Fatal Attraction
19 I remember you in my mind.
Notas iniciais
Juntas, o casal de noivas adentrou o apartamento sob o silêncio sussurrante da madrugada fria. Emma foi se livrando do traje de Cisne ao longo das passadas que dava para o quarto. Lily a seguiu, vislumbrando as poucas curvas — no entanto apetitosas —, que a loira possuía em seu contorno alvo. Correu os olhos, desejosa. Há muito não provava o gosto da amada. Decidiu que deveria lhe dar tempo para desenjoar dos últimos acontecidos entre ambas. O caso com Regina estava recente e o rancor por Lily ainda faiscava dentro de Emma. Olhando-a daquela forma tudo pareceu esvair com enorme liquidez: não podia mais esperar, queria ter a sua mulher.
Ela se aproximou de Emma e a abraçou pela cintura, depositando as digitais firmes em seu quadril ossudo: reconhecia a excitação que dominava a noiva quando era tocada naquela região. Lily provocou uma carícia atrevida por ali e logo foi se encostando por trás. Usou o nariz para arrastar o cabelo pesado da sua nuca e o esfregou para um lado e para o outro. Beijou-lhe demoradamente e sugou os lados de seu pescoço numa fricção úmida. Emma suspirou desdenhosa, tentou afastá-la, mas Lily fora firme e a prensou na coluna da parede.
— Lily... — pronunciou mansamente. — Não sei se é uma boa ideia. Não acho que estou no clima.
— Sh! — Lily a tomou para si e acertou os seus lábios com um beijo repentino. — Fique quieta. — disse entre o passeio por sua boca e voltou a mordiscar os finos e rosados lábios de Emma. Enquanto a beijava, despiu-se agilmente. O corpo de Lily era forte e gelado, por vezes pesado. Diferente do morno sensor que pertencia à Regina. E Emma pensou nisso. E Emma se odiou por estar pensando nela.
— Prefiro na cama! — afastou-se da loira e tratou de arrastá-la para o quarto que estava próximo delas. — Estou com saudade sua.
Cada vez que Lily dizia algo, Emma sentia o corpo retesar de modo negativo. Era mais fácil quando ela simplesmente estava calada e invisível aos seus olhos.
— Apague a luz e vamos logo com isso!
Obediente, Lily o fez. Desfez o feixe do lingerie e avançou sobre a noiva novamente. — Se é assim que você prefere — sussurrou lascivamente. — É assim que o faremos!
O escuro noturno preenchia o espaço no ambiente e somente os raios lunares invadiam o quarto naquele momento. Emma correspondeu aos toques de Lily, ainda que resistente. Permitiu que ela se instalasse no centro de suas pernas e roçasse saudosa entre o seu sexo. O contato era mais sexual do que íntimo: como uma necessidade quase que visceral do corpo em liberar a excitação de longo prazo. Elas pareciam distantes uma da outra, evitando o contato visual e focando no que de fato interessava: satisfazerem-se. Sob uma ótica brevemente racional aquilo se parecia com um duelo de quem alimentava mais o orgulho patético. Havia asco de um lado e repulsa do outro, acima de qualquer outra coisa reproduzida entre elas. Era visível e inexorável. Elas mantinham certo ritmo nas investidas e se tornava ainda mais odioso continuar aquela relação.
Lily abocanhou os seios de Emma e os lambeu um após o outro. Viu que a loira ficaria inerte naquela noite e quis ceder ao seu capricho. Emma nem gemia nem expressava interesse naquele contato ardiloso. Esforçou para se concentrar nos seus estímulos, mas nada parecia surtir efeito. Logo, sentiu a língua da noiva escapar dos bicos e deslizar até o centro do abdômen rijo. Foi esquentando com a agilidade e finalmente arquejou ao sentir que ela já chegara ao seu nervo, ondulando para o meio e acertando o pico entre os lábios da vagina. Lily a chupou sem cerimônias e sem delongas. Emma espantou os pensamentos ordinários que lhe assomavam e se entregou ao serpentear habilidoso que lhe acometia aquele instante. Os olhos fechados facilitavam a concentração da loira, que pouco se importava em ser tomada daquela forma. Os braços fortes de Lily se enlaçaram naquela posição única e sexual, domando a noiva para o seu prazer.
Emma parecia responder àquilo, cravejando as unhas no estofado do colchão. No deslize de sua sobriedade, arregalou os olhos na direção da janela, onde os feixes de luz caíam sobre Lily e ela. O raio de claridade escorregava de seu busto para o corpo da outra mulher. Emma então pôde encarar a visão daquele rosto a lhe devorar, ela se apavorou subitamente, estremecendo contra os lábios de Lily. Esta resmungou e perguntou o que havia de errado. Emma suspirou profundamente, recuperando o seu estado natural: ela havia pensado em Regina naquele momento, nas palavras da morena em seu tom magoado: “Eu quero que você recorde o gosto da minha boceta escorrendo pelo céu da sua boca sempre que estiver fodendo com ela.” Aquilo ecoou em sua mente, fazendo-a borbulhar interiormente; borbulhas nauseantes de culpa e pavor. Regina tinha mesmo todo esse poder sobre ela?
— O que foi? — Lily perguntou num tom baixo e apreensivo, olhando-a nos olhos. — Por que está tão nervosa, estou fazendo errado?
Emma despertou, notando que agora fazia contato visual com a noiva. Aquilo estava errado. Irreversivelmente errado. Ela não dominava a mínima sobriedade emocional e tudo o que fazia soava impuro ou drástico. Seus olhos ardiam, flamejando gotas tristes que no mais tardar escorreria em forma de lágrimas.
— Desculpa, mas eu não posso. — disse chorosa. — Isso não está certo, desculpa!
Emma recuou, arrastando o lençol livre para cobrir o corpo desnudo. Escorou-se na cabeceira da cama e uniu os joelhos, evitando a expressão desentendida de Lily.
— Sério? — a mulher esbravejou. — Outra vez essa mulherzinha? Estava pensando nela, não estava? — aproximou-se de Emma, obrigando-a a encará-la. — Responda! Você estava pensando naquela putinha?
— Ela não é uma putinha! Não fale assim dela! — a loira explodiu, evidenciando os olhos lacrimosos. — Diferente de você, eu me envolvi por paixão, não estava procurando sexo barato!
Lily sorriu cinicamente. — Oh! Então agora você vai jogar o meu erro na minha cara? Achei que já tivéssemos resolvido esse incidente. — ela se levantou, vestindo um roupão estendido à sua esquerda. — Eu já lhe expliquei milhões de vezes, Emma! Foi um deslize, eu não estava disposta a levar aquilo adiante, certo? Por que insistir em recordar uma falha? Eu falhei, mas você falhou também, admita! Por Cristo!
Raivosa, Emma pulou para fora da cama, enrolando o lençol branco em seu corpo. Procurou por sua carteira e tirou um cigarro dali. Ela chorava aborrecidamente, até encontrar o seu isqueiro e acendê-lo. Esfregou os olhos com o punho e tragou o cigarro com saudade.
— Eu não vou admitir que você compare o seu incidente nojento ao que eu tive com Regina. — ela passou esbravejando por Lily, repousando sobre a janela de seu quarto. Fitou o céu cinzento e em sua direção soprou a fumaça tragada. — Regina nem é uma putinha e nem é uma falha.
Lily se enfureceu ao ouvi-la defender a maldita fotógrafa. Para ela, Regina era só uma vagabunda aproveitadora, que havia se aproximado de Emma para herdar sua fortuna. Não há na terra quem não saiba dos milhões em herança que seriam deixados por Gold.
— Você pode dizer o que quiser e defendê-la com unhas e garras, mas ainda assim se casará comigo! — Lily sibilou com o rosto em chamas. Seu ódio era evidente, ela apontava o indicador para Emma como se lhe desse um ultimato. — E eu não vou esperar por muito tempo, apresse esse maldito voo, ou eu mesma tomarei as rédeas a partir daqui!
Emma negou com a cabeça, enfurecida. Fingiu dar atenção ao cigarro preso entre os dedos e o tragou calmamente.
— Fui clara, Emma Swan?
Lily a encarava da porta, prestes a deixá-la a sós, aguardando somente a sua confirmação. Emma compreendeu o gesto e decidiu irritá-la, mostrando-se ainda mais concentrada na ação que reproduzia com o cigarro.
— Ótimo. Finja que não ouve, você sabe muito bem o que vai acontecer se não honrar esse noivado!
. . .
O moreno se levantou apavorado ao ouvir as batidas insistentes em seu quarto recém-alugado. Coçou os olhos remelentos e se dirigiu até à porta. O seu cabelo negro estava levemente bagunçado e ainda assim o homem não perdia o seu charme. Seu novo companheiro, Neal Cassidy, dormia sereno após terem tido uma noite estonteante de sexo, regado a vinho e papos eróticos. Jones averiguou os ponteiros e estranhou o horário. Já passava da meia-noite.
— Emma?! — ele disse surpreso. — O que faz aqui?
— Desculpa, Killian. Eu não tinha com quem conversar. Mary tem estado distante e, bem, você sabe... Eu não tenho muitos amigos nessa cidade.
Ele concordou com um gesto torto, ainda desnorteado e pouco sóbrio.
— Entre, sobrou um pouco de vinho. O Neal está inerte em seus sonhos.
Jones abriu passagem para Emma e a loira se aconchegou no sofá, reunindo as pernas em cima do estofado e repousando o queixo sobre os joelhos.
— Estou muito mal, Kill. — sussurrou penosamente. — Estou completamente perdida, caindo num abismo sem luz e espinhento. Eu tenho tomado decisões erradas e sendo ingênua ao ponto de achar que as consequências das minhas falhas não irão se apossar de mim, mas elas vão. Aliás, já estão tomando posse. De repente eu falhei em tudo e as coisas têm perdido a cor para mim. É tudo uma enorme imensidão de tons de cinza.
O rapaz ouvia tudo atenciosamente, reabrindo a rosca da bebida ainda fria.
— Uau. Eu planejava servir em taças, mas vejo que é um papo meio urgente e isso não vai resolver. — vasculhando a dispensa, os seus olhos examinaram um frasco antigo de conhaque. Na mosca, aquilo serviria. — Álcool real, é disso que precisamos.
Emma aceitou a bebida de bom grado e já foi regando a garganta com a ardência daquele líquido embriagante. O álcool a proporcionava uma desinibição que a ajudava a fazer menos rodeios.
— Você sabe o que eu penso sobre isso, loira. — Jones se sentou ao seu lado, tomando-lhe as pernas para que ela relaxasse. — Não aprovo o que você e Lilian tem feito uma para a outra. Eu não entendo... Vocês eram perfeitas no início, o que houve?
— Nós nos perdemos. Nunca houve sintonia, a atração passou e só restou um compromisso. Ela me traiu, eu me odiei por não ter dado um ponto final nessa história quando tive oportunidade e agora aqui estou eu, amando uma mulher que é inconstante, rancorosa e machucada pela falta de amor.
— Está falando de Regina, claro... E sobre Lilian, bem, você também a traiu.
— Não sinto que a traí. — Emma o encarava com dúvida. Seus olhos estavam cheios de dor. — Sinto que traí Regina. Ela parece ser o certo, enquanto estar ao lado de Lily é algo errado. É traição com o meu próprio coração, porra! Entenda isso, Killian. Por favor, não finja que não entende.
— Eu entendo, loira. Só não me acostumo a não tê-la por perto. Se você deixar a Lilian, eu te perco também, não seremos mais uma família. Vão todos ficar arrasados!
— E mamãe não poderá mais lecionar nas escolas da sua família. Eu aposto que os seus pais criarão rivalidade, mas você, Jones, você não vai me perder. — ela acariciou a mão grossa do rapaz e a beijou delicadamente. — Eu sempre serei uma amiga quando você me quiser, não importa se estarei ou não casada com a sua irmã. E mesmo que, por ora, seja difícil aceitar, isso não tem nada a ver com a Regina. Lily me desencantou antes mesmo disso, o meu caso com a Mills é algo que aconteceu porque tinha de acontecer, embora soe errado nas circunstâncias em que nos encontramos. Por isso, não odeie alguém que foi só uma cereja desse bolo. — ela sorriu no final. — Certo?
Embora estivesse chateado com aquela situação, Jones balançou a cabeça vagarosamente, sorrindo igual.
— E agora? — levou o conhaque à boca. — O que você vai fazer?
— Agora? Agora eu vou lutar pelo perdão da única mulher que já tocou o meu coração. E não vou desistir, a menos que ela me mande pastar no inferno!
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