Fascínio
35 Parte V - Consumação
Notas iniciais
Eu tinha meu rosto escondido na curva do ombro de alguém. Eu me sentia acabada, sem esperança... Eu chorava.
Senti que mãos acariciavam meus braços ou minha cabeça. Alguém me confortava, alguém tentava me fazer acreditar que aquilo, não podia ser tão ruim assim. Mas o que era aquilo? Por que exatamente eu chorava?
Afastei-me do seu ombro para encará-lo e mais uma vez vi aquele belo menino, com um sorriso fraco que não alcançava os olhos. Os cabelos compridos estavam soltos, estávamos sentados em escadarias que se dirigiam a um castelo no topo do monte.
– Eu não posso lhe fazer feliz por completo. – Eu disse com uma voz que não me pertencia. Era mais uma lembrança que também não deveria ser minha.
– Quanta bobagem meu amor. É claro que você me faz feliz. Fará-me feliz para sempre. – Ele tentou ampliar o sorriso.
– Não minta! Logo você arranjará outra para me substituir, você dará um jeito para ter aquilo que eu não posso lhe dar. É o que os homens fazem.
– Pare com isso Isabela. – ele soou com raiva, pareceu ofendido. – Eu jamais faria algo assim. Eu te amo, mesmo que não possa me dar filhos agora... Vamos superar isso juntos.
Olhei para ele e não pude deixar de sorrir quando vi sinceridade.
– Você jura?
– Sim. – Ele pegou meu rosto com as duas mãos e me puxou para um delicado beijo. Foi breve, porém o suficiente para me fazer esquecer os problemas.
Então a cena mudou. Eu estava sozinha em um quarto escuro, iluminado por várias velas. Eu estava de joelhos dentro de um círculo desenhado com giz branco no chão. Era como se eu estivesse rezando. Falava coisas estranhas, sem sentido... Eu não estava rezando eu estava invocando alguma coisa!
Foi quando várias vozes inundaram minha mente. Várias coisas gritando ou falando ao mesmo tempo. Eu levei as mãos aos ouvidos e me joguei no chão tentando abafar o som, mas não havia como, pois aquilo estava dentro da minha cabeça. De repente eles pararam. O silêncio retornou, ficando apenas um zumbido dolorido no fundo da minha cabeça.
Olhei em volta confusa não compreendendo o que havia acontecido e vi um homem diante de mim que apagava o círculo no chão com o pé.
– Vlad... – Comecei a resmungar.
– O que você estava fazendo? – Ele perguntou. Seus olhos refletiam as luzes das velas e eu tremi não reconhecendo aquela expressão. Era a primeira vez que o via com tanta raiva.
Levantei-me devagar e envergonhada.
– Eu pensei que...
– Eu sei muito bem o que você fazia. – Então ele puxou uma adaga do cinto e depois meu pulso. Fiquei com muito medo imaginando o castigo que ele me daria. Pôs a lâmina na palma da minha mão virada para cima e quando a puxou deixou para trás uma linha de sangue. Ele cortou a palma da própria mão também e depois apertou a minha contra a sua. Nossos sangues se misturavam conforme ele falava olhando nos meus olhos:
– Eu juro que nunca vou querer mais ninguém como eu te quero. Independente de não poder nos dar filhos, independente da morte. É você que eu amo Isabela e somente você.
– Eu juro sempre ficar com você e se algum dia tivermos que nos separar, por razão de guerra ou até de morte, eu juro sempre voltar.
– // -
Meu peito parecia estar pegando fogo. Eu respirava, porém minha garganta sangrava toda vez que eu fazia isso. Parecia que com o ar vinha pedras em brasa que arranhavam e cortavam minhas narinas e garganta enquanto desciam.
Eu girei para o lado e dei de cara no chão. Procurando ar... Procurando água... Qualquer coisa que matasse aquela secura dentro de mim. Nunca me senti assim, desesperada por algo que nem sabia o que era.
– Ora, ora, ora... – Uma voz familiar soou de algum canto. Atrás de mim talvez... Eu havia me apoiado nas mãos para me levantar, mas a dor dentro de mim não sessava. – A Bela Adormecida acabou de ressurgir.
– Ilona... – Resmunguei reconhecendo a voz. E... Que droga minha voz refletia exatamente como eu me sentia por dentro: um lixo.
– O mestre está ansioso para ver você.
Tentei focar minha visão quando fiquei de pé. Parecíamos estar debaixo da terra. Era um lugar amplo, escuro apesar de eu enxergar tudo com perfeição. Paredes de concreto com teto arredondado e havia tuneis grandes para todos os lados. Estávamos nos esgotos? Não... Aquele lugar não fedia nem nada. E havia mais: cinco caixões. Eu havia saído de um.
– Marianne, não temos a noite toda. – Ilona disse com os dentes juntos mostrando o quanto estava a fim de me bater.
Céus! Havia acontecido. Eu era uma vampira agora, estava longe de casa, meu pai deveria achar que eu estava morta, todos deveriam. Nunca mais os veria... Tornaria-me um monstro, assassino, escravo... Mas eu não me sentia uma escrava. Ainda podia tomar decisões como seguir ou não Ilona para fora daquele... Jazigo? Aquilo era um jazigo com vários túneis, espécies de rota de fuga...
Como eu não tinha escolha, segui Ilona. Subimos escadas encaracoladas de metal, poucos degraus até uma porta de metal. Saímos para a noite que estava estranhamente agradável e clara. Atravessamos o jardim que eu conhecia muito bem e entramos na antiga mansão Lavigne. O conde estava na sala com as outras duas vampiras: a loira Lanore e a morena Dábria.
Ele se levantou sorrindo e veio até mim assim que me viu.
– Você está linda. – Ele segurou meus ombros. Agora suas mãos não pareceram frias. – Como se sente?
– Péssima. – Respondi. Ainda respirava com dificuldade. A dor no peito só piorava.
Ele riu. – Sei disso. E sei o que vai lhe fazer sentir melhor.
Quanta raiva... Quanta dor. Eu poderia estar em casa com o meu pai. Não sabia quanto tempo eu havia ficado apagada. Mas eu teria me casado de bom grado com Alan para não me tornar uma vampira. Que inferno! Como eu fui tão tola de me entregar ao demônio deste jeito?
Tapei os rostos com as mãos. Eu queria chorar, porém lágrima alguma vinha.
– Não fique assim querida. Finalmente vamos ficar juntos. É como deveria ser.
– Fique longe de mim. – Minha voz era abafada, pois ainda escondia o rosto.
– Logo eu lhe trarei todas as lembranças de Isabela de volta, você lembrará o quanto me ama e tudo ficará bem.
– Fique longe de mim! – Me afastei dele.
Ele permanecia sorrindo, mas sentia a ira e a mágoa crescendo dentro dele.
Eu precisava dar o fora dali o mais rápido possível, mas a queimação na garganta e no peito, e o descontrole emocional não me permitiam pensar. Olhei ao redor. Ilona estava no caminho da saída e sorria com satisfação, ela sabia o quanto eu estava sofrendo e isso lhe agradava – vadia, ela matou minha mãe.
Lanore cobria a outra saída, ela estava séria, talvez com medo. Ela olhava para o conde esperando a reação dele. E Dábria estava alerta para me conter caso eu me movesse.
– Eu não quero ficar com você. Não quero me lembrar de Isabela. Quero voltar para casa, com minha família, meus amigos, minha vida! Você arruinou tudo. Tirou-me tudo! Se gostava mesmo de mim iria me querer feliz!
– Você não era feliz, mas pode ser agora, ao meu lado.
– Não! Eu nunca vou ser feliz deste jeito... – Engasguei. Apertei a garganta para ver se melhorava a dor para eu conseguir respirar. Que agonia...!
Cai de joelhos, tentava me concentrar, havia tantos cheiros, tantas coisas... E a dor era pior a cada instante. Sentia gosto de sangue, cheiro de sangue, e isso só aumentava minha angustia. Eu estava morrendo. Havia dado errado. Eu não me tornaria uma vampira, eu simplesmente morreria. Devia ter perguntado ao professor se tinha chances de isso acontecer, uma transformação dar errado como estava dando a minha.
– Você ainda está em transição. – Falou o conde. – Precisa beber sangue para completar a transformação.
– Não... – Choraminguei. – Eu não vou beber sangue. – Mas o pensamento me deixou tonta, ainda mais sedenta. Era disso que eu sentia falta? Sangue?
Ele se agachou diante de mim, tocou sua testa na minha.
– Se não fizer isso vai morrer. Tem só algumas horas depois que acorda para fazer isso. Faça Anne, por mim.
Eu ri, por um momento pareci com Ilona e isso me deixou mais enjoada.
– Porque eu faria isso por você? – Ergui a cabeça para encará-lo nos olhos. Eu não faria isso por ele nem por ninguém. Eu não o amava! Eu o detestava! E detestava ainda mais a mim por ter permitido me aproximar dele, acreditado que ele realmente era bom e que eu estava me apaixonando.
Ele se afastou me deixando de quatro no meio da sala inda tentando respirar.
– Eu fui para uma batalha algum dia. Qual não é importante. Mas pedi para que o Senhor dos Céus a protegesse e quando voltei eu a via descendo para o inferno. Este é o lugar dos suicidas Marianne, não há como impedir. Completamente perdido eu fugi, meu castelo estava sendo invadido, minha mulher havia se matado e eu me vi sozinho. Eu pedi ajuda à um amigo e o mesmo me aprisionou, com ratos e todos os tipos de imundices que possa imaginar. Foi lá que o anjo sombrio apareceu para mim. Ele disse que entendia minha raiva e que poderia me ajudar se eu o adotasse como pai.
Vlad sentou-se novamente no sofá de frente para mim, eu não olhava para ele, continuava encarando o chão, engasgando de vez em quando tentando puxar ar para os meus pulmões.
– O anjo disse que Isabela voltaria, que ela era especial. Que como ela só existia mais duas almas no mundo, que morriam e voltavam em outros corpos, outras vidas e que eu poderia viver para sempre para procurá-la. Almas gêmeas raramente se encontram e era um pecado separar as nossas. Tudo que ele exigiu de mim foi a alma, e claro, haveria consequências. Viver para sempre, sem envelhecer... Porém nunca mais tocar o sol e passar a eternidade condenando outras almas além da sua. Eu aceitei, porque eu faria qualquer coisa para tê-la de volta, para te ter de volta.
– Mas eu não sou ela, nem nunca vou ser. – Olhei para ele, para ver sua reação.
Ele fechou os olhos entendendo o que eu dizia. Parecia que havia fracassado. Havia feito tanto para ficar comigo, para achar a encarnação de Isabela e descobrir que nesta vida ela não o ama e nunca o amará. Mas não desistiria assim tão fácil.
Ele se levantou e veio até mim. Sentei em cima das minhas pernas esperando seja lá o que viesse.
– Eu não ligo Marianne. Você é a pessoa mais mimada que eu já vi na vida, e isto está começando a me irritar. – Ele me puxou pelos cabelos me forçando a ficar de pé. Aproximou nossos rostos sem afrouxar o aperto. – Não vou perder mais tempo com birras de criança. Se eu disse que você vai beber sangue, você vai. E será da pior maneira para que aprenda a nunca mais me desafiar.
Ainda agarrando meus cabelos ele começou a me arrastar. Passamos por Lanore que estava com tanto medo quanto eu. A risada de Ilona ficou para trás.
– Vlad. Espera. – Eu tentava me soltar. Daquela forma ele arrancaria minha cabeça. – Pare, por favor.
Ele me arrastou para a sala com lareira, debaixo das escadas que davam para os quartos no segundo andar havia uma porta que quase não se percebia. Ele abriu a porta com um chute. Atrás da porta havia escadas que davam para uma espécie de porão, muito escuro e abafado. Ele me jogou no chão e depois subiu as escadas sem dizer nada. Corri atrás dele, porém dei de cara na porta. Ele havia me trancado lá dentro.
– Vlad! – Eu gritava enquanto chutava e socava a porta. – Eu odeio você! Vou odiar para sempre!
Perdi as forças nas pernas e cai de joelhos na escada. Nem chorar eu podia mais! E o que era aquele cheiro lá embaixo? Deixava-me ainda pior.
Desci as escadas me arrastando. Escutei gemidos lá embaixo, eu não estava sozinha. Quando terminei de descer vi que uma garota estava amarrada na parede com correntes e amordaçada com um lenço branco manchado com sangue. Ela usava uma camisola também suja de sangue. Suas mãos estavam presas em cima da sua cabeça, os braços bem esticados presos na parede. Ela estava sentada, as pernas enroscadas em muitas correntes, assim como o pescoço e a cintura. Ela chorava desesperadamente, sabendo da morte que se aproximava – eu era a morte? Não poderia matá-la, mas a ardência na garganta me castigava ainda mais vendo todo aquele sangue e sentindo o cheiro dele.
Era estranho como eu podia enxergar bem no escuro, mas ainda demorou para eu reconhecer a pessoa.
– Kate! – E dei um passo na sua direção e me arrependi. Não poderia chegar perto dela, eu a mataria se o fizesse. Afastei-me, me jogando num canto onde abracei minhas próprias pernas e escondi o rosto. – Eu sinto muito. – Falava. Aquele cretino tinha que ter pego ela?! Ele iria me pagar! Eu não beberia o sangue de Kate, eu aguentaria firme até morrer. Não me tornaria uma vampira. Era a minha decisão e eu teria que ser forte como nunca fui para honrá-la.
Não sei quantas horas se passou até que o choro desesperado de Kate tornou-se soluços e depois silêncio. Olhei para ela por curiosidade. Eu já sentia a inconsciência chegando perto de mim, estava prestes a desmaiar de dor. Ela encarava o vazio, os olhos ainda lacrimejavam, mas não fazia nenhum ruído.
– Se eu não matar você – Comecei a pensar alto. – Eles farão isso, sabe. Eu não posso salvá-la. Eu não posso salvar nem a mim mesma. Sou péssima e fraca. Isso é tudo culpa minha, sinto muito Kate.
Ela assentiu.
– Ali deve estar desesperada sem você. Devem achar que você fugiu por minha causa.
Ela assentiu novamente.
– Vão até desistir de te encontrar porque vão achar que você possa estar bem ou que um dia voltará por conta própria. Mas Ali não, ela nunca desistirá de você, ela nunca se conformará.
Kate ergueu seu olhar para mim. A pergunta era clara: Por que está dizendo tudo isso?
Eu voltei a esconder o rosto envergonhada, eu havia mesmo pensado em matá-la? Sim! Eu penso nisso agora. Qual será a sensação de ter o sangue quente descendo pela minha garganta. Qual seria o sabor, como a dor sessaria e se desmancharia em êxtase. Eu queria mais do que tudo matar minha prima, secá-la todinha. Mais tarde eu me arrependeria, mas daí já estaria feito.
Eu engatinhei até Kate. Parei ao seu lado escorando as costas na mesma parede que ela estava acorrentada.
– Eu sinto muito Kate, você sabe que eu te amo. Mas eu não aguento mais.
Ela voltou a chorar como antes. Desesperada. Ainda assim assentiu.
– Nós duas morreríamos se eu não fizesse isso, consegue entender?
Ela olhou para mim. Nunca a vi chorar assim. Eu deveria estar sofrendo com ela, meu coração devia estar se despedaçando, mas eu não sentia nada, somente sede, somente a vontade enorme de sugá-la até a morte. Eu era pior do que um monstro — egoísta e por não ser irracional, eu era pior.
Eu tirei a mordaça dela, tinha a necessidade de escutar sua voz antes de matá-la.
– Anne... – Sua voz falhava por causa do choro. – Por favor... Não faça isso. Eu não entendo o que está acontecendo.
– Sh... – Eu coloquei meu dedo indicador nos seus lábios. – Não torne isso ainda pior para mim.
– Mas Anne...
– Isso vai terminar rápido. – O que eu estava dizendo! Eu tinha que ser forte! Eu não posso matá-la. Eu puxei meu rosto para trás, mas o cheiro do sangue dela continuava me chamando. Eu podia ver a veia pulsando no pescoço, a que era ligada ao coração.
– Me perdoa Kate. – Eu a mordi.
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