Fashion And Diamonds.
27 Capítulo 26 - The Hurricane.
Notas iniciais
Estava morta de saudades de postar já, estou feliz de estar fazendo isso hoje! Muito obrigada por todos os reviews super especiais, e um obrigada especial ao Ricc MelJacPot, que deixou uma recomendação! Obrigada querido!
Agora, sobre esse cap, além da chegada do Albert (podia até chamar Finally 2, porque né, finalmente!) eu aproveitei pra colocar um pouco do ponto de vista dos pais do Ed e Cotter sobre homossexualidade. Espero que gostem!
E sim, o Albert é bipolar HDISOAHDIOAO.
Muito obrigada!
Beijos e boa leitura!
PS: a música do fim do cap é essa:http://www.youtube.com/watch?v=nmcdLOjGVzw
PPS: criei um tumblr! É só o começo, mas espero que gostem: http://henacarter.tumblr.com/
Soltei um suspiro satisfeito enquanto empurrava o carrinho com minhas malas para fora do aeroporto. O ar noturno de inverno atingiu minha face sem piedade, e senti meu corpo estremecer de leve com o choque térmico. Dacey enlaçou o braço no meu e colou nossos corpos para afastar o frio. Abri um sorriso para noite, apoiando meu peso no carrinho.
Estados Unidos da América. Meu antigo lar.
— Nós vamos ficar na sua casa mesmo? — Dacey questionou, estremecendo de leve com o frio, do qual que ele não era fã. Provavelmente nevaria nas próximas noites.
— Sim, meus pais são acostumados que eu leve gente em casa. — Respondi, acenando pro primeiro táxi que passava ali no aeroporto. Eu já tinha levado dois namorados pra casa depois que mudei pra Itália, então meus pais realmente não ligavam muito, eles eram pessoas boas e simpáticas demais pra faltarem com educação com alguém, e hoje em dia não tinham preconceito. — Pode ficar tranquilo, eu tenho certeza que eles vão gostar de você.
— Espero que sim... — Dacey falou, me soltando para entrar no táxi parado enquanto o motorista pegava nossas malas e guardava. Dei as instruções do endereço de casa e entrei no banco traseiro com meu loiro.
Enquanto via a paisagem começar a ficar conhecida, eu ia pensando. Era sempre assim, desde que eu mudara de país. Meu psicólogo costumava dizer que eram as sequelas de bipolaridade que continuavam comigo após o trauma, mas eu não conseguia resolver aquilo mesmo depois do meu tratamento. Era difícil eu sentir saudades de casa, eu mantinha minha cabeça ocupada pra não ter aquelas sensações, mas quando acontecia, era um efeito em cadeia. Sentia saudade da minha família, e lembrava do mais velho dos meus irmãos, e aí lembrava do meu ódio, de todos os acontecimentos que me foderam no passado, então eu caia no meu poço negro de lembranças, tristezas, e ódio.
Junto, minha vontade de fazer o Edmure pagar por tudo aquilo aparecia. E quando eu não conseguia me controlar, num impulso, eu comprava minhas passagens pra américa cheio de ódio, esperando chegar aqui e fazer qualquer coisa contra meu irmão.
E no fim, quando eu chegava aqui, perdia todo meu incentivo. Não que eu tivesse menos raiva de meu irmão, mas sabia que não podia fazer nada contra ele, se quisesse manter a relação com minha família boa. Só podia esperar que o remorso e todas as coisas que eu dissera para ele no passado ainda o corroessem, e mais nada. Além de que eu não podia ofender minhas lembranças do meu passado nos EUA com aquele tipo de atitude. Não, eu não ia fazer nada contra meu detestável e ingrato irmão. Se eu estava ali, era pra ver a minha família, apresentar o Dacey, beijar meus pais e meus pequenos. O Edmure era o de menos, e em nenhuma das viagens que eu fiz, eu tive mais contato com ele do que o necessário. Não sabia se isso era fraqueza minha, ou autocontrole.
— Para de enrugar a testa assim que vai te dar rugas. — Dacey ralhou, despertando-me de meu transe ao passar os dedos na minha fronte. — Tá pensando em quê? Toda vez que você enruga a testa assim é porque tá pensando em alguma coisa.
Sorri, enquanto o taxista parava num sinal, disfarçando minhas emoções.
— Nada, lembrando meus tempos de moleque aqui. — Menti, passando um braço em torno de seu pescoço e tentando afastar aqueles pensamentos. Dacey não pareceu acreditar muito, mas não insistiu no assunto.
Passei o resto do caminho apontando locais que eu conhecia pelos meus tempos de moleque ali, e Dacey observou tudo com interesse, os olhos castanhos dançando de um lado para o outro enquanto eu apontava. Minhas memórias me atingiram enquanto fiz aquilo, mas tentei não lembrar muito do que havia perdido.
— Aqui já é meu bairro, estamos chegando... — Comentei, olhando em volta e reconhecendo as outras mansões dos vizinhos. — Pode virar à esquerda e seguir até o fim da rua, minha casa é a última. — Informei o taxista, que apenas anuiu.
Acabei sorrindo sinceramente enquanto nos aproximávamos e pude enxergar a mansão. Tantas lembranças...
— É mesmo uma casa grande. — Dacey comentou, e eu observei as janelas acesas, pensando nas crianças que provavelmente estavam fazendo alguma arte. Senti um pequeno nervosismo ao imaginar que Edmure também estava ali, mas desencanei. Pelo que eu conhecia dele, mal íamos nos ver, e ia ficar tudo bem. — Acho que estou nervoso. Ainda bem que eu fiz aquelas aulas de inglês na faculdade, imagina se eu ainda por cima não falasse inglês direito... — O loiro sorriu sem jeito para mim.
— Relaxa, cinco das oito pessoas da minha família que moram nessa casa também não falam direito ainda. — Brinquei, pensando em meus irmãos mais novos. Mas me toquei que Christian já não era mais tão novo, tinha 13 anos. E eu sabia muito bem que crianças de 13 anos já eram bem espertinhas. — Bom, pronto ou não, chegamos. — Sorri, enquanto o taxista parava o veículo em frente os portões de casa, e eu vi nosso segurança, Rob, colocar a cabeça pra fora da guarita.
Descemos e descarregamos as malas, puxando meu celular enquanto Dacey pagava o taxista. Busquei o número pessoal da minha mãe, e disquei, porque não queria falar com nenhum empregado e estragar a surpresa, já que eu tinha vindo sem avisar ninguém da minha família além do meu avô.
— Alô? — Ouvi a voz de minha mãe junto com risadas infantis, e meu coração se amoleceu todo. O taxista saiu com o carro e Dacey veio na minha direção. — Ah Bryan por Deus, coloque esse cachorro sujo no chão. — Ela reclamou com meu irmão pestinha, do jeito que eu conhecia. — Martha Prey, quem é?
— É o filho mais lindo que veio da Itália ver vocês! — Brinquei, rindo, e o grito de surpresa que ela deu fez meu sorriso abrir mais.
—
— Seu avô me avisou que você ia tirar férias, mas não chegou a falar que você vinha pra cá. — Meu pai falou, sorrindo, enquanto entregava uma taça de vinho para mim e uma para Dacey.
Estávamos sentados na mesa da sala de jantar, e eu estava totalmente acabado depois de passar duas horas diretas brincando com as crianças e o cachorrinho novo delas, mal conseguindo falar com meus pais nesse tempo. Todos os meninos estavam bonitos, grandes e crescidos, e Denna estava uma princesinha. Porém, como toda boa criança, os mais novos desmaiaram em sono ferrado depois das dez horas da noite, e os dois mais velhos foram pra sala jogar vídeo game, me deixando um pouco com meus pais depois de me atacarem no momento que eu chegara.
Era algo que eu prezava muito na minha família. Como família grande, nós tínhamos um carinho gigantesco uns pelos outros mesmo depois de tanto tempo, e isso até me fazia esquecer minhas desavenças com o Edmure. Matar a saudade era muito bom, e eu me sentia satisfeito, apesar de cansado.
— Eu quis fazer uma surpresa. — Sorri, aceitando a taça, e ajeitando a gola da camisa molhada de suor, apesar do frio do inverno lá fora. Meu pai se sentou na minha frente, sorrindo. Também era bom vê-lo, apesar de também ter brigado muito com ele na minha adolescência, eu sabia que o bobo na época era eu.
— E que surpresa adorável. — Ouvi minha mãe, que passou um braço em torno de meus ombros e beijou minha testa. Ela estava em pé atrás de mim. — Sabe, às vezes essas crianças me fazem esquecer que eu tenho dois filhos moços que já se viram, e um mora tão longe. — Mamãe bagunçou meu cabelo naquele jeitão de mãe dela, e se afastou, indo se sentar na nossa frente. Ignorei a citação ao Edmure. — E finalmente trouxe o namorado pra gente conhecer. — Ela sorriu simpática pra Dacey, que corou e sorriu de volta.
— Estamos muito feliz por vocês dois. — Meu pai falou, seu olhar faiscando em minha direção enquanto servia vinho na taça de minha mãe. Eu sabia que provavelmente, como das outras vezes que eu viera, ele ia me dar uma bela bronca pelas minhas libertinagens. Papai era tão chato quanto meu avô, mas ia levar algum tempo ainda pra ele me encher. — Da última vez que eu e sua mãe fomos visitar o Albert você estava viajando a trabalho Dacey, então não tivemos chances de nos conhecer. Mas meu pai fala muito bem de você, e eu sempre vejo notícias suas por aí. Parabéns pelo seu trabalho.
Eu abri um sorriso, divertido, enquanto Dacey corava ainda mais, agradecendo sem jeito. Se havia uma maneira de deixar ele pra cima era elogiar seu trabalho como fotógrafo. Ele era realmente bom no que fazia, e eu sabia que ele merecia todo o sucesso.
— É muita gentileza, Sr. Prey. — Agradeceu, tomando um gole de sua taça.
Conversamos por um tempo, sobre trabalho em especial já que todos trabalhávamos na mesma empresa, com exceção de Dacey que além de trabalhar na Prey também fazia serviços em outras empresas. Depois de discutir um pouco de negócios, caímos no assunto típico sobre a vida de cada um, meio que “botando o assunto em dia”. Só para constar, nem lembrei do Edmure durante aquela conversa, meus pais sabiam que não nos dávamos bem, apesar de não saberem porque e acharem que era coisa de irmão mesmo, então não o citaram. Por fim, minha mãe chamou Dacey para mostrar alguns cômodos da casa, me deixando apenas com meu pai. Talvez fosse o momento da bronca.
Ficamos em silêncio por alguns momentos. Meu pai abriu o primeiro botão de sua camisa, ele não tinha mudado nada nos últimos anos, continuava com aquela cara de cansado, mas conservado e bonito pra sua idade, e ainda usava sempre as roupas do escritório até tarde da noite, quando ia tomar banho e se deitar. Desde que eu me lembrava dele, era assim.
— Sabe, é bom ter você em casa. — Meu pai falou, olhando distraído pela janela que ficava ao nosso lado esquerdo. Mesma cara de pensativo de sempre também. Tomou um gole de sua taça, e se virou para mim. — Só percebemos a falta que você faz quando vem nos visitar.
Eu me senti sem jeito como sempre quando ele ou minha mãe falavam sobre isso. Já tinha perdoado meus pais por nossas brigas no passado, com os anos eu vi que não tinha brigado com eles por culpa deles, e sim porque estava abalado psicologicamente. Então isso eram águas passadas, e essas conversas sentimentais não faziam meu estilo, então apenas tomei mais um gole de vinho.
— Às vezes eu me pergunto como vai ser em alguns anos. — Papai sorriu, rodando a taça em mãos. — Edmure também quase não fica mais em casa, e o Chirs está crescendo mais rápido que vocês dois juntos. — Ele sorriu, e percebi, pelas faces coradas, que o velho estava meio alcoolizado já. — Ainda bem que eu tenho muitos filhos, não quero ficar sozinho com sua mãe nessa casa.
Sorri, levemente emocionado.
— Ah pai, por Deus, os gêmeos têm três anos. — Eu provoquei, e ele riu. — Um dia nós todos vamos sair de casa, mas o senhor não vai estar mais aguentando ver a nossa cara também. Ou acha que eu não sei que você ia ficar doido se eu ficasse mais uns anos aqui?
Rimos juntos, e meu pai enxugou uma lágrima do olhar de forma discreta, e fingi não ver.
— É, pois é. — Falou entre as risadas, me encarando. — Sabe, o Edmure está muito parecido com você.
Eu senti o vinho amargar em minha boca. Bom, pelo menos alguma coisa teríamos de falar sobre o meu irmão.
— E onde ele está? — Perguntei, disfarçando meu incômodo. Surpreendi-me quando meu pai suspirou cansado.
— Ah, eu queria falar com você sobre isso. — Murmurou, bagunçando os cabelos grisalhos com uma mão.
Minha intuição apitou. Eu senti que nada de bom ia sair dali.
— Sobre o que? — Perguntei, sentindo meu nervosismo começar a aparecer.
Meu pai ergueu os olhos pra mim, repentinamente sério. Achei que ele ia falar sobre a briga que eu tivera com meu irmão, ou pior, que meu irmão tivesse contado pra ele alguma coisa, e isso fez meu coração acelerar. Se ele fizera aquilo...
— Você sabe que eu amo muito todos vocês, meus filhos. — Papai começou, e eu apertei um pouco mais a mão em volta da taça. — Mesmo com as crises de adolescência e infância, as artes dos seus irmãozinhos, e você me fez perder qualquer preconceito que eu tivesse em relação à sexualidade então isso também não atrapalha, nem penso muito sobre. — Papai suspirou. — Com o Edmure não é diferente. Não tenho muito tempo pra ter contato com ele, mesmo morando na mesma casa, mas nossa relação é muito boa.
Eu estremeci. Deus, do que ele estava falando?
— Eu sei disso tudo pai. Aconteceu alguma coisa? — Questionei, tentando disfarçar meu nervosismo. Os olhos violetas de meu pai, a cor que eu tanto invejava, focaram no meu, chateados.
— Não queria te bombardear com isso logo na sua chegada, mas... Eu acho que seu irmão é gay. — Ele falou. — Acho porque não é meu primeiro filho a ter essa sexualidade, já tenho uma noção de como é. Você sabe, eu não tenho nada contra isso, mas pra um pai é sempre um choque. O Edmure conheceu um rapaz, um garoto muito bonzinho chamado Cotter, e eles nãos e desgrudam mais, estão juntos agora inclusive. Ele até trouxe o menino pra casa, e você sabe que ele não disfarça bem, os olhos dele brilhavam tanto olhando pra aquele garoto, e até o cachorro que ele trouxe parece que eles acharam juntos... Enfim, eu e sua mãe já aprendemos com você, e não estamos bravos nem nada pela sexualidade dele, mas gostaria que seu irmão viesse falar conosco logo. Pra podermos dizer que o apoiamos, que ele não precisa ter medo. Mas ainda não é uma certeza, não queremos falar nada antes e ele se irritar, então queria que ele falasse com a gente... Não sei o que fazer, parece que você veio numa hora ótima, sei que vocês são brigados, essa coisa besta de irmãos, mas se ele for mesmo gay, vai procurar apoio em você com certeza. E... Albert!
A taça estourou em minha mão quando eu a apertei demais, e senti os cacos de cristal romperem a pele da palma. O álcool a fez arder, mas nem senti direito.
Minha visão embaçou, e senti um descontrole e descrença me invadirem. “Eu acho que seu irmão é gay” ecoou na minha mente de forma avassaladora.
Eu não acreditava no que estava ouvindo, depois de tudo que ele fizera, depois de acabar com a minha vida, Edmure ainda tinha coragem de ser gay? Ele tinha? A cara de pau de ser homossexual? Céus, eu sabia disso. De alguma forma inconsciente, eu tinha certeza disso desde sempre, então eu sabia que as suspeitas de meu pai eram verdadeiras. Até mesmo nos dias antes de eu partir para a Itália, quando tudo aconteceu, eu disse que ele ia ser igual a mim, um gay, mas na época achava que tinha falado apenas por raiva. Como eu não me tocara antes?
O ódio me invadiu, encobrindo a dor na minha mão. Até parece que o Edmure ia buscar ajuda em mim, ou que eu ia ajuda-lo. Eu ia destruir aquele relacionamento dele. Destruir, e então ele ia saber o que eu passei quando ele destruiu o meu relacionamento, seis anos atrás. Edmure ia me pagar por aquilo, como ele ousava?
Dessa vez, minha vingança não ia esperar. Não tinha como perdoá-lo depois disso.
—
Sinceramente, eu não esperava que fosse tão divertido e engraçado sair com Cotter e os pais, mas era. Eles tinham me levado para um Karaokê, onde o Sr. e a Sra. Prey encontraram alguns amigos — alguns de trabalho e outros não. — para beberem e se divertirem.
Se já não fosse engraçado o bastante o lugar ser um Karaokê super simples, onde as pessoas iam, mesmo sabendo ou não, para cantarem no pequeno palco, os pais do Cotter eram muito engraçados. O lugar definitivamente não era o estilo deles, a comida não era ruim, mas era simples, o ambiente era comum, e as pessoas ali não se vestiam tão bem quanto a família moda. Mas os dois pareciam tão à vontade que era de assustar. E pelo que Cotter me falara, eles iam lá com frequência. Claro, o local era bem livre de paparazzi, porque nenhum acreditaria que veria duas “celebridades” num lugar daquele, e isso devia ajudar bastante.
Enfim, desde que chegara, eu estava me divertindo bastante. Principalmente porque o Jeremy, pai do Cotter, era muito legal, apesar do jeitão sério que lembrava meu pai, e não era um homem forte pra bebida. Ou seja, logo, ele estava lá no palco com uma taça de vinho na mão, e cantando “Lullaby” do Nickelback. E ele não cantava mal, o que deixava tudo ainda mais estranho e engraçado. E a Anne também cantava bem! A loira não saia do palco, e eu até tinha cantado uma música com ela, “Don’t you want me” do The Human League. Cotter ainda estava rindo de mim por isso.
Era estranhíssimo pensar que aqueles eram meus sogros, mas ao mesmo tempo era legal, porque estávamos nos dando bem, e eu prezava muito isso. Deixava as coisas mais simples e agradáveis, uma coisa a menos pra incomodar minha cabeça por um tempo.
Agora, mas nem sonhando, eu achava que ia ver o Cotter cantando na minha vida. E tá, não foi fácil, eu precisei de algumas horas tentando embebedá-lo, e da mãe dele chama-lo umas seis vezes, junto com todos os colegas, pedindo para ele cantar. E o chato só foi aceitar depois que todo mundo já tinha ido embora, e só nós continuávamos ali, naquela coisa que bêbado tem de não querer ir embora nunca de um lugar. Aliás, nem eu nem a Anne estávamos bebendo pra podermos dirigir, mas o Jeremy e o Cotter estavam bem alterados. O típico tal pai, tal filho.
— Tá, tá bom mãe, vamos cantar. — Cotter falou, revirando os olhos, e nós três rimos no estabelecimento quase vazio, apenas com uma mesa onde um homem solitário que havia cantado várias vezes na noite se sentava. — Uma música pra você, seu babaca. — Ele sussurrou pra mim, com uma careta, fazendo eu sorrir com uma sobrancelha arqueada. Música pra mim?
Aliás, o Cotter podia estar bêbado, mas estava tão controlado que era muito difícil de acreditar. No momento, eu tinha muita certeza que seus pais nem sonhavam que nós dois estávamos juntos, porque ele era muito discreto, e ao mesmo tempo, tínhamos conseguido ficar juntos — claro, sem nenhum contato, mas conseguimos conversar e ficar próximos sem os pais dele perceberem nada.
— Que música? — Eu perguntei, mas ele sorriu, fazendo que não com a cabeça. Vi que Anne e Jeremy davam um selinho do outro lado da mesa, distraídos.
— Uma sobre como você é tonto. — Ele apertou minha perna por baixo da mesa discretamente, e se levantou. — Vamos lá mãe, aquela música que eu te mostrei.
— Ei, espera aí, não! — Anne anunciou, erguendo uma mão em protesto. — Espera, vamos ensaiar um pouquinho, não conheço a música. — Ela se levantou e puxou Cotter pro canto do Karaokê, arrancando risos de mim e do Sr. Storm.
— Argh, você deve estar achando que somos uns loucos, não? — Ele se inclinou na minha direção, sorrindo. O encarei bem, reparando que era um coroa conservado, e levando em consideração como o Cotter parecia com ele, era assim que meu namorado estaria no futuro. Assustador imaginar que eu e o Cotter íamos formar um casal semelhante ao meu pai e o pai dele juntos.
— Que isso Sr. Storm, aqui é muito legal. — E era mesmo. Tomei um gole da minha água, e Jeremy sorriu, me encarando com aqueles orbes cinzentos. Ele também podia estar um pouco alcoolizado, mas disfarçava incrivelmente bem. Só mais desinibido, mas muito controlado.
— Que bom que gostou. — Ele sorriu, simpático. — Sabe Edmure, o Cotter nunca teve muitos amigos, isso sempre me incomodou um pouco... — Começou, e atentei meus ouvidos. Era meio repentino, mas eu sabia que pais gostavam de falar dos filhos. —É complicado, eu entendo também. Não é fácil pra um garotinho ser filho de um cara do ramo da moda como eu, os julgamentos são muito antecipados. Se você trabalha com moda é gay, faz uma plástica é gay, come bem é gay. Como se sexualidade fosse definidor de caráter, o que não é. Tudo bem que tem certos estereótipos, mas isso me irrita muito. Não se pode gostar de Madonna e ser hetero? Eu conheço, muitos homossexuais do ramo que nunca se encaixaram nos padrões. Por Deus, alguns estilistas nem se vestem bem, e eu mesmo que tenho certa influência na moda, não sou gay. — Ele revirou os olhos. — Enfim, estou divagando. Acontece, que os outros meninos parecem se afastar do Cotter pelo fato de ele ser considerado gay.
Eu ergui uma sobrancelha, intrigado com aquele assunto. Sempre imaginei mesmo, que o Jeremy não teria preconceitos por trabalhar num ramo dominado por homossexuais e etc. Mas nunca o ouvira falando sobre aquilo, ainda mais relacionando com o Cotter. E ouvir ele falando agora estava me deixando nervoso, será que ele desconfiava de algo?
— Eu entendo, mas o Cotter é bem popular na escola. — Comentei, e o homem anuiu com a cabeça.
— Sim, mas ele nunca teve amigos mesmo, com exceção do Tony. Ser popular e ter amizades são coisas bem distintas. Quando você se torna mais velho, o fato de ser abastado financeiramente ultrapassa os limites da sexualidade, e você pode se tornar admirado pelas pessoas, mas aí não existe amizade baseada nisso, só interesse. Amizades verdadeiras não ligam pro dinheiro, mas ligam pra caráter, e infelizmente alguns acham que sexualidade e caráter são relacionados. Bem, não questionando a sexualidade do meu filho, porque pra mim e Anne não faz diferença nenhuma, apesar dele já ter nos apresentado namoradas e tudo. — Eu ergui mais a sobrancelhas, surpreso. Sinal verde? Eu precisava falar com o Cotter sobre isso. — Mas quando mais novo, o Cotter sofreu bastante com relação a isso, era um menino bem sozinho. Ninguém queria brincar com o “gay”. Nessa época que ele se virou, começou a se impor, pouco depois ficou violento, e aí começou a ter essa postura “popular” com as crianças, depois entrou no Tai Chi, foi expulso da antiga escola, começou a fumar ... Ele se cobriu nessas coisas pra conseguir amigos, se defendendo atrás de uma postura de “pessoa perfeita”, e escondendo seus defeitos.
Desviei meus olhos na direção de Cotter, que parecia cantar baixinho para sua mãe a tal música. O Cotter Storm, o cara mais bem decidido que eu conhecera na minha vida, que não ligava pra popularidade, e sempre parecera ter sido querido, tinha passado por tudo aquilo? E porque diabos o Sr. Storm estava me falando isso?
— Eu não sabia de tudo isso... — Falei, sem jeito, e Jeremy riu.
— É, o Cotter tem meio vergonha disso tudo porque viu que foi besteira. Ele percebeu que popularidade não é importante, o importante é ter amigos verdadeiros. E hoje em dia ele tem uma turminha legal até, além do Tony, você... — Jeremy se inclinou sobre a mesa, e bateu uma mão no meu ombro. — Mas sabe, você é um cara legal Edmure. Porque eu percebo que o Cotter é muito mais ele mesmo perto de você do que perto dos outros. Com você ele fica nervoso, inseguro, sem jeito... O que ele não fica na frente dos outros pra não perder a postura, nem mesmo na frente do Tony. E eu percebo que ele faz isso porque vocês são amigos independente de qualquer coisa. Ele confia em você pra cobrir as fraquezas dele, ajuda-lo nessas horas. E pra mim, é maravilhoso ver meu filho ser um pouco mais uma pessoa normal, ser ele mesmo com suas qualidades e defeitos, e não aquela imagem de muralha inabalável que ele divulgava de si. Então, obrigado ok? E ah, não diga pro Cotter que eu te falei disso.
Juro que nessa hora, eu estava com a boca seca, a língua grossa, e me sentindo muito estranho, meio emocionado e meio nervoso com as palavras. Parecia que o Sr. Storm sabia de tudo que estava acontecendo, e estava falando de forma mais discreta “você é um ótimo genro” ou algo assim. E também, eu nunca tinha reparado aquilo. Sabia que sim, quando me aproximei de Cotter, conheci uma pessoa muito diferente daquele moleque que andava de cara fechada na escola, com presença e ares de perfeição, mas nunca reparei que ele se disfarçava atrás dessa imagem. Ao mesmo tempo em que ouvir o pai dele me dizer aquilo me deixava estranho, sem saber o que dizer, eu sentia uma certa felicidade.
E graças a Deus, eu não precisei responder nada, porque a música começou e nós dois nos viramos rapidamente pro palco, vendo mãe e filho com microfones em mãos, Anne sorrindo, e Cotter vermelho como uma pimenta, tentando segurar o riso. Jeremy deu um grito animado e bateu palmas, fazendo o filho corar ainda mais, sorrindo sem graça. Ele estava mais do que lindo, e o mundo pareceu embaçar em volta de mim, de uma forma que eu não via mais nada além daquele riso bobo. Até esqueci da conversa que acabara de tiver.
A música era divertida, sem nada romântico, o que evitava levantar suspeitas. Era um dueto, e a voz do Cotter, apesar de não ser de cantor, não ficava ruim com a da mãe dele. Mas foi uma música que me tocou, e combinava tanto com a gente que apesar de não ser intencionalmente romântica, acabava sendo.
O tema da canção na verdade era sobre popularidade, o que era algo que eu prezava muito, e daí vinha a piada. A música falava sobre um rapaz que não era popular, e odiava seu amigo popular, e após um tempo, inverteu a situação. Tirando o fato de eu ainda ser popular, a música combinava bastante, afinal minhas brigas com Cotter no passado foram por culpa dessa questão. E quando a música falava que “não importa seu carro legal, ou quem você é, popularidade é sobre você ser verdadeiro consigo mesmo” era o momento que mais encaixava, já que era o que ele vivia me dizendo.
Acho que eu podia continuar ali até o fim da minha vida, ouvindo aquela música e pensando em nós dois, nossos olhos se encontrando discretamente, e Cotter vermelho com ninguém. Porém, meu celular vibrou várias vezes seguidas em meu bolso, e eu ignorei, atendendo apenas quando a música acabou e eu bati palmas e assoviei, provocando meu namorado e minha sogra. Em seguida puxei o aparelho do bolso e atendi sem olhar o número, ainda inundado pela felicidade inexplicável daquele momento.
— Alô?
— Edmure! — Era minha mãe na linha, num tom de voz animado. — Adivinha quem está em casa?
E aí, meu terror começou.
Notas finais
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