Fatal Attraction

13 I'm completely lost.


Notas iniciais
Olá, minhas meninas, estou trazendo para vocês um capítulo de conflitos após a visita de Regina à Cora. Algumas leitoras se entusiasmaram com a possibilidade de conhecer um pouco mais do passado das nossas personagens, e eu, particularmente, acho relevante para melhor captar as personalidades das duas. Do fundo do meu coração, espero que o capítulo agrade, porque eu adorei escrever a interação entre mãe e filha, pois será de suma importância na história. Se no mais, vocês tiverem dúvidas e afins, sabem como discuti-las e eu também deixarei o meu twitter (que muito foi cobrado) nas notas finais. É só isso, anjinhas, boa leitura!

― Irresistível. Inconsequente. Irritante. Imaturo, ás vezes. Doce. Sexy. Lábios finos, beijo quente. Mãos macias, toque excitante. Braços fortes, pegada marcante. Olhos claros, profundos, cheios de boas intenções. Eu mergulho sempre que me olha. Não consigo encará-lo por mais de dois minutos sem me afogar naquele maldito par de olhos esverdeados.

Dizia Regina para a mãe. Ela lacrimejava sem se dar conta, enquanto o peito se debatia por dentro. Sorria de um jeito indecente, incomum para Cora. Ela deduziu rapidamente que a sua menina estava apaixonada.

― Falando desse jeito, até parece que está enamorada por esse rapaz. Cuja descrição me parece arrebatadora. Devo ter me molhado só de imaginar todas essas características.

― Mamãe! ― vociferou Regina, levando a mão à boca. ― Guarde sua malícia para si mesma, poupe-me do trauma imaginário.

― Só estou me divertindo com você, querida! ― desculpou-se a mãe, tocando-lhe a mão por cima da mesinha de centro. ― Mas, ora, parece-me mesmo um belo rapaz. ― ela a penetrou com o olhar, como se soubesse de algo que Regina não imaginava. ― Confesso que já havia perdido as esperanças quando li aquela matéria escandalosa sobre a filha de Robert e você. Acreditei, decerto, que você estivesse envolvida com aquela moça.

Regina engoliu em seco. Desviou o olhar para o prato de biscoitos jazendo ao lado da chaleira e o remexeu, caçando o mais empoleirado de açúcar que pôde encontrar.

― Não sei aonde você pretende chegar com este comentário entojado, mamãe. ― ela pôs a massa na boca, mastigando-o irritantemente. ― Emma e eu trabalhamos juntas. Você sabe que esses jornalistas adoram criar boatos para dar o que falar na mídia. Foi só um mal entendido. ― e continuou a mastigá-lo, provocando Cora com o ruído repetitivo que os dentes produziam na farinha crocante.

― Não se faça, Regina. ― Cora empinou o nariz. ― Você sempre me deu motivos para desconfiar do jeito que se engraçava intimamente com as garotas. Eu estou no meu direito de deduzir o que está bem debaixo dos meus olhos.

Regina fingiu estar surpresa, sorrindo cinicamente. Continuava a mastigar, demonstrando total desinteresse naquela conversa acidental.

― Sou bonita demais para me guardar apenas para um sexo. Desculpe por desapontar você, sua maldita tradicionalista.

Cora empertigou-se de uma vez. Recebendo o comentário desagradável de modo ríspido. Odiava a personalidade frívola e cretina da filha. Perguntava-se onde havia errado na criação da menina. O gênio de Regina era forte e duro. Capaz de quebrar qualquer sensibilidade materna.

― Não seja estúpida, menina! E pare de mastigar assim, você sabe que me dói os nervos quando morde desse jeito!

Regina cerrou os punhos, cheia de malcriação. Pôs os dentes para fora, tal como uma loba. Ela grunhiu para Cora e lançou um supetão contra o prato de biscoitos. A louça tamborilou sobre a mesa e finalmente se repartiu em farelos ao chegar ao chão. O barulho fora irritante e causou um enjoo estressante na mais velha. Cora abriu os lábios, espantada com a atitude indelicada da menina. Só se deu conta que a cena fora real, quando percebeu os cacos espalhados na cerâmica imaculada do chão.

― Você continua a mesma menina mimada que era quando o seu pai faleceu! Achei que já havia superado a perca daquele que a tornou tão bruta.

― Dobre a sua língua infeliz quando mencionar o papai! Ele foi aquilo que você nunca será. Nobre e presente! ― Regina esbravejava de forma animal. Os cotovelos bem apontados; parecia que estava se preparando para arrancar partida a cada palavra que cuspia. ― Vá para o diabo com a sua especulação ridícula! Estou cheia dos seus comentários maldosos sobre o meu pai. Ele só a suportou por tanto tempo, porque amava a mim mais do que qualquer outra coisa em sua existência, aguada, graças a você, que o perturbou até o seu último suspiro de vida.

Os lábios de Cora tremelicaram, a mão coçou para esbofeteá-la. Não suportava que a filha fosse tão tirana com ela. Ela deu para frente, prevendo a raiva dissipando após lançar a mão na face de Regina.

― O quê, diabo? Vai me bater? Vamos lá, mamãe. Esbofetear o meu rosto irá acalmar os seus nervos. ― Regina a provocava, deixando de fora a dentadura completa. Um sorriso ameaçador esboçara nela. ― Bata-me logo, sua covarde!

Nesse instante, com os olhos avermelhados e o fôlego se esvaindo junto da respiração entrecortada, Cora se pôs a chorar. Virou-se de costas, choramingando de remorso. Percebeu, finalmente, que a filha se tornara aquilo por culpa dela. A sua indiferença durante a infância da menina resultou naquele ser humano carente de atenção, que de tanto se sentir só, endureceu e esfriou. Recordou-se das vezes em que deixou a pequena Regina trancafiada num quarto, repensando em suas malcriações, quando na verdade, toda a cena anterior, fora uma encenação para lhe pedir carinho. Se não tivesse sido tão cética com a filha, não teria lhe feito herdar a natureza manipuladora que a mesma possuía com tanta demasia.

― É tudo culpa minha. Por Deus, se eu tivesse percebido antes! ― replicava entre soluços. ― Eu não deveria ter sido tão dura com você, é culpa minha! Maldito seja o ar que agora respiro!

Regina pendeu o maxilar com força. Insistiu em recusar o sabor embargado das lágrimas a rolarem sobre o viço. Os pensamentos se embaralharam e não soube como deveria organizá-los a tempo. Não viu outra solução, senão fugir dali, deixando que a mãe se martirizasse por todos os anos de descaso.

Pisou em cima dos cacos, fazendo-os se diluir em pó. Do jeito que era caprichosa, tinha de sair fazendo alguma cena para enfurecer a mãe. Acelerou os passos firmes para o quarto, dando a volta através da mesa. Levou os dedos ao rosto, limpando o excesso das lágrimas que deixaram a pele salgada após secarem.

― Aonde você vai, querida? ― Cora a seguia desesperadamente pela casa. ― Regina, meu bem, perdoe-me. Eu não quis ser insensível, não quis estragar a nossa manhã! Deixe-me provar que mudei; que já não sou mais aquela mulher ambiciosa e cheia de pretextos!

Regina entrou em seu quarto soltando fumaça pelas narinas. Agarrava-se aos trapos, jogando-os na bolsa. Havia trazido quase nada, não planejara passar esse final de semana no apartamento de Cora. Levara apenas o que já tinha de emergência no carro.

― Pessoas como você são incapazes de mudar. Estão sempre dando um passo para trás, entre a luz e a escuridão. Você, mamãe, não é nada especial para mudar essa realidade. ― as palavras caíram em cima de Cora como uma nuvem preta de desconciliação, envolvendo-a em sua plumagem sombria.

Jogando-se no chão, ela abraçou-se aos pés da filha. Uma cena que Regina nunca supôs que presenciaria. Descabelava-se, lamuriava-se. O céu parecia ser os seus olhos, chorando a tempestade mais grotesca que havia de existir.

― Mamãe, pare já com isso! Que se passa em sua cabeça para se atirar aos meus pés? Não seja dramática, levante-se. ― deu-lhe a mão, a fim de trazê-la para cima. Cora insistia em desaguar entre o cetim de seu roupão, obrigando Regina a descer até ela, agarrando o seu rosto entre as palmas das mãos. ― Está tudo bem, certo? Eu a perdoo. Eu a perdoo, mamãe! Agora pare com esse show, em nome dos deuses dos mares. Você acabará choramingando toda a água do mundo com essa cena.

***



Ouviu-a dizer aquilo que mais queria. Cora soube que estava perdoada, ou pelo menos ouvira que sim. No ápice do seu desgaste mental, Regina a levantou do chão e a fez se sentar sobre a cama. As duas se olharam por um tempo, processando a imagem uma da outra. Depois, abraçaram-se, engolindo os resquícios das lágrimas que endossavam a cena. Regina decidiu que ficaria. Que usaria o final de semana para refletir em suas confusões interiores; na discussão com Cora, no mal entendido com Emma e na relação arcaica entre Gold e ela.

O prato principal do jantar se chamava Silêncio. Cora preparou uma sopa e pães de aveia, a qual Regina se referiu como "refeição pós-discórdia". O olhar exigente da mãe pairou sobre ela e, logo, calou-se.

― Desculpe pelo que disse mais cedo. Sobre sua relação com outras garotas. ― comentou Cora, tão baixo que Regina achou que tivesse ouvindo vozes do além.

― Uhum. ― murmurou-lhe. ― Que seja.

Cora tossiu. Interrompeu o que fazia e foi até o lado esquerdo da mesa, escavacando uma gaveta de sua estante. Na volta, trouxe consigo algo nas mãos. Ela parou ao lado da filha e atirou o objeto ao lado do prato que continha a rala sopa de salmão.

Regina esbarrou os olhos sobre uma revista. A sala estava iluminada pela fraca luz do lustre traseiro, fazendo-a lançar um esforço para enxergá-la melhor. ― O que pretende, Cora? ― implicou-lhe a questionar, arregaçando os antebraços diante da mesa.

― É o mesmo olhar que você tinha com o Daniel. ― apontou com o queixo para a imagem da capa, reluzindo luz sobre ela. ― E eu nem precisei observar de perto, Regina.

― Daniel e eu éramos apenas duas crianças. Eu estava apaixonada pelo meu melhor amigo, isso não significa nada. Não há uma garota que nunca tenha tido um primeiro amor.

― Eu sei, eu sei! ― Cora se sentou ao lado da filha. Suas sobrancelhas estavam baixas, delineando um olhar triste. ― Eu lembro o quanto você o amou. Lamento que as coisas tenham acabado daquela form...

― Mamãe, não! ― Regina esbravejou. ― Não me venha repetir o motivo do acidente que, ― ela aumentou o tom de voz. ― você ― e o baixou outra vez. ― causou! Daniel morreu porque você não me deixou salvá-lo.

― Mas foi um acidente, querida! Você não podia fazer nada. Os médicos nunca chegariam a tempo. Você acha que teria mudado algo se eu tivesse permitido que a minha garota de apenas, quinze anos, subisse em um cavalo à procura de um médico, em uma maldita cidadela? Foi um acidente! Não foi culpa minha que o cavalo dele tenha sido mal treinado e o levou ao chão, causando aquele drástico acidente no estábulo. Quem imaginaria que as nossas férias acabariam tão mal? Eu lamento, filha, lamento!

― Cale-se, mamãe. Você bem sabe que eu já superei a morte de Daniel! ― Regina vociferou ao ranger os dentes. ― Foi um acidente. Certo. Morte instantânea. Certo. Dane-se! É passado, qual a maldita relação com essa revista de fofoca?

― Querida, ― Cora segurou a mão de Regina delicadamente. ― não pode mais negar para mim que o seu amante é essa garota da foto. Acha que não vejo tevê, que não assisti àquele noticiário? Eu a vi, Regina! Eu vi o seu olhar para Emma. Você a ama. É o mesmo olhar de quando eu a vi pela primeira vez com o Daniel. Você ainda não se deu conta de que se apaixonou, sim?

O coração de Regina borbulhou em batidas desconexas. O sangue ferveu em suas veias, acelerando a pressão sanguínea ao bombear o ritmo acelerado. Sob a pouca luz do teto, suas pupilas dilataram ao encontrar a imagem de Emma em seu pensamento. As palavras se formaram em sua boca, mas era covarde demais para admitir o que já estava claro e evidente.

― Eu não estou pronta. ― sussurrou para a mãe. ― Não ainda.

Cora assentiu, pressentindo a injúria que causaria a menina, se persistisse naquele assunto. Deitou-a em seu colo, apoiando a cabeça ao ombro e as mãos lhe acariciavam as costas, de cima a baixo, em uma carícia inquietante.

***



No dia seguinte, a paz cobria os seus espíritos como um manto cobre a um berço. Regina acordou, desabrochando os braços e pernas para fora dos lençóis. Cora havia adormecido ali mesmo, ao lado da filha. Regina se levantou adiantada, aproveitou o incidente para passar um café e o levar à cama. Fez a gentileza de acompanhar torradas e frutas ao café, pondo-os em uma bandeja. Cora se surpreendeu com a atitude, porém guardou a boa impressão somente para si, receando que a menina se tornasse arrogante.

O sábado teve um fim esporádico. Acabou-se em um piscar de olhos. O dia fora calmo e ensolarado, pássaros a cantarolar e folhas a cair. A noite fora um pouco mais longa e Regina tirou bastante proveito, não havia nenhum barulho no ambiente, senão o relógio tiquetaqueando no fundo da sala. O final de semana inteiro se fez curto. Ela mal pôde acreditar no quão rápido aquela distração acabou. Não queria admitir, mas sentiu falta de Emma em todos os minutos que esteve longe dela. Seu peito doía, chamuscava de saudade. Era difícil torná-lo real em voz alta, por isso o manteve em segredo, guardado a sete chaves em seu coração.

Quando a segunda-feira chegou, tentou-se reprimir e se enfiar dentro do colchão. Recusava-se a enfrentar a realidade. Embora se animasse com a hipótese de esbarrar na bela escultura loura de Emma Swan, envergonhava-se, pois relembrava o último encontro que ambas tiveram e isso a enlouquecia. Mas que diabos, que diabos! Você tinha que ter feito aquela bela despedida, hein, Regina Mills? Oh, claro! Que ótima impressão ela deve está guardando de você. Ficará muito feliz em revê-la! Ha-ha! Dizia para o próprio reflexo no espelho, enquanto escovava as madeixas.

― Querida, Sidney já trouxe as suas chaves do carro. Disse que já o deixou na pose, apenas a aguarda. Está pronta? ― dizia Cora, adentrando de mansinho no quarto da filha.

― Entre, mamãe. Já acabei... ― Regina deu um longo suspiro, guardando os últimos utensílios no necessaire. ― Oh, não. Espere, onde está a minha maleta? Eu a trouxe!

Cora estendeu a pasta de aço para o alto. ― Esta? ― disse, sorrindo. ― Vamos, eu a acompanharei até o carro!

Regina sorriu aliviada e caminhou para fora do quarto, alcançando o pertence com a mão livre. Chegaram ao andar de baixo em menos de dez minutos e ambas foram bem recepcionadas por Sidney, que, de fato, espera a fotógrafa em sua vaga.

― Obrigada, Sid!

― Não há de quê, senhorita Mills! ― reverenciou-a agradecido.

Antes que a filha partisse, Cora a tocou no ombro direito, induzindo-a a olhar para trás. De relance, a morena se voltou para a mãe.

― Regina... Querida, espere! ― ela incitou. ― Não cometa a mesma burrice que eu. Não se torne o que eu me tornei, certo? Você é jovem, o tempo está ao seu favor.

E o tempo sussurrou aos seus ouvidos que a mãe estava certa. Assim, Regina adentrou em seu veículo e dirigiu em direção à agência. Mastigou cada palavra que fora dita pela mãe durante o seu trajeto. Anuviou-se em pensamentos angustiantes, desejando não sentir tanto. Uma segunda-feira acinzentada e nebulosa dificilmente significava algo positivo. O dia estava em seu estágio mais fúnebre, reduzindo o ar à cinza, gotas frias e sombrias. Regina estacionou o veículo em sua vaga e finalmente respirou o ar gélido das paredes envernizadas que o prédio possuía. Sentiu uma brisa avassaladora lhe queimar a pele, fazendo-a repuxar o, sobretudo cor de chumbo, para um lado e para o outro, aquecendo o corpo arrepiado.

Ela batia os dentes, pela frieza e pela quantidade incontável de coisas para dizer quando encontrasse com a amante. Apressou-se em pegar o elevador, tornando-se inquieta dentro dele. Queria tanto avistar o rosto de Emma, tocar as suas mãos, sentir o seu cheiro forte e inebriante. Os sapatos chacoalhavam pelo chão, tão apressada estava para chegar à sala da loira. A porta estava fechada, então resolveu bater primeiro. Não houve respostas e aquilo a irritou. Ela girou a maçaneta e entrou sem delongas, para no mais se deparar com um enorme vazio. A sala estava abandonada, não havia vestígio algum da presença de Emma nos últimos dias.

Regina desceu pelas escadas, foi até à recepção e perguntou pela filha de Gold aos funcionários. Ninguém registrou tê-la visto, nem mesmo o próprio irmão, Neal, que estava por ali, aguardando alguns financiadores novos.

― Como assim não a viu? ― exclamou ela, quase relinchando de nervoso. ― Ela é a maldita da sua irmã! Deveria saber de seu paradeiro, ora!

― Ora lhe digo eu, querida! Wow, wow! ― Neal se agitou, voltando a atenção para o rosto preocupado da colega. ― Simplesmente não a vi! Emma é desprendida, sempre foi. Quando some, ninguém a encontra. Além do mais, você não é nada diferente. Onde esteve todo o final de semana? Mil coisas aconteceram por aqui, deve ser por isso que ela se enfiou em algum buraco. Você está tão por fora!

Regina cerrou os punhos, controlando-se, pois odiava que não lhe contassem tudo de uma vez. O tom investido por Neal estava azucrinando o seu juízo. ― Buraco? Como é que é? ― ela avançou alguns passos, reduzindo a distância entre eles. ― Conte logo o que aconteceu, sabe o quanto eu odeio esses segredos.

Neal riu, mas estava temeroso. ― Não se enfureça. Logo mais você acabará vendo com os seus próprios olhos. Emma não pode se esconder para sempre. ― ele notou a agitação da reação de Regina, preocupando-se. ― Mas veja só, tem muita coisa acontecendo por aqui, certo? Não é nada de mais, acalme-se. Emma só deve estar cansada, sentindo saudade da França.

Regina se pôs a esbravejar infantilmente. Não queria acreditar que Emma estivesse sendo tão melancólica o quanto soava. Estava sentindo uma raiva incontrolável dominar o seu corpo, optando rapidamente por sumir dali, deixando que Neal jazesse a sós. Ela se trancafiou em seu quarto escuro, onde ninguém jamais a acharia, senão Gold ou a própria Emma. Lembrou-se que possuía cliques da loira em sua vinheta de negativos. Eram fotos espontâneas que Regina havia tirado sem a autorização de Emma. Havia fotos suas gargalhando com os funcionários do prédio, fotos em que segurava copos fumegantes de café matinal, fotos suas cochilando no meio do expediente, escondida por detrás da máquina de lanches e fotos em que simplesmente existia ali parada entre o espaço e o tempo.

Regina selecionou aquelas que mais gostou e fez a revelação naquele mesmo momento. Já não era a primeira vez que sentia falta de Emma e se consolava com fotos suas. Costumava guardar bebidas e discos entre o seu material de trabalho, considerando-o um refúgio para quando estava desinteressada do mundo real. Serviu-se de uma dose de Martini Extra Dry e repousou em uma poltrona de canto.

***



Emma estava tão distante nesses últimos dias. O rosto frisava uma expressão vazia, de solidão e confusão. No domingo, tinha saído com Henry e Mary Margaret para tomarem um chocolate no parque. Enquanto o filho brincava com David perto do lago, as garotas contornaram o assunto sobre a gravidez de Mary e trataram de falar sobre a loira. Mary deixou claro o quão desapontada estava sobre a irresponsabilidade da amiga ao se envolver com uma funcionária do seu pai, além de Emma estar mergulhando de cabeça em uma relação completamente instável com a mulher.

― Regina não é o tipo de mulher que a levará para um almoço de família, Emma. Ela não vai cuidar do seu filho no domingo, enquanto você prepara o café da manhã. Ela não vai colher flores e pô-las em um jarro do lado de fora. Ela é promíscua, entendeu? É uma mulher moderna, tem lábia e sensualidade. Você precisa parar de se iludir.

Emma bufou, massageando os ombros para conter a exaustão que aquele assunto lhe trazia.

― Ela é diferente quando está a sós comigo. Parece outra mulher, você não entenderia, mas as máscaras caem e ela é apenas Regina.

Mary riu fraquinho. ― Não seja tão ingênua, minha amiga. Ela nunca irá baixar a guarda. E outra, ela ficará furiosa quando descobrir tudo. Não sei como você pôde esconder algo tão grande por tanto tempo.

Nesse momento, a loira mordiscou firme o próprio lábio. ― Você tinha que tocar nesse assunto? ― Emma franziu o cenho, relaxando a cabeça para trás.

― Acha que evitá-lo vai fazer tudo desaparecer?

― Não...

― Então.

― Oh, Mary, eu estou tão perdida nessa vida! ― lamuriou Emma, enfiando os dedos entre as madeixas. ― Killian não para de telefonar, estou com medo de que eles tenham visto a matéria sobre Regina e eu. Essa maldita tecnologia!

― Como você foi embora da França desse jeito? Sem dar nenhuma explicação, trazendo o Henry e uma gata de estimação? O que deu em você?

― Eu precisava de um tempo. Estava enlouquecendo. Ela estava exigindo muito de mim, eu esquecia o que era respirar a cada segundo em que estava ali.

― Ela tem ligado para você?

― Não.

― E não tentou contato com o Henry?

― Não.

Na segunda negação, Mary ficou confusa, desconexa de tudo o que havia imaginado.

― Por que você não atende o Kill? E se algo sério estiver acontecendo por lá? ― Mary tocou em seu braço, acariciando a pele por cima do cardigã. ― Você devia telefonar de volta. Saber como ela está... Não pode fugir para sempre.

― Acha que eu não tenho tentado? ― Emma sentiu a voz falhar. ― Eu faço as malas todas as noites, reúno toda a coragem do mundo e penso em tirar o Henry da cama, mas quando fecho os meus e tento passar pela porta, eu imagino o rosto de Regina em minha mente e todo o meu corpo amolece.

Ao ouvir a amiga, Mary se entristeceu inteiramente. Por maior que fosse o seu descontentamento sobre o relacionamento de Emma com Regina, tinha de admitir, sem ela, a loira definhava em completo desastre.

― Oh, Emma, você está tão perdida nessa vida!

Mary a abraçou instintivamente, como se o seu coração fosse capaz de absorver a aglomeração de sensações embaraçosas que a pobre amiga teria de vomitar para esquecer alguém que, provavelmente, seria o abismo de Emma, que tão inocentemente, nascera para beirar ao amor insano. Regina jamais seria merecedora de alguém como sua amiga, Emma era como uma caixinha de música para uma criança triste, como um sorvete cremoso em um dia escaldante. Emma era impossível de ser dada a alguém.

***

― No que diabos você estava pensando, Emma? ― Neal berrou, avistando a cabeleira loira da irmã jazendo na recepção. Emma estava serena, assinando alguns papeis. ― Você disse que voltava à noite, que seria rápido de resolver, onde se meteu? Passou o final de semana sumida, ninguém a encontrou em lugar algum, até a Regina perguntou por você. ― Emma continuou cabisbaixa, assinalando tudo. Ela estremeceu a ponta da canela ao ouvir o nome de Regina, mas nada a fez parar. ― Emma! Está surda?!

Emma respirou fundo, e rolou os olhos. Largou a caneta sobre o papel e o olhou irritada.

― Estou ocupada, não vê?

― Quê? ― Neal arregalou os olhos.

― Eu precisava de tempo para fazê-los entender, certo? Foi difícil explicar a situação.

Neal amassou os lábios, balançando a cabeça em um sinal de afirmação.

― Está bem, Em. Está bem. Só... Dê um jeito nessa confusão, beleza? E não faça nenhuma besteira, eu me preocupo com você e parece que está tudo desmoronando ao seu redor.

Emma sorriu triste, virando-se para o irmão. Ela sussurrou um “onde ela está?”.

― Num hospício, eu espero. ― ele brincou. ― Está louca da vida. Sumiu durante o final de semana também, achei que vocês tivessem fugido juntas para algum país latino. Mas eu esqueci a ideia logo que encontrei aquela sua jaqueta cafona. Estava jogada no sofá.

― Você é patético e aquela jaqueta é um ícone. ― Emma riu baixinho, desembaraçando os fios de cabelo para trás. ― Ela ainda está no prédio?

― Não faço ideia.

Eles se entreolharam por alguns segundos, até que Emma se recordou de algo. Neal a interrogou sobre o porquê daquela cara de surpresa.

― Já sei! Eu sei onde ela está!

― Ótimo! ― disse ele, ao vê-la dar as costas e girar nos calcanhares. ― Emma, ei, espere!

― Sim?

― A sua mesa da sala. Está toda arranhada...

Emma empalideceu, abrindo a boca em um formato redondo.

― Sim... Sim-m. E se procurar no chão, vai achar fios de cabelos negros e medianos. Só não tente imaginar o que tudo isso significa.

Ela bateu os pés, deixando-o zonzo. Neal não quis imaginar e fez o mesmo que ela, andarilhou até o seu rumo.

Agora, havia uma enorme fera para ser combatida. Emma precisaria de novas armaduras, pois a luta estava no ringue, aguardando o seu entrosamento.

Notas finais
Sei que algumas questões ficaram no ar e vocês devem estar se perguntando de quem elas estavam falando o tempo todo. Sinto muito em dizer que esta dúvida persistirá até o próximo capítulo, mas eu sempre me divirto com as sugestões de vocês, portanto aguardo todas na tl. O próximo sai logo, juro! O tt é @w0lflovely - vou seguir de volta sim. ♥ Beijão!