Fascínio
11 Diga "Boa noite"
Notas iniciais
Vejo que a porta do quarto de meus pais está aberta, mas bato antes de entrar. Ela está sozinha na cama, respira com dificuldade, sua pele nunca esteve tão pálida antes e está tão fraca que não consegue abrir os olhos completamente. Penso como seu estado mudou de repente e por que, ao invés de sair com as minhas primas e ter aquele dia terrível, eu não fiquei em casa para tomar conta dela.
Sento-me ao seu lado e pego sua mão, fria e frágil.
- Marianne? – Sua voz é muito baixa e rouca.
- Sim mãe. Onde está o papai? – Pergunto.
Ela sorri e fecha os olhos, parece pronta para dormir. Reparo que a ferida no seu pescoço, os dois furos, estão lá novamente, sendo que antes estavam quase curados.
- Eu pedi para que ele me deixasse um pouco. Não quero que ele me veja enquanto eu...
Ela não terminou a frase, mas isso não impediu que meus olhos se enchessem de lágrimas. A abracei me arrependendo por não conter a força.
- A senhora não vai morrer mãe! Por favor, ainda não.
- Querida... – Ela afagou meus cabelos. Era assim que ela sempre me chamava, quase nunca pelo meu nome. Queria continuar ouvindo sua voz sempre me lembrando do quanto eu era querida por ela.
Minha mãe era a pessoa mais importante para mim na vida. Como eu poderia algum dia ter desejado fugir de sua presença? Causar-lhe tamanho desgosto... Eu era uma péssima pessoa, não a merecia como minha mãe, mas também não queria ser castigada daquele jeito. Perder a pessoa que eu mais amava e vê-la sofrendo até a morte.
- Vai ficar tudo bem. – Ela prometeu.
- Não! Isso não está nada bem! – Me afastei para poder olhá-la. Queria me lembrar dela feliz, forte e saudável. Sempre com um brilho de felicidade no sorriso e amor no olhar. Por que aquilo estava acontecendo com ela? Ela não merecia, por que Deus? Mais tarde eu saberia o exato motivo, a exata razão. Ainda nem desconfiava do que fosse, mas já me sentia culpada.
- Se acalme Mari, ouça a mamãe. Eu vou ficar bem, vou para junto de Deus, tenho certeza disso.
- Mas... E eu? Não posso viver sem você. – A abracei novamente, escondendo meu rosto na sua barriga. As palavras estavam emboladas na minha garganta, se empurrando para sair, porém a dor em meu peito as segurava. Queria contar o quanto me sentia maldita por algum dia ter pensado viver em um mundo sem ela.
- Você pode sim. Você viverá e cuidará para que seu pai viva também. – Ela segurou meu rosto e o levantou para que eu olhasse para ela. – Prometa para mim Anne que tomará conta de seu pai, que o fará ser forte e seguir em frente.
Eu sacudi a cabeça, tentando me livrar das lágrimas que embaçavam minha visão. Como poderia tomar conta do papai? Como seria forte por nós dois? Eu não poderia me casar com Alan e deixá-lo aqui sozinho, não! Eu não me casaria, eu tomaria conta de papai pela mamãe. Mas... Ela não podia ir. O que estava pensando, já estava aceitando a partida de minha mãe? Não e não! Ela não vai nos deixar. Ela já esteve mal antes e melhorou, ela vai melhorar novamente. Vai ficar tudo bem.
- Eu não prometo porque você não vai nos deixar. – Eu disse. Sabia que estava sendo infantil e irracional, mas não podia aceitar aquele pensamento. E estava pouco me lixando para minhas atitudes naquele momento. – Você não pode! Você é... É o meu anjo.
- Ah, querida... – Mamãe acariciou minhas bochechas, percebi que ela estava chorando também. – Não faça assim ou ficarei triste.
Eu assenti. – Me desculpe.
- Não... Venha cá. – Ela me abraçou. Não tinha força nos braços, mas teve o bastante para me puxar em um abraço. Deitei minha cabeça em seu ombro, dali podia ouvir sua respiração muito fraca, era como se minha mãe tivesse medo de inspirar o ar, como se fazer isso a machucasse. Naquele momento desejei sentir aquilo por ela, ela não deveria sofrer daquela forma. – Não chore. – Ela sussurrou. – Não chore...
Tentei obedecê-la, mas não pude. Fechei meus olhos, não a abandonaria nem por um segundo sequer. Ficaria com ela de agora em diante, até o final.
Ficamos em silencio por alguns minutos. Se não fosse pelo seu peito que subia e descia levemente eu juraria que estava morta, mas ela dormia, mantendo seus braços ao redor dos meus. Observei a luz pálida da noite passar pelas cortinas que balançavam lentamente. Sempre mantínhamos as janelas abertas, mesmo no inverno. A brisa era sempre boa, e observar as cortinas sempre nos dava sono.
O sono era bom, queria que a morte de minha mãe fosse assim também. Sem sofrimento, sem dor. Ela acreditava que após a morte se juntaria a Deus no paraíso e eu tentei acreditar nisso também.
- Mãe? – Disse. Ela não respondeu então deixei que dormisse.
Depois de algum tempo ela murmurou um “sim?”.
- A senhora está com medo?
- Não... Claro que não...
Mas eu estava. Morrendo de medo dela não passar daquela noite, de nunca mais poder observar as cortinas até dormir, de não sentir mais a brisa gostosa da noite. Meu pai, onde ele estaria agora? Por que não estava ali, aproveitando aqueles últimos instantes ao lado da esposa? Mamãe havia pedido para que ele saísse, mas eu estava com medo de que ela nunca mais o visse.
O que será que causara isso em mamãe? Talvez um animal a mordera, sabia que sua doença tinha a ver com os furos no seu pescoço. Algo estava drenando seu sangue, era isso! Mas o que teria dentes ou garras que deixassem aquelas marcas? E que tipo de bicho gosta de beber sangue?
Lembrei-me do cachorro negro que quase me atacara na estrada mais cedo. Suas presas eram bem mais afastadas e uma coisa daquelas faria um estrago muito maior em minha mãe do que dois pequenos furos. Sem contar que aquilo não entraria na nossa casa sem ser percebido.
O que poderia ser...? Se é que era algo. Talvez ela só estivesse doente, havia doenças que abriam feridas na pele.
Tentei não pensar muito naquilo. Queria pensar na minha mãe saudável. A verdadeira Lilian, a pessoa mais viva do mundo.
Apeguei-me em lembranças bem antigas. A minha primeira lembrança era de vê-la sentada em sua poltrona preferida. Ela olhou e sorriu para mim rapidamente, depois ergueu o queixo e ainda sorrindo esperou, até que um homem grande e de cabelos negros surgiu e lhe beijou apaixonadamente. Depois ele se virou para mim, meu pai sorriu e depois disso não me lembrava de mais nada.
Minhas outras lembranças eram de aniversários ou de lições de etiqueta que mamãe adorava me passar. Às vezes ficávamos dias sentadas na mesa da varanda, só conversando sobre compostura e eu detestava aquilo, agora lamentava não ter tido mais momentos como aqueles. O que eu mais amava eram as aulas de piano. Mamãe tocava enquanto eu prestava atenção nos seus delicados dedos, me lembro do seu sorriso orgulhoso de quando toquei pela primeira vez uma canção inteira sozinha. Não tinha acertado todas as notas, mas só quem tocava piano saberia disso. Sorri ao lembrar as vezes que ela me xingava por tratá-la com rebeldia ou por parecer malcriada na frente de alguém. Chorei ao pensar nas vezes que eu maltratara Alan e ela não estava por perto para me repreender.
Então pensei em coisas mais recentes: Mamãe no pé da escada me contando que me tornaria noiva, ela brigando comigo por estar escondendo alguma coisa e também por estar preocupada quanto ao meu segredo; mamãe sorrindo no jantar de ontem, tentando se mostrar simpática para seus convidados. Fixo-me em seu sorriso, um sorriso um tanto petulante. Quando ela sorria para mim, era sempre algo preocupado, tentando ser compreensiva, enfim, era um sorriso de mãe que eu não conseguiria me ver sem ele.
Mamãe faleceu naquela noite. Eu estava acordada quando ela deu seu último e mais forte suspiro e então tudo parou. Não consegui chorar, estava seca e com raiva do universo por ter me tirado meu anjo predileto. Tudo que fiz foi abraçá-la com mais força e fechar os olhos. Não queria sair dali ainda e enfrentar o lado de fora. Eu teria que contar ao meu pai e não estava preparada para sua reação.
Adormeci quando o sol estava nascendo. O corpo de minha mãe estava começando a esfriar. Rezei para que ela se encontrasse com Deus logo, para que passasse a eternidade alegremente no céu. Rezei para que ela tivesse um perfeito lugar onde poderia esperar confortavelmente pelo meu pai, um dia os dois ficariam juntos novamente.
Contente com a imagem que havia criado sorri. Dormi e daquela vez não tive pesadelos.
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