Fatal Attraction
5 I'm not going nowhere.
Notas iniciais
Durante a tarde, quando esta já chegava ao seu fim, Emma dirigia espavorida com os olhos afogados em lágrimas. Não sabia exatamente o porquê do choro, tampouco da angústia, era simplesmente dramática em algumas situações e havia se acostumado com isso.
O céu rangia freneticamente com o barulho dos trovões. Do carro, era possível enxergar as imensas coroas de relâmpagos se formando por entre os demais estardalhaços. A previsão do tempo indicava possíveis ventanias acompanhadas de chuvas fortes.
O certo seria esquecer os planos para a noite e seguir o caminho para casa. Qualquer pessoa com o mínimo de sensatez tomaria essa decisão. Outrora, talvez Emma faria isso. Não hoje, porque hoje estava decidida a beber as melhores cervejas do Snow's. Beber muito, não pouco.
Sendo consciente, fez um enorme favor a si própria e deixou o carro em casa. Henry estava cochilando com Kira no meio de suas pernas e ambos pareciam cansados; Henry tinha a testa suada, apesar do tempo frio. Provavelmente estava correndo pelo apartamento em busca de Kira, como sempre fizera para brincarem.
Emma foi até à suíte do seu quarto para tomar um banho relaxante, gostaria de ter tempo para mergulhar numa banheira com sais de ervas e óleos perfumados; não fazia isso desde que se mudou para Chicago. Foi bastante breve, vestiu-se com um vestido verde-musgo que ia até a altura das coxas e pôs por cima uma jaqueta escura de couro. Deixou as madeixas soltas para secarem ao ar e se maquiou muito rapidamente. Seu joelho ainda ardia e optou por não abusar dos jeans coladíssimos.
Passou no quarto do garoto e lhe deu um beijo no topo da cabeça. Em seguida, fechou as cortinas e também a janela, deixou que apenas a luz do abajur iluminasse o quarto e reproduzisse as imagens de super-heróis nas paredes através da luminária.
Chamou um táxi por celular e o esperou na recepção do prédio, que para pavor de seus nervos ansiosos, custou a chegar. Enquanto isso, Emma retirou o celular do bolso outra vez e fez uma ligação para Mary Margaret.
— Emma, é você? A ligação está ruim, querida, é você? — disse Mary, com um tremor perceptível em seu tom de voz.
— Ei, sou eu! Deve ser essa chuva interferindo no sinal da cidade. Só liguei para avisar que estou a caminho do Snow's.
— O quê? Você vai sair nessa chuva? — berrou Mary, sobressaltada.
Emma sorriu de soslaio.
— David! — gritou a amiga, com a boca próxima do aparelho. – David, venha cá! Diga para a mãe do seu afilhado que ela não pode vir para cá com esse tempo!
Emma ouviu as risadas do marido de Margaret através da ligação, pôde escutar os dois discutirem, até que David tomou o gancho da esposa.
— Se você vir, deixará sua amiga grávida à beira de um colapso. E se não vir, eu ficarei péssimo por ter que beber sozinho nesse bar quase vazio.
David tinha um tom divertido na voz, o tempo inteiro. Emma ouviu com exatidão quando Mary o estapeou nos ombros.
— O táxi acabou de chegar, vou indo! Não comece sem mim, hein?!
Emma desligou, antes que Mary pudesse dizer novamente que ficasse em casa até por obséquio.
À meia luz, Emma adentrou pelo hall do bar. Mary estava parada no balcão à sua espera. Como a própria já havia imaginado. Suas feições não apresentavam um bom humor e ela teve que lidar com os sermões da amiga.
— Mary, pelo amor de Deus! Esqueça essa sua mania super protetora só hoje! – Emma implorava e David a ajudou:
— Querida, Emma já é uma mulher adulta. Você não tem que a controlar o tempo inteiro. Relaxe, vamos beber um pouco e é só isso.
Mary fez que não repetidamente. Ás vezes, o marido era tão irresponsável quanto sua amiga.
— Diz isso porque não é você quem a leva para casa depois. Eu não me importo com a bebida, mas sim com o motivo.
Emma sacudiu a cabeça para os lados. Não teria essa conversa novamente.
— Ah, não! — Emma pigarreou, impaciente. — Essa droga outra vez? Mary, já chega, ok? Veja, há clientes!
As duas se olharam de maneira ríspida e depois Mary os deixou batendo com o avental sobre o balcão.
— Acho que eu perdi algo. – disse David, um tanto confuso.
— É uma longa história David, você não gostaria de saber.
Ele concordou e achou gentil contornar o assunto.
— Como está meu afilhado? Você não o trouxe mais para cá. Prometa que vai trazê-lo no fim de semana!
David se referia a Henry. A cabeça de Emma vagava sempre tão longe nos últimos dias que havia esquecido de trazer o filho para passar um tempo com os padrinhos.
— Eu prometo! – disse ela, e os dois brindaram duas cervejas engarrafadas.
— Emma, eu sei que disse que beberíamos juntos... mas eu preciso ajudar Mary, você sabe. Disse isso só para limpar a sua barra.
A loira sorriu concordando e pediu para que o rapaz não se preocupasse com ela. Ficaria bem bebendo sozinha e não se importava se ele fosse.
O pensamento ressoando a figura de Regina e Emma recusava-se sequer a pensar em outra coisa que não fosse o sabor quente que os seus lábios avermelhados possuíam.
No fim da noite, Emma mal podia encarar o próprio reflexo no espelho do banheiro. As paredes estavam manchadas e ela se encostou de súbito para acender um cigarro. Duas moças que saíam de lá avisaram para a gerente que alguém reclamava com si mesma dentro do banheiro e murmurava coisas sem nexo.
Mary pôs a bandeja sobre a bancada e foi até lá verificar se a amiga estava bem. A única coisa que viu foi a imagem de Emma embriagada tragando um cigarro apagado e, repetindo o nome de Regina várias vezes seguidas.
— Era só o que me faltava! – estranhou Mary.
— Eu só vou se ela for também! – lamuriou-se Emma.
Mary levantou a amiga do chão e a pendurou em seus ombros. Emma continuou sibilando abobrinhas descontextualizadas e pendendo o corpo para baixo.
— Emma, você me poupe! Pare de fazer força, já tem um bebê pesando o suficiente aqui dentro! – reclamou Margaret.
Emma se soltou e foi cambaleando para o lado de fora. Ela balbuciou algo que Mary não ouviu e amiga a seguiu, logo depois de pedir ajuda ao marido.
— Ela agora resolveu falar uma língua a qual só ela decifra. E não é francês! – Mary comentou brava para David, que se culpava pela situação.
Emma se sentou no meio fio e reclamava do isqueiro que havia perdido. David pediu para que ela segurasse a mão dele e entrasse no bar com Mary Margaret.
— Não vou a lugar algum, você me entendeu? Eu só saio daqui com ela!
Mary levou a mão à testa, num ato de desespero. A chuva havia dado uma trégua considerável e somente a neblina da noite jazia no céu.
— O que vamos fazer agora? – perguntou David, os olhos sobre Emma.
— Agora nós vamos ligar.
— Ligar para onde?!
— Emma, me dê o seu celular aqui! – disse Mary, enfiando as mãos para dentro da jaqueta em busca do aparelho.
— O que você está fazendo?! Socorro, estão me roubando, socorro! – gritava Emma, dramática.
— Pare de fazer cena, Emma, eu não estou roubando você, sua dramática.
Mary desbloqueou o aparelho com facilidade, não custou muito em achar o contato de Regina, pôs o número para chamar e aguardou por mais alguns toques.
— Emma?! Sabe que horas sã...
— Não é a Emma, Regina. Escute, por favor! Não me interessa que horas são, venha até o bar o mais rápido possível. Sabe que não há táxi para essas bandas nessas horas, não hesite em vir no seu carro. Vou repetir, venha com urgência! – era tarde, passava das duas e Mary desligou sem aguardar Regina responder.
— Agora é só aguardar – disse ela, olhando para David que tentava, em vão, fazer Emma entrar no bar.
Cerca de quarenta minutos depois, Regina finalmente surgiu. Visivelmente preocupada e irritadiça. Abriu caminho e entrou, Mary notou que ela havia chegado e foi ao seu encontro.
— Primeiramente, me ouça! – ordenou ela, com os braços cruzados acima da enorme barriga. – Será que não vê o quão perigosa é toda essa atração que vocês sentem? Isso tem que parar! Mas hoje... Hoje você a levará para casa.
Regina sorria debochadamente enquanto a ouvia, na dúvida de como deveria agir. Avistou Emma do outro lado, na calçada. Ela estava acompanhada de um homem louro, que media por volta de 1,90 de altura.
— É o meu marido, servindo de babá para uma mulher adulta de 30 anos. Pode ir! – comentou Mary, notando a avaliação da outra.
Quando Emma viu Regina se aproximar, levantou-se no mesmo instante. Desvencilhou-se nos braços dela e sussurrou um monte de coisas incoerentes. Emma exalava um cheiro forte de álcool.
— O quanto você bebeu? Minha nossa, Emma! Venha cá. – disse ela, ajudando-a a pôr-se de pé.
Emma tentou caminhar sozinha e acabou batendo numa porta enferrujada. Ela tombou e tornou a ficar sentada.
— Ai, estou ferida! Socorro, alguém me ajude! – balbuciava ela, ainda dramática. – Quebrei alguma coisa! – E Emma começou a se apalpar, jurando que sentia dor.
Regina se aproximou para erguê-la. Emma rejeitou a ajuda e lhe empurrou para longe.
— Não encosta em mim, não! Quem é você? – berrou Emma, sobressaindo para trás.
— Regina, sua besta! – lembrou ela, tentando se aproximar uma segunda vez.
— Regina? É você, má chérrie? Regina, minha flor. É você?
— Sou. Vamos embora. Me dê sua mão.
Emma deu uma risada insinuosa. Regina não viu graça. Puxou-a pelos punhos, séria.
— Regina, mon amour, vamos ficar mais um pouquinho. Não quer tomar algo? – insistia Emma, mal enxergando a própria sombra.
E Regina bateu os pés no chão, impaciente.
— Eu quero que me deixe levá-la embora daqui – sussurrava. – Que tal irmos para à minha casa?
De longe, Mary Margaret acompanhava a situação. David e ela tentaram observar a distância. Ambos sorriram vitoriosos quando viram Regina convencê-la a entrar no carro. Ela os fitou a contragosto, sorrindo sem mostrar os lábios.
Era um fim de madrugada fria; a névoa no céu escondia uma lua ampla e clara. Chovia enquanto dirigia, e Emma não parava de se lamentar. Doía o joelho e o braço.
Regina estacionou no jardim e deu a meia volta para desfazer o cinto de segurança que havia colocado em Emma. Depois foi um trabalho tirá-la de lá, sob a chuva que caía e as encharcava.
Levou-a para o seu quarto e a ajudou a se desfazer do vestido molhado. Da jaqueta e das botas. Um braço a segurava pelos ombros, e os cabelos gotejantes de Emma se arrastavam sobre seu pescoço; ela sustentava-se em Regina, que com muita dificuldade se desfez do zíper emperrado. Depois era só persuadi-la a entrar no chuveiro.
— Eu não vou entrar, Regina... Não pode me obrigar. – dizia a voz suavemente entrecortada.
E Regina a tocou possessiva na cintura, tateando seus ossos do quadril. Levou-a a pulso para o banheiro, e a loira sibilava risadas fraquinhas. A água aquecida escorria pela ducha, direto para o seu corpo aturdido. As mãos manhosas de Regina se enlaçaram por entre as madeixas, desemaranhando os fios. Os olhos de Emma fecharam-se, saboreando os toques com maior intensidade
— Regina, você é o meu amor? – sussurrou-lhe, e a respiração desenfreada tocando o ouvido da morena.
Sou!, quis lhe dizer.
E enquanto pensava se diria ou não, o olhar de Emma pairava sobre ela. Seus olhos verdes estavam lá, como olhos de gato parado na escuridão. E Regina sabia que quando desviasse, eles ainda estariam lá, à sua espera.
O barulho da água contra o chão jazia intocável entre elas. O tempo havia parado diante das duas e os olhos de Regina buscavam uma análise mais sutil das feições de Emma.
Seus grandes olhos esverdeados cintilando lagos e cristais. Seus lábios finos de tom cereja, costurados acima do queixo semelhante a uma banda de maçã. Os dentes bem cerrados e muito brancos, proporcionavam-lhe o volume exato nas bochechas ao sorrir. Covas bem desenhadas que afundavam no canto da boca e as clavículas repletas de belas pintas castanhas abaixo do rosto.
Como não havia se dado conta de que a tinha bem ali? De repente, parecia ter visto brilhantes bem diante dos seus olhos; talvez eles sempre estiveram lá, mas Regina mirava na direção errada.
— Emma, é você – disse-lhe, baixinho – você é a minha garota! Gold precisa saber. – seu olhar parecia triste, penoso, demasiado em lágrimas. No entanto, era somente um olhar de quem havia se dado conta do que perdera por aderir ao estoicismo. Emma era perfeita para a campanha, e sua fama no exterior agradaria os patrocinadores.
Emma sorria de olhos fechados, o corpo escorado nos azulejos do compartimento de banho e suas mãos nos ombros de Regina, ainda se apoiava, recuperando a sobriedade. Não entendia sobre o que ela falava, mas gostou do som que faziam os seus lábios quando a chamava de sua.
Regina achou que o tempo no chuveiro já era o suficiente e o desligou, logo pôs uma toalha ao redor de Emma, para secá-la e a levar para sua cama. O quarto estava levemente aquecido, havia um criado-mudo à esquerda da grande cama forrada em cetim toque de seda dourado, sobre ele pousava um abajur moderno que estava aceso iluminando parte do cômodo.
Regina caminhou até o seu closet e escolheu algo que servisse em Emma, para que não dormisse sem roupas. A vestiu com uma de suas camisolas de renda, com alças finas que deslizavam facilmente pelos ombros da loira. Os dois pares de olhos não se largaram durante o vestimento e, quando acabou, Regina sentou-se à beira da cama e viu Emma se aproximar pronta para dizer algo.
— Você está brava por eu ter bebido além da conta? – disse ela, corando por fora e por dentro.
Regina abriu a boca para pronunciar uma resposta, mas algo a dizia para não tocar no assunto. Que simplesmente esquecesse, e então Emma não o faria novamente.
— Você devia dormir. Já passa das quatro, tente relaxar. – levantou-se em seguida para sair, mas Emma a segurou pelo punho.
— Não vai não, fica.
Queria rejeitar o pedido de Emma, mas a voz era tão doce, e o calor das mãos tão convidativo, que deu meia volta no mesmo instante.
A loira a olhava com ternura, enquanto Regina se desfazia de boa parte das roupas e seus sapatos. Engatou de joelhos até Emma, e a tocou sutilmente na face.
— Eu não vou a lugar algum. – disse ela, de forma mansa.
Emma quis beijá-la, Regina quis que ela o fizesse, mas as duas apenas se entreolharam e deitaram-se uma de frente para a outra.
— Regina, tem problema se nós apenas dormimos assim... Só por hoje?
O modo morno na voz de Emma fez com que a morena apenas assentisse com a cabeça. Esta foi a deixa para que a modelo fechasse seus olhos, segura de que Regina ainda estava ali, e sua mão pousava sobre a dela.
Emma dormiu por longas horas, um sono pesado e sem sonhos. Regina dormiu ao seu lado, tão profundamente quanto e as duas provavelmente se atrasariam outra vez.
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