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A noite o jantar a luz de velas e lampiões fez o trauma da fome desaparecer por completo daqueles dois viajantes que até então comiam como animais selvagens na mesa junto a Vivi, que sempre comeu como um animal.

–Um dia ainda conto a vocês sobre o dia que fui sozinha a Múriz — dizia Vivi com a boca cheia

–Por que não conta hoje? — Indagava Heren que até então não acreditava em história alguma

–Porque seu amigo já dormiu — dizia ela pegando mais um petisco com um pequeno sorriso no canto do rosto.

E de fato, Ury havia dormido, ainda sentado com os braços sobre a mesa onde apoiava sua cabeça, mais relaxado que um filhote de Shiu. Talvez fosse o cansaço da viagem, talvez a fome agora saciada, mas o motivo não faria Heren ter reação diferente. Uma reação de curiosidade que se acendeu de dentro pra fora com poucas palavras na sua cabeça "Quem é ele? De onde ele vem?". Ainda estava com o olhar parado sobre Ury quando foi interrompido por Vivi

–Ainda quer ouvir? — Perguntava ela olhando com os olhos semi-abertos, um pouco desconfiada do que Heren poderia estar pensando

–Não, melhor irmos dormir

–É você ta certo, já é noite e essas velas não vão durar pra sempre

–E ele? — dizia olhando Edan sentado próximo a janela quadrado observando as estrelas

–Esse aí não vai dormir agora — respondia Vivi com cara de sono. Em seguida segurava Heren por uma das mãos

–Vem, me ajuda a pegar esse aqui — Logo Heren se abaixava próximo a cadeira onde Vivi colocou Ury em suas costas

–Ele vai babar em você — dizia Vivi rindo baixinho, mas Heren pouco se importava passando a caminhar junto a garota que seguia adiante para mostrar o quarto

–Boa noite — falava ainda baixinho Vivi com um sorriso meigo estampado no rosto

–Boa noite — respondia Heren já sem ver a garota que seguiu o corredor escuro.

No quarto, bem simples, um chão de taco onde dificilmente se pisava sem fazer barulho. Iluminado por uma janela estreita, onde era possível apenas a passagem de feixes de luz. Luz que com o tempo se transformara de azul e fria em amarelo, trazendo consigo o calor da manhã e um estrondoso grito

–Quem te disse que podia pegar isso?! — era a voz de Ury, irritado de forma que jamais se ouviu falar de um elfo branco. Assustado, Heren levantou e em uma corrida de desespero se viu no canto da porta do quarto junto a cena que explicava todo aquele estresse

–Eu só queria ver ta bom? Não precisa disso tudo, é só um livro — dizia Vivi para o garoto despreocupada como sempre

–Não é só um livro — respondia Ury ainda irritado com o livro que Vivi havia pego em sua bolsa, mas sem dizer nada Heren pegava o livro das mãos do garoto com certa rapidez e violência passando a ler alto em um tom ironico enquanto o garoto tentava em vão recuperar

–"Expulso da minha própria terra ainda ando pelos portões de Brechio, não me deixam entrar, não falam comigo..." — e antes que terminasse Ury deixou uma lágrima escorrer no rosto, e com a voz sussurrada disse calmo

–Devolve — e logo voltou a voz original em um tom mais alto — por favor, devolve — adicionou pouco antes de Heren entregá-lo — É tudo que tenho — em seguida após devolver Heren respirou fundo e continuou a falar

–Por que não me contou nada Ury?

–Porque senti medo de ser abandonado de novo. Sou uma aberração como elfo e possivelmente seria uma como amigo

–Talvez seja — acrescentou Heren — mas as aberrações tem seu lugar em contos de fadas sabia? Sem você não chegaria a Ravena, poderia ser morto por um bandido ou mesmo uma traça gigante quem sabe — dizia ele com ironia sem acreditar no bicho que Vivi contou durante o jantar para ele

–Mas meus pais disseram... — antes que pudesse terminar era interrompido por Heren que com o doce som de sua voz começava a cantar em ritmo engraçado

"Ó criança, você não sabe ainda

mas os pais se confundem

falam de respeito enquanto xingam

dizem que aceita e pedem que mudem..."

Continuava ele com um sorriso no rosto

"...Não percebem que nós não somos o que eles são

e que mesmo o amor de um gigante pode sufocar um anão..."

E em um estouro quebrava todo o clima de abandono imposto naquela manhã com a repetição que mais tarde Ury chamaria de "canto da compreensão"

"Estão sempre a reclamar, reclamar, reclamar

mas não deixam de te amar, te amar, te amar"

Heren mais se parecia com um anão quando vai a taberna, animado e sorridente, pulando e cantando pela casa. Isso até Edan chegar claro, com o ânimo maior perguntando logo que o viu

–O que achou da escova de pelos de porco novinha que te dei? Em?

Foi aí que a felicidade de Heren se tornou em nojo e que todo o prazer de sentir seus dentes limpos novamente se foi

–Sem igual — respondia ele segurando o vômito pra não ser ingrato com o lenhador que estava sendo tão hospitaleiro. E naquele momento pensou em lavar a boca em um rio, então lembrou a Ury que tinham que ir

–É verdade, não podemos ficar — dizia Ury repentinamente em voz alta, continuando com enorme delicadeza — Peço perdão por qualquer problema causado sr. Edan mas não podemos ficar. Preciso seguir viagem e me encontrar com uma pessoa.

–Vão fazer falta rapazes, mas não vou impedir dois homens feitos de seguir o seu caminho — respondia Edan com o sorriso de sempre entre as barbas — arrumem suas coisas e lembrem-se de mim quando encontrarem o tesouro embaixo do arco-irís

–Tem mesmo um tesouro lá? — perguntava Heren a Ury baixinho já acreditando em tudo depois das coisas estranhas que havia visto

–Claro que não Heren, isso é uma coisa que contamos aos meninos pequenos

–Que pena, que pena — ia resmungando ele arrumando a mochila ganha por Edan com alguns alimentos e roupas também cedido pelo mesmo.

No portão Vivi chorava enquanto gritava sozinha "maldito cisco, maldito cisco" tentando disfarçar que chorava pelos meninos

–Voltaremos um dia Vivi — gritava Heren sorrindo

Talvez se soubessem o que encontrariam dali pra frente teriam ficado. Mas Ury precisava encontrar essa pessoa, e todos sabem como são as crianças...