Fatal Attraction
23 How have you been?
O clima em Chicago era de um lilás orquidário e ameno. Havia chovido na noite passada e o chão ainda parecia úmido. As árvores gotejavam levemente; o sol, pouco a pouco se mostrava, revelando um calor abrasante. Passaram-se algumas semanas desde o último encontro entre Regina e Emma. Era período de férias para os funcionários efetivos da agência e portanto a morena não aparecia por lá havia alguns dias. Robert Gold acabara trabalhando em dobro, o que lhe deu a impressão de que aquele lugar não funcionava sem Mills.
Bele entrou no escritório do noivo após bater gentilmente. Ela parecia meio aflita e pálida.
— Bel, você está bem?
Ela demorou a reagir, mas disse logo:
— Sim, sim! É só que… Bem, hoje é o casamento e, hum, você sabe… a Regi-
Gold sorriu tristemente.
— Sei, meu bem. Você irá visitá-la?
— Eu estava pensando…
— Bele, você já sabe o que penso sobre isso. Regina é uma mulher adulta, está colhendo o que plantou. Sinto falta de como ela era antes de todo esse episódio sexual com a minha filha, mas… Você sabe, sei que sabe. — ele se levantou de uma cadeira giratória, abandonando o teclado de um computador portátil. — Eu tenho medo de que você se envolva muito nas aventuras de Regina e acabe se estressando, seria ruim para o bebê.
Bele havia descoberto uma gravidez há dois meses. Era uma gestação de risco, pois o seu útero possuía um pequeno desvio, por isso não podia fazer esforços ou preocupar-se demais.
— Ela é minha amiga, Gold. Está precisando de mim.
Ele balançou a cabeça levemente.
— Não acho uma boa ideia.
— Isso, Robert! Deixe-me mais adoecida, já não estou debilitada o bastante!
Dizia a ruiva em tom lamurioso. Bele sabia fingir um drama no ponto certeiro. Começou a esfregar o rostinho miúdo, como quem choramingava.
— Por que choras, filha? Hein? — Gold deu a volta para abraçá-la. — Eu não lhe disse nada grosseiro, só te pedi para que evite contato com situações de estresse por enquanto está muito no início!
— O que fazes comigo é desagradável! — ela fingia soluços. — Somente coisas desagradáveis. O que te pedi de mais, homem? Só quero saber como está a minha amiga, a nossa Regina, lembras tu o quanto ela é importante para cá? Ou esquecestes até mesmo do valor que tem ela? Ora essa, Robert! Só quero fazer-lhe uma visitinha antes do casamento. Saber se a mulher está bem!
— Está certo, querida! Se achas que vai te fazer bem, se assim cessa esse choramingado, então vai! E vê se não se demora muito por lá! Seria bom se tentasse persuadi-la a ir, hum? Sair daquela casa a fará bem, todos temos de encarar a realidade! Se há mesmo um carinho entre Emma e ela, acredito que ambas devam querer a felicidade uma da outra.
Bele concordou com o homem e murmurou baixinho.
— Regina é geniosa, não prometo nada!
— Só tente, filha!
— Ok. — ela o beijou nos lábios. — Não me demorarei!
— Promete?
— Prometo!
O que Bele tinha em mente era bastante diferente da ideia de seu noivo. Queria sim, que Regina fosse ao casamento, mas não para encarar a realidade, mas para ter a chance de moldá-la. Do jeito que era romântica e sensitiva, não deixaria que Emma se casasse com alguém que não amava tão facilmente. Era totalmente contra aquele matrimônio, não havia simpatizado nada com a francesa; desde que Robert e ela jantaram com Lilian no apartamento de Emma para conhecê-la, Bele se sentiu desconfortável perto da personalidade prepotente daquela moça. Gostava de Emma e lhe queria bem, vê-la caindo fora daquela relação era algo que muito almejava.
Chegando no condomínio da amiga, Bele notou algo de muito estranho: havia um carro estacionado ao lado do de Regina. Estranhou, logo que bateu a porta. Ninguém apareceu, então ela forçou a maçaneta e notou que estava aberta. Era de fato estranho, mas aquilo não a desencorajou, só lhe deixara curiosa. Ao passo que adentrava, notou algumas peças de roupas femininas espalhadas pelo hall. Um par de sapatos extras jaziam próximo ao quarto.
— Mas que diabos! — ela espantou-se quando abriu a porta do quarto da morena. — Regina! — sussurrou. — Regina!
Ela não estava só. Dormia ao lado de uma moça de traços asiáticos. Bele caminhou devagarinho e tocou na testa da amiga.
— Ei, acorde! Venha já para fora deste quarto!
— Bele? — murmurou a morena, rouca de sono e ressaca. — Que está fazendo aqui? Como você-
— Shiu! Estou na sala esperando, venha logo!
Regina observou-a sair de fininho e notou que a moça que havia transado na noite anterior ainda estava em sua cama. Com certeza, aquilo fora um deslize seu. Não trazia as amantes para o seu quarto.
— Oh, merda! — praguejou baixinho. — cobriu-se com um roupão de seda e usou o lençol claro da cama para cobrir a nudez da garota que dormia pesadamente.
— Que horas são? O que veio fazer por aqui? — Regina parecia aturdida, abriu a geladeira e bebericou uma jarra de leite gelada. — Uau, isso está bom!
Bele tentava entender o que estava acontecendo. Desde quando Regina dormia para além das oito?
— Sabe que horas são? Quem é aquela mulher deitada na sua cama? Pensei que era contra o jogo da pegação trazer o sexo para dentro de casa.
Regina lhe olhou com estranheza. — Honestamente? Não faço ideia. Eu acho que ela se chama Maya, talvez Milah, Mary? — sentou-se ao lado da amiga e pôs as mãos sobre o pescoço, massageando-se.
— Sabe que dia é hoje? — perguntou-lhe, focando em seus olhos distantes. — Quais são os seus planos?
— Não! Não faço ideia e também não faço planos.
Regina tentava agir com naturalidade, mas Bele sabia que ela estava fugindo do que sabia.
— Você tem certeza de que não irá?
— Não sei do que está falando.
Elas se encararam.
— O quê? — interrogou a morena. — Estou falando sério! Não sei do que você está falando.
— Não se faça de idiota. Não finja que essa é você, porque nós duas sabemos que não é. Eu sei o que você está fazendo, Regina. E acredite em mim, minha amiga… Isso não irá funcionar de nada. Não é transando com mulheres aleatórias que irá encobrir o fato que que o grande amor da sua vida estará casando hoje. Sendo mais precisa: daqui a pouco.
Regina revirou os olhos, fez-se de desentendida.
— Se você estiver falando da filha de Robert Gold, saiba que ela está muito longe de ser o amor da minha vida. Foi só um caso, já passou.
— Ora essa! — Bele a olhou com repreensão. — Quer dizer que agora ela é "a filha de Robert Gold"?
— Hum, a não ser que ele a tenha deserdado: sim! É a filha dele!
Regina agia sarcasticamente nos momentos de frustração e a ruiva lhe conhecia muito bem. Sabia que ela ficaria na defensiva e faria o possível para desviar aquela conversa.
— Então quer dizer que você não se importa mais com Emma?
— Isso!
— Sei. — ela sorriu meigamente. — Então, se eu a chamasse para irmos ao salão, você iria?
— Para quê? Odeio salão, você sabe. O meu cabelo é ótimo, eu o faço em casa.
— Hum! Então nesse caso, irá se arrumar para o casamento aqui mesmo?
Os olhos da fotógrafa se abriram e se fecharam em espaços mínimos. Ela corou instintivamente. Levantou-se e começou a fingir que havia o que arrumar por ali.
— Regina? — Bele a chamou. — Fale comigo.
— Preciso acordar a Maya, ela já dormiu o bastante.
Eis que surge ao pé da cozinha uma asiática esbelta, sorridente e vestida. Ela parecia um pouco sem graça e os seus lábios estavam inchados.
— Ei! — ela nos cumprimentou um tanto tímida. — Bem, imagino que você tenha o que fazer, então… É, eu vou indo nessa… Esse é o meu número! — ela estendeu o braço para lhe entregar um pedaço de papel branco. — Ligue-me se precisar de algo!
Regina lhe lançou um olhar lascivo e penetrante.
— Mulan! — leu. — Pode deixar, meu bem! Precisa de ajuda para achar a porta?
— Ah, não! — sorriu. — Eu me lembro muito bem.
E as duas trocaram um olhar intimamente malicioso.
— Ok.
— Cassete. — praguejou a ruiva. — São dez da manhã, acalme os seus hormônios, mulher!
Regina deu um risinho convencido e logo saiu da cozinha, jogando-se numa pilha de almofadas no sofá da sala. Bele se levantou cheia de uma raivazinha de menina mimada quando se sente desapontada.
— Regina! — atirou-lhe um travesseiro. — Levante-se daí, diabo! Você vai nesse casamento ou vai deixar todos pensando que estás em casa a chorar pela filha do chefe?
Regina se sentiu desafiada, olhando-a com tamanho desalento.
— Chorando está a mãe! — seu tom era agressivo. — Eu estou muito bem, tenho me divertido bastante, a propósito…
— Você mente, porque é diabólica e fingida, mas é sensível e romântica, por isso sei que está mal com toda essa farsa.
Bele ficou parada, esticada bem à frente do corpo preguiçoso da morena. Arrebitou o nariz e passou a bater o pé pequenino contra o piso, fazendo um barulhinho irritante.
— Oh, céus! Pare já com este tormento, Bele! — Regina se pôs de pé num instante. — Está bem, está bem! Eu vou, mas só para provar que estou muito alheia à toda essa palhaçada da família Gold.
Ela andava toda convencida para um lado e para o outro, procurando o óculos de sol e o cartão de débito. O tempo todo tagarelava sobre o quanto estava bem, que não precisava da pena de ninguém, afinal estava muito bem de saúde.
— Uhum! — Bele murmurava, concordando com os pitacos amargurados da outra. — Sei, uhum! Pare com isso, Regina, já temos tudo o que precisamos, vamos logo, o salão vai lotar, ora essa!
Mary Margaret estava tão rechonchuda com o final da gestação, que Henry passou a chamá-la de bola de neve. O pessoal todo ria, mas ela ficava furiosa, dizendo-lhe que aquilo era muito feio de se dizer. Desde cedo andava atarefada, ajudando Emma com todos os detalhes: o penteado, a maquiagem, o véu, as flores. Onde está a cabeleireira?, ela saía interrogando até as paredes.
Emma parecia serena, desde cedo que falava pouco. Respondia com muxoxos e só falava o que lhe perguntavam. Estava muito quieta e calada. Não queria muito contato com as pessoas. Passou a manhã inteira evitando o celular, que estrondava com as vinte e uma ligações de Lilian.
— Ei, querida. — Mary a fez despertar do seu momento de reclusão. — Encontrei a maquiadora, ela já está esperando lá embaixo. — dizia entre uma respiração notavelmente pesada. — Vá, já está na hora! Você ainda tem muito o que fazer até a cerimônia. Ligaram da igreja, já está tudo pronto por lá.
Emma não era uma moça religiosa, mas Lilian e a família eram. Não fora fácil encontrar uma igreja que aceitasse o casamento das duas, mas com o sobrenome de Emma, tudo se tornava mais simples.
— Ok, obrigada. — disse simplesmente. — Já desço.
Pegou o celular por um instante, verificou as mensagens, as ligações, às redes sociais: nada. Completamente vazio. De novo, um sentimento vasto de desamparo a preencheu. Ela havia aceitado o rompimento com Regina, mas não podia evitar o desconsolo que sentia um dia após o outro. Ela se arrependia de ter deixado tudo ir tão longe; arrependia-se de todas as omissões e de todas as vezes em que deixou o medo ameaçá-la tanto.
Por dentro, havia uma vidraçaria inteira perfurando os pedaços ainda inteiros dentro de Emma. Estava profundamente lânguida. Perdida em arrependimentos e falhas danosas.
O salão estava quase vazio. Bele e Regina buscaram lugares próximos, em que podiam cochichar e trocar confissões. Uma moça de cabelos coloridos massageava as madeixas volumosas de Mills, enquanto uma outra de franja vintage penteava os fios acobreados de Bele.
— Quantas vezes? — Bele perguntou, receosa. — Quantas vezes e por quanto tempo?
Regina mostrou-lhe uma expressão curiosa.
— Quê?
Bele semicerrou o olhar agudo. — Sabe que estou falando de Emma. — tocou os dedos no celular da amiga. — Quantas vezes ela ligou?
— Ah… Isso. — Regina respondeu tristemente. Reviver aquilo lhe doía uma imensidão. — Pouco mais de dez vezes nos primeiros dias. Depois, reduziu para uma ou duas ligações no meio da noite. — parou um instante, fitando um ponto inexistente na espelharia. — Ela veio à minha casa algumas vezes… Batia à porta, chamava por mim, agachava-se por uns minutos… Depois ia embora. Nos dois últimos dias, não recebi nada dela, senão uma mensagem ontem pela madrugada. Eu tinha acabado de deixar a Mulan na cama e fui beber algo na sala. Eu sempre me embriago depois das três.
Bele engolia em seco. Não suporta vê-la tão mal e saber que tudo se tratava de orgulho e mera vaidade. Regina amava Emma e Emma a amava sem hesitações questionáveis. Era triste ver duas pessoas que se amavam não conseguirem fazer dar certo.
— Como consegue viver assim? — começou baixinho. — Saber que vai ser infeliz pelo resto da vida e ainda mesmo seguir com uma farsa que só lhe tornará amarga e infeliz.
— Não vou ser infeliz só porque não deixei que Emma acabasse com o resto de sanidade que me resta.
— Pare. — repreendeu-lhe. — Sabe que não é assim. Ela é mais nova do que você, provavelmente está se sentindo perdida. Você deveria ter ensinado-a a ser mais corajosa. Olha, quer saber? — puxou uma revista e a abriu em uma página qualquer. — Cansei de tentar mostrar a verdade a você, tão cabeça dura como é! Emma e você são duas idiotas que estão sacrificando a felicidade a troco de nada. Só que dessa vez, a moça realmente tentou. Gold mesmo me disse que a via desesperada pegando celulares emprestados para tentar uma ligação e você sempre recusava os números desconhecidos.
Regina maneou a cabeça, reprovando os comentários da amiga. Não queria aceitar que estava sendo fraca e obsoleta.
— É melhor você ficar quieta mesmo. Estou quase desistindo disso. — pigarreou. — Não atendo números estranhos. Emma teve a chance dela e assunto encerrado.
Bele a olhava com dor e uma pitada de desdém. Simplesmente não sabia mais o que dizer e se calou por todo o tempo que ficaram ali. No final, tentou não fazer muito contato visual com a amiga, para demonstrar que estava chateada com tudo aquilo. Regina sabia que estava sendo desaprovada, portanto agoniava-se ainda mais.
— Por que está agindo assim, de jeito esquisito?
Bele deu uma baforada longa. — É só cansaço, a gravidez e todo o resto. — deu-lhe as costas, caminhando até a portinha de saída. — Eu preciso ir, disse a Robert que não me demoraria tanto.
Regina concordou com a cabeça, abraçando os braços em torno de si para não se mostrar desconfortável.
— Uhum. — esforçou-se para falar, pois a garganta doía com a angústia petrificada bem ali. — Nos vemos na igreja.
— Você realmente irá ao casamento?
Ela parou um momento, analisando o céu e a si própria. Sorriu, fazendo Bele se questionar sobre aquele gesto.
— Não…
— Quê? — a ruiva exasperou-se. — Então por que-
— Perderia essa oportunidade por nada. — Regina prosseguiu. — Sim, eu vou.
Bele sorriu e se despediu. Regina riu também, mas depois chorou: em silêncio, dentro de seu coração. E só.
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