Notas iniciais
Sem mais delongas, vos pouparei das notas. Boa leitura!

Atravessaram o elevador, hesitando qualquer necessidade de um contato visual que os olhos implorassem. Uma cabeça pensando na singela loucura prestes a fazê-la, e a outra concentrada em não perder a razão. De que adiantava ser racional quando a atração berrava ao pé do ouvido? Se fosse possível, ao menos, deslizar em seu desejo sem mais tarde cair em suas garras, mas Regina sabia, temia ir além do que devia.

O apartamento era um escuro só, parecia ter havido um nocaute. Não se ouvia ruídos, ausência completa do barulho noturno. Um garoto dormindo com a tevê ligada em uma série policial, ressonava no mais pesado dos sonos, nem notara a chegada das duas. Um âmbito calmo e densamente arejado. Andavam muito devagarinho com os sapatos nos dedos e as pontas dos pés deslizavam suavemente em lentas passadas. O chão parecia algodão, seus corpos quase levitavam.

— Me espere no quarto, segunda porta à direita. – Cochichou, a voz embriagada de sereno.

— Quê? – sussurrou Regina –, Por quê?! Aonde vai? – sussurros que pareciam veludo.

— Vou buscar algo para beber e desligar a televisão no quarto de Henry, – dizia Emma, fazendo gestos para que Regina sussurrasse mais baixo. – não me demoro! – e girou nos calcanhares, rumo à cozinha.

Que pensara Regina Mills quando cogitou se meter com a filha de seu chefe? Estava atraída por ela, como nunca esteve por ninguém antes; àquela altura, a cabeça latejava, dedilhando ângulos no seu juízo: pela excesso de álcool e pela insânia inebriante de estar ali.
Não posso! Que diabos vim fazer no apartamento de Emma?, onde estava com a cabeça, Regina? Droga, sim! Devo ter perdido o juízo naquela batida! Que mais seria?

Regina ansiava por sobriedade. Queria ter controle de si novamente, jurava que assim contornaria a situação. Sabia que deveria largar tudo onde estava e caminhar até o apartamento de Bela, que não ficava muito longe dali.

Em vez disso disso, tapeou o próprio rosto duas vezes seguidas, e repetiu em baixo som para si própria:
Não seja uma covarde! Você devolveu o beijo, lembra-se? Aceite que a quer! Segunda porta à direita, isso, à direita!

Adentrou no espaço vagarosamente, embora seu campo de visão estivesse ligeiramente turvo, fez a proeza de visualizar cada perímetro do quarto; este era grande, tinha uma varanda espaçosa e uma cama enorme bem no meio. Deixou a porta semiaberta.

Materializava-se ali no centro, uma luz vermelha, era a luz vermelha da lua sangrenta, os flashes de luz se moviam pelo quarto, em faíscas que sumiam, dando lugar às novas que adentravam logo em seguida. Fenômeno ocasional, achou estar com sorte; luz vermelha, fazendo sinais vermelhos, o espaço inteiro era um véu avermelhado.

Foi até à janela, e fitou a névoa magenta que cobria a cidade, era uma paisagem linda, Emma tinha à vista, o paraíso no próprio quarto. Hipnotizada, só retornou a realidade quando notou Emma entrando. Empurrou a porta com os pés, e esta se fechou sozinha; nas mãos, duas cervejas engarrafadas. A boca reproduzia o som de risadas silenciosas.
Era o álcool.

Um corpo, dois corpos, se aproximaram arquejantes. Havia uma tensão sublime gerando uma espécie de bolha entre elas. Ofereceu-lhe uma cerveja, as mãos se tocaram no ato e uma explosão de sensações embrulhou o estômago de alguém aflita por estar num quarto que não era o seu, depois da meia-noite, álcool à beça na cabeça. E quem a julgaria?

Ficaram as duas de pé, diante da janela, ambas de pele arrepiada: pelo frio, pelo medo nauseante, e pelo efeito de quando se encostavam.

O efeito era sempre o mesmo, desde a primeira vez que se tocaram. Quando Emma havia chegado e, Gold a levou para conhecer Regina. O dia estava um pesadelo, fazia um frio anormal e Robin não atendia seus telefonemas. O carro de Regina havia dado problema outra vez, e somente Robin dava conta do recado. Sim, era um carro de custo alto, presente de sua mãe, que insistia em bancar deveras os luxos da filha, embora soubesse que Regina tinha condições o suficiente para pagar o que bem entendesse.

E havia esse quarto, no térreo da agência, onde ninguém tinha acesso à entrada. Porque o quarto era somente seu, e lá só ela entrava. Era onde fazia seu trabalho, revelava fotos, cochilava, concluía trabalhos e tudo o que mais quisesse.

Então a filha se perdeu do pai, e já era tarde, se não estava em andar algum, havia de estar no térreo! Queria conhecer a fotógrafa famosa, e logo agora Gold tinha de sumir?

Avistou uma porta escura, a última do corredor, a porta estava escorada, achou que não faria mal nenhum em entrar. E que belo era o quarto! As paredes pintadas de vinho, fotografias decorando toda a extensão do lugar, estantes altas de madeira preta, preenchidas de potes, pincéis, materiais que não conhecia e uma fileira elegante de máquinas fotográficas.

Nesse dia, a mão firme de Regina agarrou o braço de Emma. Consequentemente, à de Emma tomou o seu em resposta, no mesmo instante, e ambas se assustaram.

— Quem diabos é você? Quem lhe deu permissão de entrar aqui?, Regina dizia cada palavra cheia de ódio. E cada uma dessas fez Emma encolher de medo.

— E-eu... desculpe, eu... –, Emma perdeu a voz e a noção de fala. Queria se desculpar, explicar-se, dizer-lhe que a porta estava aberta, não tinha a intenção de invadir seu espaço. Mas Regina lhe botou medo até nas entranhas. A moça arregalou os olhos, sentiu desconforto onde a mulher lhe pressionava os dedos. Regina mirava bem no centro dos olhos de Swan, e os olhares repetiam os mesmo gestos.

O braço livre de Emma levantou vagaroso, e tocou singelo a mão de Regina que lhe apertava o punho. Sentiram os corpos fraquejarem, Emma notou a princípio, só não soube se a outra havia sentido o mesmo que ela.

Num minuto se encararam, ofegantes, pouco se viam. Estava absurdamente escuro. Uma fitou os lábios da outra, Emma certa do quão fatal Regina era; esta certa de onde estava se metendo ao tornar ávida à noite com Emma. Os corações rimavam num ritmo descontrolado, e a filha de Gold sugeriu tocá-la na cintura, trazendo a morena embriagada para um abraço quente.

Os olhos que se domavam, as bocas a produzirem saliva, houve uma tênue rendição. Roçaram os lábios com violência, na vasta procura por satisfação. Beijavam-se: perfume, cerveja, queixos sujos de batom roxo violeta, a maciez das línguas e o início de passos desastrosos que terminaram na cama. Deitaram-se, numa luta insaciável pelo controle do domínio. As mãos hábeis de Regina despiram Emma sem inibição, acariciou a confluência famigerada das coxas, num ato erótico que induziu a boca a gemer.

Os olhos de Emma passearam numa rápida olhadela pelo corpo de Regina. Foi quando as duas se beijaram outra vez, com reciprocidade e sem pressa de acabarem; numa busca por rendição da carne. Os quadris se chocavam um contra o outro, indicando que o desejo não supriria a vontade.

Agora despidas, a pele na pele e a cara na cara, Regina se pôs por cima de Emma, cavalgando sobre a loira, num movimento de vaivém que sucumbia as pernas sobre a cama. E as unhas de Swan fincaram bem no par de coxas, cravando as pernas de Regina com cinco marcas de garras.

A morena urrou e no mesmo instante pendeu a cabeça para baixo, quando teve a boca calada pela mão trêmula de Emma. Uma abafou o berro da outra, e gemeram tão baixo que pareceu uma canção clássica. O ritmo dos corpos acompanhavam o calor da nuance, sem supor que atingiriam tão alto clímax. Podia-se considerar prazer um eufemismo para o que sentiram.

Que nem Regina, e nem Emma, deram-se por vencidas. Somente no clarear do céu foi que a brasa cessou. As marcas dos dentes de Regina na boca de Emma, os ombros maculados de outrem e ambos os corpos exaustos de amar. Uma luz diurna invadiu as frestas do quarto, e Swan despertou aérea. Os olhos ardiam e a cabeça doía, no mais, o peito agradecia. Estava inundada de satisfação, porque dedilhou o outro lado da cama e Regina ainda dormia lá.

Cruzou um dos braços para alcançar o aparelho celular e o inbox estava cheio; era Gold, mas também era Neal, e a secretária da Agência, todos de uma só vez, que já passava das nove e Mills estava atrasada. Pulou da cama, enrolada num lençol, e caminhou para fora do quarto. Deu um toque para o irmão, deu dois, três, e só caía na caixa postal. Deu um salto na cozinha, fez café na máquina e se pegou sorrindo entre os flashes da noite anterior. Os dentes reluzindo felicidade, a cabeça viajava longe, ainda sentindo na pele o roçar de Regina em si. Assustou-se, o celular vibrou lhe despertando da transe.

— Emma?!— vociferou Neal, do outro lado da linha, cheio de preocupação. – Emma, onde diabos vocês duas se meteram ontem à noite? Já liguei quinhentas vezes pra Regina, ela deveria estar aqui às oito!

— Neal, calma! – pedia Emma, – Nós nos encontramos por acas... aliás, como sabe que estive com ela?! – Swan franziu o cenho, a boca era um O.

— Bela disse a Gold que você foi à procura dela numa balada perto do Snow's. Desde quando são amigas? Emma, não estou entendo mais nada! Me explique essa história pelo amor de Deus, e me diga que dentro dela inclui uma Regina sã!

Emma se pôs a rir. Bebeu um gole de café enquanto caminhava até o banheiro do quarto de Henry. – Credo, Neal! Até parece que a Regina nunca se atrasou pra algo nessa maldita agência. Nós só conversamos um pouco e depois... bem, ahm, depois eu a levei em casa, está bem?

O rapaz respirou fundo, estava aliviado. – Pelo menos você não a matou!— e gargalhou. – Gold está preocupado, Emma! Ela nunca se atrasou, se quer saber. Se a vir, avise-a para se apressar, sei que Bela mora perto de você, Gina deve ter passado na casa dela mais cedo e se atrasou.

Emma já tirava a roupa, pronta para tomar uma ducha. – Acho difícil encontrar a Regina por aqui, Neal... Só se fosse o caso dela estar na minha cama e, bem... Você sabe que não há possibilidade alguma dela estar!

Neal riu. O rosto avermelhou de onde estava e Emma se divertiu com o resulto. – Nisso você tem razão! Bem, então, está bem. Pois você cuide em vir logo para cá, que logo mais terá uma reunião importante sobre a nova coleção e eu ouvi o seu nome na boca do nosso pai.

Emma ficou curiosa, seu nome, na boca de Gold? Que péssima novidade seria?, – Ok... ok! Chego aí em uma hora.

Logo que desligaram, largou o celular em cima da privada e se pôs no chuveiro. Henry havia acordado com o barulho vindo da suíte, achou estranho e se levantou. Deu de cara com a mãe ensopada saindo da porta, coberta no seu roupão infantil do Guerra nas estrelas.

— Mãe?! – coçou os olhos, desembaraçando à vista. – Por que está vestida com minha roupa de banho? Você já não têm muitas?

— Ei, querido! Bom dia. – deu-lhe um beijo molhado na bochecha, que o garoto enxugou fazendo careta. – É que eu tive um imprevisto, ok? Venha cá, me mostre em qual das caixas ficou aquelas minhas roupas.

Henry apontou para a última caixa à direita de seu closet. O garoto não assimilou nada que a mãe havia dito, continuou de pé, olhando-a de relance.

— Mãe, o que, está, acontecendo?

— Ahm... não tenho muito tempo de explicar, criança! – debruçou-se, abrindo o caixote, e tirou de lá um terno creme que a tempos não usara. – Lembra-se da moça que o levou na agência? A Regina? – Henry fez que sim, – O carro dela deu um problema na noite passada e a trouxe para cá.

— P-para cá, mãe? Você diz... para cá, no nosso apartamento? – Henry a ajudou a se vestir, e um sorriso enorme estava estampado no rosto. – Onde você a colocou?

— Henry! Ela está dormindo, fale baixo! – gesticulou um sinal com os dedos. – No meu quarto, deitada na minha cama. Por isso usei o seu banheiro, para não acordá-la, entendeu?

O garotou abanou a cabeça para cima e para baixo. – E onde você dormiu?

— Eu? Bem... na, digo, no sofá! Bem no meio do sofá. Dormi a noite inteirinha lá. No sofá, eu dormi no sofá! – Disse, nervosa. Rezando para que o garoto acreditasse.

— Ah, mãe! Uma cama daquele tamanho e você dormiu no sofá? Cabe nós três lá, e até a Kira se nos apertarmos um pouquinho.

Emma sorriu, esquecera do quão inocente o filho ainda era. – É, meu bem... você está certo. Cabe todo mundo lá, menos a Kira, porque a Kira fica somente no seu quarto. Já falamos sobre isso, se o zelador descobre que trouxemos uma gata para o prédio, tiram ela de você. Sabe disso, não sabe?

Novamente, o menino fez que sim; concordando com a cabeça. Emma olhou aos redores do quarto, e deu falta de algo. – Henry! Onde ela está? – o menino se assustou. – Henry, onde está a Kira?

— Ela estava bem ali mãe... na casinha! M-mas, não está mais!

No segundo que se olharam, saíram pela porta, procurando pela felina em tudo que era cômodo e caixote de papelão. De longe, o garoto ouviu um miado, e ambos deram uma pausa na busca. Vinha do quarto de Emma. Kira estava lá, sobre a cama, com o rabo manhoso bastante próximo do rosto de Regina. Henry correu nas pontas dos pés, Emma indo logo atrás, e puxaram a gata de lá num sufoco só.

— Essa foi por pouco, mãe! – Salientou o rapazinho, ofegante para a mãe.

Emma se penteou, pegou uma fruta na cozinha e chamou por Henry, enquanto aprontava o resto das coisas.

— Garoto, eu tenho que ir embora agora. Talvez você devesse preparar algo para quando a Regina acordar. O que acha?

Henry concordou. Partiu logo para a geladeira, tirando os ovos, e Emma rabiscava algum pedaço de papel, que enfiou no bolso do blazer de Regina. Selou o bilhete com os lábios, em segredo do filho, e depois disso se foi.



De modo manso e espreguiçante, a fotógrafa se contorceu sobre a cama, buscando com as palmas das mãos, pela presença trivial de Emma. Ela não estava lá. Regina arregaçou os lençóis do corpo, dando-se conta do que havia feito com a loira durante a madrugada passada. Envergonhou-se, e um calor perceptível ascendeu para o próprio rosto. Deu-se por traída, não queria aceitar que Emma simplesmente a deixou dormindo e se foi, sabe-se Deus para onde.

Não se demorou muito dentro do quarto, organizou suas vestes e as pôs rapidamente. Sentiu falta dos sapatos e de seu blazer, lembrou-se de tê-los deixado em algum lugar da sala. Notou as inúmeras ligações perdidas notificadas na tela do telefone celular, e pressionou os olhos com força quando se deu por atrasada.

— Está à procura disto? – Regina deu um pulo. Assustou-se com a pergunta que provinha do filho de Emma. Ele estava logo atrás dela, de pijama e cera nos olhos; segurando o par de saltos com os dedos.

— Henry?! – disse, envergonhada. – Exatamente! Estou muito, muitíssimo atrasada. Pode abrir aqui? Não consigo achar as chaves.

— E nem vai! Bem que a minha mãe disse que você iria sair fugindo assim que levantasse. Venha, eu preparei café para nós dois.

Regina esboçou uma careta, sua testa franziu no momento em que o garoto a arrastou para a cozinha. Entregou-lhe uma xícara de café fumegante, e a serviu com bacon e ovos fritos. Na bancada havia também algumas porções de biscoitos caseiros amanteigados com passas e baunilha.

— Ah, querido... Não posso comer isso tudo! Estou mesmo atrasada, e meu estômago não aguentaria tanta coisa a essa hora. – desculpou-se Regina, bebericando o líquido escuro e amargo.

— Mas você quase não tocou no bacon! – disse Henry, com um semblante triste e decepcionado.

Regina se levantou. Deu duas gafadas na refeição e Henry sorriu timidamente. O garoto logo a levou até à porta, destrancando com um segredo que apenas ele e sua mãe sabiam.

Esforçava-se para não perder o autocontrole enquanto pegava um táxi. Foi até o apartamento de Bela, que por razões desconhecidas não havia dormido por ali. Regina imaginou onde a amiga estava roncando com sua bunda nua. Não era difícil de supôr. Tomou emprestado um vestido da amiga, que lhe casou muito bem, e tentou dar um fim nas conjunturas que seu cérebro insensato formulava sobre Emma.

O carro de Bela estava na garagem, assim com as chaves do mesmo estavam ao seu total dispor. Regina não pensou duas vezes antes de tomar a liberdade de pegá-lo emprestado também.

No instante em que a porta do elevador se abriu, dando-lhe passagem, os que estavam à volta reviravam pescoços e cabeças. Regina havia chegado.
Uma das funcionárias a alcançou em disparada, informou-lhe da reunião com os patrocinadores que ocorria na sala dos acionistas. Regina bufara, afinal, sabia com exatidão o local exclusivo das reuniões dadas pelo patrão. De que lhe valia informações ultrapassadas?

Quando adentrou no corredor, examinou janela afora o que se passava na saleta. Emma se encontrava entediada entre tanta conversa fiada, o pensamento vagava tão longe quanto a cor da pele, no momento em que avistou Regina pela vidraça. Esta entrou sorrateiramente no ambiente, os saltos tilintavam ensurdecedoramente contra o mármore do chão.

Aparentemente, todos pareciam surpresos em vê-la no final do que era debatido. Gold foi o primeiro a se levantar, dando livre acesso para que sua querida e, atrasada Gina, sentasse ao seu lado. Ninguém disse uma sílaba. O silêncio transcendeu a mais tênue das linhas sonoras.

— Quem, em nome de Deus, comeu a língua de todos vocês? – disse ela, lacônica e zombeteira.

— Querida, nos perdoe... ahm, falávamos da nova coleção, sim? – reagiu Gold, sendo o único presente a pronunciar algo. – Neal, meu filho, tome as rédeas do meu palpite. Fale para a Regina sobre o que me sugeriu ontem à noite no fim do expediente!

— Achamos que a festa de coleção deve ser adiada, Regina, é isso! Não podemos divulgar um projeto sem publicidade, porque não há publicidade sem um rosto, e nós não temos um rosto. – Respondeu o filho, seguindo o comando do pai. Neal parecia puro nervo, porém não mais do que sua irmã, que buscava incansavelmente a mínima atenção de Regina.

Quem diabos era tão indiferente depois de uma noite daquelas?
Quem diabos ia embora depois de uma noite daquelas?

— Ah, Neal! Francamente, seja claro,.. estamos bem encrencados, diga-se passageiramente. Boa parte dos convites distribuídos já foram entregues para blogueiros famosos, artistas reconhecidos do mundo da moda, revistas auxiliares... você bem sabe! Que faremos? Qual o plano B? – emendou Regina, sem titubear. Todos os olhares eram seus, Gold havia escolhido bem sua assessora, a morena era afiada como faca.

— Para isso convocamos à reunião minha querida! Para chegar em alguma alternativa. – explicou Gold, tocando-lhe o ombro com uma das mãos, a fim de acalmá-la.

Regina levou alguns segundos em paralisia, fitando a espessura da mesa, logo inspirou todo o ar que pôde. – A reunião está encerrada! Terei a solução em menos de vinte e quatro horas! A confraternização publicitária não será cancelada, tampouco ''adiada''. Neal! Em minha sala dentro de uma hora! – Dito isto, a fotógrafa deixou a saleta, sem ouvir nem mais uma súplica.



Sentiu-se impotente por não ter uma ideia sequer. A mente invasiva lhe dava espaço para pensar apenas em Emma. Estava fulminando de ódio, mal acreditara quando não a sentiu deitada ao seu lado. Ao menos agora, tinha um pouco de autonomia pelo seu autocontrole de estar à sós com seus devaneios.
Havia uma mesa longa de vidro bem no centro do seu escritório, com lanches e pastas que continham formulários importantes anuais. Regina afastou todo o conteúdo que estava sobre a mesa e se sentou em cima, batia a perna sem parar num gesto ansioso. Ouviu o ruído da maçaneta acusando ser aberta e se preparou firme para jorrar ódio em quem quer que fosse por trás da porta. Entretanto, era Emma. Com uma expressão imperceptível no rosto.

Se pôs diante de Regina, as duas não disseram nada, se olharam por dez segundos ou mais, cada qual com sua distinta razão para a raiva aparente.

— Qual o seu problema? – alfinetou Emma. – Você dorme comigo, eu peço ao meu filho que te prepare um café e você não se dá nem ao trabalho de me olhar durante uma reunião?

Definitivamente ela está fora de si.— Pensou Regina. – A única problemática aqui é você! – berrou logo em seguida. – É um costume seu deixar as amantes na cama e depois ir embora?

Emma sorriu cabisbaixa e zombeteira. – Ah... Então é isso?! Tenha piedade de si mesma, Regina! Eu quis ser gentil e deixá-la dormindo mais um pouco, você vive trancafiada aqui dentr...

— Me poupe, Swan! – Regina a interrompeu. – Fez o corpo escorregar no vidro e deu duas passadas, alcançando o espaço da loira. – O meu trabalho não tem absolutamente nada a ver com a minha vida pessoal! Não use essa desculpa fajuta para corrigir o seu erro.

— Eu não estou tentando corrigir nada! – defendeu-se Emma, avançando um pouco mais. – Só quero que saiba que ontem...

— Emma, saia! Por favor, vá! Ontem foi um erro, não vai se repetir! – disse Regina, indo em direção à porta. – Me deixe sozinha!

— Eu não vou sair coisa alguma! – e afastou-a da porta, fechando-a num empurrão estrondoso. – Eu quero falar e você vai ouvir!

— Eu não quero ouvir nada que venha de você. Isso nunca daria certo! Ontem à noite nós fomos além do que deveríamos. – Debateu a morena, a voz tremelicava.

— Regina, será que não vê mesmo? – dizia Emma, expressando medo, como se desejá-la fosse quase como cortejar a própria destruição. – Sim, você está certa, nós fomos muito além, só que... Foi especial! Há algo em você que reage como um ímãn captador, e então eu sou captada.

Enquanto Emma falava, Regina deixou a mente divagar, rebobinando como uma fita a noite anterior. Se desfez das lembranças a contragosto, recuperando a realidade. – Está delirando? Pare com isso, não venha querer me amolecer com essa sua poesia verbal.

— Não vou parar! Quer que eu desista? Fique sabendo que é pedir demais de mim. – explicou Emma sinceramente, enquanto usava as mãos para tocar os ombros latejantes da outra.

— Não vem não, Emma, fica aí! – Regina a afastou, mantendo uma distância favorável entre as duas. – Esse papo de paixão soa como doença. – comentou secamente.

— Ora, Regina, doença é não amar, queira ser sincera. – Emma tornou a se aproximar. – Se não houvesse nem um pouquinho de amor dentro dessa escultura de pedra, que é você, estaria certa de que sua lucidez sempre fora abalada.

— Insana aqui só você! Essa coisa dói o suficiente para que eu tenha que pedir para se retirar outra vez! – Regina insistiu chorosa. – Vá, por favor! Não faça eu te implorar para que me deixe sozinha.

— Sozinha. É claro! Até quando vai se esconder dentro dessa sala? – Emma arfou, tampando o rosto com as mãos. – Pare de afastar as pessoas, pare de me afastar!

— Emma, pare você! – disse entredentes. – Quantas vezes vou ter que pedir para que pare? – Regina bateu os pés contra o chão. – Isso não existe fora da sua cabeça, estamos indo em direção a uma estrada, na qual o final é uma densa trilha sem acesso à saída. Quer mesmo se encurralar comigo? Eu duvido!

Emma já estava exaurida. De repente sua cabeça começou a rodopiar, Regina era fria demais para tentar aquecê-la. – Você seria covarde demais para chegar a algum lugar! – cuspiu raivosa as palavras em cima da fotógrafa.

O rosto da morena emitiu um rubor energicamente avermelhado. Fitou Swan com os olhos fulminando, tapeou-lhe o rosto num momento passageiro do próprio ego. As marcas dos dedos surgiram subitamente na face pálida de Emma. Sem mais delongas, a loira lhe deu as costas, ameaçando ir embora.

Emma estava desapontada e Regina arrependida. Antes mesmo que a loira pudesse avançar pela porta Regina a puxou de volta, arremessou-a na parede espantosamente, Emma não teve tempo de recuar, porque antes disso os lábios de Regina encostaram violentamente contra os seus, em conjunto das mãos que lhe invadiram por baixo da roupa. Regina apalpou sorrateiramente a cerviz de quem a boca beijava com vontade. Numa busca irrefreável por beijos ávidos, seus lábios desencadeavam uma fome sôfrega no corpo da outra.

Logo Regina recuperou a sensatez e se afastou bruscamente. Dessa vez foi ela quem deu as costas, envergonhada. Emma a deixou na sala e bateu a porta, sentiu-se perturbada e fraca. Foi então que as mãos da morena deslizaram para dentro dos bolsos do blazer que vestira por cima do vestido, a textura do papel a fez puxá-lo para fora. Era o bilhete deixado por Emma:

''Pareceu-me um pecado imperdoável despertar um anjo. Você vive pela agência, estarei lá por você e ouvirei tudo que a interesse.
Ps: Henry faz ótimos ovos mexidos, saboreie!

Beijo, E.''

E.? Decerto fora Emma quem o escreveu. Seu bilhete era atraente ou repelente? Fui tola ou precipitada?, refletiu Regina, aborrecida consigo. Não deveria ter sido tão estúpida.

Notas finais
Então leitoras, que estão achando? Avaliação geral, venham.