Fascínio
12 Parte II - Consolos
Notas iniciais
Estavam na sala com meu pai Alan, seu irmão mais novo e seu novo amigo, o Conde. Eu não queria sair do quarto, não queria ver meu pai novamente, ele estava inconsolável e chorava mais do que eu. Quando fui procurar por ele naquela manhã para lhe contar da mamãe o encontrei dormindo num sofá. Eu me aproximei dele com cuidado, nem precisei tocá-lo para acordá-lo. Ele abriu os olhos quando tampei o sol que vinha da janela e batia em cheio no seu rosto. Eu não precisei dizer nada, logo ele começou a chorar, o que me fez chorar também e ficamos por um longo tempo abraçados na sala molhando as roupas um do outro com lágrimas.
Eu não chorava mais, sabia que minha mãe estava bem. Ela havia me pedido para ser forte e eu seria. Mesmo a morte dela ainda não parecendo real, mesmo sendo tão difícil de acreditar que ela não estava no quarto em frente ao meu, que ela não havia morrido ao meu lado na sua cama.
Agora observava meu rosto no espelho. Eu não me parecia muito com minha mãe, a única coisa que havia herdado dela foram seus olhos cor de esmeralda.
Alguém bateu na porta do meu quarto me deixado levemente irritada. Será que ninguém havia entendido que eu queria ficar sozinha?
- Entre. – Bufei.
Alan entrou devagar, parecia tão triste quanto eu. Nos dias que estive com ele eu o conheci o bastante para saber que sua tristeza era real, ele não fingia, nunca.
- Você está bem?
- Vou ficar.
Ele deu um sorriso fraco.
- Espero que você supere antes do seu pai. Ele vai precisar de você.
- Eu sei... – Me levantei da cadeira, queria fazer alguma coisa, me distrair com qualquer coisa.
Alan entendeu errado meu gesto e me deu um abraço, mas eu não o afastei. Aceitei seu aperto e quando me dei por mim estava chorando. Não devia chorar novamente, eu devia ser forte, minha mãe iria querer isso.
- Eu estou aqui. – Ele disse afagando meus cabelos. – Vou estar sempre que precisar.
Assenti com a cabeça pressionada em seu ombro.
- Vamos sair daqui. – Me afastei para lhe contar.
Sequei minhas bochechas com as costas das mãos. A morte da minha mãe estava se tornando verdade aos poucos. Ainda quando sai no corredor tive a sensação de que escutaria a voz dela vindo do andar de baixo a qualquer instante.
Meu pai não estava lá embaixo, encontrei o conde sozinho observando a noite através da janela.
- Onde está papai? – Perguntei e ele se virou para nos ver. Estava mais bonito do que nunca. No seu rosto havia uma mistura de tristeza com pena. Não queria que ninguém sentisse pena de mim ou de meu pai. Estávamos sofrendo? Iríamos superar.
- Ele foi se deitar. – Ele respondeu. – Acho que você também deveria descansar. Amanhã será um dia cheio.
- Não estou com sono, mas se você quiser ir...
Ele suspirou. – Está com raiva do universo? Eu entendo. Mas não devia descontá-la em mim.
- Não estou descontando.
- Ela tem razão. – Disse Alan. – Você não tem mais nada o que fazer aqui.
O conde continuou me encarando, esperando que eu dissesse alguma coisa. Quando percebeu que isso não aconteceria assentiu, um tanto magoado, e se retirou.
- Se houver alguma coisa que eu possa fazer, qualquer coisa. Só quero lhe ser útil. – Alan pegou minha mão com cuidado. Foi bom sentir seus dedos quentes entrelaçados aos meus, mas não queria nada dele no momento. Ainda queria ficar sozinha.
- Você pode ir também. – Sorri para que, assim como o conde, ele não me levasse mal. – Obrigada.
Ele também sorriu. Segurou meu rosto para beijar minha testa e depois saiu.
Fiquei bastante tempo na sala, observando a noite pela janela. Parecia que nem o frio me atingia mais, minha cabeça ainda latejava. Fechei os olhos tentando relaxar um pouco.
Eu preciso ser forte. Preciso ser...
Escutei sons de passos e quando abri os olhos Finn estava na janela. Ele fez um sinal com a mão me chamando e eu fui.
Assim que o encontrei recebi um abraço. Não chorei desta vez, só o apertei com mais força absorvendo aquela energia, seu cheiro, sua força.
- Sei o que está sentindo. – Ele disse. – Quando meus pais morreram pensei que ficaria sozinho para sempre.
- Não penso assim. – Olhei em seus olhos. – Eu tenho você.
Ele sorriu. – Você sempre terá.
- // -
O velório de minha mãe foi no dia seguinte à tarde. O sol era tão forte que nossos olhos ardiam se olhassem para o horizonte, não havia nenhuma nuvem no céu, era uma tarde bonita e quente, das que minha mãe mais gostava.
Todos compareceram: Alan e sua família, meus tios e minhas primas tanto por parte de pai quanto de mãe, meus avós que eu não via há muito tempo. Eles pareciam piores do que qualquer um, devia ser terrível enterrar um filho. Mas ainda tinha a sensação que faltava alguém.
Papai manteve-se mudo durante toda a cerimônia. Não chorou, não conversou com ninguém. As pessoas falavam com ele e papai apenas assentia. Minhas primas não desgrudaram de mim nenhum segundo. Alicia estava arrependida por ter me deixado nas docas aquele dia, mas ela não admitiu isso nenhuma vez, Kate disse pelas duas.
Então o corpo de minha mãe foi levado ao jazigo da família. Era a última oportunidade de vê-la. Aproximei-me de seu caixão e sorri ao ver o quanto ela parecia serena. Para mim não me pareceu morta, apenas um anjo adormecido. Eu nunca a vi tão linda antes. Estava em seu vestido bordô predileto, seus cabelos ruivos soltos e ajeitados ao redor do rosto, sua pele era lisa e jovem, parecia de mármore. Seus lábios estavam vermelhos, sabia que na funerária haviam pintado minha mãe para que parecesse bela daquele jeito, ainda assim, era minha mãe e estaria perfeita independente da pintura.
Beijei-lhe a testa e me afastei para que fosse a vez de meu pai. Ele se segurara até ali, mas então, ele desabou. Parecia que a morte de minha mãe só havia se tornado real naquele instante. Chorando ele a abraçou e beijou-lhe os lábios e então permitiu que a levassem para dentro.
Eu o abracei o tempo todo depois daquilo.
Quando voltávamos para casa, dentro da carruagem meu pai manteve sua cabeça escorada no meu ombro toda a viagem. Em casa não sabia o que deveria fazer, meu pai não parecia muito animado para uma conversa e nem eu. A casa parecia muito silenciosa sem minha mãe. Demoraria até que nos acostumássemos com aquele vazio.
- Está acabado. – Meu pai disse, me surpreendendo. O dia todo não escutara sua voz, ela soou irreconhecível agora. – Finalmente. Eu já não aguentava mais.
- O senhor quer alguma coisa?
- Não... – Ele balançou a cabeça. – Você devia dormir, amanhã o estilista virá para fazer seu vestido de casamento.
- Pai... Sobre isso... Eu não sei se quero me casar agora. A mamãe a recém...
- Sua mãe iria querer que continuássemos nossas vidas, sem interrupções.
- Eu sei, mas...
- Sem “mas” Marianne. – Ele já havia voltado à carranca de antes. – Seu casamento será daqui a menos de um mês. Tudo precisa estar pronto.
- Mas não quero me casar! Alan quer me levar embora e eu não quero ir!
- Quero, quero... Você não tem querer! Se eu estou dizendo...
- Como você consegue ser assim? – O cortei. – Eu realmente fiquei com pena do senhor hoje, mas você nunca tem piedade de ninguém! Nem mesmo de mim! Quer se livrar logo de mim? É isso?
- Não, você sabe muito bem...
- Você nunca gostou de mim, acho que só me manteve por perto por causa da mamãe, apenas por isso! Eu sou apenas mais um encosto para você!
Ele bateu no meu rosto e que me fez ofegar. Nunca tinha apanhado antes, a decepção foi maior do que a dor e por isso chorei: por raiva.
Subi correndo para meu quarto. Minha vida estava começando a se tornar um pesadelo.
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