Fascínio
40 Recepção
Notas iniciais
Eu me encontrava dentro de uma carruagem preta. Ren era o cocheiro no momento e controlava quatro belos cavalos negros até a mansão do conde no interior da cidade. Eu estava nervosa e ansiosa por encontrar Finn. Esperava que ele estivesse mesmo a salvo, pois se não estivesse... Eu me sentia com força o bastante para enfrentar o conde e suas três vampiras.
Segurava o pingente pendurado ao meu pescoço por um cordão negro. Finn havia o feito para mim e enquanto eu o segurava sentia-me ainda mais corajosa.
Quando chegamos Ren estacionou a carruagem diante da casa. Eu escondi o pingente dentro da roupa antes de descer ignorando a mão de Ren estendida para mim. Subi as escadas correndo até a porta e antes que eu tocasse a maçaneta ela se abriu.
Ilona estava do outro lado, com um sorriso da cor do vestido que usava. Com certeza ela sabia o quanto aquela cor a favorecia.
– Olá coelha. – Ela me cumprimentou. – Eu não disse que voltaria?
– Saia da minha frente. – Pedi sem disfarçar a raiva. Ela deu espaço para que eu entrasse. Lanore e Dábria estavam lá. As duas eram sempre mais sérias do que Ilona, mas mantinham o sorriso confiante.
– Por aqui coelha. – Ilona disse seguindo por um caminho que eu já conhecia. Enquanto eu a seguia, Lanore e Dábria vinham atrás.
– Pelo seu rosto eu diria que acabara de fazer um lanchinho. – Dizia Ilona enquanto andava pelo corredor escuro. – Eu não a julgo, mas meu senhor com certeza não esperava por isso. Pelo visto superou rápido sua prima. Como era mesmo o nome da pobrezinha?
– Não fale sobre ela. – Avisei.
– Entendo... Falaremos então de Finnick. Ele é bonito e tem lábios pecaminosos. – Ela riu sabendo que estava me deixando com mais raiva. – Mas o coitado acredita mesmo estar apaixonado por você. Ah Anne... Porque o fere desse jeito? Abra logo o jogo!
– Do que está falando?
– Você sabe muito bem fofinha. – Ela olhou para mim por cima do ombro e piscou um olho.
Finalmente havíamos chegado à sala onde Vlad se encontrava. Meu coração acelerou quando o vi de costas para nós. Observando pela janela o céu noturno com nuvens encobrindo a lua e as estrelas. Eu estava nervosa, pois não via seu rosto, apenas sentia seus sentimentos intensos e desesperados pairando ao meu redor. Ele estava com raiva de mim? Com toda certeza, mas havia algo além disso.
Esperava ver Finnick ali também, mas estávamos sozinhos. Ilona foi embora junto com as outras. Havia nós dois e o silêncio era pior do que o vazio da morte.
– Onde ele está? – Dei um passo na sua direção me arrependendo no mesmo instante. A coragem que eu sentia quando pisei ali estava se evaporando. Entre nós havia a imensa sala, os sofás, uma mesa imensa e a lareira. Ao meu lado as escadas que levava aos quartos e diante dele janelas que iam do chão ao teto. Ele abaixou a cabeça lentamente, mantendo-se de costas para mim. Seus ombros subiram e desceram numa respiração forçada. Sabia que aquilo era só encenação.
– Você me enganou. Estou profundamente decepcionado, triste com você.
Precisava tentar convencê-lo de parar com aquilo.
– Deixe ele fora disso, está bem? Eu fico com você! Eu não tento fugir mais! Mas, por favor, não envolva mais ninguém nisso... – Eu falava sem parar. Estava desesperada para acabar logo com aquela tensão. Eu havia cometido erros, estava arrependida de todos eles!
– Cale a boca. – Vlad disse me fazendo perceber que ainda estava falando. Quando fiquei quieta ele continuou. – Eu sabia que não seria fácil lhe apresentar a esta vida, se é que pode ser chamada de vida. Porém não estava preparado para o que fez. Você não precisava ter fugido. Não precisávamos estar passando por isso... Quero que entenda que a culpa é sua.
– Como é? – Ri. – Foi você que invadiu a minha vida! Foi você que me tornou... Essa coisa repulsiva, este monstro! Minha mãe e minha prima, pessoas que eu amava, estão mortas por sua culpa. Sua culpa!
– Acha que sou repulsivo?
A pergunta me pegou desprevenida. Não consegui pensar em nada para dizer.
Ele se virou para mim deixando que eu visse pela primeira vez seu rosto. Não havia expressão alguma, assim como sua voz desprovida de qualquer sentimento.
– Eu sei tudo que eu fiz. – Ele disse. – Acha que vai me deixar arrependido? – Ele sorriu sem mostrar os dentes. – Está enganada. Não há mais nada dentro de mim há muito tempo. Nada que me faça sentir dor ou arrependimento. Tudo que me restou foi procurar por você, e eu encontrei. E não vou parar até que te tenha por inteira. Finnick e Henry são uma parte sua que, admito, são muito incômodas. E se eu tiver que me livrar deles para tê-la, então que assim seja.
– Não! – Ele caminhava na minha direção. – Retire o que disse! Deixe-os em paz, eu irei com você. É uma promessa.
Ele deu uma risada de escárnio. Era diabólica.
– Você virá comigo de qualquer jeito.
– Por favor! – Eu não tinha para onde fugir. – Isso não é necessário. Eu imploro.
Ele segurou meus braços quando chegou até mim. Seu rosto estava tão perto. Nunca estive com tanto medo de um ser antes. Ele era lindo como um anjo expulso do céu. Talvez o demônio tivesse tal aparência, atraente e perigosa.
– Você está mesmo se rebaixando a este ponto? – Ele aproximou sua boca de uma das minhas orelhas. – É detestável. – Sussurrou.
– O que você queria que eu fizesse? Enfrentasse-te?
– Seria mais digno de você. – Ele admitiu.
A raiva estava sobrepondo minha covardia. Assim como ele segurava meus braços, os segurei também. E apertei cravando minhas unhas nele, rasgando o tecido de suas roupas e sua pele até que saísse sangue. Ele riu.
– Está melhorando. – Vlad puxou meus braços para baixo. Pegou-me desprevenida, meu coração voltou a acelerar. Ele agarrou minha nuca e me manteve curvada diante dele. Se eu tentasse me erguer, mais ele me empurrava para baixo.
– Vejamos o que eu poderia fazer... – Ele falava enquanto me arrastava para algum canto da sala, me forçando a caminhar com ele olhando par o chão. – Eu poderia libertar Finnick, viajaríamos no dia seguinte para Londres e você nunca mais veria nem ele, e nem seu caro pai. Esqueceríamos o que aconteceu nas últimas horas e existiríamos felizes pela eternidade. Ou, eu poderia matar Finn, estou morrendo de sede. Seguiríamos com o resto do plano de ir para Londres, etc. Mas eu tive uma ideia melhor. – O escutei abrindo uma porta a sua frente. Eu tinha medo de qual fosse. – eu posso deixar que você mesma faça este favor para mim.
– Não! – Tentei me levantar. Agarrei seu pulso e seu aperto aumentou na minha nuca causando-me dor.
– Comporte-se querida. Quanto mais rápido você terminar com isso, mais rápido iremos embora e tudo ficará bem.
– Por favor... – Eu queria chorar, mas lágrima alguma viria. – Por...
– Ah querida. Você não pode dizer esta palavra. – Ele riu antes de me jogar na porta aberta e fechá-la logo em seguida. Rolei escada abaixo até que finalmente cheguei à um chão frio e úmido.
Meus olhos logo se adaptaram à escuridão. Eu estava mais uma vez no porão onde havia matado Kate.
Levantei-me devagar. O cheiro lá embaixo não era nem um pouco agradável, mas havia alguma coisa lá além de mofo e podridão. Era uma pessoa, e eu já sabia quem.
Finn dormia no canto onde eu havia ficado a maior parte do tempo mantendo-me afastada de Kate. Respirei fundo. Assim como Vlad havia me feito matar minha prima ele me faria matar Finn, mas eu não poderia permitir isso!
Havia à recém me alimentado, então não estava tão desesperada para matar alguém. Sentei-me ao lado de Finn e acariciei seus cabelos cacheados. Ele respirava tranquilamente, mal sabia o que estava acontecendo.
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