Fascínio

8 Sem arrependimento


No outro dia a febre de minha mãe tinha abaixado, ela ainda estava mal por isso a deixei dormindo e fui para o meu quarto onde eu respirei um pouco. Após me lavar desci e encontrei meu pai na mesa posta para o café. Ele olhava para sua xícara como se não fizesse ideia do que fazer com ela. Fiquei pensando no que papai dissera a noite inteira, “Não sei o que será de mim sem Lilian.” e isso me deixou contente por não ter ido embora com Finn. Agora meu pai estaria sozinho tendo que passar por tudo isso.

Beijei papai em cima da cabeça antes de me sentar ao seu lado.

– Vai ficar tudo bem. – Ele disse mais para si mesmo do que para mim. – Vai dar tudo certo...

– Acho que mamãe devia comer alguma coisa. – Disse. – Ela parece fraca. Vou pedir que preparem algo para ela.

Levanto-me para ir até a cozinha, mas meu pai segura meu pulso e me puxa com delicadeza de forma que sento novamente.

– Eu já fiz isso.

– O senhor está bem?

– Vai ficar tudo bem. – Diz ainda olhando para sua xícara.

Comemos em silêncio. Assim que termino subo para ver minha mãe. Ela ainda dorme e a tigela de mingau que levaram para ela está intocada na cômoda ao lado da cama. Aproveito que papai está ocupado em seu escritório e vou rapidamente até o jardim. Procuro na estufa, no estábulo e em diversos outros lugares que Finn poderia estar naquele horário. Por fim vou até a cabana onde moram os empregados e o encontro saindo de casa.

Quando me vê fecha a cara.

– Podemos falar agora?

– Você já está falando. – Ele passa por mim, segura uma caixa cheia de ferramentas, acho que a ferradura de um cavalo deu problema. Segue a passos largos na direção do galpão.

– Finn, eu sinto muito. – Digo enquanto praticamente corro para acompanhá-lo. – Eu não pude ir ontem porque...

– Escuta – Ele para de repente e eu quase bato nele. Quando se vira e me encara me sinto tão pequena... É a primeira vez que o vejo com raiva. – Se você estava com medo ou tinha dúvidas, ao menos pensasse antes de tomar uma decisão e de me fazer de bobo. Eu não sou seu fantoche Anne, eu não estarei sempre disponível para quando quiser brincar comigo. Eu estava correndo riscos também, mas você não entende isso, não é? É claro que não. Então me faça um favor, princesinha, se afaste.

Ele voltou a andar deixando meu peito dolorido.

– É claro que eu entendo! – Volto a segui-lo. – Mas é que justo ontem minha mãe adoeceu, eu não poderia deixá-la. Eu não tenho medo de ficar com você Finn, eu juro.

Ele parou, seus ombros desabaram quando ele respirou fundo.

– Sua mãe está doente? – Ele diz ainda sem olhar para mim.

– Sim.

– O que ela tem?

– Ninguém sabe.

Ele então se vira para me ver. Seus olhos correm por todo meu rosto enquanto analisa se estou dizendo a verdade. Será mesmo que ele achava que eu inventaria uma coisa daquelas? Ou talvez só estivesse pesando minha tristeza. Respira mais uma vez antes de falar:

– Anne, sabíamos que isso era um erro desde o início. Se alguém aqui devia pedir desculpas por ter aceitado aquela loucura deveria ser eu. Eu jamais deveria ter concordado com isso. Seu mundo é outro, devia ficar nele.

– Mas Finn!

Dessa vez ele se vai e eu permito.

Quando entro em casa vejo minha mãe de pé e isso me assusta. Ela parece um fantasma, quase transparente de tão fraca e pálida. Olho em volta procurando alguma empregada para xingar por tê-la deixado sair da cama naquele estado, mas não há ninguém.

– Mãe, a senhora não devia estar aqui, devia estar descansando. – Vou até ela e seguro seu braço com medo de que ela desabe.

– Eu estou melhor filha. Falo a verdade. Precisava sair daquele quarto.

Inconscientemente começo a puxá-la em direção às escadas enquanto analiso as feridas no seu pescoço. Estão melhores, quase não dá para vê-las. Não sei por que, mas não me sinto mais otimista por isso.

– Não! – Ela puxa seu braço tentando se soltar de mim. – Não quero voltar para o quarto.

– O que você quer então?

– Quero passear de barco. O que você acha?

– Barco?

O rio Mississipi não é um dos mais bonitos de se passear. Há crocodilos, sapos e a paisagem é um pântano escuro e úmido. Ainda assim tem uma parte do rio em que se pode passear de barco. Lembro-me de observar os casais sobre ele, as mulheres com suas sombrinhas e os homens se ralando enquanto remam – mas nunca sem deixar de sorrir.

– Tudo bem mãe. Vamos passear de barco. Mas eu não vou remar!

Ela sorriu – Eu nem permitiria tal coisa.

– // -

Não, ela permitiu coisa pior!

Quando vi a carruagem de Alan nos aguardando na saída da mansão eu quase tive um ataque com minha mãe. Por que ela havia chamado ele?

– Acho que fará bem para todos nós. – Ela disse como se lesse meus pensamentos. – Ontem, antes de desmaiar, havia mandado uma carta para Alan perguntando se ele não te levaria para um passeio de barco, está precisando sair um pouco minha filha, fica apenas aqui, tocando piano e fazendo mais “sei lá o quê”.

Essa era minha mãe, mesmo doente não deixava de cuidar da minha vida.

– A senhora não tinha esse direito.

– Ah... Deixe de bobagem! Vamos logo, o rapaz não tem o dia todo.

Entrei na carruagem e encontrei um sorridente duque lá dentro. Vi que a porta foi fechada e minha mãe ainda não tinha entrado – mas é claro que não... Ela armou aquilo para que eu saísse sozinha com meu noivo.

– Não é necessário dizer o quanto é bela, certo? – Ele disse.

Não respondi apenas olhei para ele. Acho que ele percebeu o quanto não gostava daquilo, pois se manteve calado o resto da viagem.

Andar de barco até que se saiu agradável. Havia uma brisa fresca e leve, muitos casais apaixonados ao nosso redor. Era bonito também de observar os raios de sol que transpassavam os galhos e folhas das árvores. Eles tocavam a água trêmula e negra, em seguida refletiam em nossos rostos.

Fiquei observando a água enquanto Alan remava para o centro do rio. Não vi quando ele guardou os remos e deixou que o barco flutuasse por si só. Quando olhei para ele, após o que pareceu um longo tempo, o peguei olhando intensamente para mim. Seus olhos azuis escuros pareciam mais claros por causa do reflexo da água.

– O que houve? – Perguntei.

– Nada, é que... Seus olhos parecem mais claros com o reflexo da água.

– Os seus também.

Ele sorri. Fica sério quando parece tomar uma decisão.

– Sabe, quando eu era criança, meus irmãos e eu costumávamos brincar na margem de um rio como este. Eles passavam a tarde inteira nadando e rindo de mim porque eu não era corajoso o suficiente para nadar também. Na verdade eu era um fiasco, morria de medo de água. Um dia, meu irmão mais novo, Marco, foi muito para o fundo e se desesperou porque não conseguia nadar de volta. Luís ficou paralisado de medo enquanto via nosso caçula se afogar e eu... Eu nada fiz. – Ele olhava para a água do rio como se ali pudesse ver as imagens de suas lembranças. Estava triste.

– Seu irmão morreu? – Eu perguntei mesmo sabendo a resposta.

Ele assentiu.

– Sinto muito. De verdade.

Ele sorriu.

– Não sinta Anne. Só estou lhe dizendo isso porque, mesmo que eu fosse salvar meu irmão, eu que não sabia nadar, acabaríamos morrendo nós dois. Não há nada que se possa fazer quando a hora de uma pessoa chega. Só o que podemos fazer é aceitar e aproveitar o máximo do hoje. Nascemos para morrer, é isso.

– Está me dizendo isso por causa de minha mãe.

Ele se inclinou e pegou minha mão. Nossos olhos estavam conectados naquele momento.

– Eu só não quero que sofra ou se culpe da mesma forma que eu fiz. Não deve ficar feliz, mas também, não deve ficar triste. Isso é inevitável. Uma hora todos nós iremos deixar este mundo e se encontrar com a graça de Deus.

Eu deveria ficar irritada por ele estar me dizendo aquilo, mas não consegui. Ele estava certo, uma hora todos nós deixaríamos de respirar, era o fim que todos compartilharíamos.

Sorri agradecida.

– Obrigada.

Mais tarde caminhávamos na margem do rio. O céu ia assumindo uma cor alaranjada aos poucos, já era hora de ir para casa. Alan pegou minha mão enquanto caminhávamos de volta para a carruagem, meu primeiro instinto foi me afastar, mas me contive. Até que ele não era tão ruim... E agora que sabia que ele havia perdido um irmão quando criança sentia-me como sua cúmplice, uma amiga que ele poderia confiar.

Em casa mamãe lhe fez um convite para jantar com a gente no dia seguinte do qual ele aceitou imediatamente. Lembrando que minhas primas viriam também para este jantar pedi para que ele convidasse Luís também. Seu sorriso se alargou ainda mais, ele sabia que eu havia pedido aquilo por causa de Kate?

– Com certeza ele virá. – Beijou minha mão e então se foi.

Mamãe, ainda fraca, porém um pouco mais animada com a ideia do jantar, sorriu para mim de forma maliciosa o que me deixou constrangida.

– Mamãe...

– Ele está apaixonado por você Anne, minha querida. E logo você se apaixonará por ele também.

– Mamãe! Não diga bobagens. – Ela riu e eu corri para meu quarto antes que ela visse meu rosto vermelho.

À noite quando todos dormiam me levantei decidida a falar com Finn. Não poderia perdê-lo agora, depois de todos aqueles anos sendo grandes amigos, depois de termos nos beijado e ele ter admitido que me amava.

Sabia que não o encontraria no estábulo então fui direto para a cabana que ele morava, mas morrendo de medo. Tinha que encontrar uma forma de acordá-lo sem acordar seus companheiros que dormiam no mesmo aposento. Quando me aproximava lentamente da janela do seu quarto uma mão forte agarrou minha cintura e a outra tampou minha boca me impedindo de gritar muito alto.

– Acalma... – Sua voz sussurrou no meu ouvido. – Sou eu.

Relaxei e então ele me soltou me permitindo vê-lo.

– O que está fazendo aqui? – Finnick sussurrou, parecia muito irritado.

– Vim ver você. – Também sussurrei.

– Já disse que não devia!

– Pare de dizer o que é melhor para mim, tá legal? Sou eu que decido isso.

Ele suspira tentando se acalmar. – Anne...

– Você faz ideia de quanto tempo eu sonhei ouvir que você gostava de mim? – Ele me olhou surpreso. – Não pode me afastar agora.

Ele segurou meu rosto com uma mão e depois a outra. Tocou sua testa na minha, eu podia sentir sua respiração quente tocar o meu rosto e o toque de suas mãos e testa me incendiarem de desejo. Eu queria mais um beijo, só mais um...

Meu desejo foi atendido e fechei os olhos para absorver ao máximo cada instante daquele. Segurei sua nuca com as duas mãos entrelaçando os dedos em seus cabelos. Gostava daquela parte de seu corpo, sempre aquecida e sensível. Gostava de lhe causar arrepios e dos tremores que ele causava no meu corpo.

Eu queria mais do que um beijo, mas sabia que ele não me daria isso. Pelo menos não hoje.

Suas mãos desceram pelas minhas costas até pararem na curva dos meus quadris onde ele segurou firme e me puxou com força para si. Gostava daquilo, de me sentir sendo dele. Um dia eu gritaria para que o mundo soubesse que eu era dele e ele era meu e que ninguém poderia tirar um do outro.

Ele deixou de beijar minha boca e levou seu rosto para a curva do meu pescoço. Estávamos ofegantes, ansiosos por algo muito além de um beijo.

– Vai para casa Anne. – Ele sussurrou contra meu pescoço. Então se afastou para poder me olhar nos olhos. – Eu estou te implorando, vá.

Por um longo tempo olhei em seus olhos, eles ferviam de desejo ao mesmo tempo em que estavam tomados de culpa. Eu não queria feri-lo daquela forma e por isso fechei os olhos e concordei.

Ele não esperou que eu começasse a andar, logo me soltou e andou até a entrada da cabana. De costas, não vi quando ele entrou me deixando sozinha na penumbra da noite, mas ouvi quando ele bateu a porta sem controlar sua força.

Mais uma vez senti aquele frio, aquele vazio.