com ela. Principalmente porque toda vida, desde que me lembro, eu corri atrás de uma única menina: Nox Nial. E Jess e Nox eram extremos opostos nesse mundo. Enquanto Nox era a visão da sutileza, Jess não tinha nenhum interesse em ser sutil.

Ela é a garota cuja mãe é uma striper em um clube, mas que nunca deixou se abalar por isso. Ela construiu seu próprio caminho, lutou suas próprias batalhas e arrumou suas próprias confusões. Não... nunca por causa da reputação de sua mãe. E se alguém queria falar mal dela, falasse por suas próprias ações, não sobre aquilo que não tinha a porra de um controle. Palavras dela, não minhas.

Então, quando Jess Hill é minha tábua de salvação em meio ao naufrágio eu realmente fico sem palavras. O que é uma boa coisa, eu acho, porque se eu realmente pudesse falar, estaria amaldiçoando até a quarta geração da linhagem do meu irmão.

Jess dirige sua caminhonete em direção a velha fazenda da minha família como se os cães do inferno estivessem em seu encalço. Dizer que a garota tem um estilo próprio de condução, seria apenas eufemismo. Ela não diz uma palavra até que estaciona na frente da velha casa de três andares que eu costumava chamar de lar.

— Está entregue, marinheiro! São e salvo. — Ela sorri para mim. — Espero que a sua recepção seja menos calorosa aqui, porque eu não estarei para salvar sua bunda — Jess pisca para mim, com uma expressão divertida. E se eu a conhecesse bem chutaria... triste.

Suas palavras trazem um pequeno sorriso involuntário ao meu rosto.

— Eu também espero. Obrigado Jess. — Respondo-lhe sinceramente, porque ela foi a única que esteve do meu lado até então. — Mas da próxima vez, é aconselhável não se meter no meio de uma briga se socos.

— Nah. — Ela dispensa o comentário com um aceno de mão. — Essa não é a primeira briga que eu me meto, marinheiro. Além do que, seu irmão, por mais babaca que seja, não iria me machucar. Nem você. Eu sei que não.

— Eu achava que sabia um monte de coisas até ontem. — Digo ironicamente.

— Pessoas podem ser uma droga. — Jess afirma. — Mas é nossa escolha como reagir, marinheiro. Você pode se deitar e deixa-las passar por cima; ou pode ir de encontro com elas. — Ela me olha com mais sabedoria em seus jovens olhos do que eu vejo em muita gente velha, e com um apitada de desafio também. — Você não me parece o tipo que deita no chão. Mas lembre-se, é a sua escolha.

— Eu me lembrarei. — Digo a ela, porque eu realmente iria lembrar.

— Bom. Agora dê o fora do meu caminhão, antes que sua mãe perceba que sou eu aqui. Ela não é minha maior fã.

Eu rio, por que a forma como ela colocou é engraçada. Mas a verdade é que minha mãe é só uma das muitas pessoas que jugam Jess por causa de quem é sua mãe.

— Obrigada novamente, Jess!

— Guarde sua gratidão para quem merece, marinheiro, eu não fiz nada que qualquer pessoa não faria.

Ela dispensa de forma simples, mas não é verdade. Não consigo pensar em uma única pessoa que faria o que ela fez hoje. Ela não só se arriscou no meio de uma briga, como tomou o partido do lado que achou certo sem se importar com as consequências. E eu seria sempre grato a ela por isso.