Notas iniciais
Olá, meninas malvadas. Vocês me lixaram no último capítulo, hein! Acalmem-se, ok? Eu sei o que eu estou fazendo, e realmente preciso encaixar a Lily na história. Eu tenho conversado com algumas leitoras em particular e tem sido mais fácil explicar a minha ideia em trazer o universo alternativo para algo próximo à realidade. E como seria isso? Escrevendo sobre mágoas, traições, poder social, conservadorismo, a imagem da mulher no meio profissional e, o mais importante: o amor como cura. É importante trabalhar nesse contexto para mim. Por isso, gostaria de dizer que quem quiser me procurar e conversar sobre a história, não se intimide, eu trato todas as minhas meninas muito bem. Espero que gostem de Black Swan, deixarei músicas opcionais para acompanhar. Enjoy!



O espelho refletia uma seriedade indecifrável que provinha do belo rosto maquilado de Regina. O pincel esfumava o tom de Rouge nas maçãs do rosto, para em seguida pincelar um tom mais negro de vermelho nos lábios simétricos. Com um lápis, a fotógrafa reforçou o preto de sua pinta ao lado da boca. Inclinou o pescoço, aproximando-se para apreciar de perto o resultado dos truques: estava diabolicamente impiedosa.

— Como estou?

Ela perguntou à Bele, que aguardava sentada em sua cama. Há horas que aguardava por Regina. Como de costume, a jovem já batizava o estômago com um martíni. Sorriu, impressionada com a boa forma de Regina.

— É uma pena que eu já seja comprometida, além de heterossexual. Vou lhe confessar, você está absurdamente deliciosa aos olhos!

Regina gargalhou, sabia que Bele não estava exagerando. Ela realmente havia caprichado.

— Não sabe o que está perdendo — ela brincou, provocando-a com uma rápida piscadela. — Pare de beber, é você quem vai dirigir, eu não vou conseguir frear com esse vestido.

— Estou às ordens, minha rainha!

— Ótimo!

Elas sorriram, caminhando para fora do apartamento de Regina.

. . .

— É mesmo o que estou pensando que é? — Emma retirou os trajes do embrulho. — Você é maluca.

— Abra logo.

Quando se deparou com a fantasia bicolor repleta de penas, Emma corou.

— Sem chance! Você está louca se acha que eu vou usar isso.

— É claro que vai! — Lily estendeu o traje sobre o corpo da loira. — Perfeito! Ninguém conseguirá tirar os olhos de cima de você.

— Outro motivo para que eu não o vista!

— Você vai usá-lo. — Lily insistiu. — Vá logo se aprontar. É um ótimo traje.

— Lily, eu não vou me fantasiar de Cisne negro, quem você será? O fantasma da Ópera?

— Exato! — respondeu-lhe sorrindo, revelando uma fantasia que fora feita sob medida para o seu corpo. — Claro que eu mandei fazer alguns ajustes até se tornar algo mais feminino, mas nada que tire a beleza do traje. Você adora esses filmes, Emma. Eu tive trabalho para encontrar as fantasias, não faça desfeita, por favor.

Novamente, Emma varreu a fantasia com os olhos assustados.

— Eu não vou usar essa coroa de penas!

Lily sorriu debochadamente.

— Não?

— Não. — Emma replicou outra vez, mas a noiva sorriu travessa.



Logo que o sol se pôs, Margaret bateu à porta da loira. Depois que o bebê havia chegado, ela se tornou menos presente na vida de Emma, possuía o dobro de obrigações e isso a mantinha incessantemente ocupada. O que não se aplicava ao tratar-se de Henry. Se o garoto precisasse de uma babá, Mary era o primeiro contato. Estava ali em busca do menino. Desde a última vez que vira Emma, percebeu que ela não estava feliz e até então remoía na mente os motivos daquele noivado. Não era por não simpatizar com a fotógrafa Mills, que suportaria a ideia de ver a melhor amiga casada com alguém que, claramente, jamais a faria feliz.

— Henry! — Emma já o chamava por sabe-se lá que vez. — É a Mary, corra! O que diabos você está fazendo que não saísse ainda desse quarto?

O menino revirou os olhos e saiu apressado para a saída do apartamento. Cheio de livros na mão.

— Ei, ei! — ela interveio. — Sem pressa, rapazinho. E... Uau! Você é muito... nerd?!

Henry fez cara de quem não estava ligando. — e realmente não estava. —, Guardou a sua coleção de O Senhor dos Anéis dentro da mochila e a pôs nas costas.

Quando destravou o trinco, deparou-se com a figura impaciente de Mary.

— Mas que demora-

Surpresa, a mulher que era um pouco mais baixa que Emma, cobriu a boca com as mãos.

— Uau! Você está hilária com essa coroa de penas. Não posso acreditar que ela está mesmo em você. — Mary ria divertidamente, analisando os detalhes da roupa. — Isso no seu rosto é pó de arroz?

Emma fez um bico zangado e cruzou os braços acima do umbigo.

— Vá se ferrar, Mary — ela também sorria. — Estou tão ridícula assim?

— Não. — ela suavizou a expressão zombeteira de outrora. — Você está linda! Divirta-se.

Emma deu de ombros e agradeceu pelo elogio.

— Eu irei!

Lily surgiu logo a seguir, estava incrivelmente bonita, embora houvesse pouca sensualidade em sua roupa, o corpo desenhava a própria beleza por si só. Ela havia envolvido suas madeixas em um coque alto e apertado. Os olhos cobertos por uma máscara estavam marcados com traços aparentes de delineador e Emma notou quando a viu se aproximar.

— Vamos?

Emma concordou com a cabeça e partiram depois de Henry e Mary Margaret.

. . .

Leonard Cohen — Dance Cohen

Robert Gold era conhecido por dar as melhores festar de Chicago. O magnata possuía dinheiro para gastar e com todo o lucro arrecadado com a campanha não havia como não usufruir de seu luxo. Os convidados pareciam se duplicar na medida em que os minutos passavam e sob um piscar de olhos o salão estava lotado de socialites, jornalistas, modelos, empresários, estilistas e todos os outros que ocupavam as mesas do espaço.

Regina, Neal, Bele e ele se uniram na mesma mesa, onde socializavam uns com os outros ao se embebedarem com champanhe e vodca alemã.

— Estou impressionado com a originalidade do pessoal — falava Neal. — Eu tenho de admitir, um baile à fantasia foi a melhor ideia do ano para finalizar a campanha.

Os outros concordaram e Bele parou para ajustar a gravata de Gold.

— Sem dúvidas — ela disse sorridente. — Olhe só para nós, parece até que saímos de um livro de conto de fadas.

Dentre eles, Regina era única que permanecia em silêncio desde que havia sentado à mesa. Vez ou outra os respondia com algum monólogo, entretanto se mantinha distante. Estavam todos bêbados demais para repararem em suas poucas palavras. Além do mais, sempre que dizia algo proferia um tom extremamente ácido, o que constrangia os colegas.

Ela se levantou e caminhou até o banheiro para retocar o batom que agora já não estava tão forte. Olhava-se com curiosidade no espelho, pois já não se reconhecia mais. A mulher por trás da estética, da pele, da carne e dos ossos, não era mais a mesma de antes. O sentimento a pulsar por Emma lhe havia alterado irreversivelmente e Regina não voltaria mais a ser como um dia já fora. Se antes fora fria, agora seria gélida. Se antes fora metódica, agora seria inacessível. No mais, haveria sempre um chama insistente a queimar dentro de seu peito. Emma acendeu a paixão em seu interior e aquela brasa iria se eternizar por uma imensidão infinita. Ora machucando com o seu calor crepitante, ora derretendo às suas inquebráveis esculturas de gelo.

Bastava ler a confusão em seu olhar para supor que aquela mulher vestida de Rainha Má estava sofridamente perdida de si própria. Ela parou um instante para se escorar contra a porta do banheiro e se concentrou na batida viciante da música que alternava nos alto-falantes lá de fora. Os olhos se fecharam e a morena respirou intensamente, realizando uma sequência de inspira e expira a cada três segundos. Não estava prepara para rever aquela a quem o corpo denunciava total entrega; só queria se esquecer de todas as lembranças com Emma que a mente processava a cada momento de existência. E nem dormindo Regina sossegava porque logo era invadida por sonhos ridículos que acometiam flashes seus em companhia da loira.

Decidida a enfrentar qualquer encontro, ela tomou fôlego e andou para fora. Caminhava tão apressadamente quanto o ritmo latente de seu coração. Foi quando atravessou a pista de dança, acessando o salão de bebidas, que os seus olhos esbarram na imagem esculpida de Emma Swan ao lado da atual noiva. Maldita, parecia uma obra de arte renascentista; saída diretamente de uma pintura. Perturbante como os filmes de Pedro Almodóvar, porém apaixonante como uma novela shakespeariana. Nem Regina nem deus algum jamais saberia dissertar acerca dos efeitos que uma causava sobre a outra: mesmo sob a fraca presença de claridade Emma pôde notar os olhos de caçadora sobre o seu corpo. Ao encará-la, soube que ali ainda existia um misto evidente de mágoa e profunda dor. Os seus sentimentos doíam imperdoavelmente: tanto numa quanto noutra.

Emma, que antes sorria para os flashes clicados sobre Lily e ela, agora se fechava em profunda interrogação. Engoliu em seco e largou o braço que envolvia a cintura da noiva. Sim: ela quase esquecera que havia centenas de pessoas naquele ambiente e por pouco não correu para abraçar a dona de sua dor.

— Querida, está tudo bem? — perguntou-lhe a noiva ao pé do ouvido. — Você parece tensa.

E um choque de realidade lhe arrepiou todo o corpo. Emma se voltou para Lily, quebrando o contato com Regina.

— O que disse?

Lily sorriu cinicamente, voltando os olhos para onde notara Emma direcionar os seus. Na mosca: Regina estava do outro lado, servindo-se de uma bebida. Lily franziu os lábios em uma expressão de desagrado.

— Eu já estou cheia disso. — ela bufou, soltando-se da noiva. — Está na hora de desarmar esse circo, eu já estou farta de ser o palhaço!

Ela não precisou se estender mais no palavreado. Emma ruborizou ao vê-la andar na direção de Mills. E logo que se deu conta do estrago que aquele contato traria, já era um pouco tarde. Lily estava a dois passos da morena. Emma se lembrou do que houvera entre Killian, — o irmão de sua noiva. — e Regina, preocupando-se com a possibilidade de aquilo se repetir entre as duas mulheres.

— Ora, ora, se não é a mulher com quem minha noiva andou se deitando nas camas e nas mesas de Chicago! — Lily se sentou ao seu lado, ajustando a máscara no rosto. — Como vai, Regina Mills?

Regina se irritou logicamente com o desdém o qual seu nome fora pronunciado. Queria fazer Lily engolir todos os dentes ridículos que possuía dentro da sua boca imunda. E pensar que aquela boca poderia ter beijado à de Emma nos últimos dias. Ora, ora diria ela, e que Lily não ousasse provocá-la.

— Dizem que quando a comida de casa está ruim, procura-se sabor em outros pratos lá fora. — Regina provocou, investindo ainda mais com o seu melhor sorriso de despudor. — Não tenho culpa de ser apetitosa, querida.

As palavras da fotografa assanharam o juízo da francesa. Ainda assim, Lily sabia ser cínica e sorriu simplesmente.

— Não importa onde ela coma em minha ausência, é comigo que ela irá selar votos. Você não passa de uma distração fácil que ela encontrou para matar a vontade.

Antes que Regina pudesse admitir para si mesma o quão aquilo havia doído nela, Emma surgiu com um semblante embaraçado.

— Oi, meu amor — Lily a beijou nos lábios. Um beijo demorado e nojento para quem assistia da cadeira ao lado. — Estava cumprimentando a funcionária de seu pai — ela se virou para encarar Regina com um falso sorriso na face. — Veja só como ela está inconfundível com essa fantasia de Rainha Má. Se eu bem me lembro, este é um personagem bastante solitário, não? Lembro-me perfeitamente, a Rainha Má não tem um final feliz em seu-

— Sim, ela está inconfundível! — Emma interferiu, evitando mais daquele comentário infeliz. — Podemos ir agora?

— Oh, Swan — Regina se levantou, equilibrando-se sobre os saltos que a permitiam ter a mesma altura que Lily. — Para que pressa? Lily falava sobre estar acostumada a levar um belo par de chifres, desde que esteja com uma aliança no dedo. Que belo casório vocês farão! — Regina gargalhou inconvenientemente. — Uma adúltera e uma esposa de mentirinha. — e sorriu ainda mais, dessa vez encarando os olhos traiçoeiros de Emma. — Felicidades!

Lily avançou na intenção de lhe fazer engolir cada burburinho e elas se chocaram como dois veículos em alta velocidade. As duas mulheres possuíam a mesma altura naquele momento, dando a Regina um pouco mais de credibilidade: ela era uma mulher geniosa e sua força provinha do sentimento interior. Quando mais raivosa estivesse mais firme estaria o punho. Lily ameaçou se agarrar aos cabelos da morena, mas Emma fora ágil e a segurou fortemente pela cintura.

— Opa, segure o seu dragão! Não vamos querer um grande espetáculo logo na entrada, não é mesmo? — Regina se desvencilhou das garras abertas da mulher, para em seguida dar as costas às duas. — E Lily — ela a encarou por cima do ombro. —, não se esqueça de alimentá-la bem!

A morena deixou o salão com um rebolado estratégico que roubou alguns segundos da atenção de Emma, até a mesma se recuperar da tensão provocada e retornar o seu olhar ao estado da noiva.

— Você tinha mesmo que fazer essa cena, não é? — disse a loira, reprovando-a com o olhar enojado. — Não me faça repensar nesse maldito casamento outra vez, não me faça!

Emma se afastou, dando-se conta do jeito trêmulo que as mãos revolviam nos cabelos. Virou-se para Lily e seguiu agitada pelo mesmo caminho que Regina havia saído.

Alicia Keys — Holy War



Agora a sós, Regina pôde soltar o ar preso em seus pulmões. Como de costume, escondera-se no camarim principal. Sempre havia um nas festas da agência, pois Gold não perdia a chance de exibir a ele à Regina com discursos esnobes nas festas que oferecia. Em seu momento explosivo, Mills esmurrou o espelho à sua frente. Ela chocava o punho contra os estilhaços de modo enfurecido. Sem se importar com o sangue escorrendo entre as articulações, continuou a destroçar cada pedaço inteiro do objeto. Ela urrava a cada soco: não era dor. Era uma sensação incomum de alívio. Em sua mente esmurrava à Lily. Não era um espelho: era um rosto. Não era o suficiente: ela merecia mais. Personagem solitário? Regina gargalhava em um som triste de ouvir, as lágrimas desciam em conjunto dos murros. Repita se for capaz! Não podia permitir que falassem daquela maneira com ela.

— Regina! — Gold a segurou por trás, mas ela continuou a socar o vazio. — O que diabo deu em você? Quem vai aprender a lição? — ele a sacudiu fortemente, sobretudo a morena estava de fato descontrolada. — Regina, você está fora de si! De quem está falando?

— Largue-me! Essa maldita burguesinha, ela terá aquilo que merece! Eu vou quebrar todos os ossos daquela depravada!

Ela finalmente conseguiu se livrar dos braços de Gold e voltou a atacar a vidraça estraçalhada na parede. Desorientado, Robert entrou em transe ao observá-la socar os cacos cortantes que produziam um ruído assombroso ao serem somados aos gritos inquietantes que escapavam de seu interior.

— Eu não sou a maldita distração de ninguém! — Regina praguejava sem pudor. Seus nervos elétricos lhe davam forças para esmagar ainda mais os dedos. — Eu vou fazê-la pagar por ter me usado dessa maneira! Ninguém usa uma Mills!

— Certo. Já chega!

Gold a afastou da parede e segurou os seus punhos com mais firmeza do que da última vez.

— Acalme-se, mulher. De quem você está-

O empresário realmente se preocupava com a morena e gostaria de saber de quem ela falava. Entretanto não fora necessário continuar a pergunta, pois naquele instante ele sentiu a presença feminina que os espiava da soleira. Havia um silêncio desconfortável no ambiente, dava-se para ouvir a respiração pesada da loira. Dava-se para ouvir o pedido de desculpa que escapava de sua consciência culpada.

— Oh! Claro. Eu já devia imaginar. É nisso que dá se envolver romanticamente no trabalho. — ele riu desapontado. — Você — ele apontou para a filha. —, saia daqui, vocês duas vão se apresentar às câmeras para uma sessão de fotos daqui a pouco. Vá à frente, eu cuidarei dela.

Emma mal podia formular uma reação ou no mínimo uma palavra para atenuar o acontecido. Os olhos de Regina lhe perfuravam com um ódio doloroso. Viu-a naquele estado destrutivo com os cabelos emaranhados e a pele ruborizada e só pôde sentir remorso por todos os meses de omissão ao lado dela.

— Gold, me largue! — Regina se sacudiu para sair do enlace apertado. — Eu já lhe disse inúmeras vezes que eu posso muito bem me cuidar sozinha. Eu tenho mais de trinta anos. Inferno!

— Por favor, se apresse — pediu-lhe ao soltá-la. —, a imprensa não pode esperar!

— Dane-se você, sua maldita filha e a porra da imprensa!

Ela disse ao empurrá-lo para fora do camarim.

— Uau! Quer praguejar para mais alguém, queridinha?

— Sim! — Regina gritou para que ele a ouvisse. — Dane-se a noiva cadáver de sua filha!

— O quê? — Gold encostou o ouvido na madeira da porta. — Lily está mais do que viva!

Regina riu perversamente enquanto cuidava dos ferimentos adquiridos com o surto.

— Não se eu puder reverter à situação e mandá-la para o inferno!

Robert balançou a cabeça negativamente e voltou à festa. Sorria falsamente ao passar pelas câmeras e negava qualquer contato direto com os jornalistas. Avistou o rosto da filha, que até o momento se saia incrivelmente bem com os autógrafos e fotografias. Não demorou muito até que Regina surgisse entre eles e se juntasse a sessão de fotos. Houve certa resistência ao ter que se aproximar de Emma e ela não evitou dirigir olhares de mágoa e rancor à loira.

— Emma, Regina, o público adora vê-las posar juntas, vocês podem se aproximar um pouco mais, por gentileza? — alguém havia pedido ao fundo e logo outros paparazzi trataram de suplicar, criando um enorme tumulto entre eles. — Só uma foto, meninas! Vocês podem se aproximar?

Emma engoliu em seco e pôde notar Regina fazer o mesmo. Elas não estavam prontas para fingir uma interação desse nível, seria terrível se tocarem sob tanta dor compartilhada.

— Emma, você poderia abraçá-la como faz na capa da revista? Emma, você e Regina têm um caso? Regina, você se envolve romanticamente com mulheres? É verdade que você está noiva de outra mulher, Emma?

O tumulto aumentava a cada segundo e todos eles se esforçavam um pouco mais para se aproximarem das jovens. Chocavam-se sem a menor sensatez e acabaram por imprensar as duas na quina da parede. Uma jornalista avançou freneticamente e se esbarrou em um paparazzo, eles se agitaram e no meio do aglomerado alguém colidiu com Regina, que tombou sobre Emma e agora elas estavam acidentalmente entrelaçadas. Emma a tomou nos braços com toda a firmeza que o peso da mulher exigia. Os rostos próximos cintilavam a mesma euforia, e os olhos percorriam cada traço de desejo ainda evidente. Elas permaneceram naquela posição insinuante até que os flashes quebraram a aproximação entre elas.

No final, Regina ofereceu um sorriso desonesto de agradecimento pelos comentários positivos acerca do seu trabalho como fotógrafa. Havia uma coluna onde explanaram somente as fotos de Emma fotografadas por ela. Fotos que Regina odiara fazer na época, mas que expressavam toda a inspiração que o contato com a loira lhe proporcionava. Elas evitaram qualquer novo contato após colidirem espontaneamente; era difícil, tanto para Regina quanto para Emma, simular sensações ilusórias diante de todos. Custava muito estarem lado a lado fantasiando uma felicidade fingida para ambas. Emma estava quebrada e os seus pedaços trocavam farpa com os de Regina.

Uma sequência de latejos incômodos passou a perturbar o sossego da morena e ela pediu licença para se retirar. Logo que percebeu a expressão de dor no rosto da mulher Emma se levantou e a seguiu.

— Regina, espere! — ela tentava enxergá-la sob a alternância de luzes e todo o barulho incessante que a música alternativa possuía. — Regina!

O rosto descontente de Regina se virou para ela e praguejou alguma coisa que Emma não pôde ouvir.

— Eu sei que você está chateada nesse momento, mas eu ainda me preocupo com você e vou continuar seguindo-a até que fale comigo.

Rolando os olhos, Regina acelerou os passos e entrou em um vão estreito que dava para os fundos do salão. Ela queria despistar a loira e mantê-la distante para odiá-la em paz.

— Regina, eu não quero ter que obrigá-la a falar comigo, mas você não está me dando outra opção-

— Não ouse tocar em mim! — respondeu-lhe aborrecida. Ela apoiava a cabeça entre as mãos enquanto andava apressadamente em busca da saída. — Eu não estou nem um pouco interessada nas suas preocupações. Só não a mando para o inferno porque não tenho dúvida de que irei me hospedar por lá após a morte e não quero ter o desprazer de esbarrar no seu rosto sonso.

Emma deu de ombros e continuou caminhando. Conhecia o jeito difícil da amante e aquilo a entristeceu no íntimo dos sentidos: tantos meses derrubando as muralhas de Regina para simplesmente vê-la repor cada tijolo de volta em seu devido lugar. Dessa vez, o cercado estava mais firme e seria difícil adentrar por entre as pedras.

— Regina, desculpa! — a loira vociferou. — Eu preciso disso! Preciso do seu perdão, senão vou enlouquecer! Eu sequer tenho dormido, sabe disso? Há dias que você não sai da minha cabeça, eu tenho pensado em nós e isso me atormenta.

Regina se virou para Emma, acertando os olhos sobre os seus de modo apavorante. Lá esteva ele, desenhado e pintando em sua face: o sorriso diabólico que fazia a loira tremer até a base.

— É mesmo, Swan? — começou sarcasticamente. — É uma pena que você tenha perdido o sono, mas quer sabe? Ainda é pouco! Você merece perder muito mais do que a paz noturna. Eu quero que você sinta o que eu sinto, quero vê-la perder o juízo relembrando cada toque, cada beijo, cada orgasmo — ela foi se aproximando em passadas estrondosas, arqueando as sobrancelhas enquanto liberava o sermão. — Eu quero que você recorde o gosto da minha boceta escorrendo no céu da sua boca sempre que estiver fodendo com ela. E então eu terei paz, pois saberei que você é infeliz com o mal que me fez.

Emma se amedrontou com o tom exaltado da mulher. Ríspida, Regina deu as costas outra vez e a deixou refém de um vazio angustiante.

— Como você consegue? — Emma lhe puxou pelo punho, fazendo-a pigarrear tensamente. — Como consegue fingir que está bem? Como consegue ser tão cretina? Como consegue apagar o que fizemos uma à outra num piscar de olhos? — Emma se excedia no tom e a força em seu toque ficava cada vez mais latente. — Como consegue simplesmente não suplicar, exatamente como eu estou fazendo agora? Nós nos magoamos, Regina! Eu te feri e a sua dor me atormenta! Como você consegue?

— Você está me machucando! — Regina disse rouca, sacudindo o braço para que a loira atenuasse o toque. — Largue o meu braço!

Uma tensão comum entre elas retornou e se instalou entre ambas. Regina com os seus acastanhados quentes a queimar os verdes gélidos de Emma. Coisas não ditas criavam nuvens de não-dizeres sob o ar que as envolvia.

— Responda e eu prometo que a largarei!

Emma pediu gentilmente e então o som de passos apressados quebrou a bolha entre elas.

— Emma?! — disse a voz provida dos passos. — Está escuro, mal posso enxergar. — Emma e Regina se distanciaram e procuraram pela dona da fala. — Wow, aí está você, ou melhor, vocês! — Lily sorriu de seu jeito provocante. — Vamos? Estou cansada, preciso tirar esses saltos e cair sobre a cama!

Regina sorriu falsamente e as deixou sem porquês. Continuou seguindo em frente e não facilitou para que não ouvissem o estalar ruidoso que a caminhada produzia. Emma acompanhou o seu passar até que ela sumisse completamente e só então voltou os seus olhos para a noiva.

— Claro. — concordou tristemente. — Vamos.

Notas finais
Eu realmente espero que as coisas estejam ficando mais claras, senão, digam no que estou pecando e eu irei melhorar. Vamos criticar, seja positivo ou não, é assim que se constrói uma história. Vocês pediram atualizações mais rápidas, mas isso diminui o tamanho dos capítulos - nem sempre, mas na maioria das vezes sim, ok -, estou fazendo o que pedem. Até o próximo, beijitos!