Fatal Attraction
22 Another perspective.
Notas iniciais
Não me considero uma mulher ciumenta, sequer possessiva. Não faço o tipo controladora e sempre ofereci à minha noiva a liberdade que lhe fosse necessária para que ela não se sentisse envolta numa gaiola. Sou de longe uma pessoa romântica; chamam-me de fria, no entanto me sinto mais confortável corrigindo-o para um adjetivo mais sutil: realista, eu diria. Busco relações que me acrescentam, pois não fui feita para a solidão. Acredito que os homens tenham inventado a ideia ilusória do “coração partido” para explicarem a falta de sensibilidade aguçada do sexo feminino. Não fui ferida para que eu me tornasse quem sou, não empresto a ninguém o mérito de construção sobre a minha personalidade. Costumo pensar que sou dona de mim mesma e racional acima de qualquer outra característica.
Quando avistei Emma pela primeira vez, senti imediatamente que a queria; e quando preciso ter algo, passo por cima do que for necessário para conquistá-lo. Sou uma jogadora competitiva e dificilmente entrego a partida. Eu a vi sorrindo com a taça de champanhe numa das mãos, enquanto a outra recolhia o fio solto de cabelo da face. Ela tinha um charme inconfundível e uma aura tímida e sensível que me despertou interesse. Soube naquele instante que ela seria minha. Não foi difícil seduzi-la, falei um pouco do meu conhecimento sobre a arte renascentista e lhe dei mais algumas taças de espumante. Logo, tratei de saber sobre ela e fiz todos os seus caprichos românticos: jantares a dois, sexo em lugares públicos, cinema às sextas, dividir o mesmo cobertor e segui com todo aquele roteiro até que as coisas esfriaram um pouco e a relação se tornou tediosa.
Foi então que conheci a bela Cindy, no início era divertido paquerar com uma aluna novata, depois se tornou algo mais quente; foi passando dos limites. Ela me deixava bilhetes e mensagens. Comecei a ter receio de que Emma os encontrasse e tentei dar um basta naquela infantilidade: eu era uma mulher de vinte e oito anos e ela era apenas uma estudante no auge dos dezoito. Pedi para que me esperasse até que a sala esvaziasse na última aula e decidi que aquela situação teria fim alí. Neste dia, Cindy estava especialmente bonita e o seu perfume parecia mais forte, mais inebriante. Emma e eu não transávamos há meses, eu estava fora do comum, precisava me sentir desejada novamente, precisava de um corpo que precisasse do meu. Precisava daquele olhar de sedução novamente. Não tento justificar o meu erro, mas já me arrependi e o que está feito não pode ser apagado.
Causamos dor a nós mesmas. Eu a machuquei com os meus erros e a vi repetir o mesmo comigo. Sobretudo quero a minha noiva de volta; quero consertar o passado e recuperar o nosso compromisso. Não vou admitir perder tudo o que planejei para o meu futuro por causa de uma megera estadunidense. Não nego que Regina Mills seja uma mulher atraente, mas ela jamais irá oferecer à Emma o mesmo conforto que eu posso. Emma merece alguém melhor do que uma fotógrafa; Emma merece um sobrenome de respeito, uma esposa bem vista na rica sociedade, o apoio de uma família importante e algo mais charmoso do que uma casa estreita num "condomíniozinho" esquecido nas redondezas de Chicago.
No início, achei que fosse só um caso; que Emma estava apenas tentando me fazer pagar na mesma moeda. Vejo, finalmente, que subestimei o coração de minha noiva e o seu envolvimento com Mills. Deixei que esse filme se desenrolasse mais do que devia e já estava na hora de reduzir àquilo ao que ele deveria ser: um ato desesperado por sexo e afeto.
Deixei que Emma fosse vê-la mais uma vez aquela noite. Deixei que aproveitasse os seus últimos segundos ao lado de sua amante e então aquilo acabaria de uma vez. Se Emma não era capaz de deixá-la por conta própria, então eu usaria o meu último truque: o ego de Regina.
Rastreei o carro de Emma e a segui algumas horas depois de a ver saindo às escuras. Não foi difícil encontrá-la, o local era um tanto afastado e sombrio; a combinar com a aparência de Mills. Estava fazendo a curva para estacionar quando avistei o veículo de Emma dando ré. Por um minuto pensei que ela havia se arrependido e estava voltando para mim, até que notei o seu sorriso estúpido no rosto e ao olhar para cima, deparei-me com a própria Regina observando-a sair, ambas sorridentes, apaixonadas, como quem acaba de descobrir a paixão; aquilo me enojava desenfreadamente. Então reparei que Emma fazia uma direção contrária: ela estava indo a outro lugar. Esperei um pouco até que a outra mulher saísse de vista e finalmente desci do automóvel.
Bati à porta gentilmente e a esperei muito segura de mim. Queria ter fotografado o susto em sua face ao notar que quem batia era eu e não Swan. Olhou-me com desprezo e lhe devolvi a mesma cortesia.
— Olá, Regina. — cumprimentei-a demonstrando minha raiva. — Presumo que saiba o que vim buscar aqui. Ou melhor dizendo… Quem.
— Oh! Claro, eu devia imaginar que o seu cinismo não tivesse limite.
— Cínica? Eu? — fingi ofensa. — Imagina, meu bem. Julgando pelas vestes e o suor recente na pele, imagino que estava transando com a minha noiva, estou certa? Não sou a cínica entre nós.
Percebi que o meu comentário não só a desapontou, como também lhe enraivecera, o rosto se tornou mais vermelho.
— Emma não está aqui.
— Eu sei — avancei da calçada para a soleira. —, eu a vi saindo. Não tem importância, queria mesmo falar com você antes de levá-la.
— Poxa, que pena! — disse-me, já ameaçando fechar a porta. — Eu não tenho nenhum assunto a tratar com você. Dê-me licença!
— Opa, opa! — avancei sobre a porta, impedindo-a de fechar. — Não seja tão inóspita, quero apenas conversar um pouco.
Embora fosse alguns centímetros menor do que eu, Regina não parecia o tipo de mulher que se calava. Ela tinha garra, vi o ódio fulminando em seus olhos. Nada que uma boa verdade na cara não resolvesse.
— Dê-o-fora-daqui! — sibilou entredentes. — Ou eu irei tirá-la pelos cabelos.
Gargalhei alto. Coitada, não sabia com quem estava se metendo. Não sabia até onde eu era capaz de ir.
— Eu tenho pena de você, Regina Mills. Eu tenho pena do que posso fazer com a sua carreira minúscula, caso fique em meu caminho. Eu não estou brincand-
— Cale a boca, Lilian! — de repente, senti o seu corpo pequeno se aproximar rudemente de mim. — Não pense que ficarei quieta ouvindo você me ameaçar bem aqui na minha porta! O que você quer, afinal? Um jogo? Pois saiba que eu adoro jogar, fui feita para a guerra.
Não me deixei intimidar e aproximei o rosto do seu, baforando em sua face.
— É mesmo? Que ótimo, estou mesmo precisando de uma boa distração. Não se engane comigo, posso reduzir você a algumas fraturas e uma grande decepção financeira.
— Experimente! — provocou-me roucamente. — Não tenho medo de você.
— Vou fazer você se arrepender de cada palavra que saiu desta boca maldita.
— Que boca? — ela riu, debochando friamente de mim. — Essa? — tocou os dedos nos próprios lábios. — Não me arrependo de nada que sai daqui, tampouco o orgamasmo que há poucos minutos fiz Emma escorrer para dentro dela.
Quando vi a expressão maligna em seu rosto, soube que ela estava tão disposta a jogar como eu. Ouvi-la falar aquilo me fez perder o controle, eu fiquei fora de mim e quando me dei conta já havia lhe estapeado a face. Ela passou a mão sobre o lugar onde a bati e depois se virou furiosa para mim. Sorri vitoriosa, até que as mãos pequenas me puxaram para dentro e me arremessaram contra uma mesa de centro. O barulho de louça quebrando me fez despertar e avistar a mulher ensandecida que avançava para cima de mim. Eu tratei de me levantar e agir com rapidez, mas seus braços me derrubaram novamente.
Senti o punho de Regina me acertar o olho e depois a maçã do rosto. Usei as pernas para me defender e lancei uma joelhada em seu estômago. Ela saiu de cima de mim e o seu rosto se contorceu em dor.
— Vejo que subestimei você, querida! — disse, recuperando o fôlego. — Só não pense que vai se safar de mim tão rápido.
Ela me olhava profundamente enquanto eu me aproximava com os punhos cerrados para socá-la, peguei-a pelos ombros e a joguei na parede, prensando-a com força.
— Afaste-se de Emma! — esmurrei-lhe a boca imunda. — Você não serve para ela.
Bati novamente no mesmo lugar e, quando achei que finalmente fosse fazê-la se arrepender de ter me dito aquilo, estremeci com a cabeçada que Regina me deu. Sem querer, tropecei no tapete atrás de mim e caí sobre ele. Notei as pernas da outra mulher se abrirem sob mim e as suas mãos me seguraram pelo cabelo.
— Não me diga o que fazer, sua dissimulada! — disse ela, cuspindo um bocado de saliva e sangue no chão.
Ela se levantou e me arrastou até a entrada da casa, achei que fosse me pôr para fora então a derrubei com uma chave de pés; ela caiu em cima de mim e me deu espaço para agarrá-la em torno da cabeça e fazê-la bater contra o chão. Senti as unhas cerradas rasgarem a parte de trás da minha roupa e levaram uma camada de pele junto. Urrei de dor e acabei largando-a.
— Você pode fazer o que quiser, Regina… Nós podemos até nos matar aqui, mas no fundo você sabe que eu estou dizendo a verdade. — falei com dificuldade, tentando controlar a respiração falhada. — Ficar com Emma vai arruinar a sua vida e a dela.
Ela estava prestes a me acertar com um novo soco na cara e no momento pausou o punho no ar. Começou a respirar pesadamente, analisando as minhas palavras.
— Isso não é verdade. — tentava se defender. — Eu, eu… não é verdade! Emma e eu, nós…
— Sim, eu sei! Estão apaixonadas, mas e o que tenho eu a ver com isso? — cortei-a, tentando cumprir com aquilo que desejava. — Uma hora isso vai cessar e só vai restar espaço para a culpa e o arrependimento. Se Emma perder a carreira por causa de você, acha que vai ser capaz de se perdoar? E se o contrário acontecer e você for a prejudicada? Hum? Já pensou nisso ou só está se deixando levar pelo sexo bom?
Regina me olhava com um certo desdém, mas os seus olhos brilhavam, ela estava magoada, eu pude sentir, havia escolhido a ferida certa.
— Se acha que pode conviver com esse risco, ótimo! Vá em frente, mas pense bem em tudo o que está colocando em jogo.
Fiz uma leitura rápida de como se encontrava a casa da morena e notei que estava tudo uma tremenda bagunça. Havia cacos estilhaçados por todo o piso, sangue no tapete, cadeiras no chão, móveis deslocados e um vaso de flores quebrado ao pé da entrada. Ouvimos o som da porta rugir e olhamos juntas para aquela direção; era Emma, com um ar de surpresa estampado em sua face. Ela entrou devagar, espantada, desviando das vidraças. Ela olhou tristemente para Regina, abrindo a boca ao encontrar o sangue preso no canto de sua boca; em seguida, direcionou o olhar para mim: fitava-me com raiva, pude perceber. Ela balançou a cabeça em reprovação, demonstrando o seu desapontamento.
— O que aconteceu aqui? — perguntou com a voz sofrida. — O que, diabos, aconteceu, Lilian?
Respirei profundamente, tomando a postura. Levantei e me coloquei de pé, Regina fazia o mesmo, quando Emma se aproximou e a ajudou a se levantar.
— Eu não sei o que deu nela, eu estava só tentando conversar e ela me acertou a mão na cara-
— Oh, Cristo! Por favor, não seja mais patética do que você já é! — Regina me interrompeu, fuzilando-me novamente com aquele olhar de predadora. — Querem saber de uma coisa? Eu estou farta desse roteiro novelesco. Quero ter a minha vida normal de volta. — ela se afastou de Emma e foi até o hall de entrada, segurando a porta com firmeza. — Emma, vá. Leve Lilian para casa e vá embora. Vão embora daqui, as duas!
Percebi que os olhos de minha noiva se encherem de lágrimas, ela não se mexeu, apenas encarava Regina, que acabou desviando o olhar e repetindo mais uma vez:
— Emma, vá! Saia daqui, não me faça pedir novamente!
— Regina, por favor, não…
— Ok. — disse a mulher. De repente, ela veio em minha direção e envolveu a mão em meu pulso, arrastando-me para fora com um pouco de força. Ela voltou e parou bem à frente de Emma. — Vamos, saia. Não quero mais ver você, Emma. Seja madura uma única vez na vida e entenda que não podemos dar continuidade ao que temos. Vá embora daqui.
— Você tem certeza? — Emma baixou o olhar, negando a vontade que tinha de chorar. — Quer mesmo que eu vá embora e nunca mais nos vejamos?
— Sim.
Regina se afastou, retornando à porta. Emma passou por ela e parou alguns segundos ao seu lado, tentou encontrar o rosto da fotógrafa, mas ela havia o virado para não vê-la.
— Você tem algo a mais a me dizer? — tentou Emma, mais uma vez.
— Não temos nada a dizer uma a outra.
— Então isso é um adeus? — Emma já chorava; de um jeito penoso. Eu tive que me conter para não puxá-la dali. — Um adeus definitivo?
— Definitivo.
Ela fora resistente, saiu andando em passadas lentas com os olhos baixos. Regina se voltou logo que ela deixou a casa e fechou a porta com um estrondo rude.
Era um adeus.
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