Fascínio

5 Tempo solitário


Notas iniciais
Tudo bem, como o capítulo anterior foi curtinho e este também será, vou postar dois hoje.
Boa leitura!

Desde que me entendo por gente toco piano. Minha própria mãe me ensinou. Gosto de músicas lentas, íntimas que penetram até mesmo o coração mais duro. Mas o que mais gosto de fazer é simplesmente tocar. Sentir as teclas de marfim deslizando sobre meus dedos e pressioná-las com delicadeza. Gosto de tocar música nenhuma, criar uma melodia na hora conforme o que estou sentindo. Não gravo as notas, até porque as esqueço imediatamente, apenas deixo que toquem.

Minha mãe um dia me xingou por isso, disse que seria uma ótima compositora, mas eu não concordo. As melodias que crio vêm de mim e só em mim devem ficar. Sei que soa idiota, mas eu ficaria enciumada se ouvisse outra pessoa tocando minhas músicas. São minhas só minhas.

O que é supérfluo agora. Há anos não toco em um piano, daria qualquer coisa para ter aquela sensação novamente. Deixar a música entrar e me distrair do mundo real. Minha vida era ruim demais para aceita-la sem uma distração. Se eu não encontrasse algo para me apegar, mesmo que por pouco tempo, eu acabaria enlouquecendo.

Naquele momento estava tocando algo forte, não lento e triste, mas pelo contrário. Eu não estava feliz só levemente irritada. O porquê de estar tocando piano daquele jeito? Finn, ele me deixara irritada. Já fazia uma semana que não via o cretino, estava sentindo sua falta e me arrependo aos poucos por ter agido daquele jeito. Devia lhe pedir desculpas, mas e o orgulho?

Agora percebo o quanto o orgulho é tolo. Por causa dele perdemos momentos preciosos. Nunca sabemos o dia de amanhã, nunca sabemos quanto tempo teremos com as pessoas que amamos. Por causa de uma discussão, muitas vezes sem razão, e o orgulho ficamos tempo demais sem ver o indivíduo e quando nos damos conta... É tarde demais. Mas uma adolescente burra e mimada como eu era, levaria muito tempo até entender isso.

Continuei tocando piano sem me dar conta que havia parado de tocar furiosamente. Estava tocando algo desanimado, quase uma música fúnebre.

Então parei. Nem mesmo o piano estava sendo o suficiente para me distrair. Estava com saudade de Finn, eu tinha a necessidade de falar com ele e de lhe pedir desculpas.

Foi quando ouvi as vozes vindas do corredor. Duas empregadas estavam conversando do lado de fora da porta, elas eram tão “discretas” que nem precisei me aproximar da porta para ouvi-las:

- Você ficou sabendo? Um conde está na cidade.

- Ah, eu ouvi falar... Pena o jornal não ter conseguido nem uma foto dele. Dizem que ele é uma pintura de tão belo.

- Sim. As patroas foram numa festa em que ele estava semana passada. Como queria ser como elas só para conhecê-lo.

Suas vozes foram diminuindo conforme se afastavam da sala em que estava até que não pude mais ouvi-las. Tive que olhar para o céu depois de ouvir aquilo, como eram bobas. Esse tal conde nem era tudo isso – pensando bem... Um pouquinho.

Levantei-me e fui até a janela cujas vidraças ocupavam quase toda aquela parede. O sol estava se pondo do lado de fora, o céu fica lindo nessa hora. Sua cor variava entre o laranja leitoso e o roxo.

Lá embaixo do jardim vi que um homem gritava com um rapaz lhe dando ordens. O rapaz de cabeça baixa apenas assentia. Eu reconheceria aqueles cachinhos negros em qualquer lugar. Finn tinha as roupas sujas como sempre, trabalhar nos jardins e estábulo não era uma tarefa fácil. Às vezes ele não deixava que eu me aproximasse dele por estar fedendo, o que não tinha importância para mim, sabia que não era sua culpa. Desde criança tinha que trabalhar para ajudar sua família. Logo seus pais morreram e ele ficou sozinho no mundo. Às vezes pensava que eu era sua única amiga já que nunca o via conversando com alguém.

Quando seu superior se afastou ele se virou devagar na direção contrária, parecia exausto. Nesse giro me viu o observando lá decima. Sabia que meu pai jamais aceitaria que me casasse com ele, principalmente agora que estava noiva de Alan, mas eu ainda tinha esperança – elas se renovavam toda vez que eu via meu moreninho Finn.

Ele me lançou um olhar significativo e depois seguiu seu caminho. Sabia que ele queria que conversássemos mais tarde.

Notas finais
Obrigada por ler.