Fascínio

10 Armadilha de lobo


Notas iniciais
Sei que está tudo bastante paradinho, mas é que preciso que algumas coisas aconteçam para o desenvolvimento da estória. Enfim, é um romance e não um conto de terror :D
Boa leitura!

– O que você acha? – Alicia exibia um belo colar de safiras no pescoço para mim e Kate.

– Ficou linda irmã, tudo fica lindo em você.

Alicia sorriu satisfeita.

Estávamos em uma joalheria no centro de Nova Orleans. Depois que Alicia comprasse seu colar iriamos para algum restaurante. Almoçaríamos juntas, passearíamos um pouco, enfim, passaríamos a tarde inteira juntas como fazíamos todas as semanas.

– Por que pretende gastar seu dinheiro num colar mesmo? – Pergunto. – Você já tem tantos e aposto que nunca usou a maioria deles.

Ela suspirou como se a resposta fosse óbvia. – Meus admiradores estão deixando de me presentear, estou sentindo falta de ganhar alguma coisa, então pedi ao papai e ele me deu o dinheiro para que eu escolhesse o que quisesse.

– E você Kate, seu pai não lhe deu nada?

– Ah sim, a mesma quantia que para Ali, mas não sei o que comprar, talvez não compre nada.

– Já sei! – Alicia gritou assustando o vendedor que esperava que ela decidisse logo o que iria levar. – Irmãzinha, após o almoço vamos gastar sua grana em um vestido novo.

– Para quê? – Kate perguntou.

– Ora, para alguma ocasião especial. Sabe Kate, se você quer que Luís lhe peça em casamento já está na hora de jogar um charme nele.

– Não preciso jogar charme nenhum, ele gosta de mim pelo o que eu sou.

– Com certeza. – Apoiei Kate. – Não caia na conversa de Alicia.

– Não cair na minha conversa? Sim, claro. Eu estou solteira quanto a “Anne conselheira” está com três caras ao mesmo tempo.

– Três?! – Gritei com ela. Mais uma vez o vendedor se assustou. – Da onde tirou isso?

– Acha que eu me esqueci de Finn? Eu sei que vocês ainda se veem.

– Chega meninas. – Kate se meteu entre nós duas. – Sem brigas, certo?

– É claro que eu não vou brigar. Alicia não faz ideia das besteiras que fala. – Digo.

– Ah, minha querida, eu sei muito bem do que eu estou falando.

– Então... – O joalheiro disse hesitando por interromper nossa conversa. – A senhorita já decidiu qual vai ser?

– Não! – Nós três gritamos ao mesmo tempo.

Depois da joalheria andamos em busca de um restaurante. Sabíamos de um que tinha vista para o rio, mas Alicia queria conhecer lugares novos. Percebi que ela estava chateada por causa do conde. Ela o queria para ela e, no entanto ele estava interessado em mim. Sorri pensando “bem feito!”. Encontramos um restaurante novo que se especializara em frutos do mar.

Não gostava muito daquele tipo de comida, era salgada e tudo parecia ter o mesmo gosto, mas Kate adorou e nos fez prometer a ela que voltaríamos ali.

Depois do almoço descansamos um pouco em uma praça. Kate tentava puxar assunto com nós duas o tempo todo, mas Alicia sempre voltava qualquer conversa que se iniciava para o jantar de ontem à noite, nunca me deixando esquecer. Pensei que ela e Alan fariam um casal perfeito de enciumados, talvez ele tivesse escolhido a noiva errada.

Compramos o vestido de Kate, praticamente quem escolheu foi Alicia, e então corremos para as docas a tempo de observarmos o pôr-do-sol. Sentamos nas madeiras do cais e deixamos que nossos pés descalços tocassem a água, como fazíamos quando crianças. Era bom sentir a água fria do rio sobre seus pés enquanto observava a luz alaranjada do sol descer lentamente sobre o verde do pântano.

– Isso é tão incrível. – Kate comentou. – Então Anne, o que vai acontecer depois que você se casar?

– Acho que isso vai acabar. – Comentei um pouco triste. Alan queria que eu fosse para a Europa com ele logo após nosso casamento, sentiria muita falta destes momentos com minhas primas, minha família e amigas.

– Pode dizer agora. – Alicia disse e pelo tom de sua voz esperei coisa ruim. – O que tem entre você e o conde?

– Nada! Pela centésima vez, absolutamente nada!

– Mas... Aquele comentário de ontem, foi muito estranho.

– Será que poderíamos mudar de assunto?

– Não Anne! Você é a garota mais fraca que conheço quando se trata de garotos e não quero ver você se dando mal por causa disso. E o Finn? Sei que ainda anda com ele.

– Finn e eu somos apenas amigos, acho que nem isso mais.

– Por quê? O que houve? – Kate me olhou preocupada.

Olhei para elas sem dizer nada, não poderia contar sem admitir que nós dois havíamos nos beijado e planejado fugir. Eu não queria que elas soubessem disso.

– Pensei que fôssemos amigas. – Ali disse rispidamente. – Mas eu estava enganada. – Ela se levantou. – Venha Kate, deixe Anne e seus segredinhos. Quando ela nos achar dignas de sua confiança ela que nos procure.

Pensei que Kate confrontaria a irmã e diria para mim “eu compreendo”, mas, ao invés disso, ela me olhou magoada e se juntou a Ali. As duas foram embora me deixando sozinha no cais, o céu ficava cada vez mais escuro e de repente a floresta parecia muito assustadora.

– Espera! – Me levantei. – Vocês não podem me deixar sozinha aqui!

Elas nada disseram, nem olharam para trás.

– Que isso... – Choraminguei. – Estão chateadas comigo por causa de uma besteirinha?

– Volte para casa sozinha Anne! – Alicia gritou.

Corri até elas. Voltar sozinha até em casa levaria horas. Não confiava em ninguém para pedir carona, não sabia aonde ir para pedir ajuda. Elas não podiam fazer isso comigo.

– Voltem aqui! – Gritei e isso só as fez correr também. Desisti. Elas chegariam primeiro na carruagem e me deixariam de qualquer jeito.

– Elas vão me pagar. – Comecei a resmungar. Calcei meus sapatos e comecei a andar pisando firme no chão. As pessoas me olhavam assustadas quando passava por elas. Sabia que, por ter corrido, meu cabelo estava péssimo, devia estar suada e de aparência horrível, mas segui ignorando os olhares das pessoas.

Quando cheguei aonde deveria estar a carruagem ela já não estava mais lá. Aquelas vacas realmente tinham me abandonado.

Caminhando cheguei à estrada de terra que daria até a minha casa bem mais tarde. Estava exausta e com medo da floresta que me cercava. Estava tudo muito escuro e quieto, eu quase não enxergava nada, e o cansaço não me ajudava nem um pouco.

Se algum dia reclamara que fora o pior da minha vida, eu me enganara, este estava sendo o ganhador.

Parei um pouco para respirar. Levei as mãos aos joelhos, estava um lixo. Meus pais me matariam antes que eu pudesse explicar alguma coisa, só depois se preocupariam e me deixariam falar.

Reergui-me. Não devia faltar muito agora, eu chegara até ali afinal. Voltei a caminhar ignorando a dor que subia de meus pés para as pernas. Então algo se moveu à minha frente. Eu fiquei parada, morrendo de medo. O que poderia ter sido? Um animal? Um ladrão? Deus me proteja!

Das sombras algo grande e negro começou a avançar na minha direção. O rosnado daquela coisa fez com que eu deduzisse o que era antes de eu poder enxergá-lo. Um cachorro grande e de pelo negro, com olhos amarelos e presas bem pontudas à mostra.

Ele rosnava e se aproximava em posição de ataque. Meu coração disparou e eu sabia que acabaria desmaiando e virando comida para aquele bicho.

– Calmo cãozinho... – Disse. Tentei soar calma e confiante. Mostrei-lhe as mãos tentando mostrar que não representava ameaça, mas aquela coisa começou a latir.

– Calmo. – Comecei a choramingar. Que bela morte! Eu viraria comida de cachorro, quem diria.

Ele latiu mais, sua baba o deixava ainda mais ameaçador – e nojento.

O cachorro se inclinou pronto para saltar em cima de mim. Já estava dando adeus ao mundo quando o som de um tiro me surpreendeu.

O corpo do cachorro caiu aos meus pés antes que ele chegasse à minha garganta. O bicho estava morto. Só então senti meu corpo, fiquei consciente de cada membro, de cada órgão, do sangue gelado correndo em minhas veias. Então minhas pernas amoleceram e eu desabei. Braços me seguraram antes que eu caísse ao chão. Ergui minha cabeça confusa, sem saber quem estava me segurando e sorri sem me dar conta ao ver quem era.

Ele sorriu também, confiante. Sua boca era a única coisa que eu podia ver naquela escuridão, mas já era o suficiente para reconhecê-lo. A barba rala, deixada de propósito, também ajudava.

O conde me ajudou a ficar de pé. Só soltou meus braços quando teve certeza que eu não desabaria novamente. Percebi o quanto suas mãos eram firmes e frias.

– Você está bem?

Assenti ignorando o arrepio que sua voz me causara.

Ele sorriu aliviado. – De onde surgiu este cachorro? – Perguntou.

Dei de ombros. – Há dessas coisas por toda parte.

– Acredito que vá cuidar para não chegar tão tarde em casa a partir de agora.

– Não foi culpa minha, minhas primas me deixaram e eu tive de vir caminhando e... Não sabia que estava aqui.

– Na verdade eu já estava indo embora.

– Estava indo para casa caminhando?

Ele apontou para trás de mim e ali estava um belo e forte cavalo negro.

– Sei.

Ele sorriu. – Quem sabe um dia caminhamos juntos.

A proposta era tentadora, mas lembrei do que Alan me disse “um conselho de amigo”.

– Meu noivo não iria gostar.

– Ah, sim. Às vezes me esqueço de que você se casará em breve. Ainda assim, você não se casou. Ainda não deve satisfações a ninguém.

– Quem me dera fosse assim. – Disse.

Comecei a andar agora que minhas pernas estavam firmes. Meu coração ainda batia forte, mas não sabia se era por causa do cachorro ou por causa da forte presença do conde. Eu não sentia medo dele, pelo contrário, me sentia muito mais segura agora. Se não fosse por ele, estaria morta. Ele me acompanhou, mantendo-se bem próximo de forma que podia sentir seu cheiro agridoce e seu hálito fresco toda vez que falava.

– Pode me dizer por que suas primas lhe deixaram?

– Sim e não. Elas estavam magoadas comigo, mas não vou dizer o motivo.

– Ah, que pena. Adoro ouvir sua voz, desse jeito terei que pensar em outra coisa para puxar assunto contigo.

Deixei a risada escapar desta vez. – Gosta da minha voz?

– Já disse, gosto de tudo em você. E sobre a conversa que iniciamos no baile. Retiro completamente o que disse sobre você ser feia por dentro. Isso não é verdade, você só não tem escolha.

Não disse nada enquanto me lembrava da conversa sobre máscaras. Reparei que falávamos muito sobre mim, e não gostava de ser elogiada o tempo todo. Reuni toda minha coragem para dizer aquilo que não devia. Eu estaria dando abertura para que ele continuasse com seu joguinho. Talvez Alan estivesse certo, talvez tudo isso tivesse a ver com o duque. Então por que um pensamento bem profundo me dizia estar errada? Isso não tinha nada a ver com Alan, isso era um jogo entre mim e ele.

– Você também tem uma bela voz.

A risada dele foi deliciosa, envolvente. Agora ele parecia mais jovem do que Finn, talvez da minha idade... Mas isso não poderia ser. Pelas histórias que nos contara no jantar de ontem, ele deveria ter muita mais idade do que eu. Já fora casado, conhecera muitos lugares, comprara a propriedade dos Lavigne e agora ficaria um tempo por aqui, como ficava em todos os lugares que comprava uma casa.

– Quantos anos o senhor tem? – Tive que perguntar.

– Sou mais velho do que você pensa.

– Vinte e cinco? – Perguntei.

Ele sorriu. – Espero que seus pais não fiquem bravos com você. – Ele desviou o assunto. – Se precisar posso confirmar a sua história, seja ela qual for.

– Não é necessário preocupação. Vou contar a verdade e eles vão ter que aceitar. E também, eu estou um lixo, eles vão acreditar, vão até concordar com as coisas que xingarei minhas primas.

Ele sorriu. Havíamos chegado ao portão da propriedade dos Foster. Abri e fechei deixando o conde do lado de fora. Ele se inclinou apoiando a testa nas grades de metal. Seu rosto estava bem próximo do meu.

– Sempre é um imenso prazer estar em sua companhia, mesmo que seja breve.

– Obrigada. – sorri. – Você salvou minha vida, estou em débito contigo.

– Eu sei de um jeito de quitar sua dívida. Não vai lhe custar mais do que um beijo.

Me afastei do portão, mas sorria.

– Vou ficar te devendo desta vez.

Ele se afastou também. Fez uma reverência antes de se virar e desaparecer nas sombras da estrada.

Comecei a correr até minha casa, estava ansiosa para tomar um banho e dormir. Aquele dia havia sido péssimo, mas ver o conde até que não fora tão ruim assim.

– Dá para acreditar nesse cara? – Parei quando escutei a voz de Finn. Ele estava de braços cruzados e com as costas escoradas em uma árvore. Finnick se aproximou de mim, saindo das sombras da árvore e eu pude ver seu rosto. Ainda parecia chateado, mas havia um brilho travesso em seus olhos. – “Sempre é um imenso prazer estar em sua companhia”. – Ele imitou a voz do conde e não pude conter o riso.

– O que você quer moleque?

– Sou mais velho do que você. E o que aconteceu? Você está...

– Péssima! – Termino a frase por ele. – Eu sei.

– Anne. – Ele ficou sério. – Temos que conversar.

– Sobre?

Ele coçou a nuca. – É que... Eu não queria deixar de ser seu amigo. Sinto sua falta.

Meu peito pareceu vazio, passei a me sentir angustiada.

– Você pediu para eu me afastar e foi o que eu fiz.

– Eu sei! E estou muito grato por isso. – Ele se aproximou mais um passo. – Naquele dia, se eu ficasse mais tempo perto de você... Eu perderia o controle. Estou maluco por você, mas não acho certo desgraçar a sua vida.

– Quê? Você não faria nada disso. Se... – Estava procurando a palavra certa. – Se acontecesse eu ficaria feliz, eu jamais te culparia ou me ressentiria. Isso é tudo o que eu mais quero.

– Você não sabe o que quer.

– Sei muito bem!

– Anne, queria conversar com você porque não queria que ficasse chateada comigo, mas percebi que foi uma péssima ideia.

Ele começou a se afastar.

– Finn. – Desta vez estava sem força para gritar ou ir atrás dele. Fui para casa, preparada para conversar com meus pais.

Só queria, naquele momento, deixar um pouco de lado Finn e Cia. Acabaria enlouquecendo desta maneira: Finn sentindo-se culpado por querer me desonrar, Alan que mal se casara comigo e já era obcecado e agora o insistente e encantador conde; Eu admita, eu era fraca e uma vagabunda por estar interessada em dois caras ao mesmo tempo. Ainda gostava de Finn apesar de ele estar me cansando e o estrangeiro... Era difícil de resistir. Eu estava me esforçando e até que me saíra muito bem.

Em casa fiquei por muito tempo na banheira. A água já havia esfriado e eu estava quase adormecendo quando sai. Antes de ir me deitar passei no quarto de minha mãe para ver como ela estava.

Notas finais
Como sempre peço para que se tem alguma coisa que não gostou, ou se gostou, não deixe de comentar.
Beijo!