Fascínio
34 Inevitável
Notas iniciais
Finn ainda tinha o facão que usaria para cortar a cabeça de Anne – o pensamento ainda o assustava, ele teria mesmo coragem de fazer aquilo? Provavelmente não...
Quando o conde avançou para cima dele, Finn empurrou a lâmina para frente cravando em cheio o coração do conde, mas este riu novamente e virou a mão dando um tapa tão forte no rosto de Finn que quase quebrou seu pescoço. Finn soltou o lampião, mas não o facão, pois precisaria dele, quando caiu puxou a lâmina de volta do peito do conde consigo. Começou a engatinhar para longe do vampiro, mas ainda foi lento. O conde o pegou pela gola da camisa e o ergueu. Não precisava dizer o quanto Finn era patético.
– Se você gosta de Anne deveria deixá-la.
– É exatamente o oposto. – Finn respondeu.
O conde revirou os olhos antes de jogá-lo contra a parede. Finn bateu de cara e depois caiu deitado no chão. Estava num canto escuro, mas sabia onde Anne e o conde estavam, a luz fraca do lampião ainda estava na região. Seu nariz doía por causa da pancada deixando-o um pouco tonto, a dor era mesmo insuportável.
Olhou para o caixão de Anne, mas o conde havia sumido. Como bom vampiro que era, podia ficar praticamente invisível nas sombras.
– O que fazer... – O conde cantarolava, parecia que sua voz vinha de todos os lados. Finn procurava por ele, mas não via nada. – Não estou com sede... Não estou com pena e nem com raiva porque sei que vou vencer.
Finn ergueu o facão como se fosse uma espada. Estava pronto caso ele aparecesse de qualquer um dos lados – ao menos pensou que estivesse. O vampiro surgiu na sua frente, Finn investiu com a faca, porém o conde desviou a lâmina com o braço. Depois agarrou a roupa de Finn e o jogou longe. Finn bateu com a cabeça muito forte no pedestal de pedra que guardava o caixão de Anne. Ele caiu ao lado do caixão dela, com o rosto virado para o chão, incapaz de se mover.
Tentou se levantar, mas sua cabeça sangrava e parecia estar prestes a explodir. Seria assim que ele morreria, com a cabeça quebrada? Quanta genialidade...
Ele escutou os passos do conde chegarem até ele. O vampiro o virou de barriga para cima colocando o pé no seu ombro e o chutando para o lado. Depois pisou no seu peito onde se inclinou até ficar com o rosto próximo ao do humano. O pé do conde parecia que ia esmagar o peito de Finn, o pobre mal conseguia respirar. Sua visão estava embaçada. Ele ainda lutava para se manter consciente, mas era uma batalha perdida.
– Viu só? É inevitável. Você perdeu e Anne vem comigo. – O conde riu na cara dele, se afastou de Finn e ficou por um tempo contemplando Marianne, a morta mais linda do mundo. Finn sabia o que ele via, a pele pálida perfeita, uma expressão de paz no rosto e lábios muito vermelhos, sedutores. E ele já havia beijado aqueles lábios, coisa que infelizmente nunca mais aconteceria.
– // -
Finn se via ainda criança, brincando à noite com Anne na floresta atrás da cabana dos empregados quando todos dormiam.
– Você está com medo? – Finn revirou os olhos.
– Não. – Disse ela irritada.
– Então caminha.
Ela caminhava tão devagar que havia ficado para trás. Finn tinha que parar e esperar que ela o alcançasse o tempo todo.
– Para onde está me levando?
Ele ergueu o lampião mais alto para ver se iluminava mais o caminho – nadinha.
– Você vai ver, estamos quase lá.
Naquele hora Anne vestia sua camisola que era tão longa que ela ficava segurando a saia para poder caminhar. Ela tinha as sobrancelhas franzidas e pisava firme no chão para expressar sua raiva. Ainda assim era lenta, pois cuidava exatamente onde pisava.
– Eu não estou gostando disso Finnick. E se estiver me levando para bandidos me sequestrarem no meio da floresta. Meu pai vai te pegar neguinho quando isso der errado. Detesto esta floresta, olha quantos mosquitos, daqui a pouco eles vão me carregar daqui. E minha camisola está imunda, como vou explicar isso para a minha mãe. ARG! Já é a segunda vez que meus cabelos prendem nesses galhos!
Finn revirou os olhos. A garota não calava a boca! Voltou para ajudá-la com os cabelos presos nas árvores.
– Porque não prendeu seus cabelos.
Ela sorriu cinicamente. – Porque você ficou me apressando.
– Desculpe. – Ele finalmente desprendeu os cabelos dela com um único puxão.
– Ai. – Ela reclamou. – Isso doeu seu cavalo. – E bateu nele.
– Ei! Será que você não pode ser um pouco mais delicada?
– Vou te mostrar a minha delicadeza seu...
– Afe! – Ele revirou os olhos. – Estou me arrependendo de querer te mostrar isso.
– Mostrar o quê?
– É surpresa.
– Detesto surpresas!
– Então volta por onde veio chatonilda!
– Chatonilda?! – Ela ficou me encarando com olhos arregalados e boca aberta, se fez de ofendida.
Ele riu da expressão dela e Anne não conseguiu segurar por muito tempo. Foi a primeira vez que Finn a viu rindo daquela forma.
– Viu só? Você fica muito mais agradável assim.
Ela franziu as sobrancelhas, mas ainda sorria.
– Confia em mim? – Finn estendeu uma mão para ela. Anne hesitou, mas pegou sua mão.
– Confio.
Ele sorriu e voltou a guiá-la pela floresta. Os dois andaram de mãos dadas pela primeira de muitas vezes. Até uma árvore diferente que era bonita com galhos curvados e fáceis de serem escalados.
– Vamos ter que subir.
– Não... – Anne reclamou.
– É demais para você senhorita Foster? – Ele riu e começou a escalar a árvore levando a luz do lampião com ele. Anne escalou a árvore somente porque ele havia a provocado, ela amava desafios.
Volta e meia Finn pegava sua mão para ajudá-la subir também até que chegaram no topo da árvore, Anne nunca tinha ido tão alto, Finn podia sentir seu medo e nervosismo.
– Finn. – Ela respirava com dificuldade. – Eu tenho medo de altura.
– Eu estou aqui com você, não vai cair.
– Você não entende... Eu morro de medo de altura.
Finn segurou sua mão. – Então olhe para cima. – Ela olhou e ficou sem ar. Nunca tinha visto tantas estrelas. A lua nem aparecia em meio tanto brilho.
– É lindo... – Ela sussurrou fazendo Finn rir. – O que é? – Ela cruzou os braços e quase se desiquilibrou, Finn a segurou a tempo.
– É só que... Você não precisa falar baixo aqui em cima.
– É LINDO! – Ela gritou e os dois gargalharam em seguida.
– Muito lindo. – Ele concordou. Passaram o resto da noite lá em cima. Anne se acostumou com a altura, mas não perdeu o medo. Ficou lá somente para contemplar o céu estrelado e Finn para contemplá-la.
Finn se afastou de suas lembranças para prestar atenção ao que acontecia no presente:
O conde pegou Anne de seu caixão com delicadeza como se ela fosse se quebrar a qualquer momento. Finn teve que assistir sem poder fazer nada. Assistir o ladrão de sua alma carregá-la para uma eternidade obscura enquanto o véu negro da inconsciência cobria os olhos dele.
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