Fascínio
7 O dia
Notas iniciais
Aquela semana foi terrível. Havia noites que eu quase surtara de tanta ansiedade. Finn me fez prometer que não procuraria por ele durante aquela semana, somente na sexta à noite quando iriamos embora para nunca mais retornar. Marcamo-nos de nos encontrarmos no estábulo, até lá teria que agir como se tudo tivesse bem. E foi o que eu fiz.
Disse ao duque que aceitaria me casar com ele após o Mardi Gras, mamãe e papai ficaram muito contentes, nunca os vi sorrirem tanto. Na terça passei a tarde com minhas primas, vendo coisas para o enxoval, colocando os assuntos em dia... À noite me assustei em encontrar minha mãe num péssimo estado sentada sozinha na sala e no escuro. Ela estava pálida, muito pálida. Quando a ajudei se levantar percebi o quanto estava fraca e gelada.
- O que houve mãe? – Perguntei.
- Não... Consigo me lembrar...
Eu a ajudei subir até seu quarto, troquei sua roupa e lhe servi um chá. Na hora que havia chegado da casa das minhas primas a mansão já estava vazia, os empregados haviam se retirado. Achei estranho o papai não estar ali também, de certo havia saído para se encontrar com alguém, até mesmo o duque e seu amigo – naqueles dias os três estavam bastante próximos.
Fiquei sentada na cama de minha mãe até que ela pegou no sono. Quando dormiu sua cabeça virou sobre o travesseiro deixando seu pescoço branco à mostra e então eu pude ver os dois furos estranhos. No outro dia um médico a analisou e não soube explicar o que era. Minha mãe, meio que num estado de transe, respondeu que havia se machucado com agulhas.
Ela realmente acreditou que poderia nos enganar desse jeito? Agulhas não fariam machucados daquele jeito. Algo muito mais grosso do que “agulhas” havia a ferido. Talvez algum animal...
Naquele dia busquei ficar o tempo todo no pé da minha mãe. Pensei até em procurar Finn e dizer que havia desistido – não poderia deixar minha mãe doente. – Mas não. Tinha fé de que logo ela melhoraria e então eu poderia ir com a consciência tranquila.
Claro que minha consciência não ficaria tranquila. Eu amava muito meus pais para deixa-los. Sentiria muito a falta deles, mas não queria ficar, queria ser livre e feliz ao lado do homem que amava. Sabia que estava sendo egoísta. Meus pais ficariam arrasados, mas um dia superariam.
Na quinta-feira minha mãe estava boa novamente. Muito mais disposta, seu apetite havia retornado e tinha até ido visitar uma de suas amigas à tarde.
Em geral, neste dia eu toquei piano. Estava tão entusiasmada para fazer algo que no ápice do meu tédio eu comecei a escrever. Pensei em deixar algumas cartas para meus pais explicando o porquê de minha partida. Fiz uma carta também para minhas primas, minhas únicas amigas e até uma para Alan, lhe pedindo desculpa e para não ficar com raiva de meus pais depois de tudo.
Alan apareceu à tarde. Conversamos sobre coisas banais, ele só tinha assuntos chatos, elogios comuns... Enfim, coisas que já não suportava mais ouvir. Mas consegui tratá-lo bem. Quando foi embora percebi que ele queria me dizer algo, mas ficou nervoso com o pensamento. Depois de muito tempo enrolando para não ir embora ele se inclinou e beijou minha bochecha saindo rapidamente em seguida. Sabia que ele ficava muito tímido quando se referia a mim e sabia que aquele beijo foi difícil demais para ele. Sério, ele tremeu tanto que pensei que ia ter um treco ali, na minha frente, e o que eu poderia fazer? – Lembrando daquela situação agora, até que foi muito engraçado. Um marmanjo como ele envergonhado por minha causa.
Na quinta-feira, também, não consegui dormir por causa da sexta-feira que se aproximava. Só houve um momento que cochilei, mas aquele mesmo pesadelo tomou conta de mim. No fim eu sempre me afogava. Sabe o quanto é ruim não conseguir respirar? Você sabe que é um sonho, mas não consegue acordar e quando puxa o ar tudo que você sente é água invadindo os seus pulmões. No sonho a água em que eu estava era escura demais para enxergar algo, mas de repente minha cabeça batia em algo pontiagudo e duro e era sempre ai que acordava: tossindo e com uma imensa dor de cabeça.
Sexta-feira finalmente havia chegado. O dia em que eu fugiria com meu amado. Quando me levantei desci as escadas saltitando. Sorrindo cumprimentei algumas empregadas enquanto seguia até a mesa do café, elas me olharam desconfiadas, porém sorriram de volta – por obrigação. – Se soubesse alguma música que não fosse somente instrumental eu até cantaria. Tudo estava dando certo, tudo tinha que dar certo.
- Bom dia mamãe! – Beijei seu rosto. – Bom dia papai! – E o dele também. Depois me sentei-me à mesa de frente para a minha mãe. Havia tanta coisa boa para comer... Queijo, pão, biscoitos, geleias, sucos, iogurtes...
Estava prestes a morder uma fatia de bolo quando vi que meus pais me encaravam com desconfiança.
- O que foi? – interrompi a mordida.
- Nada... – Mamãe deu de ombros e voltou a misturar o açúcar no seu café. Ela estava melhorando, mas ainda estava pálida.
- É só que... Você está diferente. – Papai falou.
Olhei para os dois os desafiando a dizer o que havia de diferente em mim. Acho que estava transbordando de felicidade e isso não era normal. Tinha que me esforçar para não chamar tanta atenção, agir com normalidade.
- Sou a mesma de sempre. – Não sorri. Olhei mais uma vez para os dois antes de morder o bolo.
Após o café minha mãe foi até meu quarto para conversar comigo.
- Olá querida. – Entrou sem bater e isso sempre me deixou muito irritada, menos naquele dia. Estava feliz demais para reparar em algo.
Sorri para ela e voltei a me olhar no espelho – era muito difícil prender um grampo no cabelo. O infeliz não parava.
- Você está bem? – Ela perguntou após um momento de hesitação.
- Sim mamãe, por que estão todos me perguntando isso?
- É que nesses últimos dias você tem agido de forma... Bem, me deixe explicar com mais detalhes.
Deixo o grampo de lado e me volto para escutá-la.
- Você tem concordado com tudo que seu pai e eu dizemos sem contestar. Vem tratado Alan bem em suas visitas, vem me obedecido na primeira ordem. Você até cuidou de mim quando estive doente. – Enquanto ela falava percebi que ela estava melhor, mas ainda não era a mesma de antes. Sua voz estava mais falha, seus olhos mais fundos. Percebi que ela nem gesticulava com as mãos enquanto falava – o que era uma de suas marcas registradas.
- Você ainda está mal, não está? – Pergunto. Ela me olha surpresa.
- Não quero falar sobre isso. Quero saber o que está havendo com você.
- Eu posso ter resolvido mudar?
- Não.
- Amadurecido?
- Não, não e não! Você não muda e nem amadurece! Você é sempre mal humorada e teimosa! Você está tramando alguma, não está?
Fiquei quieta e acho que aquele silêncio me entregou. Antes que ela dissesse “eu sabia!” disse:
- Eu não entendo! Não é o que você sempre quis? Que eu me comportasse? Que eu melhorasse?
- Sim, mas...
- Então! Eu estou tentando, me esforçando para agradar vocês, mas vocês sempre veem meus defeitos. Qual é o problema afinal? Será que eu nunca vou ser boa o bastante?
- Não é isso...
- Ou eu sou ruim demais, ou boa demais, ou...
- Marianne! – Minha mãe grita e isso me cala.
Ela cambaleia um passo para trás e percebo que se não fosse minha cama ela cairia no chão. Seus olhos reviram, corro e a seguro a tempo. Ela desmaia em meus braços.
- // -
A noite toma conta do céu lentamente, zombando de mim. Parece que Deus está me mostrando que as coisas vão ser sempre como ele quer e não o contrário. Está me mostrando que o tempo é dele e mesmo que pareça que ele está correndo mais lento do que de costume, eu ainda não tenho o poder de pará-lo. Logo Finn irá me encontrar nos estábulos e eu não estarei lá.
Observo pela janela do quarto o dourado do sol dando lugar à escuridão. Minha mãe ainda está desmaiada e eu estou ao seu lado na cama. Ela respira irregularmente.
- Deus... – Começo a orar. – eu sei que o senhor me odeia, mas, por favor, só desta vez...
Meu pai entra no quarto acompanhado do doutor Fausto Muller.
Ele pede licença para examinar a minha mãe e então espero ao lado de meu pai. No fim seu diagnóstico é o mesmo. Diz que não pode nos ajudar, não pode fazer nada. Meu pai assente e o acompanha até a saída. Eu me sento novamente ao lado de minha mãe, desta vez coloco sua cabeça em meu colo. Brinco com seus cabelos laranja como os de minhas primas. Sempre invejei seu cabelo, o brilho e sua cor, mas agora eles não eram tudo isso.
- Ela vai morrer? – Pergunto para meu pai quando ele retorna.
De pé do outro lado da cama ele olha por um longo tempo para ela. Ele parece tão perdido quanto eu.
- Eu não sei, espero que não. – Diz. – Não sei o que será de mim sem Lilian.
Eu assinto. Estou triste por não poder ir com Finn, mas não posso deixa-los. Que ideia eu fui ter. Espero que um dia Deus possa me perdoar por ter pensado cometer um erro daqueles. Estendi meu braço por cima de minha mãe e meu pai segurou minha mão do outro lado. Ele sentou-se também na cama. Naquela noite nós três dormimos na mesma cama.
No meio da noite eu me levantei para ir ao meu quarto. Minha mãe despertou um pouco confusa.
- Filha?
- Sim mãe.
- Por favor, não me deixe sozinha.
Sentei-me novamente ao seu lado.
- Não vou.
- Vai dormir aqui comigo?
- Sim. – A abracei mais forte. Papai nos observava em silêncio. – Eu não vou a lugar algum.
Notas finais
Não esqueça os comentários, assim posso saber o que preciso melhorar ou se devo continuar.
Beijos!
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