Fascínio

9 Um belo jantar


Notas iniciais
Espero que goste deste capítulo, tentei fazer um pouco de graça, mas não sou boa humorista :P

Não se pode forçar o coração de um morto bater. Não se pode fazer cair chuva no verão do deserto. Não se pode forçar ninguém a te amar assim como não deve se forçar amar alguém.

Que beleza estava se saindo minha vida. Minha mãe estava doente – apesar de parecer um pouco melhor. – Meu pai andava no mundo da lua, sempre muito silencioso e com o olhar melancólico por causa de minha mãe. Exatamente em um mês eu me casaria com um homem que não sentia muita simpatia – até que eu estava mudando meu conceito sobre Alan, mas ainda não era o suficiente – e Finn, que dizia gostar de mim, mas não queria que eu chegasse perto.

Eu era tão péssima assim? Para ajudar havia aquele sonho maldito. Começou comigo do alto de uma torre, a tempestade me assustava mais do que a altura. Como sempre eu saltei, mas desta vez, antes eu avistei uma sombra no horizonte, do alto de um morro. Parecia ser um homem olhando diretamente para mim. Um pensamento estranho me veio à mente. Sabe quando sonhamos, mas não coordenamos nossas falas, ações ou pensamentos? Eu pensei “Sê paciente fantasma, em breve nos encontraremos no mundo dos mortos”. Se aquela sombra no meio da tempestade era um fantasma ou não, não dava para dizer, mas ouvi sua voz sólida o bastante gritar desesperado quando eu saltei;

Mais uma vez cai na água e só acordei quando bati a cabeça em algo, quase morrendo asfixiada na realidade.

Talvez eu tivesse problemas respiratórios e estes sonhos fossem uma forma de expressar minha falta de ar durante a noite. Assim que levantasse pediria ao meu pai para que um médico me examinasse.

Bem, eu me esqueci de falar com meu pai, o jantar daquela noite deixou minha mãe – e por consequência a mim – bastante apreensiva.

A noite chegou rapidamente, mais um dia se passara e eu já começava a contar meu casamento como sendo vinte e nove dias restantes. Meus tios e minhas primas chegaram cedo. Deixamos meus pais conversando e nós três subimos para meu quarto para conversar um pouco antes que Alan e seu irmão chegassem.

– Eu não acredito que você disse para Alan convidar Luís. – Kate tinha o rosto muito corado.

– Não vejo por que a surpresa. – Disse indiferente. – Sei que está ansiosa para conversar com ele...

– Ficar sozinha com ele... – Ali fez cócegas na sua irmã a deixando ainda mais constrangida.

– É! Vai que surge a oportunidade.

– Eu juro que se der alguma coisa errada eu vou matar vocês duas. – Kate foi a única que não riu da sua frase, mas um sorrisinho escapou quando Ali lhe abraçou.

– Mas e Anne? – Alicia começou. – Tia Lilian nos disse que ontem você foi passear de barco com Alan.

– Isso é tão romântico. – Kate suspirou.

Agora foi minha vez de ficar vermelha, minha mãe é sempre fofoqueira.

– É. – concordei secamente.

– E então, como foi? – Alicia sentou-se ao meu lado na cama.

– Pode contar tudinho. – E Kate do outro.

– Não houve nada. Conversamos, caminhamos um pouco e foi isso.

– Ah... Tem de haver algo mais. – Alicia me sacudiu implorando por detalhes. – Deixa eu ver... Ele te elogiou?

Assenti.

– Pegou sua mão? – Kate perguntou e eu assenti.

– Ele – Alicia se aproximou de mim falando mais baixo perto do meu ouvido. – Beijou você?

– Curiosidade matou o gato. – Sorri e ergui uma de minhas sobrancelhas na direção dela.

Minhas primas começaram a rir.

– Sua danadinha!

– Não saiam espalhando tudo bem? – Disse. – Se chegar aos ouvidos de minha mãe chegará aos ouvidos de toda a cidade.

– Tudo bem. – Kate disse. – A gente te entende.

Ficamos um tempo em silêncio, então Alicia começou a cantarolar uma música irritante. Custou até eu reconhecer a melodia, era a música que tocava nos casamentos quando a noiva entrava na igreja e ia de encontro ao padre e o noivo.

Kate começou a rir e cantarolar junto. Tudo que me restou foi levar meu rosto às mãos para controlar a raiva que estava começando a crescer.

Duas batidas na porta do meu quarto me salvaram. Uma empregada disse que os convidados haviam chegado.

Não estava de mal humor naquele dia, juro, mas é que eu me lembrava de ser bem clara quando disse à Alan para chamar seu irmão e somente ele. Então o que aquele conde lindo e arrogante estava fazendo ali?

Sim, ele era lindo, suas roupas sempre negras e seus cabelos faziam sua pele parecer ainda mais pálida do que era, mas percebi que era somente por causa das roupas. Ao lado de Alan dava para perceber que tinham quase o mesmo tom de pele. Seus lábios estavam sempre corados, de maneira natural e seus olhos eram tão castanhos que às vezes tinha a sensação de vislumbrar certo brilho vermelho.

Ele sorriu quando me viu, da mesma forma que fizera antes no jantar de aniversário de Alan, como se soubesse todos os meus segredos. Aquilo me incomodava um pouco, mas sorri de volta. Parei ao lado de Alan.

– Oi! – Cumprimentei a todos fingindo simpatia. Ainda sorrindo resmunguei para que só Alan me ouvisse: – Convidou seu amigo.

– Não. – Ele sussurrou. – Ele veio sozinho e para tratar com seu pai. Foi Henry que o convidou para ficar e jantar conosco.

Mamãe cantarolou contente:

– O jantar está servido.

E nos dirigimos todos para a mesa posta na sala de jantar. Todos tomaram os seus lugares. Alan sentou de frente para mim e seu irmão ao seu lado para ficar de frente para Kate. Meus pais ocuparam as pontas das mesas, meus tios sentaram mais próximos de minha mãe e o conde ficou de frente com Alicia – o que eu percebi, Alicia fez de propósito. Bem, não foi grande surpresa. O conde era o único descompromissado ali, pelo menos até onde sabíamos.

Servimo-nos, os homens, como sempre, começaram a conversar sem dar espaço para nós mulheres nos juntar a eles. Então meu pai começou a falar de negócios com meu tio. A fazenda de cana de açúcar era o que mais trazia e exportava dinheiro na cidade. Em parte, era graças ao meu pai que muita gente tinha emprego e consequentemente uma boa vida.

O conde parecia estar muito interessado nas coisas de meu pai, pois naqueles dias ele vinha frequentemente à nossa casa e ficava horas conversando com Henry Foster no escritório da mansão. Talvez os dois estivessem pensando em se tornar sócios. O Conde era muito, muito rico e eu entendia que ele queria investir seu dinheiro em alguma coisa. Ainda assim, queria ouvir dele.

Até ali ele estava bastante calado, sabia que se chamasse a conversa para o seu lado ele se tornaria o centro das atenções, como no aniversário de Alan.

– O senhor e meu pai tornaram-se bons amigos, certo?

Ele olhou para mim surpreso por eu lhe dirigir a palavra. Quando nossos olhares se conectaram senti meu coração falhar, havia algo nele, não apenas sua aparência e não somente a sensação de que me passava de que já o conhecia, mas algo muito além de tudo isso que mexia profundamente comigo.

– Sim. – Ele respondeu quando todos ficaram em silêncio e o encaravam esperando sua resposta.

– Sabe que reparei – comecei a contornar a borda da minha taça com um dedo, só para ter uma desculpa de não encará-lo o tempo todo. – que o senhor nunca tem tempo para uma visita durante o dia.

– Querida... – Minha mãe já ia começar. Ela sempre exigiu de mim muita educação e discrição.

– É verdade! – Ele riu, mostrando todos os dentes extremamente brancos. Ele ficava ainda mais belo sorrindo daquela forma. – Você é bem esperta, nem mesmo eu havia percebido isso. É que venho estado muito ocupado durante o dia.

– Com o quê?

– Marianne, devia cuidar da sua vida. – Minha mãe me olhou, repreendendo-me.

– Não... – Alan me apoiou. A cada hora que o conhecia gostava mais dele. – Eu também estou curioso.

– Hum... Vejamos. – O conde olhou para todos certificando-se se também estavam interessados. Por fim pousou seu olhar em mim. – Eu reparei que há muito em que se investir nesta cidade, propriedades, sociedades... – Ele olhou rapidamente para meu pai. – Também aproveito meu tempo aqui para conhecer pessoas.

– Gosta das americanas? – Alicia perguntou atraindo o olhar irritado de seus pais.

– Muito. – Foi a resposta do estrangeiro.

– Talvez se case com uma.

– Infelizmente não encontrei nenhuma boa o bastante e que esteja disponível. – Ele olhava para mim ainda mais intensamente e quando sorriu senti meu corpo esquentar até meu rosto ficar vermelho.

Todo mundo percebeu a indireta, Alicia olhou para mim erguendo uma de suas finas sobrancelhas fazendo-me uma pergunta silenciosa, Kate de repente pareceu achar seu prato bastante interessante e escutei um“ih...”vindo de Luís.

– É, acho que tenho sorte. – Pude sentir a raiva na voz de Alan.

– Então por que não nos conta mais de onde veio. – Mamãe nos livrou daquele clima tenebroso.

– Claro! Vou adorar.

Ele nos contou o quanto o lugar que vivia era agradável, ótimo de se viver. Lá se era fabricado um ótimo vinho, havia também um povo muito hospitaleiro apesar de muito supersticioso. Eles criavam muitas histórias sobre seus governantes, principalmente sobre ele mesmo. Havia também os ciganos, os rios, os pastos... Depois fizemos perguntas a respeito de sua família. Ele nos contou que seus pais eram nobres, mas que já estavam mortos há muito tempo e que também tinha um irmão. Pela mágoa que senti em sua voz quando falou de seu pai e seu irmão pude perceber que ele não gostava muito deles. Ele contou um pouco sobre sua infância, dos lugares que adorava explorar. Então se interrompeu quando disse:

– Foi nessa época que conheci Isabela Bizáur...

Ficamos olhando para ele esperando que prosseguisse, mas ele não queria dizer mais nada sobre ela.

– Quem é ela? – Minha discreta Ali perguntou.

– Ela foi minha esposa. – Ele respondeu agora amargamente.

– Você já foi casado?! – Minha mãe, que sempre exigia que eu fosse discreta, pareceu esquecer completamente disso. – Nossa. Você parece tão jovem.

– E o que aconteceu? – Alicia insistia, mas dessa vez, percebendo o desconforto do Conde, coloquei um fim no assunto:

– Ela morreu. Foi isso que aconteceu.

– // -

Mais tarde deixamos a mesa de jantar para nos reunirmos na sala e conversar um pouco mais. Alan me puxou pelo braço me afastando do grupo que seguia para a sala de estar e ficamos sozinhos ainda na sala de jantar.

– Ainda está chateada com a doença de sua mãe? – Ele estava sério, analisava meu rosto como um médico em busca de um diagnóstico. Então disse – Veja, ela está se curando.

– Não. – Respondi. – Por quê?

– Vi o jeito que você falou da esposa do conde. Parecia assumir as dores por ele.

– Aquilo não foi nada. Só sabia a resposta e queria pôr um fim naquele assunto. Fiz um favor a ele.

– Sim, fez. – Ele ficou quieto por um tempo, ainda me analisando. Então levou as mãos na cintura e respirou fundo, tomando a decisão de me dizer algo. – Sei que não tenho direito algum sobre você, ainda, mas fique longe dele. É um conselho de amigo. Não confio nele com você.

– Ora, por quê? – Sabia o porquê, mas tentei me fazer de inocente. Era óbvio que todos haviam reparado nos olhares, nos sorrisos. E eu me sentia extremamente mal por admitir que gostava daquele tratamento do conde. Gostava das suas indiretas, de perceber que ele estava prestando atenção em mim. Eu o achava muito atraente, tanto que, por toda noite, não havia pensado em Finn, até ali.

– Eu vi o jeito que ele olha para você, o jeito que fala, sempre te provocando. Acho que ele faz isso para me chatear.

– Por que ele faria isso? Pensei que fossem amigos.

– Eu também pensei.

Sorri compreendendo o quadro. O vermelhão de Alan, as mãos impacientes que ora estavam na sua cintura, ora nas costas.

– Está com ciúmes?

Ele arregalou os olhos. – Não!

– Então confie em mim.

– Confio em você, não confio nele! – Ele respirou fundo, aliviando sua raiva. – Olha, só tome cuidado, está bem? Tem alguma coisa errada nele.

Ele enfatizou a palavra “errada” me deixando um pouco nervosa. Ele tinha total razão, havia algo estranho naquele homem.

– Oi. – A voz suave do conde assustou Alan, mas não eu.

Ele apareceu na sala e encarou Alan esperando que este se retirasse, mas Alan não sairia dali, ele não nos deixaria sozinhos. Percebi que isso não tinha importância alguma para o conde. Ele se voltou para mim.

– Eu apenas vim lhe agradecer por ter me livrado daquela situação. É sempre um assunto delicado para mim.

Ele me olhava com profunda tristeza, era de cortar o coração. Como não gostar de um homem assim?

– Sem problema. – Disse, mas gostaria de dizer mais, porém as palavras não vinham.

Ele assente e bate no ombro do Alan com humilde carinho ao passar por ele. Se estivesse no lugar de Alan me sentiria mal por falar do amigo pelas costas, mas o duque ainda mantinha aquela carranca.

Quando teve certeza que o conde não podia nos ouvir mais disse:

– Não se deixe enganar.

Não pude deixar de rir. Alan estava com medo de que eu fosse seduzida pelo forasteiro? Ele estava fervendo de ciúmes e insegurança, seu rosto era mais vermelho do que um pimentão.

– Por que está rindo?

– Você fica engraçado quando está com ciúmes.

– Não estou... – Ele ia gritar, mas desistiu. – Esqueça.

Ainda sorrindo enganchei nossos braços o que o fez se sentir um pouco mais aliviado, juntos fomos encontrar com os outros.

Notas finais
Mais uma vez, obrigada por ler, se não gostar de algo, comentários ajuda muito. É sempre bom saber no que melhorar.