Fatal Attraction

24 Listen to the wedding bells


Notas iniciais
Um olá com muito atraso e exaustão. Gostaria de ter voltado antes, mas estive aterafada com a faculdade e muito tristinha por 'n' motivos, sem ânimo para a escrita. Não é o último capítulo de FA, mas é o pré-final, ou seja, o penúltimo. Espero que dessa vez vocês aceitem os motivos da Emma e compreendam um pouco de suas decisões e conflitos internos. Leitura boa! *-*


Era difícil encarar a própria face. Emma Swan desviava dos espelhos no dia em que mais deveria orgulhar-se de sua beleza e exaltar a própria vaidade. Estava indescritivelmente bela com seu longo vestido branco neve e as pérolas que lhe enfeitavam o pescoço. O cabelo estava modelado em um penteado magnífico com cachos e broches de borboletas prateadas. O rosto, levemente maquiado, revelando traços naturais e charmosos, pouco gloss e pouco contorno, apenas tons claros iluminando os verdes indecomponíveis de seus olhos tristes. Ela estava sentada de frente à penteadeira do quarto dos padrinhos de Henry, pois o apartamento ficou dedicado ao embelezamento de Lilian; elas não poderiam ver uma à outra.

— Emma? — Mary entrou, já vestida em seu conjunto cor de pêssego: uma longa saia lisa acompanhada de uma segunda veste igualmente lisa, que lhe marcava bastante a barriga redonda. Estava também muito bonita. — Está pronta, querida?

Emma não se mexeu. Estava em uma espécie de rebobinação, revivendo o acontecido de algumas semanas antes daquela manhã.

Flashback on.

— Eu não vou me casar com você, você é insana! — Emma dizia em um tom estridente. Revoltada, entrava às pressas dentro do apartamento. Jogou a jaqueta no sofá e foi à cozinha, notando os passos de Lilian segui-la. — E pare de me seguir, por favor!

— Querida, se de algo eu tenho certeza, é de que esse casamento vai acontecer! E outra… Será aqui mesmo, em Chicago, portanto trate de acalmar o temperamento daquela mulherzinha! — pontuou a artista, seu timbre grave era ameaçador. — Se você está pensando que eu serei rejeitada, está muito enganada! Não sou qualquer mulher, tenho um reputação, não a sujarei por um capricho seu!

Emma mal podia ouvi-la falar de todas aquelas asneiras. De toda aquela superfecialidade. Seu discurso burguês a enojava. Seu estômago embrulhava e a mente entotecia, empalideceu num segundo.

— Do que diabo está falando? — virou-se, enfrentando a face medonha de Lily. — Está me obrigando a seguir este circo? — era riu. — Saiba que estou fora, não casarei coisa nenhuma! Você vai dar o fora daqui, me ouviu? Estou exausta de todo esse escândalo!

Enraivecida com o deboche, a francesa deu passos duros até um determinado cômodo e trouxe de lá uma mini mochila de mão, jogando-a violentamente sobre a loira, que se assustou com o objeto acertando-lhe repentinamente.

— Vê isso, meu bem? Abra! — sorriu persuasiva. — Vamos, abra! É uma surpresinha que tenho para você… — de modo articulado, Lilian dedilhava os dedos sobre o balcão. Como uma serpente egípcia, seu cachimbo venenoso trilindava. — Confesso, não imaginei que tivesse que ir tão longe! Fui tola, achei que você seria mais esperta e se cansaria logo desse romancinho besta, mas… Ora, enganei-me, pois bem!

Emma estranhou a fala da outra. O que a víbora havia aprontado? De onde vinha tanta crueldade? Esta parte de Lilian, insólita e sonsa, não era do conhecimento de Emma. Não quis intimidar-se e logo tomou o objeto misterioso nas mãos: surpresa! Era um álbum de fotografias; preto, curto, poucas fotos. Emma gelou, não poderia ser algo bom.

— O que você… — espantou-se. Oh, céus. Como ela pôde? — Lilian, você… Cristo, como você pôde? Não consigo, eu… — Emma empalideceu de nervoso. Estava adoecida, tamanha era a sua vergonha e receio do que poderia vir daquelas fotos.

— Oh, Em! Não se faça, tenha dó! — a noiva tomou-lhe o álbum, passando as fotos e saboreando cada olhadela que verificava. — Que beleza! — tecia risinhos. — Sabe, eu nunca achei que o August me fosse ser valioso, estudamos História da Arte pós-moderna em Veneza e ficamos colegas, quando descobri que ele estava por Chicago, logo depois de ler aquela matéria de você com aquela outra… Hum, salivei! August acabou optando por estudar fotografia em Londres e, veja só… Fez bem, que ótimas fotos! Ele capturou bem o momento.

Emma rugiu, enfurecida com tamanha insensatez. Sobretudo, naquele instante, o que o seu corpo sentia se parecia com um amontoado de fraquezas pegando fogo. Estava por um fio de incendiar por completo; um calor que queimava e aturdia. Esquentou-lhe a cabeça, o peito e o estômago. Um tremor lhe perpassou pelos joelhos e subiu até o rosto.

— Você não seria tão baixa, Lilian. — a voz dificultosa se fazia baixa. — Não jogaria tão sujo assim. Eu mereço isso, Regina não. Ela acabaria com a carreira dela se essas fotos fossem à mídia-

— Na mosca! — pontuou a noiva. — Eu não sou uma mulher cruel, Emma, acredite, a vilã não fui eu. Só estou pegando de volta o que é meu… — aproximou-se mansamente da loira, tocando o rosto pálido e assustado. Emma recuou, enojada. — Ora, essa! Para quê essa manha toda? Logo estaremos casadas e eu tocarei muito além de um rosto, portanto trate de se acostu-

— Você é louca! — Emma esbravejou. — Completamente perturbada, não tem uma gota sequer de sanidade! Não pode me chantagear achando que assim irei amá-la, se acha que isso vai funcionar, está muito mais maluca do que aparenta!

Ela gargalhou histericamente, como quem debocha de uma criança imatura.

— Amar? — seus olhos serenos revelavam uma maldade proposital. — Não preciso ser amada. Não sofro dessas baboseiras, só preciso de um bom casamento influente, minha carreira artista é o que mais me interessa! Diferente de você, eu sempre priorizei o meu nome. — ela sentou-se, cruzando as pernas e olhando-a de baixo para cima, enquanto seu pé balançava num ritmo irritante. — No mundo em que vivemos, não há amor, Emma Swan. Há apenas futilidade, dinheiro e tesão. Saiba jogar ou você irá afundar com os tolos.

— Quantas cópias você tem? — perguntou-lhe com o choro entulhado no esôfago. — Quem mais tem acesso à elas?

— Várias. August e eu.

Emma balançou a cabeça e comprimiu os lábios com força, recusando-se a se demonstrar fraca. Olhou novamente para as fotos, lembrou-se daquele momento com um sabor torturante de saudade: Regina e ela na cabine do ensaio, semi despidas e tomadas de desejo. Se deixasse aquilo ser publicado, decerto ferraria qualquer oportunidade futura na carreira da amada. Já havia trazido tanto dano à fotógrafa, pensou que ela já não suportaria tanta dor e decepção.

— Livre-se delas e dele. Eu caso com você.

Flashback off.

— Em? — aproximou-se, tocando-lhe gentilmente no ombro nu, exposto pelo modelo do vestido. — Está tudo bem?

— Não. — ela disse muito baixo. — Não está tudo bem.

Mary se abaixou à sua altura, respirando com um pouco de dificuldade.

— Querida, veja só… — começou, virando o rosto da melhor amiga para o seu. — Nós somos adultas e a vida é feita de escolhas, sabe disso, não é? Esse casamento foi escolha sua, não pode dá para trás agora!

— Eu não a amo, Mary. — falou meio sem graça. — Já amei, mas agora não há mais todo aquele amor, passou…É só um contrato, uma chantagem.

— Em-

— Eu sei o que vai dizer! — cortou-a na metade. — Sei que vai dizer que tudo isso é culpa de Regina e eu ainda estaria feliz com o noivado se não tivesse me envolvido com ela. Sei que vai culpá-la por toda esta bagunça, mas ninguém aqui tem culpa de nada, tampouco Regina, que não fez nada além de confiar o coração a mim e eu, bem, eu… — parou, pois o choro ameaçou tomá-la por inteiro. Os olhos ficaram aguados e vermelhos. — Eu só a machuquei com um monte de mentiras e falhas e agora não posso me redimir, porque isso irá destruí-la.

— Emma, não. — Mary segurou o seu rosto angelical entre as mãos gordinhas. — Isso não é verdade. Regina não é ingênua, ela sabia onde estava se metendo quando resolveu transar com a filha do patrão dela. Pare de se culpar tanto, certo? — beijou-lhe a bochecha rosada. — Vocês duas erraram e você se machucou tanto quanto ela. Não adianta mais remoer o assunto. Você tentou se desculpar, não foi? Esqueça isso, siga a sua vida! Sabe que se fizer alguma loucura será destrutivo para as duas.

— Eu estou tentando. — limpou a lágrima que ousou escorrer pelo viço direito. — Já vou descer, pode chamar o carro.

Mary sorriu, consolando-a penosamente.

— Mude essa cara! — pediu. — Está com cara de dor, não podem vê-la assim, tente sorrir um pouco.

Emma procurou por mais um pouco de ar e finalmente encontrou uma reserva dentro de algum lugar por entre os escombros da própria dor e martírio.

— Eu vou estar sorrindo quando for preciso. Não se preocupe.

Mary assentiu e se retirou para deixá-la em paz. Logo em seguida, Emma averiguou todas as opções que lhe restavam e por um fio de sanidade, não se exasperou e fugiu do controle. Retocou o rosto com um pincel exposto na psichê, olhou-se por mais uns segundos e tomou o celular, visando a tela. O ritmo cardíaco acelerou, enquanto ela discava o número salvo pela registradora.

Depois de uma longa insistida, a chamada foi atendida. Só havia um silêncio, pois ninguém do outro lado disse algo.

— Oi, eu… Estou nervosa. Não sei ao certo o que dizer, se quero dizer, se você quer ouvir, se vai… — respirou com força, o ar se comprimia ao redor dela. Estava eufórica. — Sendo sincera, achei que você não fosse atender, pensei que o sinal da caixa postal cairia novamente e então eu gravaria outra mensagem que você não iria se dar ao trabalho de ouvir. — ela riu com vontade de chorar, distraindo-se do que dizia. — Eu fui tantas vezes à sua casa que tenho medo de desconhecer outros trajetos. Eu te liguei tantas vezes e chorei sempre que a chamada foi dispensada. À essa altura, sei que não adianta falar muita coisa. Sei que nada do que eu diga vai mudar a sua decisão de me descartar com tanta indiferença. O que também já não teria tanta relevância...

Agora, o ar na outra linha também pesava e alguns suspiros rastejantes eram ouvidos. Um silêncio se instalou tão rápido que se foi.

— Não tenho força para continuar me sequelando tanto e nem para te ferir com tanta constância. — Emma falava pausadamente, segurando o impulso sensível de se desmanchar em choro e declaração. — Não posso arrancar de mim o pedaço que você se instalou, não posso apagar o que vivemos e me esquecer de algo que me tomou e me tornou exatamente quem eu sou agora. Só está ao meu alcance conviver comigo mesma e aceitar que fomos feitas para estarmos longe. Eu vou me contentar com os seus fantasmas e tentarei ter uma vida boa. Espero que um dia você me perdoe e entenda que eu não sabia sentir todo aquele amor até o dia em que você me tocou. Saiba que eu tentei fazer a melhor escolha pensando em você, embora você nunca irá compreender.

Os suspiros tornaram-se graves maiores e ainda assim o silêncio ecoava. Emma desligou, engolindo novamente aquela fagulha presa no esôfago.

O relógio marcava 13h00 em ponto. Os bancos da Catedral já estavam quase todos preenchidos. Havia muita gente importante de toda a Chicago e cidadelas da região. O lado direito pertencia à noiva francesa, que havia embolsado bastante dinheiro para trazer todos os amigos que pôde. Os pais, tão tradicionais quanto a filha, sentaram-se no primeiro banco. Ingrid, preferindo distância do ex-marido e de sua nova garota fedendo a leite, juntou-se a eles. O pequeno Henry já esperava lá na frente, aterrado em seu mini paletó. Ele segurava uma almofada bordô com as duas alianças de ouro.

Depois de alguns minutos de espera, a primeira noiva adentrou o tapete aveludado de linho vermelho: Lilian estava deslumbrante; o cabelo totalmente penteado em um coque apertado. O vestido era tão belo quanto o de Emma, porém mais comportado no colo, compensando com as costas totalmente nuas. Ela foi beijada pelos pais e outros familiares, muitos outros murmuravam elogios à sua beleza. O tempo estava passando, Emma tinha dez minutos de atraso e o povo ainda se entretia com conversas paralelas. Outros convidados iam chegando e sentavam-se, incluindo Regina, para a surpresa de muitas que conheciam os boatos de seu caso com Emma Swan.

Ela sentou-se ao lado de Bele, que sorrira ao avistá-la entrando. Regina parecia ter calculado todos os movimentos que daria, agindo com cautela até mesmo no passar.

— Você está bem? — cochichou a amiga.

Ela fez que sim com a cabeça, antes mesmo que Bele concluísse. Exatamente tudo, parecia estar calculado.

Mary Margaret adentrou um pouco após, seus olhos visualizaram os de Regina e por um segundo ela se perguntou se aquilo estava mesmo correto. O seu assento era próximo ao dela, o que lhes dava uma boa aura de comunicação. Mary ajeitou-se no banco, tendo cuidado com o linho da roupa imaculada. Ouviu um bocado de murmurinhos sobre Emma: onde ela estava e por que a demora. Ela própria já estava ficando nervosa com toda aquela espera. Foi só suspirar de agonia que a loira deu as caras.

Neal já estava em seu posto, enlaçando o braço de Emma ao seu. Ele sussurrou algumas palavras em seu ouvido que a fez mais tranquila. O som clássico dos instrumentos ecoaram a Igreja e a noiva caminhou sobre o tapete. Os olhares todos eram seus, mais precisamente um: o olhar ilegível de Regina, olhos indecifráveis que brilhavam. Emma parou assim que a viu, congelou inteiramente e o coração percorreu todos os espaços do seu corpo. Neal apertou-lhe o pulso, fazendo-a voltar à realidade. Mary e Bele entreolharam-se, pois ambas notaram a tensão entre as duas.

Sob uma enorme onda de nervosismo e culpa, Emma ergueu a cabeça e continuou caminhando sem se deixar fraquejar. O percurso até Lilian parecia infinito e a cada passo maior se tornava o espaço. Não ousou olhar para trás e encarar a face de Regina, pois sabia que aquilo seria martírio. Lilian sorria, como quem não carrega o menor peso na consciência, estava bem e livre de qualquer sensação alarmante. Deram sequência a cerimônia e a música foi interrompida. O padre saudou ambas as noivas e deu início às preces. Era dito um discurso sobre o casamento e o poder da benção sobre um casal. Quanto mais se dizia coisas, versículos e votos, mais Regina se enrijecera.

Olhou para Bele como quem não suportaria nem mais um segundo naquele ambiente e se sentiu sufocar com uma dor que não se media proporção. Foi nesse instante em que a ruiva percebeu que permanecer ali não seria o melhor para Regina, se ela se desesperasse, se ela chorasse, se ela não se sustentasse, tudo teria sido em vão. Seria melhor não ter insistido tanto para que ele fosse, pensou, vendo-a agora tão abatida.

No instante em que se deu início aos votos de Lilian, Regina sentiu a cabeça girar, tudo escureceu em sua mente e algo dentro dela encolheu e sangrou.
Não suportaria,
não suportaria,
não suportaria.

Pediu licença a quem bloqueava o seu caminho e passou apressada por todos aqueles desconhecidos. Não pensou muito, apenas foi. As pontas finas do salto envernizado criaram um eco ritmado no interior da Igreja, todos ouviram as pegadas estridentes e viraram-se para observá-la fugir; muitos não sabiam o porquê, mas Emma sabia e quase correu para abraçá-la e afagar o seu rosto entristecido. O vestido longo e preto lhe marcava as curvas que delinhava até os calcanhares. De costas, era só uma mulher atraente saindo às pressas. De frente, era uma mulher dilacerada por uma dor que não deveria lhe pertencer.

Regina não suportou,
não suportou,
não suportou,
não suportou.

Deixou a Igreja com os olhos alagados e o estômago embrulhando.

Notas finais
Uff! Que dor, ver de branco o seu amor, casando-se com outra. Meninas, trago o final assim que sobrar um tempinho nessa semana, para não cortar o clímax, serei rápida. Beijo, beijo, beijo! Obrigada pelo feedback carinhoso e a confiança em cada capítulozinho.