Fashion And Diamonds.

24 Capítulo 23 - Both Sides.


Notas iniciais
Olá amados!
Desculpe a demora, não vou enrolá-los com a minha falação...
Muito obrigada a todos pelos reviews!
Um obrigada especial a Rafaella Lima e Nendraug pelas recomendações lindas! Muito obrigada!
Um grande beijo na alma de todos (poética não é?)
Boa leitura!

— Ah Ed, não dá pra chamar o Cotter pra entrar um pouco? — Christian pediu, do jeito tranquilo e fofo dele, e Café soltou um latido agudo em concordância, animado no fim do corredor. Suspirei. Achei que tinha conseguido escapulir escondido dos meus irmãos, mas pelo jeito não. Bati o olhar no meu irmão, com a mão na maçaneta, e reparei o quanto ele tinha crescido nos últimos tempos, e como estava perdendo um pouco da postura e do ar infantil. Parecia bastante comigo quando tinha a idade dele, e pelo jeito ia ter um físico parecido com o meu e do Albert se treinasse um pouco. Provavelmente estava entrando na adolescência, quase a mesma idade que eu tinha quando discuti com o Albert e ele fora pra Itália.

Por um segundo, a ideia me assustou. E se a história se repetisse, eu brigasse com Chris, e as palavras do Albert se tornassem verdadeiras, eu acabasse me tornando ele? Apertei mais a mão em volta da maçaneta, e olhei pro Café, afogando novamente aquelas lembranças e qualquer coisa ruim que elas traziam. Não ia deixar elas me atingirem novamente, eu estava convicto de quem eu era. Acabei por abrir um sorriso tranquilo e ir até Christian. Às vezes, eu me esquecia que ele era o terceiro mais velho entre os irmãos, e já não era assim tão criança.

— Desculpa mano, mas eu tô com pressa. Poxa, vocês andam gostando mais do Cotter do que de mim!— Sorri e coloquei uma mão na cabeça dele, bagunçando seus cabelos. Chris soltou um suspiro, e deu um sorriso, revirando os olhos. Ele parecia bem mais maduro do que eu era quando tinha 12 anos.

— Por que você não faz brigadeiro. —Brincou irônico, mas antes que eu pudesse responder já me dispensou. — Tá vai lá, divirta-se. — Ele desejou, e eu dei um beijo na sua testa, enquanto ele soltava uma exclamação contra o gesto, me arrancando risos. Ele era um amor.

Sai pela porta, encarando o frio da tarde de inverno, e deixando qualquer vestígio de preocupação com Albert atrás dela. Tinha tomado banho depois de chegar da aula e meus cabelos ainda estavam meio úmidos e corriam o risco de congelarem nesse frio maldito. A neve estava prevista para começar a cair na próxima semana, mas o frio já estava assustador. Daqui duas semanas era natal. Esse ano, só havia nevado um pouco na primavera, e em mais nenhum dia, o que era bem estranho.

O Mini do Cotter estava parado na frente da porta, e eu corri até ele, esperando me abrigar daquele frio no interior do veículo. Poucas vezes tinha andado de carro com ele dirigindo, mas hoje era exceção porque meu carro estava na oficina fazendo a revisão, e ainda não tínhamos saído pra nenhum lugar depois que eu voltei de viagem no último fim de semana, só nos vimos no colégio, e já era sexta feira. Claro que eu já estava com saudades, mas graças a Deus as aulas estavam acabando, e logo poderíamos no ver com mais frequência em lugares mais privativos. E no feriado de fim de ano também, podíamos fazer alguma coisa juntos, afinal éramos namorados. Talvez o chamasse para passar o natal em casa, porque era indiscutível que eu passaria o natal em casa, com a família. Ainda era estranha a ideia de que éramos namorados, mas eu estava começando a me adaptar, e achava muito gostosa a sensação.

Entrei no carro sem muita cerimônia, me sentando e batendo a porta. Podia ouvir o aquecedor do carro ligado, e estremeci uma vez para me livrar de vez do frio antes de me virar para Cotter.

Surpreendi-me ao ver que ele estava com as mãos no volante, e inclinado sobre ele, encostando a fronte no topo do círculo preto envolto em couro, parecendo de certa forma, abatido. Ergui uma sobrancelha, confuso. O pequeno estava bem vestido como sempre, num agasalho grosso verde, jeans, e sapatos. No dedo, usava um anel prateado e largo com algumas esmeraldas incrustadas, muito bonito, e possivelmente da Tiffany, a concorrência da Prey.

— Ei, o que foi? — Perguntei, esquecendo os cumprimentos e colocando uma mão no joelho dele. Cotter soltou um suspiro, erguendo os olhos cinzentos para mim e apertando os dedos no volante.

— Por que você quer contar pro Conrad e pro Tony que estamos juntos? — Questionou com tom sério, e eu revirei os olhos. Minhas esperanças de agarrar ele ali mesmo foram por água abaixo.

— Ah Cotter, por Deus, já tivemos essa discussão antes. — Exclamei, e ele contorceu o rosto numa careta, dando partida no Mini e dirigindo para os portões de casa.

E não foi uma discussão simples. Passamos horas trocando argumentos via sms quando eu estava viajando, porque ele tinha comentado que era aniversário de Tony na próxima semana, e eu aproveitei para comentar que devíamos nos assumir perante eles. Eu sei que discussão via sms é considerada dispensável, mas com o Cotter parecia que nada era dispensável já que ele enviou textos de quinhentas palavras sobre as razões que tínhamos para não contar ainda, e eu era obrigado a argumentar no mesmo nível. Não que ele estivesse tendo nenhuma crise, na verdade ele estava sendo bem realista e pensando no nosso bem, mas era o Tony e o Con, poxa. Eles mereciam saber, e o Conrad até já sabia! Claro que eu mantive esse detalhe oculto.

Acabei por convencer ele, mas de forma bem fraca. Íamos sair com eles agora, e contar tudo, mas pelo visto ele não estava muito seguro.

— Tudo bem, eu não quero discutir. — Ele comentou, colocando o carro na rua. Dirigia muito bem. — Você já tinha me explicado, e eu concordei em contar. Só acho que é cedo, já falei. Falar para eles significa que já não é mais um coisa só nossa. Já pensou se um dia você tem uma briga com o Conrad, e ele usa o fato de você ser homossexual contra você? Conta pro seus pais?

Revirei meus olhos. Ele falou que não queria discutir, mas já estava falando os argumentos que usara no celular. Pelo menos, Cotter tinha personalidade o bastante para falar as coisas na cara também. Soltei um suspiro.

— Eu confio e conheço o Conrad o bastante para te garantir que ele não vai fazer isso. Você deve estar falando isso porque não o conhece bem. Confia no Tony não é? — Esperei por um tempo, até ele assentir silenciosamente com a cabeça. — Então, não teremos problemas, e se um dia o Conrad contar, eu encaro o que acontecer, certo? E encaro a sua barra também.

Consegui arrancar um pequeno sorriso dos lábios dele com aquilo.

— Tenho certeza de que temos capacidade de enfrentar qualquer coisa juntos Edmure. —Disse, encarando a pista e falando com naturalidade. A fala dele me deixou com o peito quente, e me arrancou um sorriso doce. — Só estou me perguntando se precisamos mesmo passar por tudo isso agora.

— Isso é tempestade em copo d’água. Vamos contar pro Conrad e pro Tony apenas, não vamos contar pra todo mundo. — Ele já tinha me dito aquilo, que eu era muito impulsivo e que se eu assumisse pra alguém, ia querer assumir pra todo mundo. Mas ele tinha a função de me segurar nessas horas. — Esquece, e vamos contar ok? Você sabe que é melhor contarmos agora, no início, do que depois de muito tempo, eles ficariam chateados por termos escondido. E um dia, se dermos certo, vamos ter de contar pra todo mundo. Ou você quer viver eternamente nos amassos dentro do banheiro vazio de um bar?

Ele acabou por rir, parando no sinal, e virou para mim, colocando uma mão no meu rosto e roubando um selinho rápido. Desde a nossa primeira vez e o início de namoro, ele estava bem mais à vontade com toques, não que antes não estivesse, mas agora parecia ainda mais. E relativamente com um humor melhor para as brincadeiras, sem explodir como antes.

— Claro que não, um dia eu ainda tenho de esfregar na cara do povo de Gollsberry que o maior partido da cidade é meu. — Ele brincou com um sorriso, o rosto ainda perto do meu, seu olhar com um brilho brincalhão. — Estava com saudade já. — Afagou minha barba com o polegar, e em seguida me deu um beijo de verdade, que correspondi agarrando sua nuca com a mão firme.

Só nos separamos, rindo assustados, quando o motorista do carro atrás do nosso buzinou porque o sinal já abrira.

Minha taça encostou na de Dacey com um tilintar extremamente suave, que acariciava os ouvidos de forma doce. Tomei um gole mínimo do Casillero del Diablo, vinho seco chileno e de qualidade inquestionável, encarando com um sorriso meu fotógrafo lindo. Tinha comprado uma garrafa de frisante para ele porque sabia que o loiro não gostava muito de vinhos secos, e o estabelecimento elegante tinha uma safra de frisantes Lambrusco muito famosa.

Dacey deu um sorriso quando abaixou a taça, as borbulhas de gás subindo do fundo do copo. Ele estendeu a mão livre e entrelaçou os dedos na minha, se inclinando. Era a joia do estabelecimento naquela noite, mais belo do que qualquer outro ali, vestido em seu terno risca de giz de corte mais justo e moderno, os cabelos loiros penteados de forma elegante, e os olhos brilhando muito mais do que as lâmpadas de luz suave que iluminavam os lustres de cristal. Um de seus dedos roçou no rubi redondo que adornava o anel de prata que eu havia pegado da oficina de produção de joias na última semana, e ele inclinou a cabeça de forma fofa.

— Vai, agora fala, o que viemos comemorar? — Ele deixou a animação tomar a sua face junto com a curiosidade, e tive de abrir mais meu sorriso, segurando sua mão entre as minhas. Acariciei a pele macia da palma rosada e lisa, e me inclinei sobre o tampo redondo da mesa, beijando os dedos delicados.

— Vamos dançar, e eu te conto. — Convidei, sugestivo. Hoje eu estava especialmente inspirado, era um ótimo dia, eu era um jovem milionário sortudo, e tinha o homem mais lindo da Itália comigo. Era sempre assim, sempre que coisas boas aconteciam comigo, eu agradecia por ter Dacey para compartilhar esses momentos comigo, e me sentia especialmente apaixonado. Até havia passado na oficina de joias da Prey, onde os estilistas e designers exibiam os novos modelos de joias que pretendiam lançar, e considerei pegar um anel de noivado com um diamante enorme e pedir o Dacey em casamento, tamanha era minha felicidade. Óbvio que eu não consegui. Não, eu não mais capaz nem de pensar naquilo depois do que o Edmure fizera, destruindo meu mundo anos atrás.

Mas não era hora pra pensar nisso. Algumas vezes, eu sentia raiva de Edmure e prometia que ia fazer da vida dele um inferno como ele fez a minha, mas nas vezes que visitei meus pais na América depois que ele me traiu, nunca tive de coragem de fazê-lo. Naquela época Edmure era novo, não entendia... ninguém entendia. Que a consciência dele o castigasse, enquanto eu não encontrava forças para tal. Agora, meu foco era comemorar pelas boas novas, ironicamente relacionadas com meu irmãozinho na América.

— Você está um bobo romântico novamente. — Dacey comentou em tom gentil, mas se levantando e deixando-me guia-lo pela mão. Era um dos tratos que havíamos feito quando nos conhecemos: quando um de nós dois estivesse agindo como bobo romântico, o outro tinha a obrigação de avisar. Foi o flerte mais inocente e sincero que eu já usara com um homem, e ainda brincávamos com isso diariamente.

Ainda me lembrava muito bem de quando nos conhecemos, e quando eu flertei com ele pela primeira vez. Foi o mais estranho da minha vida, porque foi um pouco um flerte, um pouco uma ajuda. Encontrei Dacey chorando num bar logo após o ensaio que ele fizera para a Prey, e tive de gastar muita saliva para fazer ele parar de chorar. Terminamos aquela noite num beijo pontilhado de pequenos sorrisos, e eu soube naquele momento que não conseguiria chutar o Dacey como fazia com todos os outros com quem me relacionava.

— Hoje, eu posso. — Comentei com um sorriso, puxando-o para perto e envolvendo sua cintura com uma mão, nossos rostos próximos. Encarei seus olhos castanhos e senti o hálito dele no meu sorriso quando ele soltou um risinho através dos dentes. Outros três casais dançavam elegantemente ao som da banda, e nós os acompanhamos numa valsa lenta, eu lembrando as aulas de dança de salão que fizera anos atrás, e Dacey mostrando seu talento natural para a dança.

O Romacce era meu restaurante favorito em toda a Itália. Um restaurante voltado para a elite gay, elegante e de altíssima qualidade. Era um ambiente agradável, discreto, de lustres de cristal com lâmpadas amareladas e agradáveis aos olhos, carpete vermelho e sempre limpo, mesas redondas de madeira escura distribuídas distantes umas das outras, e um espaço para os casais que queriam dançar ao som da banda clássica que tocava com talento. Ia muito ali com Dacey e outros, era mais tranquilo que uma boate GLS, e muito mais discreto, além do Romacce ter um público bem mais maduro e um ar romântico.

Dacey aproximou o rosto ao lado do meu, enquanto balançávamos delicadamente um nos braços do outro, e colou os lábios no meu ouvido.

— E então, o que estamos comemorando? — Ele sussurrou, a voz mais melódica do que a música ao fundo. Uma parte de mim, a parte fraca, questionou por que eu não ficava de uma vez por todas com Dacey e saia daquela vida. Mas afastei o pensamento antes que ele crescesse demais, tinha demorado anos demais para sufocar aquela parte esperançosa nos confins da minha mente para deixar ela surgir novamente. Não, eu não conseguiria, nunca mais, ser de um alguém.

— Você tem algum ensaio marcado até o final do ano? — Perguntei, abrindo um sorriso, e esquecendo meu passado, como aprendera a fazer com meu antigo psicólogo. Viver o agora, ou ficar louco, eram minhas duas opções, e no momento, eu queria viver o agora.

— Não. — Ele respondeu, puxando o rosto para trás e me encarando com olhos curiosos. — Por que?

Apertei a cintura do meu fotógrafo, e soltei um sorriso.

— Vamos para a América passar o final do ano com a minha família. — Comentei, e parte da minha mente gritou “Edmure” enquanto Dacey abria mais o sorriso, animado.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Tentarei postar nessa semana.
Abraços!