Fatal Attraction
11 I know what you feel when I touch you.
Notas iniciais
Um táxi a oitenta por hora e uma loira despedaçada no banco traseiro. Emma engoliu a vontade formigante de se lamuriar pelo mesmo motivo de outrora. E como se livraria de alguém que tocou seu coração, tocou sua alma e lhe jurava ter tocado somente o corpo? Lembrou-se de que já a viu chorar, sorrir, gemer, amar, dançar, posar, enfim. As infinitas imagens de Regina assomavam seus pensamentos distraídos, como num trailer. Escutou uma orquestra tocando ao fundo, declarando o fim da paz em seu peito. Isso parecia ser o suficiente no início. Já não lhe bastava mais?
Ela podia ouvir a própria voz dentro de si implicando com a sua confusão passional. Ora, Emma, pare de ser estúpida. Você não é uma adolescente, sua vida não é um filme de romance. Esqueça isso.
Inclinou-se de lado, visualizando os carros ultrapassarem através da janela, os faróis brilhavam em seus olhos aquosos. Os lábios tremelicavam baixinho, fazendo um som que soava tristemente. Ela sabia que havia comprado uma passagem de ida sem volta. Entregou-se como nunca fizera, sem saber por que ou qual seria o destino final.
O motorista deu sinal e Emma saltou do carro. Desceu até a portaria de seu prédio e resolveu continuar pelas escadas. Respirou fundo antes de girar a maçaneta, receosa pelo horário. Achou que Henry estivesse cochilando, por já passar das nove, mas o garoto estava bastante acordado debaixo das cobertas. Ele estava concentrado no que os seus olhos miravam. Kira estava aninhada entre suas pernas.
― Achei que já estivesse na cama, garoto. A Mary já foi? ― disse ela, observando a bagunça exposta sobre o sofá da sala.
― Estou acabando só mais um desenho. ― Henry saltou, sentando-se para lhe dar espaço entre as almofadas. ― A Mary se foi às oito. Ela disse que o bebê não parava de rodopiar em seu ventre. Deve ser como a Kira faz quando fazemos carinho em sua barriga. ― ele passou os dedos curtos no pelo da felina, fazendo-a se esparramar em seu colo.
Emma deu um meio sorriso. Largando as botas num canto da sala e se jogando ali com o filho.
― O que vocês fizeram hoje?
― Ah, nada de interessante. Nós brincamos um pouco no salão de jogos e depois voltamos para cá. E também vimos aquele programa que você apareceu com a Regina, antes da Mary ir embora. ― o garoto comentou simplesmente, dando de ombros.
Emma o olhou, espantada. Notando o fato de Mary Margaret não tê-la esperado voltar para casa, supôs que a amiga estivesse chateada com a situação entre ela e Regina. Mary não aprovava a relação das duas, considerando-a uma má influência para que Emma voltasse a se comportar irresponsavelmente, como aconteceu em seu bar, da última vez que esbarrou com a fotógrafa. Imaginou se o garoto havia entendido algo de modo pejorativo.
― Mãe, não se preocupe. Eu sei que a Regina não quer o nosso dinheiro. O cabelo dela é tão arrumado, aposto que ela já tem o suficiente. ― ele tagarelou, aliviando o estado aflito de Swan.
― Eu sei, querido. Eu sei. ― confessou-lhe baixinho, olhando dentro dos seus olhos.
Henry aproximou o rosto do de sua mãe. Quase tocando sua testa na dela. Abriu os lábios com cuidado, deixando que as palavras saíssem genuinamente.
― Você gosta dela, não é? ― seu tom suave lhe ecoou os ouvidos. ― Você gosta da Regina, não gosta?
Emma corou subitamente. Lançou-lhe uma expressão de desentendida e se afastou um pouco.
Os dois permaneceram naquela posição, respirando do mesmo ar melancólico que ali se fizera. O garoto ansiava por uma resposta que não viria tão facilmente quanto havia suposto. Emma se embaraçou no dilema. Seus olhos refletiam o nada.
― Mãe? Você está me ouvindo? ― Mãe, fale comigo! ― dizia-lhe ao sacudir os ombros da loira. ― Isso é por causa da entrevista? Você não quer falar sobre isso? ― ele notou as suas pupilas se alagarem, Emma tinha lágrimas distantes em seus olhos. ― Por que está chorando? Está machucada? ― ele deu um espaço de tempo para que a mãe respondesse, mas Emma não se moveu. ― Desculpe-me, mamãe. Eu não vou mais falar da Regina, se isso te deixa para baixo.
Um barulho de sinos digitais se fez presente no apartamento. Era o som da companhia vindo da cozinha. Só assim para que Emma saísse do seu transe temporário. Ela olhou para o garoto constrangido à sua frente e assimilou os pensamentos.
― Acho que há alguém na porta. ― comentou obviamente. ― Está tarde, não está? Será que a Mary esqueceu algo? ― passou os olhos no relógio do pulso, levantando-se antes do garoto.
― Quer que eu atenda? ― disse ele, seguindo seus passos até a porta.
― Henry, ― ela se virou, pondo-se de joelhos para alcançar os olhos do garoto. ― eu estou bem, ok?
Ele fez que sim com a cabeça, sorrindo de forma amistosa. Ele não havia se convencido inteiramente, mas sabia fingir.
Ela levantou-se, satisfeita com a resposta. Distraiu-se e se esqueceu de verificar o olho mágico. Puxou o ferrolho de uma vez, encarando a visita sem delongas. O garoto estava bem atrás dela, espiando através de seu quadril.
Emma a olhou, boquiaberta. Acredita-se que tenha esboçado a mesma expressão por longos segundos.
― Posso entrar? ― disse a voz receosa por trás da porta.
Henry inclinou a cabeça para cima, encarando a mãe, preocupado com seus momentos seguidos de silêncio. Ele se afastou de Emma e encostou a porta na soleira, dando caminho para que a visita entrasse.
― Ela está agindo assim há alguns minutos. Você pode entrar! ― o garoto se demonstrou receptivo e ela o fez educadamente.
Emma bateu a porta em seguida, encostando-se de encontro à mesma para encará-la.
― Desculpe vir essa hora, mas eu precisava falar com você. ― Regina estava com as mesmas vestes de antes, deixando claro que não havia ido para casa. Ela estava aparentemente apreensiva, aguardando a resposta de Swan.
Escorada na madeira, a loira não fez menção de fazer qualquer sinal de que concordava com aquilo. A única coisa legível ali, era a sua indiferença em relação àquela conversa.
― Certo. Já entendi. Você não está nenhum um pouco a fim de me ouvir e claramente estou incomodando. ― ela sorriu tristemente, forçando uma simpatia incomum de sua personalidade. O que significava que estava ali por uma boa causa, de boa intenção. Ou não tão boa.
E se isso não era o suficiente para que Emma a recebesse, fosse melhor aceitar que estava na hora de ir embora. Ela ameaçou partir de imediato, consentindo com a falta de interação da loira. Deu a meia volta até a porta, onde Emma permanecia inexpressível. Ela hesitou por um instante, desvencilhando-se para se aproximar do rosto da modelo.
― Eu só queria que você ouvisse o que eu tenho a dizer. ― pronunciou em baixo tom, para que somente as duas ouvissem. ― Eu realmente queria isso.
Emma comprimiu seus lábios, arqueando um braço para impedir que Regina destravasse a trinca inferior da fechadura, surpreendo-a.
― Calma. ― disse-lhe, tão baixo quanto. ― Henry, querido, deixe-nos a sós. Pode ir ao seu quarto dormir? Já passou da sua hora.
O garoto fez um bico acuado, lançando-lhe uma revirada de olhos que provinha do gene de sua própria mãe.
― Henry?! Agora! ― insistiu a mãe.
― Está bem, está bem! ― deu-lhes as costas, partindo para o seu quarto no final do corredor.
Emma deixou que alguns minutos se esgotassem, garantindo que estavam decerto sozinhas. Ainda não havia tomado coragem para olhar nos olhos da amante, uma vez em seus castanhos, não teria mais volta.
― Emma, olhe para mim. ― Regina se pôs à sua frente. ― Sei que está decepcionada, mas, por favor... Seja complacente. Eu sou uma droga, você sabe disso melhor do que eu.
Eis que finalmente, Emma cedeu. Viu-a se aproximar um pouco mais, adentrando em seu espaço pessoal. Elas ficaram cara a cara, mastigando as palavras que esbarravam em seus dentes e por ali ficavam.
― Diga logo o que quer, Regina. Eu não tenho tempo para gastar com alguém que foge na primeira oportunidade que encontra.
Regina a penetrou friamente com a negritude de seus olhos. Houve um minuto de silêncio e a aspereza no olhar pareceu ceder minimamente.
― Eu quero muito fazer isso, Emma. Quero mesmo, mas não vou conseguir se você jogar na minha cara todas as vezes em que eu não fui capaz de corresponder à sua entrega.
― Eu não disse nada, é você quem está fazendo o próprio julgamento. ― disse Emma rudemente. Havia uma grande quantidade de mágoa em seu tom.
Regina respirou intensamente, dando para trás. Ela se afastou consideravelmente, visualizando a mobília para espairecer. Deu de cara com um aparelho de som, fazendo-a obter uma ideia insana, sobretudo excitante.
― O que há naquele aparelho? ― perguntou curiosa, caminhando em direção ao Home Theater. Ela tocou sobre a carcaça preta, verificando onde deveria introduzir o dedo para descobrir por si só.
― O quê? ― Emma a seguiu. ― Se queria saber quais músicas eu ouço em meu tempo livre, poderia ter esperado para me perguntar amanhã.
― Não vim até aqui ouvir Beatles e tomar conhaque com a filha do meu chefe. Se for o que está pensando. ― Regina foi inoportuna o suficiente para fazer Emma repensar sobre tê-la deixado ficar.
Ela finalmente encontrou a ligação via Bluetooth, escolhendo uma faixa pessoal em seu Smartphone.
― Regina... ― balbuciou Emma, sem entender o motivo daquilo.
A morena regularizou o volume, deixando-o agradável para ambas às audições. Ela se afastou do conjunto de móveis, voltando sua atenção para o que realmente a interessava. Emma.
― Lembra-se da primeira vez em que nós dançamos juntas? ― Regina foi caçando o quadril de Emma com as mãos, procurando a pele para sentir em conjuntura dos seus dedos.
― Lembra-se de como você fez meu corpo queimar de dentro para fora? ― disse mais, enlaçando-se a loira enfim. ― De como os nossos corpos pareciam serem feitos para aquela dança? Você me seduziu, domou minha carne fria e a fez chamuscar de desejo por você.
Emma quis derreter naquelas mãos tão convidativas que a persuadia para uma dança suave no centro de sua sala, sob a luz tremeluzente do lustre. A canção era lenta e apaixonada, como o seu hábito de fitar os lábios de Regina quando estavam tão próximas.
― Você não pode ter esquecido sobre como aquilo terminou. ― Regina encostou os lábios no ouvido esquerdo de Emma, fazendo-a sentir um arrepio avassalador ouriçar seus pelos da cerviz.
Os seus pés embalavam o ritmo sutil que havia nas batidas da canção. Roçavam-se lascivamente, uma encontrando o trepidar incessante do coração da outra. Não era só uma dança, era uma chance de se conectarem carnalmente.
Emma mordiscou os próprios lábios com força, comprimindo os olhos num feixe firme. Ela tentara evitar que sua vontade eloquente de agarrar-se à Regina a dominasse. Uma lua cheia estava costurada por entre o céu negro daquela noite, o que projetou um véu incandescente de claridade sobre seus corpos colados, dançantes, atraídos como ferro e ímã.
Havia tanto a ser dito das duas partes, mas poderiam simplesmente aceitar a magia que esbanjava através da química envolvida em seus encontros. Emma desceu suas mãos até a própria cintura, recolheu as de Regina e as pôs no topo de seu pescoço.
― Você está tão quente. ― sibilou a loira, ao mesmo tempo em que sentiu um calor atroz percorrer sua pele tocada por Regina.
Com o rosto voltado para a Janela, sentindo-se embalar pela presença de Emma e o ritmo excitante da música, Regina gemeu um ''sim'' para a amante. Ela estava em estado de enlevo.
― Eu nunca me senti assim com uma mulher antes. ― Regina confessou, num fio imperceptível de voz. Era quase inaudível, mas Emma ouviu e sorriu trêmula, embora sua amante não tenha presenciado o riso.
Havia um suor agonizante que escorregava nos dedos de Emma, transpassando a seda do vestido musgo de Regina. Nervosismo ou paixão latente, sabe-se lá o quê. Sabe-se apenas que a aura que as cercava era composta de uma atração infindável, ora eletrizante, ora pungente.
Regina tomou o controle da dança, guiando a parceira para a bancada mais próxima da janela, distanciando-as do centro da sala. Emma foi pega de surpresa, permitindo-se ao ímpeto induzido pela morena. Sentiu seu quadril se chocar contra a madeira, como se tivesse sido arremessada, tão intensa fora a sensação.
Querida, passe a noite. Eu irei amar você como você precisa ser amada. Querida, você quer algo de mim?
Não precisa olhar mais, porque eu abro minhas portas. Você nunca irá querer outro amor.
Ela deslizou para a ponta e pôs as pernas envoltas na cintura de Regina. ― Você precisa ir. ― sibilou calmamente, a boca de Regina estava em seu pescoço, varrendo os lábios com sutileza. ― Com toda a certeza do mundo, você precisa ir embora.
― Ir? Ir para onde? ― balbuciou a morena. ― Para cá? ― ela moveu os lábios até o queixo da loira, provocando-lhe devassamente. ― Ou seria para cá? ― deslizou até o canto da boca de Emma, úmida e rosada.
De repente, uma sensação passageira de formigamento aqueceu as pernas da loira, subindo para o centro e se demasiando por ali, anestesiando-a inteiramente. Regina pressionou seu joelho de encontro ao sexo de Swan e ela arquejou sofridamente.
― Pare com essa maldita tortura! ― suplicou-lhe, fincando suas unhas nas omoplatas da mulher que lhe imprensara naquele labirinto sexual.
Ouvindo o que Emma lhe pedia, Regina sorriu descaradamente diante de sua face, para que ela pudesse degustar de sua perversão. Arregaçou as mangas de suas vestes, driblando os punhos para o ventre da loira e depositando uma carícia maliciosa sobre a pele amaciada.
― Eu posso sentir o calor encharcando você por dentro, sem ao menos tocá-la. ― jurou-lhe a morena ao pé do ouvido, inflamando a tensão entre seus sexos. Roçavam-se arduamente. ― Eu posso sentir você delirar, Emma. E seu febril é causado por mim, eu sei e você sabe.
O triz entre uma boca e outra era mínimo, invisível como uma corrente elétrica. Era martirizante para ambos os lábios e o jogo da fotógrafa não fora planejado para acabar rapidamente.
― Você, acha, que... pode, fazer isso comigo? ― a palpitação na fala de Emma soava em um tom confidencial.
― É você quem está fazendo isso consigo, Emma. ― Regina recuou pelas trilhas cavadas no pescoço da loira, fungando seu nariz sobre a pele ouriçada. ― O que está nos impedindo nesse momento?
Algo vibrou em Emma e não fora seu útero. Algo quebrou a aflição sob elas e Regina não gostou. O celular disparou a tocar em seu bolso traseiro, obrigando-a a retirá-lo de lá. Ela foi ágil, passando seus olhos na tela para fazer a leitura do número. Sua expressão se dimensionou para algo indescritível, a boca se entreabriu e não mais fechou. Regina se inclinou automaticamente, esbarrando a visão no contato.
― É uma ligação internacional? ― perguntou-lhe. ― É alguém importante? ― ela notou que havia um nome específico no contato, enquanto Emma afastava o celular para trás, devolvendo-o ao bolso.
― Kill... Killian? Quem é Killian?
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