Fantasynn - O Estrangeiro
4 Capítulo 4 - O choro de um elfo
A noite o jantar a luz de velas e lampiões fez o trauma da fome desaparecer por completo daqueles dois viajantes que até então comiam como animais selvagens na mesa junto a Vivi, que sempre comeu como um animal.
–Um dia ainda conto a vocês sobre o dia que fui sozinha a Múriz — dizia Vivi com a boca cheia
–Por que não conta hoje? — Indagava Heren que até então não acreditava em história alguma
–Porque seu amigo já dormiu — dizia ela pegando mais um petisco com um pequeno sorriso no canto do rosto.
E de fato, Ury havia dormido, ainda sentado com os braços sobre a mesa onde apoiava sua cabeça, mais relaxado que um filhote de Shiu. Talvez fosse o cansaço da viagem, talvez a fome agora saciada, mas o motivo não faria Heren ter reação diferente. Uma reação de curiosidade que se acendeu de dentro pra fora com poucas palavras na sua cabeça "Quem é ele? De onde ele vem?". Ainda estava com o olhar parado sobre Ury quando foi interrompido por Vivi
–Ainda quer ouvir? — Perguntava ela olhando com os olhos semi-abertos, um pouco desconfiada do que Heren poderia estar pensando
–Não, melhor irmos dormir
–É você ta certo, já é noite e essas velas não vão durar pra sempre
–E ele? — dizia olhando Edan sentado próximo a janela quadrado observando as estrelas
–Esse aí não vai dormir agora — respondia Vivi com cara de sono. Em seguida segurava Heren por uma das mãos
–Vem, me ajuda a pegar esse aqui — Logo Heren se abaixava próximo a cadeira onde Vivi colocou Ury em suas costas
–Ele vai babar em você — dizia Vivi rindo baixinho, mas Heren pouco se importava passando a caminhar junto a garota que seguia adiante para mostrar o quarto
–Boa noite — falava ainda baixinho Vivi com um sorriso meigo estampado no rosto
–Boa noite — respondia Heren já sem ver a garota que seguiu o corredor escuro.
No quarto, bem simples, um chão de taco onde dificilmente se pisava sem fazer barulho. Iluminado por uma janela estreita, onde era possível apenas a passagem de feixes de luz. Luz que com o tempo se transformara de azul e fria em amarelo, trazendo consigo o calor da manhã e um estrondoso grito
–Quem te disse que podia pegar isso?! — era a voz de Ury, irritado de forma que jamais se ouviu falar de um elfo branco. Assustado, Heren levantou e em uma corrida de desespero se viu no canto da porta do quarto junto a cena que explicava todo aquele estresse
–Eu só queria ver ta bom? Não precisa disso tudo, é só um livro — dizia Vivi para o garoto despreocupada como sempre
–Não é só um livro — respondia Ury ainda irritado com o livro que Vivi havia pego em sua bolsa, mas sem dizer nada Heren pegava o livro das mãos do garoto com certa rapidez e violência passando a ler alto em um tom ironico enquanto o garoto tentava em vão recuperar
–"Expulso da minha própria terra ainda ando pelos portões de Brechio, não me deixam entrar, não falam comigo..." — e antes que terminasse Ury deixou uma lágrima escorrer no rosto, e com a voz sussurrada disse calmo
–Devolve — e logo voltou a voz original em um tom mais alto — por favor, devolve — adicionou pouco antes de Heren entregá-lo — É tudo que tenho — em seguida após devolver Heren respirou fundo e continuou a falar
–Por que não me contou nada Ury?
–Porque senti medo de ser abandonado de novo. Sou uma aberração como elfo e possivelmente seria uma como amigo
–Talvez seja — acrescentou Heren — mas as aberrações tem seu lugar em contos de fadas sabia? Sem você não chegaria a Ravena, poderia ser morto por um bandido ou mesmo uma traça gigante quem sabe — dizia ele com ironia sem acreditar no bicho que Vivi contou durante o jantar para ele
–Mas meus pais disseram... — antes que pudesse terminar era interrompido por Heren que com o doce som de sua voz começava a cantar em ritmo engraçado
"Ó criança, você não sabe ainda
mas os pais se confundem
falam de respeito enquanto xingam
dizem que aceita e pedem que mudem..."
Continuava ele com um sorriso no rosto
"...Não percebem que nós não somos o que eles são
e que mesmo o amor de um gigante pode sufocar um anão..."
E em um estouro quebrava todo o clima de abandono imposto naquela manhã com a repetição que mais tarde Ury chamaria de "canto da compreensão"
"Estão sempre a reclamar, reclamar, reclamar
mas não deixam de te amar, te amar, te amar"
Heren mais se parecia com um anão quando vai a taberna, animado e sorridente, pulando e cantando pela casa. Isso até Edan chegar claro, com o ânimo maior perguntando logo que o viu
–O que achou da escova de pelos de porco novinha que te dei? Em?
Foi aí que a felicidade de Heren se tornou em nojo e que todo o prazer de sentir seus dentes limpos novamente se foi
–Sem igual — respondia ele segurando o vômito pra não ser ingrato com o lenhador que estava sendo tão hospitaleiro. E naquele momento pensou em lavar a boca em um rio, então lembrou a Ury que tinham que ir
–É verdade, não podemos ficar — dizia Ury repentinamente em voz alta, continuando com enorme delicadeza — Peço perdão por qualquer problema causado sr. Edan mas não podemos ficar. Preciso seguir viagem e me encontrar com uma pessoa.
–Vão fazer falta rapazes, mas não vou impedir dois homens feitos de seguir o seu caminho — respondia Edan com o sorriso de sempre entre as barbas — arrumem suas coisas e lembrem-se de mim quando encontrarem o tesouro embaixo do arco-irís
–Tem mesmo um tesouro lá? — perguntava Heren a Ury baixinho já acreditando em tudo depois das coisas estranhas que havia visto
–Claro que não Heren, isso é uma coisa que contamos aos meninos pequenos
–Que pena, que pena — ia resmungando ele arrumando a mochila ganha por Edan com alguns alimentos e roupas também cedido pelo mesmo.
No portão Vivi chorava enquanto gritava sozinha "maldito cisco, maldito cisco" tentando disfarçar que chorava pelos meninos
–Voltaremos um dia Vivi — gritava Heren sorrindo
Talvez se soubessem o que encontrariam dali pra frente teriam ficado. Mas Ury precisava encontrar essa pessoa, e todos sabem como são as crianças...
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