Fault of Boys- Asher
3 Mil motivos e apenas um por quê.
Notas iniciais
Sete dias, cento e sessenta e sete horas, quinze minutos, trinta segundos e meio desde que Asher Henley apareceu na minha porta. Ou nossa porta, infernos, eu não sei mais... de qualquer forma, quem está contando?
Definitivamente eu.
Sete dias, cento e sessenta horas, quinze minutos e trinta segundos que me trouxeram de volta um bilhão e meio de lembranças e dois anos de arrependimentos.
No fundo, no fundo, eu sabia que Asher sempre esteve vivo. Mas a tristeza que circulou ao meu redor, e o enfado que era viver e não ser capaz de estar com ele, falar com ele, o pensamento de perde-lo me teve em colapso.
Deus, foi tão difícil ouvir, todo e cada dia durante quase dois anos, os lamentos das pessoas ao meu redor, os pêsames. As gentilezas in memória dele. Todos os ‘eu sinto muito’ e ‘ele era uma boa pessoa’. Os confortos, que por desencargo de consciência me eram oferecidos. Todas as vezes que algum dos meus parentes ou pessoas mais próximas a mim diziam que eu deveria seguir em frente. Como no inferno eu poderia?
Eu estava morrendo pouco a pouco. Cada palavra de suposto conforto levou um pedaço da minha alma embora. Eu não poderia estar num mundo sem Asher, porque eu não conhecia, não entendia, e não queria um mudo sem ele.
Nox Nial, a pessoa que eu deveria ser, só era Nox Nial por causa de Asher Henley.
Eu afundei. Cada dia, a força que gastava lutando contra os pensamentos de que ele nunca mais voltaria para mim, se tornou demais. Foi doloroso, excruciante, até que se tornou dormente.
Eu vivia, não, eu sucumbia em vida, secando como um tronco que perdeu sua raiz. Eu não poderia sentir. Eu era insensível, descrente, desiludida. Sem esperança.
Eu era um incomodo.
E eu estava cansada de ser aquela pessoa que todo mundo pisa em ovos ao redor. Me revoltava todas as vezes em que eu me virei de costas e ouvi sussurros de ‘coitadinha!’. Me desesperava ser um peso para meus amigos e família, que me fizeram suas obrigações, e queriam me curar todo custo.
Estava além de concerto. Não haviam ferramentas para fixar no lugar todas as peças perdidas.
Até que ele veio até mim e disse:
— Levante-se! O que você está fazendo? Isso é uma desonra a sua memória, porque ele te amava mais que a própria vida e as vidas de toda a sua família, e te ver desse jeito seria mesmo que uma segunda morte para ele. Seria o inferno, Nox!
Eu olhei para Bray naquele dia, buscando entender seu surto. E eu encontrei em seus olhos a mesma quantidade de perda que eu tinha nos meus. Aquele não foi um discurso motivacional para mim, aquilo foi o que ele estava tentando se convencer. Eu entendi que ele precisava de alguém, além dele mesmo, para ser forte. Sua família era anestesiada, mais Bray ainda se encontrava em agonia.
Eu? Eu estava entorpecida. Desligada. Quebrada. Irrecuperável.
Mas eu me levantei, coloquei um sorriso no rosto e fingi. Construí um falso invólucro ao meu redor, me reergui em uma estrutura forjada. Por Bray, e por todos os outros que se sentiam responsáveis por mim. Superar não é uma possibilidade quando este é o caso, mas eu fingi que era capaz, pelas outras pessoas. No fundo, sempre é pelos outros que fazemos isso. Eu tinha perdido minhas próprias esperanças, mas eu podia dar-lhes as deles.
Não foi fácil. Assim como não seria fácil tirar as cinzas de um cinzeiro e tentar transforma-las em um cigarro novamente.
Mais vezes do que eu posso contar eu me peguei questionando o porquê deu querer fazer tudo isso por causa do que eu vi nos olhos de Bray aquela noite. Porque me incomodou profundamente vê-lo sofrer daquela forma? E eu não tinha resposta para isso.
Mas eu enxerguei em Bray minha alma gêmea. Nós compartilhamos quase o mesmo tipo cru de dor quando o assunto era Asher. Mas a diferença entre mim e Bray, era que ele ainda podia ter esperanças.
Um de seus irmãos, Cage, eu acho, me disse certa vez que Bray estava tentado cumprir o último pedido de Asher, de que ele cuidaria de mim se algo acontecesse. E eu custei um bom tempo para ver isso. Na minha equivocada opinião, eu era a única que cuidava do Bray. Mas não. Um dia, eu me peguei sentada no sofá, ao lado dele — pois eu costumei andar sempre ao lado dele — e eu ria. Eu ria, e era só, sem nenhum porém. Simples. Fácil.
Bray me deu exatamente o que eu precisava: compreensão. Ele me disse para levantar, mas nunca prometeu que ia ficar bem. Ele nunca me deu falsas esperanças ou tentou me vender uma perspectiva melhor. Ele apenas se sentou ao meu lado e preencheu um vazio. Me deu uma razão para me erguer. Me deu sua companhia, sem julgamentos ou opiniões. Ele me deu uma conexão para estabelecer.
Ele me deu um novo caminho para seguir.
Ele me tocou, e eu senti o calor, e o frio quando ele se foi.
Bray me ofereceu emoções, e eu suguei como uma criança faminta. A dormência enfadonha estava quase exterminada de mim, exceto pelo local que eu reservava para o meu Asher.
Eu me deixei levar, porque o que ele me deu em termos de sentir, era mais do que eu tinha quando Asher se foi, que era nada.
Eu estava sempre feliz em ver Bray, em estar em seus braços. Felicidade real, que foi apenas um mito para mim por algum tempo.
E quando eu pensei que meu castelo de cartas seria, finalmente, posto de pé, um vento forte chega e derruba tudo, novamente.
Confusão sequer chegava a definir o atual status da minha vida.
Eu amei Asher, enlouquecidamente.
Eu amo Bray.
Depois de tudo, eu ainda amo o Asher? Eu ainda poderia amar Bray?
A resposta é um categórico sim, para ambos.
. ♥ .
Sério, ele queria toma sorvete? Num momento como esses, onde tudo o que eu achava que sabia estava sendo posto em xeque; onde eu tinha que decidir o que ia ser da minha vida, risque isso, onde eu tinha que entender que porra ia ser da minha vida, ele queria que eu fosse “me distrair” tomando sorvete.
— Bray, — suspiro mais uma vez ao telefone. — Não é a melhor hora...
— Muita coisa está confusa, eu posso entender isso, mas nós ainda somos um nós, certo? — Questionou ele, do outro lado da linha.
Eu quis gritar nesse momento. Eu não sabia como responder essa pergunta nem para mim mesma, muito menos para ele. Eu e Bray fomos inseparáveis por um tempo agora, mas realmente não posso nem começar a contar com o tempo em que eu e o Asher fomos um, por que isso é tempo pra caramba.
E aí está, eu não sei se posso continuar com isso. Há uma enorme diferença entre o hoje e uma semana atrás: Asher. E, droga, eu não posso ignorar o Asher nem se eu quisesse. Meu corpo ainda é completamente dele, mesmo que minha mente tenha se afeiçoado ao Bray.
Que eu tenho sentimentos pelo Bray, é um fato. Não desejo nunca machucá-lo. Mas todo o sentimento que eu tenho por ele não chega perto do sentimento avassalador que senti por seu irmão.
Admito que, num primeiro momento, fugi dele. Só eu sei quanto tempo em dois anos eu pensei ter visto o Asher, ou sonhado com ele, apenas para acordar e descobrir eu não era real. Eu o perdi, e não podia me forçar a acreditar de novo, porque eu não suportaria perde-lo novamente.
Mas era realmente ele. Foram seus braços ao meu redor, foi o seu calor, foram suas palavras e seu timbre forte me consolando. Foi o meu Asher.
Foi o seu corpo que me fez sentir em casa com um simples abraço. E foi o seu “Está tudo bem, Nox.” que me fez acreditar que, pela primeira vez em dois anos, realmente estava bem.
E foi o seu “seu namorado está te esperando” que partiu meu coração em mil pedaços pequenos.
Ele estava chateado, eu entendi isso. Eu registrei a traição em seus olhos na primeira vez em que ele me viu correr para o Bray, e essa imagem é algo que eu nunca vou esquecer. A mesma traição que reconheci de alguns dos meus pesadelos recorrentes, a mesma que me impediu de estar com o Bray a mais tempo.
A coisa é: ele estava morto. Para todo mundo morto por um tempo, mas para meu coração e corpo, ele sempre estaria vivo. E é por isso que quando eu entro na sorveteria naquele dia, com Bray, eu não poderia me forçar a responder diferente a sua pergunta crucial.
Na verdade, havia mil motivos para que eu respondesse sim.
Foi-se um bom tempo desse que eu estive com Asher, porém nunca será tempo suficiente para que eu tenha esquecido. Ao contrário, dois anos de saudade apenas alimentaram as partes da minha alma que amavam ele com todo o desespero, drama e hipersensibilidade de um primeiro e único amor.
Bray foi o catalizador acelerante da minha recuperação. Ele segurou minha mão, não porque, como diziam as outras pessoas, ia ficar bem, mas porque ele sentiu que eu apenas precisava de apoio. Com Bray foi tudo tão simples e sem preocupações. Senti que era eu mesma cada vez que ficava ao seu lado. Ele me sustentou quando precisei me reerguer; consolou quando tudo que eu podia fazer era chorar; me fez sentir no momento em que eu era mais insensível.
Por mil motivos, e de duas mil maneiras, eu poderia ter dito sim a ele.
Mas quando ele se ajoelhou em um joelho perante mim, na sorveteria que passou a ser o nosso lugar, tirou uma caixa de veludo do bolso do casaco e perguntou: — Nox Nial, você quer se casar comigo?
Eu só tinha uma resposta. Porque, por mais que eu sempre fosse ser grata a Bray Henley pelas horas em que ele saiu de seu lugar em meu favor. Por cuidar de mim, por me dar uma nova perspectiva. Eu possuía apenas um corpo, uma alma e um coração e todos os três já tinham sido entregues a Asher. E ele não estava me dando de volta.
— Eu sinto muito... sinto muito, Bray, — falei com a voz tremendo de emoção. — Eu não posso fazer isso.
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