Fault of Boys- Asher
2 Bem-vindo de volta dos mortos, Asher!
Notas iniciais
— Eu sabia!
A voz do meu irmão gêmeo, Cage, soou atrás de mim. Ele não gritou, na verdade ele parecia estar falando mais com ele mesmo que comigo.
— Eu sabia, porra! — Repetiu aumentado o tom.
Eu me virei para ele, não tão certo de como agir. Fazia algum tempo que eu estava parado no gramado, exatamente no lugar onde Jess havia me deixado, em dúvidas. Eu não sabia se poderia lidar com outras más recepções sem entrar em colapso.
— Cage! — Forcei um sorriso no meu rosto quando chamei por seu nome.
Sorriso esse que se tornou real quando eu vi a alegria estampada em seu rosto. Suspirei aliviado. Bray sempre foi o meu melhor amigo, mas Cage era minha outra metade. Ele me entendia sem necessitar palavras, ou gestos. Mas Cage e eu éramos apenas tão diferentes em personalidade quanto nos parecíamos fisicamente. Concordamos que ser melhor amigo um do outro não era algo para nós aos oito anos de idade, apenas porque mesmo que sempre nos apoiássemos, nunca realmente entenderíamos o comportamento um do outro, e estávamos bem com isso.
Cage se jogou em mim com tanta força que eu cambaleei dois passos quando ele me abraçou. — Porra! — Agora sim ele gritou. — Eu sabia que você não podia estar morto, caramba!
E eu o abracei de volta com igual intensidade. — Pelo menos alguém está feliz em me ver. — Soltei em tom ácido.
Cage se afastou de mim, já com a testa franzida. Me segurou pelos ombros e meio que me sacudiu, quando questionou: — O que isso quer dizer? Quem, porra, não ficaria feliz com isso?
Tão bem quanto eu conhecia Cage, eu sabia pelo seu tom descrente e irritado que ele estava a um passo de sair para rastrear a pessoa que falou isso, e ensina-la uma coisa ou duas coisas sobre não mexer com sua família. Mal sabia ele que teria de ser partidário dessa vez.
Eu não cheguei a ter oportunidade de responder seu questionamento, antes da porta da frente estourar aberta e minha mãe correr por ela. Stela Henley já tinha lágrimas correndo pelo rosto quando desceu os degraus da varanda com meus outros três irmãos em seu encalço. Aparentemente, o grito de Cage soou mais alto do que eu percebi, alertando todos eles.
Minha mãe segurou o meu rosto e analisou com tanta emoção estampada pela sua cara, como eu sabia que estava na minha. Eu esqueci de tudo o que tinha acontecido até agora, esqueci o olhar no rosto de Nox, esqueci a traição de Bray, até mesmo todas as memórias ruins que me acompanharam de volta para casa, apenas me foquei na minha mãe.
— Filho... — Ela sussurrou antes de me abraçar contra ela, não disse mais nada, porém não precisava. Eu vi tudo que precisava em seus olhos.
Por cima de seus ombros comtemplei meus irmãos mais novos com olhos lacrimejantes.
Cage, Mark, Cameron e Max não precisaram perguntar se era realmente eu, ou me disseram com descrença que eu deveria estar morto. Eles não questionaram o porquê quando me cumprimentaram, apenas estavam felizes por isso.
. ♥ .
Ninguém tocou no assunto sobre a minha possível morte, e eu também não. Assim como eles, eu gostaria de esquecer isso.
Depois que finalmente minha mãe conseguiu me deixar ir a uma boa distância do seu braço, eu subi as escadas para o meu antigo quarto. Nem todas as minhas coisas estavam lá, pois dois anos atrás eu havia começado a me mudar com Nox para a nossa casa antes de ter que ir em missão.
Eu tomei banho no velho banheiro no fim do corredor, e parei por meio segundo na porta ao lado da minha. O quarto de Bray estava vazio, ele não tinha retornado. Travando a mandíbula, e me forçando a não pensar sobre isso, invadi o meu quarto e peguei uma das minhas velhas camisetas, que ainda estavam limpas e dobradas na minha gaveta, apenas como se minha mãe estivesse esperando por mim para voltar para casa. Era tudo tão familiar, e ainda assim, tão estranho.
Deitei na cama, mas não parecia certo. O travesseiro sentia-se errado debaixo da minha cabeça, e o colchão era confortável demais. Minha coberta foi decepcionante, porque eu nutri expectativas por um longo tempo de que seria Nox a me aquecer, não um maldito pedaço de pano meio algodão meio poliéster. O quarto parecia limpo demais, estéril demais, intocado demais para quem viveu na guerra por dois anos. Para quem tinha sua cabeça e coração conflitando tudo aquilo que conhecia.
Eu não me sentia como em casa, por que minha casa passou a ser uma mulher. Mas ao que parece, muito mudou em dois anos e eu não recebi o memorando. Eu me sentia confuso, fora de lugar. Traído.
Embora não tenha sido o erro de alguém ao me declarar morto que tinha minha cabeça em parafusos. O que realmente importou para mim foi o fato que meu melhor amigo, e a mulher que eu amo mais que minha própria existência finita, terem me feito morto em seus corações.
Por que, apesar de surpresos, o resto da minha família agiu como se apenas estivessem esperando o momento em que eu passaria pela porta de frente. Não sei se em consideração a mim, ou se foi uma reação natural, mas eu estava feliz por eles agirem quase normais com minha presença.
Não poderiam Bray e Nox terem feito a mesma coisa?
Eu joguei a coberta de lado e me levantei, não podendo mais ficar parado quando minha mente trabalhava a 120/h; não podendo mais suportar o quarto fechado, que me sufocava com lembranças demais de um tempo que não vai voltar.
Um tempo em que eu segurei minha garota por toda noite em meus braços, sobre essa cama. De quando essas paredes foram testemunha de nossa felicidade em estarmos perdidos um no outro. Quando os moveis foram os únicos que ouviram nossos gemidos de prazer e nossas juras de amor.
De quando eu entreguei meu coração, corpo e alma a Nox Nial.
Eu desci as escadas e, sem mesmo ascender as luzes, me dirigi para o celeiro por que se eu fechasse os olhos eu ainda poderia sentir o seu cheiro em meus lençóis, e sua presença ao meu lado.
Entrei pelas grandes portas de madeira velha e me joguei em um monte de feno, não olhando em meu entorno, até que uma voz me tirou da minha própria mente.
— Você o viu com ela, não foi? — Cage conjecturou de onde estava sentado no chão encostado em uma parede.
Eu acenei com a cabeça, não olhando em sua direção. Ouvi ele mexer em algo e sabia, mesmo sem olhar, que ele havia colocado um cigarro na boca. Ouvi ele acender com um isqueiro, tragar e soltar a fumaça, antes de continuar.
— Ele não voltou para casa.
Eu sabia que ele não tinha voltado, e isso me fez insano. Ele estava com ela? Quantas vezes ele tinha estado com ela? Por quanto tempo?
— Por quanto tempo? — Minha voz ecoou meus pensamentos.
—Quanto tempo ele está com ela? Uns três meses ou menos, eu acho. — Cage deu outra tragada em seu cigarro. Eu podia sentir seus olhos grudados em mim, me analisando. — Como foi?
Eu franzi a testa em um semblante de desgosto, relembrando o acorrido.
— Ela correu e gritou. Era como se eu fosse um fantasma. Eu não entendi o que estava acontecendo, então ela correu para Bray e chorou em seu peito. — Passei as mãos por meu rosto, tentando aliviar as lembranças, como se isso fosse funcionar. — Foi a primeira vez que ela correu de mim, Cage. Doeu da maneira mais fodida possível. E então, como se precisasse ficar pior, Bray olhou em meus olhos e disse: “Deixe minha mulher em paz, ela já sofreu o bastante”.
— Porra. — Cage, suspirou. — A julgar pelo estado da sua mão, Bray tem um olho roxo agora, não é?
— E talvez um nariz quebrado. — Eu confirmei. — Jess salvou sua bunda traidora, ou ele estaria em um hospital em vez disso.
— Então, foi Jess quem te trouxe. Eu me perguntava quem teria sido... — Cage tragou, e então soltou toda fumaça — Sabe mano, eu sei que sua cabeça deve estar rodando com tanta merda para impulsionar, mas não acho que Bray te traiu.
— É a minha garota, Cage.
— Era sua garota, mano.
Meus punhos se apertaram fechados com seu uso do passado no verbo ser.
— Ela. É. Minha. Caramba!
— Acalme-se mano. Eu não sou seu inimigo.
Sério? Ele queria que eu ficasse bem com essa porra? Eu já estava em pé e andando em sua direção. Se eu teria que bater em todos e em cada um deles para, eu faria. Mas Nox é minha, e ninguém pode dizer o contrário.
— Asher, — Cage rugiu. — Sente-se, porra, e me ouça por um momento antes de jogar seu punho na minha cara.
Eu parei de andar na direção dele, mas não me sentei de volta.
— Okay então. — Ele suspirou quando viu que eu não iria me mexer. — Você não sabe o que aconteceu por aqui Ash. Dois anos podem ter passado devagar para você, mas nós fomos atingidos por um desastre de trem em grandes proporções. — Cage jogou o toco do cigarro no chão e pisou com sua bota, antes de me dar um olha cansado.
— Nox gritou com todos e disse todos os dias durante seis meses que você não estava morto, não podia estar. E por mais seis meses ela esteve morta para o mundo. Dormente. Então um dia ela sorriu. Um dia ela aceitou que você não voltaria, e Nox estava se construindo em ela mesma novamente. — Ele me disse, com o olhar vagando, perdido em lembranças.
— Ela saiu de casa, e começou a viver. Ela entendeu que você não gostaria que ela estivesse definhando pela vida. E Bray foi uma grande parte disso. — Cage pausou, como se relembrando de alguma coisa. — Ele perguntou a Nox o que ela gostaria que você fizesse se a situação fosse contrária. Ela disse a ele que não aceitaria nada menos que a sua felicidade.
Eu limpei a lágrima que desceu sem permissão pelo meu rosto. A imagem de Nox, minha doce Nox, definhado me deixava com dor só de estar imaginando. Eu queria segurar ela e garantir que eu nunca mais iria deixa-la. Mas ela não queria o meu consolo.
— Você disse para Bray cuidar dela, — Cage continuou. — E quando você ‘morreu’ ele fez disso sua meta de vida. E ele conseguiu, durante muito tempo ele foi o único que Nox deixou entrar. Ele a fez sorrir, e fez disso sua missão na terra. Mas é Nox, e você a conhece cara, ninguém pode ficar perto o bastante e não se apaixonar, e foi o que aconteceu com Bray.
— Isso deveria ser um consolo para mim, Cage? — Perguntei sinceramente. — Porque não me faz ter menos raiva dele.
— Eu não sei mano. Eu não tenho ideia de como você está se sentindo, por que para você, digo, na sua cabeça, deveria estar tudo igual. Mas por aqui as coisas realmente desandaram. — Ele levantou-se e olhou nos meus olhos. — Olha Ash, eu não estou aqui para te dizer que o que Bray fez foi justificado, nem listar os motivos pelos quais eu acho que ele é inocente. — Cage coloca uma mão em meu ombro e aperta afetuosamente. — Estou aqui para te contar como foi quando você não estava aqui. Se ele é ou não culpado, apenas você tem que decidir. Entende?
Eu não respondo, por que se tratando de Cage, isso foi uma retórica.
— Mas lembre-se mano, — continua. — Ele também foi destruído quando você se foi, mais até que o resto de nós. Ele era o seu melhor amigo.
E com isso, ele se virou para sair.
— Cage? — Chamei.
Ele parou e se virou para mim.
— Sim?
— Obrigada.
Cage inclinou a ponta do seu chapéu de cowboy para mim, e então saiu me deixando sozinho.
. ♥ .
Eu estava em tanta confusão que eu não poderia nem fingir que estava me divertido em minha própria festa. Eu não tinha visto Bray em dois dias, mas eu sabia que ele tinha voltado para casa. Ele estava me evitando, assim como eu o estava evitando.
Também não procurei Nox, não até que eu pudesse me entender. Meu coração estava se rasgando em duas direções diferentes, porque eu sabia que tudo o que Cage me contou era verdade.
Tentei voltar a minha rotina normal, fazendo trabalhos na fazenda. Mas nem mesmo estar nas costas do meu velho cavalo pareceu ‘normal’. Eu não estava acostumado a uma vida sem Nox, ou acostumado a não falar com meu melhor amigo.
— Amigo, — Jess disse quando caiu no banco de bar ao meu lado. — Sua mãe fechou a porra do bar inteiro para você. O mínimo que você podia fazer era parecer animado, ou ficar bêbado o suficiente para fingir.
Eu ri involuntariamente antes de levantar meu copo de whisky para ela.
— Eu estou quase lá. — Respondi, sem deixar de encarar a parede atrás do bar.
— Eu ia perguntar como você está, mas seria hipócrita da minha parte. Você parece com.. dor. — Observou, me olhando atentamente.
— Isso é porque a mulher que eu amo está sentada numa mesa ali no canto em companhia do meu irmão, fazendo um bom trabalho em não me notar. Irmão esse que costumava ser meu melhor amigo, e que apenas está aqui porque minha mãe obrigou. E isso, porra, doí, Jess.
— Pior do que sentir dor, é não sentir nada, amigo. — Soltou sabiamente, então ela tomou o ultimo gole da bebida que tinha pedido, e levantou para sair. — Miss. América está vindo para cá. Boa sorte.
Eu estava atordoado, e com medo demais para confirmar. Até que uma mão delicadamente pousou em meu ombro, e sua voz fracamente disse o meu nome.
— Ash?
Então eu tive que me virar. E quando eu olhei no seu rosto, ela estava prestes a chorar. Eu não disse nada, eu não pude. Todas as palavras pareciam presas em minha garganta. Ela parecia ainda mais bonita do que minha memória fazia jus.
Ela sussurrou: — Eu sinto muito... — Antes de desabar chorando.
Eu fiz a única coisa que meu afeiçoado coração me permitiu: Eu a puxei em meus braços.
E dessa vez ela veio para mim, com o desespero que eu esperava da primeira vez. Como se eu fosse a única coisa que a manteria ligada a terra. E ela chorou, com a cabeça enterrada em meu pescoço, e com seu corpo pressionado ao meu.
E quando seu cheiro me envolveu, eu finalmente estava em casa.
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