Fatal Attraction

2 Close your eyes.


Notas iniciais
(Odeio notas iniciais e costumo dispensá-las)

Depositou as mãos sobre os próprios ombros para massageá-los, pressionava forte os olhos na intenção de conter a exaustão causada pela temporada de seleção. Não só Regina, Neal também demonstrava total desanimo com às propostas recebidas pelas oficinas patrocinadoras.

— Só pode ser gozação com a minha cara! Cinquenta candidatas e não há uma que sirva para a droga da capa?! Seu pai irá nos matar, – a morena parecia aflita, caminhava em total desdém sobre a sombra do colega de trabalho; o par de sapatos meia pata faziam um barulho ruidoso no piso. – precisamos de um rosto diferente Neal, algo conhecido, não podemos arriscar uma amadora para uma coleção como essa. Está me ouvindo, sim?!
— dizia Regina, após um dar de ombros. A risada logo escapuliu, em deslize, de seus lábios grossos.

— Calma, Regina, não gaste paciência à toa. Sabe que vai precisar dela com o que vem por aí. – meneou a cabeça, – Sei de uma que adoraria sair na capa, logo mais, sendo fotografada por você. – sugeriu o jovem, muito parecido com o pai. Porém mil vezes mais gentil.

— Ram? – Regina tossiu. – Desembuche!

O tom de graça no rosto do rapaz denunciava a raiva que seu comentário iria causar. – Ruby, sua amada do passado. – mostrara segundos antes, as expressões de alguém que estava prestes a cair no riso frouxo.

— Não fale isso nem de brincadeira, seu grande idiota. Argh! – o murmúrio sinalizando cansaço, trincou-se entredentes na súplica de Regina, que acabara de enfiar a cabeça entre os braços apoiados sobre mesa.

— Você tem noção do quanto foi difícil fazê-la sair do meu pé? E olhe que só fizemos uma vez.

— Parece que até as mais famosas deste País, fazem filas por você. – riram entre papo, sobretudo Neal sabia que o assunto incomodava a amiga. Conhecia a hora de parar, e sabia como fazê-lo.

— Aquela mulher é maluca. Completamente, Neal. Maluquinha. Sabe que em um de seus shows que convidara Bela, me dedicou uma canção?! Há uma gravação, vale o riso, acredite.

— O quê? – riram alto, bem alto. – Sua demônia miserável. – brincou Neal, – Me diga como faz, tenha dó.

Regina se levantou com um sorriso malicioso no rosto. O belo rosto: sempre tão maquiado, seja lá qual fosse o âmbito no qual teria que se mostrar. Apenas era vaidosa; perfumada até o último fio de cabelo, vestida em peças feitas para valorizarem cada traço esculpido no qual era dona. Sua vaidade era inferível.

— Vou até à esquina buscar um café. – explicava enrolando no pescoço um cachecol cor de ameixa, igualmente ao tom de seu batom. – Quer que te traga algo?

— Um café, também. E algum doce, por favor. De amargo basta a vida nesses últimos dias.

Antes de tudo, Regina faria sua caminhada diária. – esse seu momento do dia era inestimável. – Os cafés que declarava tamanha precisão, ou senão ''os pulinhos'' que ressaltava ter que dar na casa da mãe, tratavam-se apenas de desculpas esfarrapadas para fugir da realidade que, frequentemente, a abordava.

Notou um indeterminado alguém meio perdido na praça central, onde costumava passar parte do tempo. O céu sempre gotejara nessa época do ano em Chicago, fazia um frio exacerbado no parque verdejante. Entre o impasse de oferecer-lhe ajuda e, passar despercebida, fez a opção sensata em escolher a primeira opção.

— Posso ajudar, querido? – lhe tocou um dos ombros, mansa. – Você parece desorientado. Está só?

— Quero visitar à agência do meu avô. Não quis esperar minha mãe, ela provavelmente dormirá solidamente por mais algumas horas. – Deixou um sorriso inesquecível escapar entre uma frase e outra. Lembrou-lhe alguém, seus traços eram familiares.

— Ahm... a única agência que há por essas bandas, é a minha agência. – Um olhar confuso a indagou, para só então corrigir o tom possessivo: – Digo, a agência na qual trabalho.

— Bem... – explicava o garoto. – Então com certeza é da mesma agência que estamos falando. Você trabalha pro meu avô, Gold?

Regina espantou-se. Desde quando o patrão tinha netos? Neal era um tolo com as mulheres. Não havia outros filhos, além dele e Emma.
Emma, é claro. O garoto seria seu? Emma era casada?

— Você é neto do Gold? Filho da Emma, é isso mesmo? – e suas pernas tremelicaram, foi ao chão. Curvou-se diante do rapazinho. – Agora está melhor. Somos do mesmo tamanho.

— Então você a conhece? – Os lábios finos se comprimiram numa linha fina coberta de saliva.

Um arrepio audaz verteu do corpo inteiro, só de recordar as meras lembranças com Swan. – É... suponha que sim!

— Então, você poderia me levar até lá, certo? – Olharam-se; os rostos se fixaram adiante, concentrados.

Regina esclarecera honestamente, para si própria, sua intenção em evitar Emma, ou qualquer algo que a levasse a ter que vê-la.

Era perigoso, Emma, sua aproximação esquisita, por que isso agora?
Não importava. Que mal faria um favor? Era só um garoto. O caminho era também o seu. O levaria sem mais.

— Claro meu bem. Preciso comprar algo aqui perto, você vem? – surreal, a voz se fez doce, haja vista que os olhos amendoados lhe devoraram numa fome de agradecimento.

— Sim, sim! Espero que esse algo envolva um lanche. Não quis acordar a minha mãe, embora fosse o caso, ela me entregaria uma tigela de cereal afundando em leite gelado. A propósito, me chamo Henry. E você deve ser Regina, li no seu crachá. – um sorriso singelo finalizou a frase tagarelada.

Caminharam lado a lado na cidade, Regina jurou ter sentido a cartilagem do nariz congelar. Que frio diabólico fazia ali. Normalmente, a atmosfera úmida custava o ritmo daqueles que possuíam passadas lentas, Henry lutara bravo para alcançar a sucessão apressada da fotógrafa.

— Exato, sou Regina Mills – no rosto, ainda notava-se os sinais da expressão incompreendida da morena; Gold nunca mencionou ter um neto, mais tarde, conversaria com o Chefe sobre o assunto. Somente para descobrir que fora este, o motivo de uma briga presenciada por si, entre Gold e a filha.

— Então, qual é a da sua mãe? Péssima cozinheira ou, má progenitora?

— P-pro, pro o quê? – enrijeceu-se quieto no meio do chão em brasa gélida. Regina riu, abanou divertidamente a cabeça para os lados. – Nada meu bem, só quis saber se ela é boa mãe.

O garotou se moveu, pareceu não muito contente com a resposta, porém desistiria.

— Ah, sei...bem,..é o seguinte, sabe, Regina, minha mãe não é a melhor cozinheira que há no mundo. Mas às vezes cria umas doideiras deliciosas. É sério, Natal passado ela cismou em não querer ver os fogos, sabe-se por lá o por quê, então ficamos em casa revendo todas as temporadas de Friends e Arquivo X. Não poderíamos morrer de fome, não é mesmo? Então ela decidiu que faria um bolo de Natal. Daqueles com glacê dourado e sabor de frutas. Regina, ficou muito bom! – fez gestos engenhosos com as mãos pelo ar. Os dois riram, Regina imaginou a cena toda e encolheu os ombros, de fininho.

— Mas então, como eu ia dizendo...aconteceu que ontem, ela foi ao bar da minha madrinha, Mary Margaret. Ela e meu padrinho David, são proprietários de um bar muito aconchegante no oeste da cidade. Sendo que Mary está super grávida, ela terá um bebê grande, por isso sua barriga pesa muito e ela fica cansada. Minha mãe a ajuda sempre que pode, desde que chegamos a Chicago.

Regina se lembrou da moça a quem Henry se referia. Extremamente pálida, olhos meigos, bem azuis. Não notou a barriga da dona do bar, entretanto, lembrava-se do rosto redondo, que agora, fazia sentido ser um sinal da gestação.

— Então Emma foi para ajudá-la? – perguntou no momento em que seus olhos avistaram a porta de entrada da cafeteria, famosa pelos mágicos donuts, que vendiam maravilhosamente bem.

— Isso mesmo. E a ajudará hoje também. David precisou viajar para resolver assuntos que envolvem a compra do terreno do bar. Mary não daria conta de tudo sem a minha mãe. Se conhecem desde quem tiveram a minha idade.

Surgiram a primórdio, as palavras da loira na noite anterior, explicando que estava no bar por passeio. Regina lembrava exatamente quais foram as suas palavras, e tinha certeza, absoluta, que não envolviam humildade alguma.
Mais tarde, estavam os dois ao encontro de Neal. Regina com a bandeja de cafés em mãos, e o pequeno Henry, certificava-se de que os donuts chegassem quentinhos, exatamente como estavam na fornalha anteriormente.



Sobrinho e tio se abraçaram, gastaram toda a saudade que sentiam um do outro naquele abraço. O motivo pelo qual Gold não falara sobre o neto, seria porque Emma o escondeu até poucos meses atrás. A jovem embarcou grávida para à França, a pedidos da mãe, e nunca comentou nada sobre o fato. Preferiu tornar-se estável primeiro. Não queria que a julgassem como uma dessas mães solitárias.

Grávida, abandonada, por um qualquer. Onde já se viu? Não. Não teria de ouvir os absurdos que a rondearia. Só depois do filho dar os primeiros passos, conseguiu se infiltrar na carreira de modelo. Se Neal não tivesse decido fazer uma visita surpresa à sua adorável e única irmã, três anos depois do acontecido, nunca teria descoberto a existência do sobrinho. Guardou sigilo até então.

Entre um gole de café e outro, os três gargalhavam, decerto somente eles próprios entendiam o assunto. Falavam do sucesso da mãe de Henry; de como os donuts combinavam com a textura fofinha do açúcar branco por cima do creme, dos pássaros que pousavam na janela para roubarem os farelos que deixavam cair. Até mesmo do corpo magérrimo de algumas modelos. Interagiam sobre qualquer assunto que Henry os envolvessem. O garoto era uma máquina, sua boca não parava nunca.

Lancharam na sala de Regina, onde a mesma continuou até o fim do expediente. Combinou de encontrar Bela na casa da amiga. Onde chegou em menos de trinta minutos, já que a modelo fazia questão de morar próxima a agência de seu amado. – Embora que, Gold passasse mais tempo na Universidade, do que de onde vinha sua fama espalhafatosa de grandiosidade.

— Onde você esteve ontem à noite? Liguei pra você mais de oito vezes quando me disse que já tinha saído da reunião. – Bela questionava a amiga, preocupada, ao vê-la entrar pela porta do apartamento de luxo na qual era proprietária legítima. Gold havia lhe presenteado. O trabalho de modelo da jovem não pagava nem mesmo a mobília cara investida na compra.

— Adivinhe? – a olhou de relance, enquanto derramava uma bebida num copo apto. – Bati meu carro noutro que estava na calçada, perto daquele bar novo que abriu numa área humilde, meio longe daqui. Você não deve conhecer, vive enfurnada aqui babando o Gold.

Bela revirou os olhos, fez como quem não ouviu a provocação. – Não brinca?! E você entrou em cana por isso? – deu-se por curiosa, com a boca entupida de bombons, acabara de retirar mais um da caixa púrpura.

— Credo, não! Não mesmo. Longe disso. – jogou-se no sofá, analisando o mau hábito da amiga em exagerar nos doces.

— E por que não me dera resposta, hum?, que fazia que nem me respondeu? Você estava com a Ruby? – animou-se. – Outro dia, ela perguntou de você no Skype.

— A droga do freio que Robin trocou semanas atrás, simplesmente é uma droga, por isso bati. Fiquei esperando por uma carona no bar. Meu celular descarregou, odeio essa tecnologia. Como ainda não inventaram um smartphone que funcione sem bateria? – questionava para a pobre Bela, que a fitava sorrindo, – Na verdade, acho que os asiáticos já inventaram isso. – respondeu a amiga, em deboche.

Regina sentou-se, muito séria. – blábláblá, asiáticos. – imitou-a, logo, mudou a expressão, e também o assunto.

— Ruby? Por que diabos eu estaria com aquela obsessiva?

Bela riu, não conseguia sentir raiva de Regina, nem quando era apática ou, sarcástica – Vocês já estiveram juntas, por isso perguntei...enfim – sacudiu a cabeça. – Como conseguiu voltar para casa?

Levantou-se, para retocar de leve a maquiagem dos lábios. Conferiu a postura no espelho, para em seguida agarrar de volta seus pertences.

— Querida,.. se conto você não acredita. Que bom que está vestida, vamos a um lugar.

— Vamos?! – Bela perdeu-se por entre as entrelinhas. – Ah, não...não posso. Gold e eu brigamos, vi ligações da Ingrid no celular dele e a confusão se deu por si só. Ficarei aqui, a noite inteira, ele há aparecer!

Regina bufou. O hálito bravo estapeou o rosto rosado de Bela.

— Ah, céus! Não pode está falando sério! Que seja, aprenda ao menos a fazer jogos. Ligue pra ele, diga que vamos tomar um drink e espere o pombinho vir voando em busca de sua andorinha.

Revirou os olhos, outra vez, como quem pouco entendeu. Os dedos tilintaram na cintura.

— Que papo é esse de andorinha, e o que isso tem a ver com seu carro ter batido ontem à noite?

— Que demônios Bela, você é mais ingênua que a própria sombra. Ouça, Emma é a dona do outro carro, certo? Foi no carro dela que bati. Por destino ou por azar, tanto faz. Ela ajuda uma amiga nesse bar, e bem, Gold é pai dela. Gold irá no bar atrás de você, relaxe. Notei que há uma boate, casa de dança, o diabo que for, bem ao lado.

O pensamento da outra vagou, buscou conciliar as ideias. – Ok... e por que você iria lá? Achei que não gostasse da Emma.

— Certamente buscar o meu carro, o que mais seria? Ou acha que o trouxe na cabeça? Mandei Robin ir lá mais cedo, uma equipe corrigiu o estrago lá mesmo. – mal terminara de falar e já agarrara Bela para fora do apartamento.

— Não tenho muito tempo, quero chegar rápido, antes dela, de preferência. Deus me livre cruzar seu caminho outra vez, mesmo que por outra circunstância.



Na ocasião, avistaram o carro de Regina a longa distância. Bela parou o carro e ambas conferiram de cima a baixo, ponta a ponta. Combinaram de se encontrar naquele mesmo lugar no mais tardar duas horas. Regina fora bebericar algo na Sinema, balada próxima dali.

Já passara quase o tempo combinado e Bela não dera sinal de vida. Começou a preocupá-la, passava os olhos no celular de quando em quando. Havia bebido alguns Martinis, todavia enxergava bem o suficiente quando notou um certo par de olhos em particular fitá-la de longe.

Droga! Que diabos ela está fazendo aqui? Agarrou os dedos na gravata borboleta de uns dos barmans que passava ali perto, o fez parar, tomando bruscamente uma dose pura de tequila.

Emma vestia algo vermelho colado até o meio das pernas, com um decote sutil no pescoço e uma cinta-liga preta marcando a cintura. As madeixas louras reluziam um tom claro de ouro, estas ondulavam até a cintura comprimida da moça. Regina imaginou o quão macio seria tocar aquelas madeixas, o quão prazeroso seria desembaraçar fio por fio. A cada passo mais próxima que dava, o corpo de alguém tamborilava do outro lado da pista.

Merda, aonde foi que Bela se meteu? Eu vou matá-la. Ah, vou sim!

Ela chegou perto demais. Era possível mergulhar no oceano dos olhos.

— Henry voltou satisfeito hoje. Jurou ter recebido ajuda de alguém muito bonita, atenciosa e simpática. – cortejava Emma, ao lado de Regina que disfarçara, muito mal, não ter percebido a presença da outra. – Eu dei risada com o ''simpática'', não resisti. Mas juro ter me calado e disfarçado bem quanto ao resto dos elogios.

E o sorriso se fez belo no rosto. Regina queria deixá-la falando só ali mesmo ou, talvez, arrancar aqueles olhos e levá-los para si. Eram bonitos demais, mereciam estar numa caixinha sob vigilância.

— Não me provoque, ou vai beber algo com o vento. — Virou a cabeça para os lados, recuando da fumaça cinzenta do Alain Delon, encaixado bem no entrelaçar dos dedos de Emma.

O perfume forte da morena lhe invadiu as narinas, e só então olhou Regina dos pés a cabeça.

— Já comentaram sobre sua beleza? – Emma a questionou, dando sinal com os dedos no ar, antes mesmo que a outra fizesse a proeza de responder.

— Não, não! Não precisa dizer nada. Sei muito bem o quanto já ouvira elogios. E quanto ao seu ceticismo? – os olhos da morena se inundaram, debruçou-se para ouvir mais.

— Ninguém comenta, não é mesmo? E adivinhe por quê? Porque você parece gelo. Temem você, Regina! Acham que você é algum tipo de vilã, fera, não sei ao certo. Até meu pai tem medo de você. Céus, meu pai! Soa meio amargo, não acha?

Emma estava somando pontos. Estava sendo íntima. Estava dando passos, pondo lenha, aquecendo as cobertas. Regina amoleceu, um braço alcançou lento o outro, repensou em todas as atitudes que tomara desde que chegou onde estava.

— Veio até aqui somente para falar o quanto me acha obtusa? – Regina quis saber, encararam-se, com as faces num visto curto de se encontrarem.

— Regina, eu não quero discutir com você. Não vim até aqui intencionando estragar a sua noite, tampouco à minha. Encontrei com bela no Snow's, não a conhecia. Ela me falou de você, disse que veio buscar o carro e deu uma passada na Sinema para tomar um drink. Não pude deixar de me perguntar o por quê de não ter ido com ela, e ter vindo sozinha para cá.

Pisoteou com a sola do sapato uma piola curta ao chão. Um silêncio sepulcral as alcançou, não havia discórdia alguma prestes a ser expulsa dos lábios de Regina. Apenas observou os pés de Emma concluírem o gesto.
Mas dos de Emma, veio mais:

— Então quer dizer que aquela que todos temem, tem finalmente alguém a quem temer?! Ora, ora.

Quase cuspiu o gole de Martini que acabara de levar à boca. – O que foi que disse?

E Emma arfou. – Por que me evita tanto? – e disse mais, – Eu assusto você?

Calaram-se. O coração quis responder: Bem, considerando a aflição que você causa ao meu corpo e nervos, sabe-se bem o motivo.

A boca disse menos:

— Afinal, que veio fazer aqui? Dar uma entrevista? – o rosto pungia a expressão mais intimidante que já conseguira dar na vida.

— Quer saber de uma coisa? Vim porque você me deve algo. Me deve uma dança, ontem você fugiu.

Saliente e pouco intimidada, agarrou os punhos de Regina e a levou para a pista, onde uma multidão já dançara incansavelmente.

Sem censura, Regira fora literalmente arrastada. Se esforçou em cuspir alguns: ''me largue'', ''não quero dançar'', ''vamos, me largue''.

Até seu próprio corpo denunciá-la, e os braços se entregaram mornos à nuca de Emma. Colaram-se o suficiente para sentirem os pelos se tocarem uns nos outros, causando tontura em Regina. Por um minuto, parecia haver somente as duas naquele pedaço turbulento da discoteca; seu sorriso era disfarce. No mais exótico do sacolejo, Emma puxou Regina para si, e seus lábios sussurram algo em seu ouvido.

— Se admitir que nossos corpos combinaram nessa dança, eu a deixo em paz e volto para a Mary.

Regina aceitou a sentença. O que parecia duelo, tornou-se uma perfeita sincronia, as cinturas de uma mesma altura se roçaram numa delicadeza aparente. A face se virou numa lentidão aceita pelo ritmo, teria de responder um pouco mais alto, embora sua boca estivesse próxima o bastante para arrepiar uma vértebra inteira.

— Eu acabo com o seu tormento. Volte para a sua amiga. Já está meio tarde mesmo.

E os braços se largaram, bambos e tristes, ansiavam por aquele contato nos mais fundos dos âmagos.



A barriga cansada da amiga pedia urgente uma cama digna de um disparo ao corpo. Ambas aparentavam exaustão completa pela noite longa; o ambiente sempre lotara nos fins de semana. David sempre estava presente para ajudar a esposa, embora insistisse inúmeras vezes, para que sua mulher ficasse em casa descansando. Mary era uma teimosa nativa, decidira que só iria parar quando o pequeno estivesse à procura do lado de fora. Trabalharia até o dia que pudesse, e assim era feito.

Logo depois de mandar uma sms autoritária, que intimava um garoto a ir deitar e largar o vídeo game, Emma ouviu a voz doce de Mary a chamar, fechariam as portas e partiriam logo para um recinto aquecido e tranquilo.

Só depois de a ver dar partida, sentiu-se pronta para fazer o mesmo. E mal saiu das redondezas, quando avistou Regina outra vez, dessa vez ligando de um telefone público. Bem próximo dali, à volta dela, havia um conjunto de casas em estilo europeu, com longas janelas vitorianas, e portas redondas de madeira. Numa daquelas casas, Emma crescera, viu seu pai pisar em muita gente até chegar aonde estava.

— Ei, margarida. Que ainda faz por aqui? A fim de outro duelo? – brincou, num tom célere de diversão.

— O próximo será sem platéia. – respondeu, com as mãos enfiadas no blazer aveludado. – Deixei Bela com as chaves do meu carro, mas ela jura ter esquecido por descuido. Terei de pedir um táxi, – em seguida, buscou o corpo de Emma, mostrando-lhe um certo casal, encostado em um carro que ambas conheciam.

— Estão discutindo, já faz um bocado de tempo. Acredite ou não, vim aqui no intuito de buscar meu carro, e pelo visto, voltarei sem ele novamente.

Emma virou sobressaltada, não acreditava no que via. Era mesmo o seu pai, quem estava babando, ao receber xavecos da ruiva encorpada que conhecera anteriormente? Foi só espiar um pouco mais de perto e a certeza fez garantia.

— Ual! Vejo que meu velho ainda está em forma. – os encarou; mesmo que ambos estivessem distantes e concentrados um no outro. – Não ouse ficar aqui fora plantada feito um girassol. Não há táxi essa hora Regina, você sabe. Entre no carro e venha tomar uma cerveja comigo.

Não permitiu que a outra recusasse. Sua cota de rejeição estava em greve. – Se não entrar, serei obrigada a ficar aí fora com você.

Ainda na calçada, Regina fixava os pés e encarava Emma. Estava louca para ceder, adoraria ficar à sós com ela. Certamente por isso, tomou a liberdade dela mesma agarrar à porta do carro e a puxar num solavanco.

Primeiro, discutiram o gosto musical uma da outra, enquanto escolhiam uma playlist dentro do veículo.

— Emma saia, tire suas mãos daqui! Stevie Wonder é o cúmulo da caretice. – Regina dizia, e Emma apenas dava risada. Gostava do jeito autoritário da outra, e francamente, estava de quatro por ela. Com certeza a deixaria escolher a música, e até caçoar dela.

Emma tinha os pés relaxados por cima do volante, e já havia bebido três cervejas. Regina a acompanhava com a bebida, mas não com os pés. Estava muito bem sentada, escorando apenas a cabeça no alto do banco. Ficaram em silêncio por um curto tempo. Provocações eram sempre bem vindas.

— Inacreditável, minutos atrás esteve me acusando de ser cafona. Acho que não sou eu a careta entre nós.

(Jaymes Young — What is Love)

— A canção é magnífica, – respondia, com o rosto virado para Emma, dando ênfase na admiração, – ela é suave, leve e, transborda confissões. Como pode dizer uma coisa dessas? – tagarelou, e nesse momento, Emma lembrou-se de Henry, que costumava tagarelar quando estava na defensiva, e achou que os dois se dariam bem.

— Feche os olhos, ouça essa letra com a alma, – pediu uma Regina corada, – Se não mudar de opinião, deixo que escolha as próximas faixas.

— Não estou sendo mandona, quero que o sinta como eu, vamos Emma, feche os olhos... – e a outra obedeceu, porém, fez um pedido antes, – Só se você fechar também. – Regina concordou com a cabeça, e dois pares de olhos se fecharam no mesmo instante. O ar tinha cheiro de cerveja, e uma leve aglomeração de perfumes, o clima ali estava frio, mas não tanto quanto fora.

Uma podia sentir a respiração da outra, e aspiravam o mesmo oxigênio denso. A noite à volta era opaca; o céu, pesado. O silêncio ficou entre elas, intocado, um silêncio sugestivo, intransponível. Emma abriu os olhos para observar Regina.

Ela estava mesmo conectada à música: ficava linda de olhos fechados e os murmúrios da boca entrecortados.

Sentiu o coração escorregar do peito num itinerário apreensivo, e tamborilar na náusea do estômago, de tanto que batia, de tanto que pulsou desordenado na presença tão próxima do rosto de Regina.

As mãos delicadas aproximaram o rosto de Regina do seu, e lhe beijou os lábios, vagarosa. Os braços esfaimados de Regina fizeram um esforço perdido para a empurrar de si, e nem com toda pressão que tentou afastá-la, Emma desfez o que havia começado, e gostado. No final, não houve resistência, muito pelo contrário, Regina lhe devolveu o beijo na mesma intensidade. Trocaram um gosto úmido de cerveja e martíni, e um resto de batom tingiu o queixo macio de Emma.

Iniciou-se uma luta invencível de quem teria o controle, remexeram-se numa agonia só, cada qual em seu banco, desejando se unirem em um só. Pararam, e sorriram envergonhadas. Ambas constrangidas, uma por causa da outra, e cada qual por si própria.

— Quer sair daqui? – uma voz entrecortada que ofegava, fez o pedido, e Regina mordiscou o lábio de forma rápida e singela, com a mão colada ao rosto da loira. Fez que sim, rendeu-se à culpa.

A próxima parada seria o quarto de uma das duas.