Fatal Attraction
16 Goodbye my lover.
Notas iniciais
Enquanto a mente divagava entre as líricas palavras que tinha planejado oferecer à Emma, Regina saboreava a melodia romântica de Michael Bolton que tocava dramaticamente no som de seu carro. Não se lembrava de ter estado tão nervosa antes, senão quando avistou a loira pela primeira vez: desde aquele momento Emma havia se instalado dentro de Regina de alguma maneira. Não se sabe como, por que, ou se era natural sentir alguém naquela dimensão. Seguiu o conselho de Bele e apenas se deixou sentir e, quando o fez, surpreendeu-se, pois além de sôfrego, o seu amor por Emma era também gentil e lhe energizava todo o corpo e também a mente.
Ela ultrapassou a rodovia que dava acesso à rua em que Emma morava, percebendo que depois do sinal, toda a região se tornava terrivelmente assustadora e perigosa. Estacionou o veículo, ainda medrosa, alternando os olhares entre um lado e outro. Que fim de mundo mais esquisito era aquele? Horripilante não definiria com exatidão. Estava tão insegura, amava tanto aquela mulher que lhe dava cócegas no estômago a ideia de expulsar a emoção com vozes e afagos. E se ainda não fosse a hora para compartilhar o que sente, estaria pondo tudo a perder? Ora, ela jamais saberia se não arriscasse.
Dois segundos e um suspiro intenso levando ar para os pulmões, também aflitos com a decisão de seguir em frente. Fechou os punhos com força e empinou seguramente o nariz. Os nós dos dedos acertaram o centro da porta, sonorizando um toc-toc ritmado. Finalmente Regina ouviu passos, notificando que alguém havia se aproximado da porta; ela tentou sorrir, sabendo que aquilo demonstraria conforto em estar ali. No minuto seguinte, alguém girou a maçaneta e abriu apenas metade da porta, pondo-se de lado para atender uma visita inesperada, afinal, já passava das 22h00. O que Regina viu, não havia atingido às suas expectativas. Estava tudo girando ao contrário, não era assim que deveria ser.
— Olá? Posso ajudar? — disse a voz macia por cima da porta. — Está à procura de alguém em especial?
Regina estreitou os olhos, confusa. Correu os olhos na figura diante dela e não se lembrou de conhecer ninguém parecido.
— Desculpe-me, quem é você? — inconformada, Regina avançou para mais próximo, passeando os olhos na mulher alta que sorria curiosa à sua frente.
— Oh, querida… Não é bem assim que funciona. É você quem deve dizer o seu nome, não eu!
Regina gargalhou estupidamente.
— Dane-se o manual de funcionamento! Eu vim para falar com Emma — Regina tentou olhar por cima, quase esbarrando os seios fartos no rosto da desconhecida. —, ela está aí?
— Cieux! Détendez-vos, miel! (Céus! Relaxe, docinho!) — apressadamente, a mulher tentou afastar Regina com a mão. — O que você quer com a minha-
— Lily? Você ouviu alguém batendo à porta? Onde está você?
Repentinamente, Emma surgiu vinda de um cômodo anterior à sala. Cruzava a faixa de um roupão enquanto atravessava a coluna, levantando os olhos somente ao estar próxima da entrada do apartamento.
— Regina?! — ela corou subitamente. — Ah-vo-você? O que você está fazendo aqui?
Emma se apressou urgentemente, notando um calor corriqueiro lhe cobrir o corpo. Ficou ao lado da mulher, tomando a passagem da porta.
— Emma?... — Regina sibilou, trêmula. Penetrou-lhe com o olhar desentendido, ainda alheio à cena. — Quem é ela?
Então a loira levou as mãos à testa, deslizando-as entre os fios e digerindo o que viria, enfim, à tona. Covardemente, ela desviou os olhos dos de Regina e fincou os dentes nos lábios, contendo a ânsia de desespero.
— Em-ma! — insistiu entredentes. — Quem, é — virou-se enojada para o lado oposto, encarando àquela nunca vista antes. —, ela?! Diga!
De algum modo, dentro do seu ser, Regina sabia que a arma estava apontada para si. Sentiu instantaneamente que algo ali estava errado. Ela sabia que os próximos acontecimentos iriam lhe quebrar de um jeito irreversível.
— Regina, eu posso explicar, eu sei que você está confusa e tem muitas perguntas, mas-
— Chérrie, por favor! — a outra interveio, exausta de assistir o drama no olhar de ambas. — Eu me chamo Lily, plaisir (prazer) — esticou falsamente a mão, num gesto cortês. Regina não correspondeu, deixando-lhe incomodada. —, sou a noiva de Emma! Vim buscá-la, a França não é a mesma sem o meu amour.
Em uma expressão medonha, a jovem sorriu largamente com a última palavra pronunciada. Visualizando-a mais atenciosamente, Regina notou que ela se saía muito bem no quesito beleza. Possuía curvas impiedosas e cabelos finos como seda. O corpo estava coberto com um simples vestido caseiro que se esticava por todo o corpo em que sugeria um bronzeado café com leite. O tom turquesa se destacava em contraste deste, revelando uma silhueta tão bela quanto à da morena.
Regina era incapaz de decifrar toda a confusão que se proferiu naquele momento. O que via diante dela não passava de meros borrados, sombras, martírio e dor. O coração doía inexplicavelmente, pulsando em partículas sangrentas.
— Noiva? — ela repetiu com dificuldade. — Esse tempo todo… Durante todos esses meses… Noiva! Oh, meu Deus! Você sempre esteve noiva enquanto dormia comigo!
— Regina, calma! — Emma pediu baixinho. — Precisamos conversar!
Evidentemente abalada, Regina pôs a mão no rosto, escondendo a decepção que por pouco não escorria através das lágrimas. Os olhos marejados perfuravam a pele de Emma, alcançando uma parte dolorida nela: a parte que pertencia à Regina; a parte que definhava sem ela.
— Só me dê um minuto, por favor? — Emma insistiu já se pondo para o lado de fora. — Não diga que não antes de me deixar tentar! Só um minuto.
Regina balançava a cabeça, sentindo-se tonta, dentro dela ainda lateja quando tinha algum estresse e, automaticamente seus dedos alcançaram o lugar da pancada. O instinto protetor do seu próprio corpo identificava aquela situação como "perigosa". Aliás, qualquer contato com Emma era pateticamente perigoso.
Impaciente, Emma fechou a porta num solavanco estridente. Ela tentou tocar os braços de Regina, mas ela se distanciou, cortando o contato sem delongas.
— Eu te decepcionei, eu sei! Eu fui covarde, eu sei! Eu fui desonesta, eu sei! Eu sei de tudo, Regina. Eu sei o quão imperdoável são todas as coisas que eu omiti de você, mas… — hesitou, sentindo os lábios fraquejarem e a voz escapar trêmula. Regina chorava copiosamente, atenta aos detalhes. — Você era boa demais para que eu a deixasse ir, entende? Eu tentei não te querer, e… Não me aproximar, oh, céus! Se Deus existe, ele sabe que eu tentei, Regina! Eu tentei, juro que é verdade, tentei tirar você da minha mente, mas toda vez que eu fechava os olhos, o seu rosto surgia e, ali, no meu momento, você era alcançável para mim. E todas as vezes em que eu te amei, no seu quarto, na minha mesa, no chão, no camarim e no quartinho… — Emma sorriu tristemente, engolindo a lágrima salgada que penetrou a curva de sua boca. — Eu estava entregue, completamente entregue a você. Eu me acostumei a ter você pela metade, mas eu, eu sempre fui inteira, aceitando os seus pedaços. E eu ainda penso em você… Acredite em mim, ninguém nunca me perturbou como você o faz. Você tem sido um tormento para mim. E isso dói tanto! Por que você me faz sentir tanta dor?
— Emma, isso é mesmo necessário? Porque-
— Regina, por favor! — Emma tocou os lábios da morena, calando a voz teimosa. — Eu preciso falar, senão… Eu não sei, definitivamente, não sei! Você me deixa triste, triste e cega por você. Eu te amei em dor, como nunca amei antes, mas eu trocaria qualquer felicidade desse mundo para viver em dor com você-
— Você está noiva! — Regina vociferou exasperada. Depois, virou-se, choramingando cabisbaixa. — Quer que eu acredite em tudo o que está me dizendo? Então o faça, vá lá e termine com a francesa, deixe-a e fique comigo!
— Eu não posso!
— Como?
Regina arquejou, nervosa. Emma secava o rosto em toques lentos, evitando fazer contato visual.
— Eu não posso, Regina. Não posso largar tudo por você. Você é o ser humano mais inconstante que eu já conheci na vida. Agora você me quer, mas e depois? Depois você não sabe mais. Depois você tem medo do que vão pensar de nós e do que será da sua reputação, enquanto o que eu sinto não tem importância nenhuma!
Regina esperneou com uma menina, tecendo a lágrima da face. — Eu estou aqui agora! — levou as mãos ao peito, tocando o próprio corpo. — Isso não basta? Eu estou aqui, Emma... Você vai me deixar ir embora? — seu tom era doce de um jeito incomum. — Você não pode me deixar ir embora, você sabe que não pode.
Regina tentava convencê-la a lutar por elas, quando na verdade nunca houve batalha fora de seu peito. Ela quebrou à Emma, na intenção destrutiva de atenuar o seu sentimento pela loira. Agora, havia cacos demais a serem remendados.
— Por que, Regina? — vacilante, Emma ousou se unir à Regina. Elas estavam próximas o bastante; envolvidas sob o mesmo véu melancólico daquele momento. — Por que é tão difícil para nós, se algo em mim me diz que você é minha?
Regina desviou o olhar, pois sabia que aquilo doeria mais do que era capaz de suportar. Por quê? Por que era tão difícil, se algo em sua alma pertencia inconfundivelmente à Emma, se dentro dela, as letras formavam uma verdade absoluta: jamais pertenceria à outra pessoa que não fosse aquela mulher com o rosto coberto de lágrimas à sua frente. Essa questão não seria evitada, assim como ambas não seriam poupadas da dor de se abandonarem sofridamente.
Parecia tão fácil. De repente, tornou-se difícil demais.
— Não posso ser sua e você nunca será minha, enquanto estiver pertencendo à outra pessoa. Fomos longe demais, Emma. Cometemos um erro irrefreável.
— Não faça isso, por favor. — Emma sussurrou, encostando a testa à de Regina. — Não me faça sentir culpa por tê-la encontrado tarde demais.
Inerte sob o efeito desconcertante que a loira lhe causava, Regina devaneou sobre o gosto que Emma teria naquele momento. Seus lábios ainda teriam o mesmo sabor de entrega, paixão e esperança, que tinham em outrora? Lenta e vagarosamente, moveu o rosto contra o de Emma, alinhando o nariz ao seu. O movimento provocava uma triste carícia, e não havia som algum, senão o das lágrimas ao se encontrarem. Finalmente Regina a beijou na boca, lacrimejante. Roçaram os lábios sem pressa e com enorme desejo. Então, outro som surgiu daquele beijo: um estalo de adeus. Os lábios avermelhados e largados após o ato. Beijaram-se com a mesma intensidade de uma sereia ao mergulhar em águas levianas. A calda da língua serpenteando a maré da boca. O gosto espumoso das lágrimas e a maciez inconfundível na areia umedecida.
Em um instante estavam unidas, noutro, descolaram-se abruptamente.
— O que isso significa?
Emma perguntou temerosa, certa sobre a resposta a seguir.
— Você sabe o que significa. Essa é a minha despedida, nós não tornaremos a repetir.
E seguiu em frente sem olhar para trás.
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