Fascínio
3 O baile do inferno
Assim que saímos de nossa casa minha mãe segurou meu braço para que ficasse com ela. Meu pai foi na frente direto para a carruagem que nos esperava. Minha mãe começou andar lentamente forçando-me a acompanhá-la, já que estava de braços dado comigo.
– Querida, antes gostaria de ter certeza que não planeja fazer nada que me envergonhe.
– Envergonhar você? Mamãe... – Fiz-me de inocente.
– Apenas me ouça. É muito importante para seu pai seu casamento com o duque...
– Mãe! E se eu não gostar dele? E se eu gostar de outra pessoa...
– Apenas não me envergonhe. – Ela parou diante da carroça e segurou meu rosto com as duas mãos para que pudesse olhar em meus olhos. Quando respirou fundo pareceu mais velha, exausta. Mamãe estava diferente, sempre a vi tão alegre, tão cheia de vida. Mesmo ela já tendo quarenta anos é mais bela do que muita gente com vinte, mas naquele dia ela me pareceu um tanto abalada.
– Sei como se sente... Sei que gostaria de encontrar o amor por si só, mas infelizmente, seu pai está passando por algumas dificuldades...
– Como? Papai é um barão de açúcar, ele ganha toneladas de dinheiro todos os dias...
– Não se trata de dinheiro. – Ela soltou meu rosto abruptamente. – Apenas pense na gente, está bem? – Então entrou na carruagem preta sentando-se ao lado de meu pai.
Antes de entrar olhei ao redor do jardim esperando ver Finn, não havia o visto o dia todo já que nós dois estivemos ocupados. Mas não havia nenhuma presença.
A casa do duque não me impressionou muito. Parecia-se bastante com a minha: paredes brancas, janelas imensas. Um chafariz dava as boas vindas, também assim como a minha. A única coisa que achei agradável era a vista do rio Mississipi, o que analisando de certo ângulo, também não era grande coisa, principalmente porque agora era noite, não podia ver a paisagem que havia ao redor do rio, somente o brilho da lua batendo na água. A música de um barco que passava me pareceu mais interessante que a da casa de Alan.
Durante o tempo que levamos para chegar até ali estive pensando nas palavras de minha mãe. Se não tinha a ver com dinheiro, com o que então? Talvez meus pais estejam ansiosos para se livrarem de mim, pois foi a única coisa que consegui pensar.
Assim que entramos na sua casa Alan foi nos receber. Toda vez que tinha que olhar para ele me sentia enjoada. Era ainda pior agora que sabia das intensões dele. Jamais me imaginei com outro homem que não fosse Finn. Finn e eu jamais havíamos nos beijado ou se quer havia rolado um clima romântico entre nós, mas de alguma forma eu sabia que ele não iria gostar nadinha de saber que ficaria noiva. Talvez eu não ficasse, mas sempre que olho para mim mãe um nó se forma em minha garganta. Ela disse para pensar nela e era o que estava tentando fazer.
– Que prazer em vê-la senhorita Foster. – Ele beijou minha mão e tive que fingir um sorriso. Algo me dizia que aquela seria a noite mais longa da minha vida.
Depois ele cumprimentou meu pai lhe apertando a mão e minha mãe repetindo o gesto que acabou de fazer comigo. Eu não me sentiria tão mal se tivesse decidida a dar um fim naquele showzinho, mas, infelizmente estava pensando em meus pais – e em Finn.
– Senhor. – Alan se dirigiu ao meu pai. – Tem alguém que gostaria que conhecesse. Um amigo meu que conheci em uma de minhas viagens.
– Ah, claro. Você já havia me falado dele. – Papai nos convidou a segui-lo apenas olhando para mim e minha mãe, depois seguiu Alan.
Fomos guiados até o salão onde estava a maioria das pessoas. Alguns dançavam, alguns bebiam enquanto conversavam. A música era boa, mas nem isso me deixou um pouco mais animada – Eu deveria mesmo aceitar o pedido de Alan? Tudo dizia que sim exceto meu coração que pulsava forte em protesto. Certa vez ouvi que o coração é fraco por se curvar aos encantos e prazeres e que jamais se deve ouvi-lo, somente a razão é confiável.
Mas minha razão foi parar na lua no mesmo momento que meus olhos caíram sobre ele. Um homem, o mais lindo que já vi, sua pele era clara, os cabelos negros e presos em um rabo perto da nuca. Seus lábios eram tentadores. Finn pareceria um rato ao lado dele, coitado de Alan então...
– Senhor Foster, este é o Conde da Transilvânia.
– Por favor. – Ele disse com encantadora voz. – Chama-me apenas de Vlad.
Meu pai e ele apertaram as mãos.
– É uma honra senhor.
– Eu o conheci em Londres. – Continuou Alan. – Conversamos até que ele me contou que estava interessado em novas terras. Acho que fiz bem em lhe indicar Nova Orleans.
– Ah, com toda certeza. Esta é uma ótima cidade. Tenho certeza que o senhor vai gostar. – Meu pai disse. Então se lembrando de nós apresentou minha mãe e em seguida eu.
Quando o Conde beijou minha mão tentei me manter neutra. Porém, mesmo eu não demonstrando, quando ele ergueu seus olhos castanhos ainda pressionando seus lábios na minha pele algo dentro de mim se revirou. Eu tive a sensação de que já o vira antes.
– Então foi o senhor que comprou a velha mansão dos Lavigne? – Meu pai perguntou.
Lembro que aquela mansão estava há meses em obras, apesar de não haver mudança alguma exteriormente.
– Sim. – O conde respondeu. Era incrível como ele era jovem, mas agia de uma forma velha. Diria que ele tem a idade de Finn, no máximo vinte e cinco, mas o jeito que falava, que olhava intensamente nos olhos dos outros...
De onde eu o conhecia?
– A comprei há uns meses, mas somente agora que ela fora ficar... Habitável.
Meu pai riu. – Sim, compreendo. Lembro que entrei naquela espelunca quando ainda estava à venda. Com todo o respeito.
O Conde sorriu. – Tudo bem. Era uma espelunca mesmo. Mas quem sabe, agora que está tudo pronto, o senhor e sua família – ele olhou para mim. – não me visitariam qualquer dia desses para ver como ficou.
– Claro. Será um prazer visitá-lo senhor.
Nesse instante uma mulher surgiu por trás do conde. Morena de olhos negros e com um vestido vermelho incrível.
– Então meu senhor. Não vai me apresentar seus novos amigos? – Ela entrelaçou seu braço ao dele e olhou para cada um de nós de maneira estranha.
O conde pareceu entediado. – Ah sim... Está é minha prima Ilona. – Então uma loira e outra morena também surgiram. – E suas irmãs Lanore e Dábria.
As três primas se curvaram respeitosamente para nós. Graças ao bom e grandioso Deus as minhas primas surgiram nesta hora, me livrando daquela situação esquisita.
– Olá tio, olá tia. – Alicia foi chegando devagar. Quanto mais velha ficava mais bela. O mesmo aconteceu com Kate, ela estava muito melhor do que quando éramos crianças, mas Ali ainda era o centro das atenções dos homens em qualquer lugar que íamos. – Com toda licença, vamos roubar Anne por um momento.
E então ela me puxou pelo braço. A única coisa que vi foi o olhar um tanto irritado do Conde.
– Meu Deus – Ali se abanava conforme íamos atravessando o salão indo em direção à Kate. – Você viu que homem lindo?
– Está falando do conde?
– Não, das putas que estavam de braços dados com ele. É claro que é do conde, de quem mais seria?
Dou de ombros. Ele era bonito, mas havia algo nele que me dizia para ficar longe.
Kate parecia um anjo com seu vestido branco e cabelos ruivos encaracolados. Sempre invejei a cor de seus cabelos, infelizmente havia puxado o lado de meu pai da família e meus cabelos vieram negros como a infinita noite sem a lua e as estrelas.
– Prima! – Ela me abraçou quando me viu. – Estou tão feliz. Acho que vão pedir a minha mão. – Ela disse em tom sonhador.
– É? Isso é maravilhoso! Quem?
Ali me puxou mais para o canto de uma coluna e as duas apontaram o sujeito que conversava com um homem que era a sua versão mais velha.
– Luís Jakes, irmão mais moço de Alan. – Ali falou. – Ele e Kate já estão se falando por cartas há meses. Foi ele que nos convidou para esta festa.
– Não exagere. – Disse Kate. – Não são meses, somente... Semanas.
– Acha que ele vai pedir hoje? – Eu disse, isso seria ainda pior para mim. Como estragaria o noivado de minha prima?
– Não. – Kate respondeu. – É aniversário do irmão dele. Acho que ele não roubaria a atenção para si hoje.
– Tem razão. – Ali concordou.
Respirei fundo sem me sentir. O momento do jantar estava se aproximando e meu coração estava cada vez mais pesado. Tinha medo de acabar desmaiando. O espartilho apertado também não ajudava nem um pouco.
– Vamos. – Ali começou a puxar minha mão e a da irmã para o centro do salão. – Temos que ser vistas se quisermos que alguém nos tire para dançar.
Puxei minha mão me soltando da dela. – E quem disse que eu quero dançar?
O sorriso de Ali foi malicioso. – Toda dama solteira quer.
Kate ia dizer alguma coisa, mas parou quando viu que Luís, o irmão mais moço de Alan se aproximava.
– Dançaria comigo? – Ele sorriu um pouco acanhado e lhe estendeu uma mão. Dava para ver que estava tão nervoso quanto ela.
– Sim senhor. – Ela pegou a mão dele a apertando um pouco forte e vi que Ali conteve uma de suas histéricas risadas. Então os dois saíram;
Ali e eu ficamos observando eles, nem tinha me dado conta que estava sorrindo. Estava feliz por minha prima que estava a caminho de encontrar o amor e que poderia escolher passar a vida inteira ao lado dele.
Diferente de mim que meus pais desejavam que me casasse com um homem que não suportava. Sempre soube que infelicidade seria acordar todos os dias ao lado de alguém que não ama. Ver sua vida passando e não poder fazer nada para mudar a situação. Ser fadada a envelhecer e morrer sem conhecer a felicidade. Meus pais acreditavam que o amor vinha com o tempo, que se podia aprender a amar, mas eu acreditava que o amor não é algo que podemos selecionar. O amor vem de repente, contra sua vontade seja para te alegrar ou para te humilhar, para te realizar ou tornar sua vida um poço de tristeza. Com a sorte que tinha sabia quais eram as minhas opções.
Logo alguém apareceu para dançar com Ali e eu fiquei sozinha observando as duas dançarem. Ali sempre que virava e ficava de frente para mim, movia os lábios tentando me dizer algo por cima do ombro de seu parceiro. Eu não entendia as palavras que ela tentava formar, para mim ela estava fazendo caretas engraçadas. Então entendi que ela estava me mandando parar de me esconder para que alguém pudesse me tirar para dançar.
E esse alguém era a última pessoa que gostaria de ver: O conde.
Não tive escolha a não ser aceitar dançar valsa com ele.
Aceitei sua mão estendida e fui levada ao centro do salão onde começamos a dançar. Ele era ainda mais lindo de perto.
– Então toda essa armação é para a senhorita. – Ele sorria de forma provocante. – Posso sentir que não está nada contente com isto.
Tudo que fiz foi bufar.
– Sim. Você é exatamente como eu pensei que fosse.
– Esteve pensando a meu respeito?
– Mas é claro! Todos pensam em você depois que te conhecem. É portadora de uma beleza cativante. Tem um temperamento atraente, ao mesmo tempo que é autoritária, é sensual, apesar de ainda ser muito jovem.
Não coraria nem se quisesse. Estava com raiva demais para sentir vergonha.
– O senhor me acha atraente?
– Obviamente. Porém, por dentro, é feia como qualquer um aqui.
Encarei seus olhos que tinha a sensação que podiam enxergar qualquer coisa, até mesmo a alma guardada dentro de uma pessoa.
– Prossiga.
Seu sorriso se tornou arrogante.
– Como qualquer uma aqui você é egoísta, cria romances para se forçar a acreditar que pensa em alguém além de si, mas isso não é verdade. Mas o que mais me instiga em você é o fato de que você deseja ser diferente. Você quer mudar. Não quer ser como estas criaturas aqui presentes, quer fugir deste lugar horrendo, ser livre para agir e amar da forma que quiser. Sem máscaras.
Máscaras. Esta palavra passou a serem minhas algemas desde que Finn me dissera aquilo no estábulo em nossa primeira conversa.
Então Alan surgiu pedindo para que fosse a vez dele de dançar comigo. O conde se despediu com um leve aceno de cabeça e se retirou. Por um momento não pude deixar de encará-lo. Então Alan ocupou meu campo de visão.
O duque nem era bonito como todos diziam. Ele era alto demais, magro demais. Não havia um meio termo naquele homem?
– Está maravilhosa hoje senhorita. – Ele disse e me limitei a sorrir. – Seus pais já conversaram com você?
– Sim.
– Está infeliz hoje? – Que bonitinho... Ele realmente me pareceu preocupado.
– Não mais que o normal.
Ele riu. – Gosto do seu senso de humor.
– Que bom. – Esperei que ele notasse a frieza em minha voz, mas, ou ele estava fingindo ou era sonso demais para perceber. Acredito na primeira alternativa.
– Quero que saiba que gosto muito de você. Além de bela mostra-se inteligente, sensata. Mas vou entender caso você não sinta o mesmo. Se você assim quiser, eu não farei o pedido e então não nos casaremos.
Olhei-o nos olhos pela primeira vez. Eram azuis, mas naquele instante pareciam verdes. Demorei até acreditar nas suas recentes palavras. Ele estava me dando uma chance de lhe responder antes para que assim não o fizesse passar vergonha na frente de todos. Acho que minha mãe deve ter conversado com ele.
Olhei em volta do salão procurando por meus pais. Quando os encontrei vi que seguravam na mão um do outro e sorrindo me observavam dançando. Meus pais se amavam e acima de tudo me amavam. Jamais fariam algo ruim para mim porque estavam sempre pensando em mim. E seja lá quais fossem os motivos de meu pai para querer aquele casamento eu compreenderia. Lembrando as palavras que o conde me dissera minha insatisfação se aprofundou. Pela primeira vez na minha vida eu realmente estava pensando nos meus pais, em alguém além de mim, e com muita dor no coração pronunciei as palavras:
– Eu me casarei com você.
Fale com o autor