Fascínio
39 Impedimento
Notas iniciais
Finn havia pego na caixa que escondia no poço uma arma de fogo, pesada, mas fácil de ser escondida. Ensinou-me a usá-la. Primeiro tinha que colocar pólvora e depois a bala... Também me entregou uma estaca de madeira. Havia colocado uma roupa por baixo da capa negra que roubara do conde, um vestido claro simples que ia até pouco abaixo dos meus joelhos. O sol nasceria logo e eu precisava voltar para aquele buraco.
– O que vai fazer depois? – Finn cruzou os braços esperando minha resposta.
Juntei a mala que ele havia feito para mim.
– Vou ver se consigo dinheiro vendendo algumas joias. Depois pretendo comprar uma passagem para qualquer lugar distante.
– Previsível demais, elas irão te encontrar.
– Eu não tenho escolha. Esperei a noite inteira que elas surgissem aqui, mas não surgiram, certo? – Respirei fundo tentando me acalmar. Meus sentimentos pareciam mais difíceis de controlar agora. – Se aparecerem eu fujo. Consegui da primeira vez. E acho que o conde não quer envolver mais ninguém nos seus planos malucos. As pessoas já estão desconfiando. Então... Creio que os deixará em paz.
– Grande plano!
– O que sugere então?
– Fique aqui comigo. Espere a poeira baixar.
Ri, mesmo não achando graça.
– Aonde me esconderia? E se alguém me visse?
– Daríamos um jeito! Você pode usar seus poderes de vampira... Sei lá!
– Pela última vez... Eu não sei como isso funciona.
Ele revirou os olhos.
– Eu não quero que você vá... Porque será para sempre. – Ele segurou meus braços já que minhas mãos estavam ocupadas. Vi-me obrigada a olhar fundo nos seus olhos negros. – Elas vão pegar você. Eu estou com medo do que farão depois.
Soltei minhas malas para lhe dar um abraço apertado. Eu também estava com medo, mas teria que apostar que daria certo. Afastei-me de Finn antes que desistisse de ir. Dei-lhe um último sorriso.
– Obrigada por tudo. Adeus. – Juntei minhas coisas e corri para a floresta.
No buraco debaixo da árvore que havia passado o dia anterior eu apaguei por um tempo. Sentia-me exausta, era como se o dia fosse um sonífero. Assim que o sol nascia tinha a necessidade de adormecer, mesmo sendo um pouco incômodo onde me encontrava.
Enquanto dormia eu via coisas estranhas, pensamentos estranhos. Eles não me pertenciam, mas também não era uma das lembranças costumeiras que eu tinha.
Você não pode se esconder... Eu vejo você...
Eram sussurros estranhos. Só quando me dei conta de onde vinham que acordei. Levantei alarmada. Aqueles eram os pensamentos do conde! E como eu podia ouvi-los era um mistério. Talvez tivéssemos uma ligação por ele ter me transformado em vampira, ou aquela nossa troca de sangue nos tornou mais próximos do que eu imaginava.
Não esperei até que o sol desaparecesse por completo, pois até lá as joalherias estariam fechadas. Usei a capa negra para proteger meu rosto e todo meu corpo do sol. As pessoas me encaravam nas ruas como se eu fosse um ser tenebroso. Talvez pensassem que eu fosse uma bruxa ou algo do tipo... Não importava, logo estaria longe dali. Quando entrei numa das joalherias pude retirar o capuz. Segui até um vendedor que ficava no balcão no fundo da loja. Ele me cumprimentou sem nem olhar para mim, não me reconheceria, pois tinha certeza de que eu nunca estive naquela loja especificamente antes.
– Preciso de um avaliador. – Disse a ele que assim que me viu ficou de boca aberta. Ergui as minhas sobrancelhas perguntando “o que é?”.
– Olá senhorita. – Ele sorriu como um doente mental. – Eu vou leva-la até ele...
Ele saiu de trás do balcão e foi até uma porta a qual abriu e deu passagem para mim.
– Obrigada. – Eu disse.
Ele não disse nada, permanecia sorrindo como um babaca. Respirei fundo ignorando-o e entrei na sala. Um homem de idade avançada se levantou detrás de sua mesa para me cumprimentar. Apertamos as mãos.
– Olá senhorita, o que deseja?
– Vender uma joia. – Já havia a separado e a pegado do bolso. Era um colar com um rubi grande que havia ganhado de meu pai no meu último aniversário. Eu tinha outros presentes mais significativos para me lembrar de Henry.
Entreguei o colar ao homem que imediatamente passou a analisá-lo. Volta e meia ele olhava para o rubi e depois erguia uma sobrancelha desconfiada para mim.
– É muito bonita. Quem lhe deu tem bom gosto.
– Quanto? – Fui direta ao ponto.
– // -
Já havia conseguido uma passagem e agora esperava no porto pelo navio que me levaria à Bahamas. Ele partiria no meio da noite o que era quase perfeito. O único problema era que eu seria a única mulher no navio – o que não era de todo ruim.
Quantos dias havia se passado desde que havia bebido sangue? Uns dois... Minha garganta começava a reclamar. Fiquei aborrecida lembrando o que havia feito com Kate. Eu não poderia fazer aquilo novamente... Não! Apertei minha garganta.
Já havia anoitecido por completo. Do porto eu observava o horizonte tentando me focar em qualquer coisa que não fosse a sede que eu sentia. A água calma, os navios sendo carregados e preparados para sair. A lua sendo encoberta por algumas nuvens. Estava fácil demais... Estava começando a questionar se havia sido uma escolha sensata deixar Finn e meu pai. Eles fariam algo com eles e seria muito fácil.
Pensava em voltar quando um dos homens que estariam no navio comigo apareceu ao meu lado.
– Você está bem moça?
– Sim. – Menti e minha voz rouca me entregou.
– Tem certeza? Se quiser comer ou beber alguma coisa... Ainda tem bastante tempo.
Sorri para ele. Tinha pele bronzeada, cabelos escuros e olhos verdes. Era feio como um pirata, mas não se vestia como um.
– Obrigada. Eu estou bem.
– Você é quem sabe. – Ele deu de ombros. – À propósito... Você é muito bonita. – Ele sorriu e eu tive que revirar os olhos. – O que aconteceu para viajar sozinha? Fugiu de casa? Ainda é jovem...
– Acho que isso não é da sua conta senhor.
– Com certeza não... – Ele permanecia com aquele sorriso nojento.
Pessoas assim mereciam morrer... Por que não? Ele quase não via sua família se é que tinha uma... Vivia praticamente no mar. Que falta ele faria para alguém? – Minha garganta me deu coragem para seguir em frente. – Sorri para ele.
– Você disse que conhecia alguns lugares.
– Sim! Muitos!
– Que tal algum vazio, onde ninguém poderá nos ver juntos?
Seu sorriso aumentou ainda mais – se é que era possível.
– Vem comigo moça. – Ele estendeu uma mão para que eu pegasse. Hesitei antes de segurá-la. Não acreditava que faria mesmo aquilo.
Ele me guiou pelo porto para um lugar escuro, afastado da agitação que havia próxima aos navios. Havia vários containers para onde ele havia me guiado. Havia um aberto e vazio. Entramos ali. Fiquei pensando o quanto aquilo soaria “atraente” para uma mulher que tivesse outras intenções, contrárias às minhas.
Era estranho. Tinha em mente coisas horríveis. Maneiras doloridas, torturantes de matá-lo e aqueles pensamentos atiçavam ainda mais minha sede. Imaginava que ele gritaria, tanto quanto Kate gritou e isso não me deixava nem um pouco culpada ou receosa.
– Você é linda moça. – Ele dizia já tirando a blusa.
– Obrigada. – Sorri. – Você parece ser uma boa pessoa.
Ele riu. – Depende moça.
– Como assim? – O emburrei pelo peito até bater com as costas na parede de metal do container. Ele me encarou confuso por alguns momentos.
– Eu sou uma pessoa ruim. – Ele sussurrou.
– Ruim como? – Aproximava meu rosto da curva do seu pescoço, farejando a veia pulsante que era ligada ao coração. Havia sangue por baixo daquela fina camada de pele. Eu poderia descobri-lo facilmente com meus dentes. Minha respiração acelerava na expectativa de sentir o gosto do liquido quente descendo direto para minha garganta.
– Eu faço coisas ruins com pessoas boas. – Ele dizia numa espécie de transe. Sua voz não tinha sentimento, nem melodia. Saia automaticamente, estava fora do controle dele, mas à meu comando. Sorri com a sensação boa que era ter alguém sobre seu comando. Eu iria matá-lo da forma que eu quisesse, eu iria me divertir.
– Que pessoas? – Sussurrei no seu ouvido. – Que tipo de coisas?
A respiração dele também acelerava, mas ao contrário de mim que estava excitada, ele parecia em pânico. Os olhos arregalados, encarava algo atrás de mim, mesmo não havendo nada ali. Ele se lembrava de algo, estava preso em algo. Mais uma vez sentia que podia escutar os pensamentos de outra pessoa. Não exatamente palavras e não via imagens, mas era como uma suposição. Eu sabia encarando seus olhos o que ele estava pensando. Ele havia feito coisas ruins com garotas como eu. Estuprado e até matado. Era um homem sujo, repulsivo. Eu não podia ter selecionado melhor uma presa. O mundo seria um lugar muito melhor sem ele.
Cravei minhas unhas em seu peito sentindo sangue escapar pelos furos que havia feito e o cheiro delicioso me atingir. Seu coração acelerado estava próximo. Ele gritou e eu ri.
– Pare! – Ele tentava se soltar de mim. A dor dele era meu prazer. – Você é... O que...
– Você não devia ter ido até mim. – Eu disse. – Eu estava quieta, mas agora estou com sede. Se você ficar parado, talvez eu termine isso depressa.
– Não! – Ele continuava gritando.
Revirei os olhos e desci meus dentes direto para a veia no pescoço. Vinha muito sangue dela. Eu sugava me perdendo em êxtase. Estava num estado de frenesi, tanto que quando parou de subir sangue, pois o homem já estava seco, fiquei triste. Parecia que havia sido tão rápido...
Soltei o corpo dele que caiu de qualquer jeito aos meus pés; Limpei o sangue ao redor dos meus lábios com a capa negra que ainda usava. Era preta, ninguém notaria que estava suja.
Segui para fora do container voltando pelo mesmo caminho que havia feito para chegar ali. Sentia-me revigorada agora que havia bebido sangue, mas ainda na dúvida se devia confiar que Finn e meu pai estavam a salvo.
Quando cheguei ao porto virei decidida a sair dali e voltar para o sítio, só para ter certeza de que estavam mesmo bem, eu ainda tinha tempo até o navio zarpar. Assim que me virei para deixar o porto vi há dez passos de mim um homem parado, me olhando fixamente. Ele usava um paletó longo que balançava ao vento e os cabelos revirados o fazia parecer um maluco. Era Ren, e ele não era louco. Por alguma razão ele servia ao conde que ainda não havia o matado nem o transformado em vampiro.
– Senhorita Foster. – Disse Ren em forma de cumprimento.
– Vá embora Renfield. Não fique no meu caminho.
Ele sorriu, parecia estar... Com pena de mim?
– Eu não sou seu inimigo, acredite. Não concordo com nada que está acontecendo, mas também entendo. Sei que o senhor tem um motivo para o que faz. Ele sempre tem.
– Por que está aqui?
– Para lhe dar um recado. Mas antes peço que me ouça até o final.
– Diga logo! – Eu estava perdendo a paciência.
Ren suspirou. Meu cérebro estava em branco, o pavor crescendo dentro de mim. Temia o que ele iria dizer.
– Finnick está conosco.
Meu coração falhou. Eu sabia! Não devia ter ido embora. Estava tão desesperada para fugir...
– Mas ele está bem e permanecerá bem. – Continuou Ren. – Tudo que meu senhor deseja é que a senhorita lhe dê o privilégio de mais uma visita.
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