Fashion And Diamonds.

34 Capítulo 33 - Dark Memories.


Notas iniciais
Alô queridos! Muito obrigada por todo o carinho de vocês nas reviews, como sempre! E obrigada a quem deixou recomendações, que agora são tantas que eu até fico emocionada! Obrigada a Little Tall, Blondie e Noburu pelo carinho! Amei as recomendações, de verdade! Esse cap é focado no Daceye no Ivan, mas também tem informações sobre a família do Edmure, como um aperitivo pro próximo em que eles aparecem efetivamente. Perdão, mas está mais curto que os de ultimamente, mas lembrem que no início, a fic tinha entre 2000 e 3000 palavras! E tem flashback FINALMENTE revelando sobre o passado do Dacey! Espero que gostem! Muito obrigada! Boa leitura!

Evelyn soltou um suspiro tão incômodo que eu precisei me segurar para não dar um soco nela. Não que eu não estivesse acostumado com seus suspiros entediados ou incomodados, mas desde que descemos do avião aquele devia ser o milionésimo suspiro.

Eu estava tentando manter o bom humor durante aquela viagem inesperada, por mais que ainda quisesse me trancar num quarto e chorar pelo preço das passagens ridiculamente altas de fim de ano. Mas eu ia conseguir uma boa grana, ou esperava.

— Se você suspirar mais uma vez, eu juro que não vai ser bonito. — Falei, jogando minha mala sobre a cama do nosso pequeno quarto. O som das molas do colchão não foram muito agradáveis. — Abre essa boca e fala, ao invés de ficar soprando pelo nariz.

Virei para ela, que ainda estava na porta do quarto com uma expressão de desagrado no rosto bonito.

— Sinceramente, de todos os lugares para passar o meu natal... Quando eu pensei na Califórnia, não esperava que fosse isso. — Ela soltou sua mala no chão e passou os olhos pelo quarto.

Tudo bem, não era lá o lugar mais bonito do mundo. Nem da Califórnia. Nem da cidade onde estávamos. Certo, não era um lugar bonito, mas era um lugar que eu podia pagar. Já tinha gasto muito naquelas passagens de avião e não podia pagar por um grande hotel. Ou um hotel no geral, então tinha acabado naquela pousada pequena, já que não deixaria Evelyn pagar minha diária.

O preço condizia com o estado das instalações: o prédio no geral era velho, e o quarto tinha um cheiro de mofo bem intenso. Além da aparência não ser bem seu forte: um papel de parede amarelado e machado com uma estampa estranha de flores, o piso de madeira gasto, a cama grande de casal com um colchão torto, um grande armário de madeira que parecia empoeirado e mais nada. O único banheiro do andar era no corredor, e para todos os hóspedes.

— Eu sei que não é um Hilton Hotel, mas juro que com as fotos que vamos conseguir, eu pago férias no Havaí pra você. — Tentei amenizar o clima com um sorriso e a brincadeira. Realmente estava contando com essas fotografias dos Prey para conseguir uma grana, e pelas pesquisas que tinha feito, os clientes da Itália realmente pagariam bem por uma foto de Albert Prey armando alguma. Além de a própria imprensa americana estar interessada naquela reunião dos Prey. Afinal, eles eram uma das 100 famílias mais ricas dos EUA, e uma das 50 mais ricas da Itália. Se Deus fosse bom, daria certo, e eu teria uma grana.

Evelyn finalmente sorriu de forma cansada, revirando os olhos em seguida.

— Ah, o que eu não faço por um probetão. — Ela finalmente entrou no quarto, se sentando na cama que novamente fez aquele barulho incômodo. — E até é lugar bacana. Underground. Está na moda. — Ela ironizou, fazendo-me sorrir animado.

— Nem ficaremos muito aqui, temos de ir para o Condomínio Sunny Clarke. — Comentei, e Evelyn ergueu uma sobrancelha pra mim, mas repentinamente fez uma expressão de compreensão.

— Ah sim! O condomínio da família Clarke. Martha Prey é filha do casal Clarke, eu tinha esquecido. É o condomínio mais caro da Califórnia. — Evelyn coçou o queixo, ajeitando os óculos no rosto com a outra mão. — Clarke e Prey, duas famílias ricaças que sempre foram amigas. O Sunny Clarke não vai estar com uma segurança maior que o normal? É privado.

— É. — Eu assenti, e sentei ao lado dela com um sorriso. — Mas eu tenho meus contatos, consegui um jeito de entrarmos. — Me inclinei em sua direção, e ela repentinamente fez uma expressão de medo.

— Não fale. Eu não quero saber ainda. — Evelyn colocou as mãos no meu ombro, e me afastou. — Ah céus. Você com certeza nos enfiou em alguma enrascada com isso...

— Vai saber na hora certa. — Brinquei, indo na sua direção novamente, e ela revirou os olhos, se levantando. Pelo menos ela não estava mais tão mal-humorada.

— Sei. Bom, eu levantei algumas informações sobre os Prey, quem normalmente vem nesses eventos de fim de ano e tal. — Ela abriu sua bolsa, e eu resmunguei, soltando meu corpo na cama e me estendendo sobre o colchão ruim.

— Evelyn, eles só chegam amanhã. — Eu resmunguei. Sabia daquilo porque tinha pesquisado quando Gomes Prey sairia de férias da sua empresa. — Não precisa ficar...

— Ivan, não existem só o Gomes Prey e seus filhos nessa família sabe. — Ela me interrompeu, e se jogou do meu lado, me fazendo virar meu rosto pra ela enquanto ela segurava um papel no alto para enxergar. — O Gomes Prey é o mais velho dos filhos de Alessandro e Bianca Prey. 97º homem mais rico dos EUA e cuida de toda a Prey Gioielli dos EUA. Mas tem mais gente. — Ela avisou, e eu suspirei.

— Certo, depois eu vejo. Tô morto de fome, então podemos ir pra algum lugar? — Eu me sentei, e ela resmungou.

— Tá certo. — Ela se sentou do meu lado, e então me abraçou de lado, apoiando a cabeça no meu ombro. Eu fiquei surpreso, já que não era comum esse tipo de coisa. — Vamos conseguir um bom dinheiro aqui certo? Eu tenho certeza. — Ela disse baixinho, e eu retribui o abraço, sorrindo. Era bom aquele companheirismo.

— Com certeza. — Falei, e ela se separou em seguida, me olhando nos olhos.

— E vamos dar um jeito de você falar com o Dacey Florez também, não se preocupe. — Brincou, e eu fingi surpresa, colocando uma mão no peito.

— O que? Quem falou naquele loiro? — Exclamei em tom de ofensa, e ela gargalhou, me empurrando e se levantando em seguida.

— Ah Ivan, se toca. Você só pensa nos Prey da família do Gomes porque o Dacey está no meio. Não me engana. — Ela brincou, e eu abri a boca, sem responder. —Vamos comer algo, paparazzi do amor. — Voltou a brincou, e eu fiz uma careta pra ela enquanto ela ajeitava as roupas de inverno que estavam tortas por ter se deitado.

— Blah. Pode parar. — Falei, fechando os botões do meu casaco. Não era verdade, eu spo estava focando na parte americana da família, e mais nada. Não tinha a ver com aquele loirinho.

Tinha conseguido manter Dacey longe da minha mente, animado com toda a ideia de viajem e trabalho lucrativo, mas a Evelyn sempre conseguia me acertar. Será que ele estava muito ofendido com as fotos que eu tirei dele e as reportagens que saíram com elas? Eu poderia evitar fotografá-lo novamente, com tantas pessoas que renderiam bom dinheiro naquele lugar.

Argh. A vida de paparazzi não podia se prender nessa ética. Não devia ficar pensando naquilo e apenas fotografar tudo que pudesse. Eu não devia nada pra ele, nem o conhecia. Só ia tirar as minhas fotos, e pronto. Sem envolvimento. Sem pensamentos bobos.

Mesmo que Dacey Florez parecesse ser um coitadinho lindo que eu sentia necessidade de saber mais sobre. Não ia deixar de pagar minhas contas por isso.

— Dá pra ficar tranquilo um pouco? — Albert disse em tom sério, enquanto seguíamos na frente da família, empurrando os carrinhos de bagagem. Apesar da data, o aeroporto estava relativamente vazio para quase véspera de natal.— É só mais uma reportagem de fofoca. Você não costuma se preocupar com isso.

— Não é isso... — Eu falei, encarando o celular novamente com a reportagem “Dacey, o fotógrafo liberal de Albert Prey está na casa dos sogros.” na tela. — Só não devia ter deixado que tirassem minha foto. — Falei, apagando a tela e colocando o aparelho no bolso.

— Não era opção sua Dacey, achei que você já estivesse acostumado com esse assédio. — Albert respondeu, sorrindo. Pelo humor que ele estava agora, devia ter se medicado corretamente depois daquele dia, o que me fazia sentir um pouco melhor. — É de se esperar que os oportunistas fiquem em cima de nós nessa viagem.

— Eu sei, é que dessa vez... — Eu comecei, lembrando aquele paparazzi atrevido. O real problema não era aquela reportagem barata, com esse tipo de coisa eu estava acostumado, mas aquele idiota não agia como um paparazzi normal. Normalmente eram fotógrafos mais discretos e covardes, e não intrometidos que ficavam gritando coisas desagradáveis. Eram os fotógrafos que eu mais odiava, a fotografia era uma arte que não devia ser usada pra prejudicar os outros. E quem ele era para me dizer alguma coisa? Nem me conhecia! — Ah, não sei. Não quero pensar nisso.— Acabei por falar, balançando a cabeça. Não devia ficar pensando naquele cara, provavelmente ele tinha algum problema mental.

— É o melhor mesmo. — Albert comentou, e seus olhos focaram na nossa frente. Edmure e Cotter empurravam carrinhos com as malas lado a lado, e falando baixo, numa distância considerável de nós. O Sr. e a Sra. Prey iam atrás de nós tentando controlar as crianças que estavam bem agitadas. — Meu irmão parece feliz com o Cotter. — Ele disse, e observei enquanto Edmure ria de forma intensa e Cotter fazia uma careta. — É um menino bonito. O Cotter.

Engoli em seco com aquele comentário. “Não adianta ter ciúmes. O Albert não é seu.” Pensei, mordendo o lábio enquanto observava o garoto baixo empurrar o irmão de Albert com certa força, antes de ajeitar o cachecol no pescoço. Ele realmente era bonito, não era de se estranhar o interesse de alguém nele, apesar de não fazer meu tipo. Mas também, era provavelmente o namorado de Edmure, Albert nunca ia fazer nada com ele. Era cipumes infundado.

— É, seu irmão tem bom gosto. — Eu comentei, sorrindo de leve, sem muita sinceridade.

— Sim. O garoto é bem atraente. — Albert insistiu, e senti novamente aquele incômodo. Sem entender porque, a imagem daquele fotógrafo idiota apareceu na minha mente.

“Você é bonito demais pra se sujeitar a essa relação abusiva!” Ele gritou da janela do carro, e eu nem dei nenhuma resposta. Paparazzi loiro idiota. Eu não devia estar pensando nele agora.

— Você tinha dito que ia falar sobre seus tios e seus avós antes de chegarmos até lá... — Eu mudei de assunto, tentando afastar minha mente daquele paparazzi. Albert me encarou com uma sobrancelha erguida, provavelmente estranhando por eu ter mudado o assunto assim.

— Hum. É verdade. — Albert confirmou, e então voltou a encara o irmão e o pequeno amigo dele, falando meio distraído. — Bom, meus avós são donos do condomínio mais luxuoso da Califórnia, o Condomínio Clarke. Lógico, eles moram lá. O condomínio é bem elegante, famoso pelas piscinas térmicas e naturais, um monte de coisa.

— Sim. — Eu confirmei. Isso eu sabia, os pais de Martha Prey eram muito ricos e famosos por todo o mundo. Viviam daquele condomínio e vários outros espalhados pelos países do mundo, que lhes rendiam muito dinheiro.

— Bom, depois tem meu vô paterno que você conhece, a vovó... — Albert ergueu uma sobrancelha e eu olhei para onde ele olhava, vendo Edmure jogar o carrinho dele contra o de Cotter, numa brincadeira desinibida. — E tem meus tios.

— Conheço o Stefano, o Lorenzo...— Comentei, citando o segundo mais velho da geração Prey acima do Albert e seus irmão e primos. Curiosamente, assim como Gomes Prey, Alessandro, avô de Albert, também tinha 7 filhos, o que fazia a família ser enorme. — E suas tias Sandra e Antonella.

— Em ordem do mais velho pro mais novo... — Albert começou, anuindo com o que eu falei. — Seriam meu pai, depois o tio Stefano, tio Lorenzo, tia Sandra, tia Antonella, o tio Caetano e o tio Vicenzo. Todos eles vão vir com suas famílias.

Eu decorei os nomes, que já tinha ouvido Albert falar antes. E conhecia todos aqueles nomes, eram alguns dos maiores nomes dos ramos em que estavam envolvidos, principalmente os que trabalhavam na Prey Gioielli.

Stefano era do setor de exploração mineral da Prey, e cuidava das sedes africanas, que forneciam a matéria prima a ser utilizada nas outras fábricas. Era um dos poucos que eu conhecia, um homem bonito e bem sério. Lorenzo era seu gêmeo, o responsável pela Prey França, casado com a embaixadora americana na França, famoso, mas que eu só encontrei uma única vez.

Sandra cuidava de toda a parte da produção de joias, desde o design até os materiais. Uma mulher bem agradável e gentil, que eu sempre encontrava nas sessões de fotografia que fazia para a divulgação da Prey. Já Antonella, apesar de muito parecida fisicamente com a irmã, era totalmente diferente, com um dos gênios mais difíceis em toda a Europa. Apesar de ser a advogada oficial da Prey Gioielli, e ter um grande escritório de advocacia muito famoso, ela na verdade era uma grande barraqueira. Ambas eram casadas com personalidades e tinham filhos, Sandra com um empresário do ramo agrícola, e Antonella com um piloto de Fórmula 1 campeão por várias vezes.

Caetano e Vicenzo eram os que eu menos tinha conhecimento, já que ambos não trabalhavam no ramo do resto da família. Caetano eu sabia ser um jogador de futebol de um grande time Alemão, enquanto Vicenzo era algum tipo de empresário do irmão, mas não sabia muito mais que isso. Eram os dois únicos que não eram casados, e viviam juntos na Alemanha desde que suas carreiras se apoiavam uma na outra.

— Papai tem 46 anos, tio Stefano e Lorenzo têm 44, a Sandra tem 43 e a Antonella 40, o Caetano tem 37 e o Vicenzo 32. Mamãe tem dois irmãos, o tio Raymond e a tia Pamela, o tio com 44 e a tia com 40. Os dois trabalham com ramos imobiliários como o vovô. — Ele terminou o portfolio, sorrindo de forma sarcástica. — Não quer que eu fale sobre todos meus primos também não é? Aí é um pouco demais.

Eu sorri de volta. Não precisava de tudo isso também, os primos deviam ser muitos já que aquela família parecia adorar ter filhos.

— Não, obrigado. — Falei, e percebi que Edmure e Cotter tinham parado na nossa frente. Os alcançamos em poucos passos, enquanto eles se viravam pra nos olhar.

— O que foi? — Albert perguntou, curioso, com a expressão indagadora ao irmão.

Edmure sorriu. Eles eram tão parecidos que chegava a me incomodar um pouco.

— O que o Enzo luta mesmo? Box? — Edmure questionou, e eu ergui uma sobrancelha. Não sabia quem era Enzo, mas devia ser um primo.

— Taekwondo. — Albert respondeu, e em seguida se voltou para mim. — É o filho mais velho do Lorenzo. — Respondeu, e eu assenti, mostrando que havia compreendido. — Por que?

— Nada, só estava comentando com o Cotter. — Edmure sorriu, e Cotter também, ajeitando nervosamente o cachecol no pescoço.

— É, eu fiz Taekwondo um tempo... — Cotter disse, parecendo sem jeito. Eu me surpreendi, porque ele não parecia o tipo de cara que lutava. — Mas Taekwondo é muito estourado. Eu já era estourado, queria uma arte marcial que me acalmasse e não irritasse mais. — Ele sorriu ao final da fala, visivelmente sem jeito.

— Você luta? — Albert perguntou o que eu queria saber. Cotter coçou a cabeça, e eu ouvi Gomes e Martha se aproximando.

— Já lutei, agora não mais. Eu fazia Tai Chi. — Ele falou, e acompanhou Edmure e Albert, que começaram a empurrar os carrinhos de bagagem lentamente. Eu também os imitei, e começamos a caminhar lentamente, com Cotter olhando para nós. — Mas depois eu parei.

— Tai Chi foi uma arte marcial né. Você lutou várias. — Edmure comentou, e Cotter fez uma careta. Percebi Albert concentrado na conversa, e novamente uma pontinha de ciúmes surgiu em mim.

“Idiota...” Pensei sobre mim mesmo.

— Eu tentei várias. — Cotter comentou, olhando de esguelha pro seu namorado. Teoricamente namorado. — Não me dei bem em nenhuma além do Tai Chi.

Edmure se virou para mim e Albert com um sorriso divertido e torto nos lábios. Era um cara bonito.

— Não se deu bem que dizer que ele foi expulso das aulas por quase matar os colegas de treinos nas outras artes marciais. — Ele falou, e eu sorri divertido, ouvindo Albert rir.

— Então você é forte. — Albert comentou, e Cotter negou com a cabeça.

— Não leve a sério o que seu irmão fala. — Ele disse, e ajeitou novamente o cachecol. Parecia um tique nervoso. — Fui expulso de algumas aulas sim, mas por não me dar bem com a arte marcial.

— Você me contou que quebrou o braço de um colega no judô. — Edmure disse, e Cotter bufou.

— Isso foi o Jiu-Jitsu. No Judô eu... sem querer levei um soco inglês pra aula e acertei o meu colega com um pouco mais de força. — Ele disse, em tom sério. Eu ergui uma sobrancelha. Que garoto violento.

— Você é mesmo especial, não é? — Albert comentou de forma simpática, e novamente senti meu ciúmes crescer. No mesmo momento, a memória do paparazzi idiota veio na minha cabeça. De novo. Parecia uma assombração.

“Você é bonito demais pra se sujeitar a essa relação abusiva!” Ouvi novamente sua voz na minha cabeça. Abusado...

Mais uma memória veio em seguida, e eu engoli em seco. Era uma das memórias que eu devia evitar, segundo o psicólogo.

“... bonito demais...”

Esse era o verdadeiro problema, fotógrafo idiota.

–Flashback: Dacey, 11 anos atrás-

As unhas de papai sangravam de novo. Eu não sabia direito se eram as unhas ou os dedos, mas tinha sangue em suas mãos e no tampo da mesa enquanto ele resmungava e os esfregava contra a madeira lascada e torta da mesa da cozinha.

— A Mary realmente parecia bem. — Ele dizia, com um sorriso vidrado nos lábios, e aquele olhar distante de sempre. — Não é Dacey? Sua mamãe parecia ótima.

Eu ainda estava com as roupas pretas que sempre usava para ir ao cemitério no aniversário de morte da mamãe. Fazia três anos que ela se fora, e desde então, eu e o papai íamos lá sempre no aniversário de vida e de morte dela, e na missa de finados. Eu lembro do meu tio dizer que pra uma criança de 10 anos, eu já fora muito ao cemitério, mas papai sempre mandava o tio Alessandro calar a boca.

— Ela... — Comecei, assustado. Papai ainda esfregava os dedos na mesa de madeira da sala e não parecia me ouvir. — Pai, seus dedos estão...

— Ela estava ótima mesmo. — Ele cortou, ainda encarando o nada com aquele sorriso. Mordi o lábio, nervoso com toda aquela cena, um pouco assustado. Depois que a mamãe e ele sofreram aquele acidente de carro onde ela se foi, papai nunca mais fora o mesmo. Não entendia bem o que aconteceu com ele, mas me assustava. — Será que ela sentiu dor no acidente?

— E-eu não sei... — Falei, juntando minhas mãos, mas ele ainda não parecia me ouvir.

— É. — Ele finalmente olhou em minha direção, e seus dedos fizeram um som estranho contra a mesa. — Mas você é tão bonito como ela não é? Vai ser como ela.

Ele aumentou o sorriso, e eu estremeci. Odiava dizer, mas papai me assustava depois do acidente. Seus cabelos pretos estavam agora completamente cinzentos mesmo que ele ainda tivesse 38 anos, e sua feição agora era magra e encovada. Lembrava de como ele era bonito antes, mas agora até mesmo os olhos azuis pareciam leitosos e secos.

— Eu vou... — Falei, sem jeito, sob aquele olhar assustador.

— Sim, vai. Ela sofreu muito na morte, eu sei. — Papai bateu os dentes, num espasmo. — Ela gritava. “Matteo! Matteo!” Matteo sou eu. — Ele afirmou, voltando a sorrir.

— Eu sei pai... — Eu falei, dando um passo pra frente, mas ele então bateu as mãos na mesa, com um estrondo.

— NÃO FOI MINHA CULPA! NÃO OUSE DIZER QUE FOI! — Ele gritou, e eu saltei de susto, sentindo as lágrimas surgirem com aquilo.

— Eu não... — Comecei, mas novamente papai bateu na mesa.

— Ela me chamou e eu não pude fazer nada, droga! — Ele gritou, apontando pra mim. — E você fica me olhando com essa cara idêntica a ela!

— Desculpa...

— Não suporto a sua existência! — Ele gritou, e me encolhi. As lágrimas brotaram, mas eu estava acostumado a ouvir aquilo. — Como você pode ser feliz, com a sua mãe morta? Ninguém pode ser feliz sem ela. Ninguém.

— Eu também... — Comecei, e ele me encarou com raiva nos olhos. — Eu também estou triste.

Eu estava. Eu queria a mamãe de volta, e que meu papai voltasse a ser como era antes. Bonito, gentil, carinhoso. Que fossemos almoçar no restaurante da vovó, nós três, e ele sorrisse e a mamãe fizesse nós dois rir. Queria tudo o que eu tinha antes de ela morrer. Tudo de volta.

— É bom. Você não tem o direito de ser completamente feliz. Nunca vai ser. — Meu pai voltou a arrastar as unhas conta a mesa, estremecendo de dor. Eu solucei, chorando mais. — Você já é bonito demais, ninguém pode ter tudo nessa vida. Sua mãe era linda, feliz, mas perdeu a vida. Eu era feliz e perdi ela. Você não merece ser tão bonito e ser feliz.

Encolhi-me, as palavras me machucando como sempre, sem nenhuma delicadeza.

Ele sempre dizia aquilo. E eu sabia que não tinha, realmente, como ser feliz sem a mamãe.

— Ah não. — A voz de Albert ao meu lado, e sua mão apertando meu braço e forçando-me a parar me tirou do devaneio, e eu ofeguei, sentindo-me tremer de leve com aquelas lembranças de quando tinha 10 anos de idade. — Filhos da puta.

Eu o encarei, sentindo ele apertar mais meu pulso.

— Droga... — Edmure comentou na nossa frente, e então me toquei que tinha desligado mesmo da realidade, e nem percebi que estávamos quase nas portas do aeroporto.

E ali, seguros por uma cambada de seguranças, estavam uma multidão de paparazzi. Arregalei meus olhos, e meu coração disparou juntamente com o som dos flashes e seus brilhos.

— Não... — Eu sussurrei, e meu peito se desesperou. Eu não queria ver aquele loiro intrometido, apesar de não entender a razão. Busquei na multidão alguma coisa, rapidamente passando os olhos por aquelas 10 ou 15 pessoas que se amontoavam contra os seguranças, numa certa algazarra.

“Ele não vai estar aqui.” Pensei, me tocando que estávamos no outro lado do país agora. Continuei a olhar os fotógrafos. “São só alguns paparazzi...” tranquilizei-me, terminando de analisar os fotógrafos. “E no fim das contas, ele não pode fazer nada a mim.”

E então, com um sobretudo puído e cinzento cinzento, luvas pretas e uma touca de lã verde, estava ele lá, com a máquina no rosto. Só o reconheci pois no mesmo momento que olhei para ele, ele abaixou a câmera e me encarou com olhos verdes, parecendo abobalhado. E por algum motivo, aquele rosto estava gravado na minha mente.

Meu coração disparou, e eu tentei ir para trás, seguro pelo punho de Albert. Ainda não entendia muito bem porque estava tão receoso com aquele homem, apenas por ter gritado aquela idiotice, mas estava. E encarando-o, eu senti um arrepio subir minha coluna.

Desgraçado, por que ele viera?

Notas finais
Espero que tenham gostado! Muito obrigada. Beijos!