Fate
18 Cap 18 - O demônio
/Beatrice/
Eu voltei para o 4º período bem a tempo, sentei em meu lugar e respirei, me preparei para ver o que Reich tinha a dizer.
_Bia, sua maluca. Onde você estava.
_Precisava espairecer. Sinto muito pela minha cena de hoje mais cedo. – Falei secamente, mas com um sorriso nos lábios. A reação de Reich foi algo que eu não imaginei. Ele começou a rir, rir não, gargalhar.
_ Garotas. O Sr. Stwart tinha razão. Garotas são garotas.
Não sei se ele pode notar minha cara de novo ao ‘ouvir’ aquele nome.
_ Você falou com o Sr. Stwart foi?
Ele ficou um tanto inexpressivo, e respondeu.
_ Sim eu fui na biblioteca te procurar, e encontrei ele. Conversamos uns instantes. Nada de mais.
Eu respirei novamente. Ia lhe dar mais algumas chances para ser sincero. Nada de mais né? Além de um roçar de línguas né?
_ Oh, que bom.
_ Quer carona hoje?
_ E por que não iria querer?
_ Sei lá. – Ele se virou percebendo meu humor e deu a conversa por encerrada.
As aulas se seguiram normalmente. E lentamente. Meu coração estava dando palpitações. Pensei um pouco em mim mesma e percebi que eu não estava brava com Reich. Quer dizer, estava, mas estava triste também. Magoada.
Seguimos para o estacionamento e ele me levou pelo caminho habitual. Conversamos pouco sobre a desculpa de que eu não queria ficar torta no banco para ler seus lábios. No caminho pedi seu celular emprestado, ver umas fotos. Mas na verdade eu estava atrás de outra coisa. Rapidamente achei. O número do senhor Stwart.
Não iria ligar para ele obviamente, mas iria descobrir seu endereço na lista telefônica. Fui até a cabine de telefone e folhei as páginas. Mirst... Mirst... Stewart Mirst. O endereço que consegui era de um bairro pomposo não muito longe dali, se pegasse um ônibus chegaria em uns 12 minutos.
Entrei no bar e fui direto á senhora Michaely. Pedi-lhe para sair mais cedo. Ela estranhou, mas deixou. Em 10 meses que trabalhava lá apenas duas vezes tinha saído mais cedo, e só tinha faltado uma vez.
Logo mais Avistei Pierre, e lembrei-me do que tinha acontecido no sábado. Tinha estado tão confusa que esqueci completamente de seu beijo.
_ Boa Tarde Pierre.
Ele veio até mim e me beijou diretamente nos lábios. Tentei não parecer brava.
_ Bom dia Bia.
Aparentemente ele tinha levado a sério o que eu disse. Mas por sorte não havia nenhum clima ruim entre nós. Apenas as mesmas brincadeiras de sempre. O dia passou normalmente. Quando eram quase 22h00 eu tirei meu uniforme. Pierre contestou minha saída. Mas eu não estava afim de lhe contar. Tenho assuntos a resolver. Peguei um ônibus e rezei para que ele estivesse em casa, e acordado de preferência.
/Stwart/
Eu estava bebendo vinho e pensando no meu garoto, como havia se assustado ao me ver em seu escritório. Com a desculpa de ter negócios pendentes com seu pai. Por meia hora ficamos trancados no escritório. Era muito divertido observar um garoto tão integro se desmanchar a um toque.
Ouvi a campainha tocar, e fui ver quem era. Gargalhei ao ver uma miúda meio molhada na minha porta.
_ Mas vejamos quem está aqui. Entre gata escaldada.
Ela apenas entrou e perguntou se podia sentar. Estava incrivelmente calma. Por um segundo me perguntei se ela sabia mesmo.
_ A que devo a honra de sua visita.
_ Peço desculpas pelo horário e por não ter ligado avisando. – ela sorriu com o comentário sarcástico. – Mas queria conversar com o senhor.
_ Sou todo ouvidos criança.
_ Eu devo confessar que eu não sei o que espero ter aqui, mas senti que devia vir. Falar-lhe na cara como minha opinião a seu respeito mudou. Cheguei quase a gostar do senhor. Mas agora me embrulha o estomago ouvir seu nome.
_ Mas que fantástico, e você não pode nem ouvir. – não resisti. Queria ver até onde ela manteria a pose de boa moça.
_ porque não para de ser um estúpido e diz o que quero saber.
_ O que quer saber?
_ Porque estava beijando Reich?
_ Pelo mesmo motivo que você beija um garoto. Ou gostaria de beijar Reich – deixei claro que sabia de seus sentimentos – Por que gosto dele.
_ Mas ele é um garoto. – ela gritou, estava perdendo os fios da calma.
_ e que tem isso?
_ É nojento. Isso que tem.
_ Eu não acho. E sei que ele tão pouco. _ sorri malicioso, e me perguntei se ela tinha captado todas as facetas das minhas palavras.
_ O senhor devia agir com mais decoro. É um professor. Tem de agir como tal.
_ O desejo não distingue coisas tão triviais.
_ Não espere que eu fique quieta a respeito.
_ Não espero. Quer um pouco de vinho para se esquentar? Se estiver se sentindo gelada, pode trocar de roupa.
_ Não me faça cuspir Sr. Stewart. – Sua expressão era puro desgosto, um nojo absurdo.
_ Mas queria saber se você dirá para Reich sobre esse seu nojo.
_ Não tenho nojo dele. Obviamente foi seduzido, influenciado, Manipulado.
Eu gargalhei deixando de lado minha taça de vinho e me desfazendo de minha máscara de calma. Agora queria desafia-la, causar medo talvez.
_ Escute criança. Na sua vida você sempre conseguiu o quis não é mesmo? Mesmo que batalhando muito, este seu defeito lhe foi muito útil, aposto. Mas há coisas que você não sabe lidar. E não queira mexer com algo perigoso, menina.
_ E por que seria perigoso? Está me ameaçando?
Minha expressão era perversa, como quando tenho uma vitima em minhas mãos. Pude ver seus olhos se arregalarem, sua face empalidecer.
_ Não é uma ameaça, é apenas um aviso. Se você não quiser viver um de seus piores pesadelos, siga meus conselhos.
_ Você... você... É você. Eu te vi, lá... você...Aquele dia...
Neste instante ela se levantou do sofá, parecia amedrontada.
_ Que dia? Você fala do dia em que eu estava acompanhado e você foi se intrometer?
_ Você é um demônio! ASSASSINO!
Ela gritou e correu para a porta. Quão estupida uma garota pode ser?
Eu agarrei seu cotovelo e olhei-a bem nos olhos.
_ Estamos aqui na minha casa, sozinhos, seus gritos serão abafados pela chuva, deixaria seu corpo próximo ao seu bar, seria apenas outra fatalidade.
_ Não, não. Você não pode.
_Claro que posso. Só não quero. Seria tão fácil que não teria nem graça. Se bem que seria vantajoso. Ninguém pra ficar em meu caminho. Além do mais você sabe demais.
Neste momento uma pessoa normal começaria a implorar pela vida, mas ela fez algo que me surpreendeu.
Colocou as mãos na cabeça, como se seu pescoço não pudesse mantê-la erguida. Pensou um instante e então apontou um dedo para mim e disse.
_ Façamos assim então. Você não precisa me matar, eu não testemunhei naquele caso até hoje, não há por que faze-lo agora. Se você quer tanto o Reich, então vá pega-lo, mas não acha que seria mais interessante se ele te escolhesse?
_ O que você está dizendo criança? – não pude deixar de rir, seu rosto ainda estava pálido, mas era um tanto psicótico agora.
_ seduza-o! Se for capaz! Vença. Vamos ver quem Reich escolhe? Se eu, ou a sua deprimente raça.
_ Não abuse da sorte garota.
_Vamos, o que acha?
Eu não podia acreditar que ela teve coragem de barganhar a situação. Ela deixou o jogo muito mais interessante, ao meu ver, sem eu ao menos imaginar.
_ está bem. Mas, devo dizer que é uma causa perdida. Reich já tem seu preferido. Um toque e ele estará aos meus pés.
_ Reich não seria tão burro para se tornar um viado sujo. Há muito envolvido.
_Adolescentes são burros por natureza. Tem que ser muito estúpido para tentar negociar com um psicopata.
_ Você não é um psicopata. É apenas um louco. E eu seria burra se apenas me deixasse morrer.
Sua expressão estava quase controlada agora. A chuva lá fora era torrencial. Atípico para noites de outono.
_ Está certo. Que comecem os jogos.
Ela apenas assentiu. Apontou para o sofá para pedir a mochila. Provavelmente estava com medo de ficar de costas para mim. Não era estúpida no fim das contas.
_ Eu posso te levar pra casa.
_ Eu passo, não sou idiota como você parece achar.
_ O que aconteceu com o “Sr.”?
_ Se esvaiu com a minha dignidade provavelmente. Com licença.
Ela girou a chave e saiu para a chuva, olhei para a janela até que desaparecesse na esquina. O que teria em mente aquela pequena?
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