Fascínio

6 Após o pôr-do-sol


Notas iniciais
Boa leitura!

Desci as escadas e fui direto para a sala de estar na esperança de encontrar minha mãe. Iria procurar por Finn mais tarde, sabia que logo que a noite caía ele ia sempre para os estábulos para guardar os cavalos e não pretendia incomodá-lo no momento.

Encontrei minha mãe na sala, porém havia mais duas pessoas ali. Alan e o seu amigo estrangeiro.

O duque e o conde se levantaram quando me viram, para me cumprimentar.

- Não sabia que estavam aqui. – Disse.

- Ah... Perdão. – Alan não ficou satisfeito por eu não cumprimentá-lo. – Não permiti que lhe chamassem, estava tocando tão bem que não quis interromper.

- Marianne! – Minha mãe me chamou a atenção. – Olha os modos. Diga boa noite.

A risada do conde foi... Encantadora.

- Sabe, gosto desta garota. Por mais que queira ela não consegue fingir que gosta de uma pessoa.

O duque sorriu, mas não achou nenhuma graça no comentário do amigo.

- Isso são horas para uma visita? – Tive que dizer. Olhei pelas janelas, o sol já havia se posto há um tempinho.

- Tem toda razão. – O conde interrompeu Alan antes que ele começasse a dizer algo. – Mas é que eu pedi para que Alan me trouxesse até aqui hoje, para conversar com o barão, mas só poderia vir neste horário.

Assenti, mas pensava no que ele andava fazendo para não poder vir antes. Também tinha a curiosidade de saber o que levaria alguém como ele a deixar a Europa e vir à Luisiana. Investimentos? Talvez, mas sabia que não se tratava disso. Não podia dizer como sabia daquilo, mas toda vez que o avistava... Suas intenções estavam ocultas e era como se eu estivesse quase as desvendando.

- Se deseja ver o Henry – Minha mãe sorriu animada. – É só me seguir, acho que ele está em seu escritório.

O conde passou por mim segurando meu olhar por longos e tensos segundos que fizeram meu coração falhar. Alan percebeu aquilo, mas se fez de desentendido. Estávamos a sós agora e era o que ele estava esperando desde que pisou ali.

Ele sentou-se e bateu duas vezes no sofá ao seu lado, mas eu não sentei ali, sentei de frente para ele em uma poltrona.

- Você está bem?

- Sim, estou.

- Eu lhe trouxe uma coisa. – Ele disse um pouco entusiasmado. – Espero que goste.

Do bolso do seu casaco puxou uma caixa quadrada e achatada revestida em veludo negro. Ele mostrou a caixa para mim e a abriu, dentro havia um lindo colar prata cujo pingente era uma pedra negra revestida pelo metal do colar.

- Nossa, é lindo.

Ele sorriu por eu ter sido sincera.

- Se me permite, gostaria de ver como ficaria em você.

Puxei meus cabelos negros (que naquele dia estavam soltos) expondo a nuca e ele se levantou entendendo minha permissão. Contornou o móvel em que eu estava e parou às minhas costas. O colar me arrepiou quando seu metal frio tocou minha pele, o pingente escorregou até repousar entre meus seios. Mas depois que Alan terminou de fechar o colar ao redor do meu pescoço ele puxou a cordinha negra que havia esquecido tirá-la. O colar que Finn fizera para mim.

- O que é isso? – Ele perguntou. Ainda segurando o barbante ele andou ao redor de mim até ficar na minha frente e chegar ao pingente de madeira. Lançou-me um olhar interrogativo.

- Um amigo me deu.

- Amigo?

- Sim, você não tem amigos senhor?

Ele concordou resolvendo deixar para lá e depois sentou novamente à minha frente. Respirou fundo. Não tínhamos assunto – e eu não facilitava em nada.

- Escute. O que você acha de nos casarmos depois do Mardi Gras? – Foi direto ao ponto. – A cidade sempre faz uma grande festa e até lá todo mundo estará bastante atarefado por causa disso. Podemos nos casar uma semana depois, quando a cidade já terá retornado à sua rotina.

O Mardi Gras era o último dia para se comer livremente antes da quaresma. O festival consiste em uma festa carnavalesca cheia de cores, fantasias, máscaras e carros alegóricos desfilando em paradas. Também há muita música para o público dançar e se divertir o dia inteiro. Algumas famílias da alta sociedade até eram convidadas para desfilar em alguns dos carros alegóricos. Mas não a minha, todo mundo tinha medo de meu pai para chegar a fazer um convite tolo desses, e mesmo se fizessem ele jamais aceitaria. Mardi Gras, para meu pai, era uma festa ruim onde muitas pessoas perdiam suas almas. No dia minha mãe e eu quase nem éramos permitidas sair na rua quem dirá participar do desfile e tudo...

Mas se aceitasse um casamento nessa data...

- O Mardi Gras será daqui a um mês.

- Sim, eu te entendo. Mas é que preciso voltar para Londres o mais rápido possível e gostaria que você fosse comigo.

Mal noivamos e ele já quer mudar completamente a minha vida. Afastar-me de minha família, minhas amigas e de Finn. Não que eu planejasse continuar vendo Finn após meu casamento... – Respiro fundo. Quem quero enganar?

- Você poderia me dar um tempo para pensar?

- Sim, claro. Por isso vim conversar com você. Mas não pense muito, sem pressão, mas... Há muito que se preparar e pouco tempo.

- Eu já entendi. Serei breve em minha resposta.

Ele sorriu, sua maneira de dizer “obrigado”, então se inclinou mais para frente e pegou minhas mãos que até então repousavam sobre minhas pernas.

- Escute. – Ele disse. – Sei que não se familiariza muito comigo, ainda, mas quero que saiba que gosto muito de você e jamais lhe farei mal algum. Eu também serei paciente, vou lhe dar o tempo que precisar até que... Até que...

Ele procurava a palavra correta, mas não encontrou nenhuma, então olhou para mim esperando que eu entendesse. Puxei minhas mãos das dele, aquela situação estava me constrangendo.

- Está tudo bem. – Procurava não olhar em seus olhos. – Se me der licença... Eu estou um pouco cansada, foi um dia longo.

Levantamo-nos quase juntos. De pé percebi que tinha dito a verdade e não criado uma desculpa qualquer para me livrar dele. Estava exausta, precisava de um banho e uma ótima noite de sono – de preferencia sem pesadelos.

- Tudo bem. – Ele parecia um pouco magoado. – Eu também tenho que ir.

Puxa... Eu estava mesmo sentindo pena dele? Não pena, mas chegava bem perto disso. Alan tinha acabado de dizer que gostava de mim e o que eu faço é dar no pé. Mas, tente me entender, eu estava magoada. Gostaria que um dia aquelas palavras fossem de Finn para mim. Estava ansiosa para ver meu moreninho e esperançosa a respeito de seu pedido de desculpas, mas sempre que sonhava demais me decepcionava. Estava me decepcionando agora, me preparando para mais tarde.

Sorri para aliviar um pouco minha consciência antes de deixá-lo na sala. Enquanto subia as escadas tinha ciência de seu olhar nas minhas costas – e de que o conde estava sozinho com meus pais.

Bem, foi óbvio que eu não dormi. Tirei o colar caro e bonito que Alan me dera e esperei até que a casa ficou silenciosa, logo saí para me encontrar com Finn. Ele estava no estábulo conversando com um cavalo marrom. A luz da lamparina que segurava era a única que havia no lugar. Ele só me viu quando estava bem próxima e então se levantou.

Eu sabia que estava errada pelo o que eu disse na nossa última conversa. Finn era meu amigo e não meu namorado, ele não tinha nada que ver com o fato de eu me casar com o duque e nada podia fazer... Pensei nisso enquanto andava até ali.

Abri a boca pronta para pedir desculpas (o que seria algo muito difícil), mas Finn levou seu dedo indicador aos meus lábios me silenciando.

- Por enquanto sou eu que falo.

Assenti e ele prosseguiu:

- Antes gostaria de te pedir desculpas por ter agido como um tonto. E quero que saiba que sou um idiota e um egoísta por lhe dizer isso. Sei que eu não valho nada e que não poderia lhe dar a vida que merece, mas há muito tempo que estou tentando lhe contar.

Ele soltou a lamparina no chão e se aproximou um pouco mais de mim. Meu coração acabaria saltando para fora da minha pele, estava tão rápido que acabaria se esgotando.

- Eu amo você e tive certeza disso quando você me disse que se casaria com outro. Aquilo me deixou com tanta raiva. Quando você saiu quase quebrei a porta de tanto socá-la. – Ele riu, mas eu ainda estava paralisada.

- Não quero que você se case com aquele cara e eu sei que você também não quer. Então me diga o que você quer e eu farei. Eu te amo. Eu faria qualquer coisa pela sua felicidade.

Ele disse que me amava e eu não conseguia acreditar. Era isso que eu queria desde que era criança, havia fantasiado aquele momento um milhão de vezes e quando ele estava acontecendo eu não soube o que fazer. Mas eu sabia o que dizer:

- Eu quero você.

Ele me olhou surpreso e logo segurou meu rosto com as duas mãos me puxando para um beijo.

Quando nossos lábios se tocaram pensei que seria o limite para o meu coração, mas ele não parou, pelo contrário, pulsou ainda mais forte de um jeito novo e delicioso. Os lábios de Finn eram macios e quentes, seu beijo estava me deixando tonta e ofegante. Senti sua língua invadindo minha boca e a ânsia de querê-lo mais perto me deixou arrepiada. Era o que queria, sempre quis. Envolvi seu pescoço com meus braços e enrosquei meus dedos nos seus cachos que estavam úmidos. Ele havia recém saído do banho, pois seu cheiro era bom, acolhedor. Ele soltou meu rosto para deslizar suas mãos pelas minhas costas até chegar a minha cintura onde me envolveu e me apertou ainda mais contra seu corpo grande.

Sentir seus fortes braços em volta de mim e seu peito rígido apertado ao meu me deixou eufórica. Eu queria que ele me apertasse mais, queria sentir sua pele morena contra a minha, queria tocar todo seu corpo sem aquelas roupas para atrapalhar. Abaixei as mãos para a sua nuca e depois as deslizei para seu pescoço as descendo até seu peito por baixo da sua camisa. Assim que ele compreendeu minhas intenções interrompeu o beijo de maneira abrupta e segurou meus pulsos me afastando. A mudança repentina me deixou desorientada.

- Não. – Ele disse ofegante. Estava escuro demais para que eu pudesse enxergar suas bochechas, mas as minhas queimavam. – Não posso fazer isso com você.

- Mas eu...

- Não Anne! Você não sabe do que está falando, não seria justo...

- Acha justo estarmos apaixonados, mas não podermos sequer ser amigos se não escondidos?

Ele ficou calado pensando. Finalmente balançou a cabeça concordando comigo.

- Ainda assim você não entende. – Ele me encarou com uma expressão triste de cortar o coração. – Eu não poderia cuidar de você da forma apropriada.

Eu ri, ultimamente estava rindo quando sentia vontade de chorar.

- Você é que não entende.

- Olha, você está acostumada a ser tratada como uma princesa. Tem ideia de como a vida seria difícil para você ao meu lado? Se fugíssemos...

- Você fugiria comigo? – O interrompi. Queria saber a resposta.

- É claro que sim!

- Então fuja! Tire-me daqui. Eu enfrento qualquer coisa se for para ficar com você, mas não me deixe aqui. Se ficar terei de me casar com o duque e ele quer me levar pra longe. Não quero me afastar de você. – De repente estava tendo coragem para falar tudo que eu sempre quis dizer. O abracei e escondi meu rosto em seu peito. Fiquei me imaginando deitada sobre ele até finalmente pegar no sono. Seria uma boa noite em muito tempo. Relaxei quando seus dedos tocaram a minha cabeça e começaram a me acariciar.

- Tudo bem. – Sua voz foi doce, angelical. Ele me abraçou e me senti segura. Tudo daria certo contanto que ficássemos assim, juntos.

Ele beijou minha cabeça e eu olhei para cima, procurando seus olhos e depois os seus lábios para poder beijá-lo também.

Ele apartou meus braços com suas mãos enquanto nos beijávamos pela segunda vez, o tipo de beijo que suga todo o nosso ar.

- Me dê uma semana para organizar tudo. Até lá aproveite para se despedir das pessoas que gosta. – Ele afagou meu rosto deixando que as costas de uma das suas mãos escorregasse pela minha bochecha enquanto a outra ainda me segurava firme. – Concorde com tudo que lhe disserem até lá, não deixe que desconfiem de nada.

Eu assenti, seria do jeito dele.

Beijamo-nos a noite inteira, infelizmente não passando de beijos e palavras doces. Antes que o céu começasse a clarear tivemos que nos separar. Nunca senti tanto frio como naquele momento. Queria permanecer na quentura de seu corpo, mas isso nunca seria possível.

Notas finais
Espero que tenha gostado.
Não vou adicionar notas finais neste capítulo se não vou acabar escrevendo spoiler.
Beijo e não deixe de comentar!