Fantasynn - O Estrangeiro
5 Capítulo 5 - Pampa
Ao saírem de Ravena seguiram a viagem com o som seco de seus próprios passos em direção ao caminho que levava a floresta.
O dia estava claro e o sol radiante, os pássaros cantavam em uma felicidade e em uma harmonia angelical, tudo indicava uma viagem tranquila, mas Ury e Heren acordaram pessimistas demais naquele dia para acreditar nisso.
Heren, incomodado com todo aquele clima foi o primeiro a puxar assunto.
–E se todas as histórias da Vivi forem mesmo reais? — perguntava ele.
–Então estaremos rodeados de traças e animais falantes antes que o dia acabe – respondia Ury como quem não acreditava mais.Heren sorria e na mesma hora olhava para trás transformando aquele sorriso em uma expressão de medo.
Sem avisar ou sequer dar tempo para Ury entender a situação, saía correndo na frente como quem corre pela sua própria vida. Já Ury, que dormiu com as histórias de Vivi em sua cabeça não conseguia pensar em nada de bom. Por um momento resolveu não olhar e correu junto a Heren com a sensação de estar cada vez mais próximo do suposto perigo, sentiu uma sensação fria dominar o corpo e subir pela sua barriga, não ouvia passos, não sentia nenhuma presença ameaçadora, mas sua imaginação não lhe dava tempo para explicações. Até que em uma rajada de risos, Heren parou de correr e se deitou no chão, segurando sua própria barriga.
–Ele me mordeu, ele me mordeu – dizia ele em intervalos de risos caçoando de Ury que havia acabado de cair em sua brincadeira.
–Ele quem?!Ele quem?! — perguntava o inocente elfo preocupado e com medo por ainda acreditar no suposto bicho.
–O mosquito do riso! — respondia Heren voltando a rir. Foi então que Ury percebeu a brincadeira. No começo ficou sério e fechou a cara, mas em seguida não conseguiu segurar o riso, ria como um idiota de si mesmo, caindo em risos próximo a Heren.
Ficaram ali, rindo até tomarem ar e se acalmarem. Deitados no meio da trilha próximo a grama baixa que acompanhava o caminho de terra com uma aparência tão fresca que era capaz de fazer qualquer um parar para observá-las, nenhuma manhã em toda sua vida seria mais bela que aquela, com o canto dos pássaros, o som limpo e calmo de águas que passava não muito longe, um horizonte verde e vivo, acompanhado de um céu azul sem nuvens. Porém em meio a tranquilidade do lugar também estava um poço, muito antigo que a muito não tinha água, estava abandonado as caricias do tempo.
–O que você imaginou que estivesse correndo atrás de você? — perguntava Heren conseguindo cessar por um tempo o riso.
–Não sei, uma traça talvez – respondia Ury ainda achando engraçado a brincadeira.
–E que cor ela era? — perguntava Heren segurando o riso que já pedia pra sair enquanto olhava o céu.
–Verde como nas histórias da Vivi.
–Não eram verdes na história, eram azuis – afirmava Heren.
–Não, eram verdes, verdes como as folhas das árvores, foi o que ela disse.
–Não, não. Ela disse azul, tenho absoluta certeza disso. — E assim começou uma longa discussão desde a cor das traças à quantidade de comida que deveriam comer por dia para não passarem fome. A manhã se tornou noite, as vozes se tornaram sussurros roucos e a discussão, bom a discussão se tornou mais e mais discussão até então.
Então, no meio de tanta discussão, um vulto branco como a neve em meio a escuridão da floresta passou, e eles se calaram. Não se atreveram a levantar, ficaram quietos acompanhando com os olhos a direção que o vulto vez ou outra aparecia na esperança de o ver sair novamente e se deparar com um simples cavalo.
No último movimento parara exatamente em sua frente, junto a arbustos.
Não conseguiam vê-lo, mas ele os via. Não ouviam ele e muito menos sabiam o que ele era.
Os grilos invadiam o silêncio deixado pelo medo dando a impressão de estarem muito longe de qualquer civilização, mas
logo o barulho dos grilos também era silenciado e uma rápida quebra de galhos arrepiava Heren e Ury até os últimos fios de cabelo.
Então uma voz grossa acompanhada da imagem colossal de um lobo branco quebrou novamente o silêncio :
–O que fazem por aqui? — vindo de trás deles com um tom de curiosidade. Então Heren e Ury se lembraram dos perigos avisados por Vivi enquanto ouviam aquela voz imposta com autoridade.
–Estamos vindo de Ravena. Nossa intenção é seguir viagem – respondia Heren muito confuso. Não sabia se o que sentia era admiração ou medo, já Ury não sabia se queria viver ou morrer e respondia com extrema arrogância.
–Estamos caçando feras curiosas, viu elas por aí? – e em um grande gesto de desrespeito começava a rir.
Heren, mais confuso que nunca começava a rir junto, voltando a deitar junto com ele em gargalhadas de desprezo e despreocupação. Não tinham motivo para rir, mas isso não impedia eles de rirem cada vez mais. E o estranho lobo de olhos amarelos entendeu enfim a situação. E como um tigre pega a seus filhotes, pegou os dois pela boca e correu com eles para longe dali colocando-os em seguida no chão.
–Vamos! — gritava ele e continuava com a voz mais baixa — Me diga agora, o que sentem? — perguntou olhando-os de frente. Então Heren e Ury enfim concordaram em algo desde aquela manhã e responderam no mesmo tom.
–Medo.
Ao ouvir isso o lobo sorriu com seus assustadores dentes mais afiados que qualquer lâmina que pudessem encontrar por ali e continuou com suas perguntas
–Já ouviram falar do poço das ideias?
–Não, nunca – respondia Ury com muito medo.
–Pois bem, deixe-me contar a vocês o que é – e ao dizer aquilo sombras de um negro aveludado cobriram-lhe e foram, uma a uma voltando a seus olhos, que já não eram grandes como antes e sim de tamanho humano.
Havia se transformado em um garoto vestido com peles negras e estranhas cicatrizes em todo o pescoço, que logo se sentou sorrindo com seus caninos aparentemente grandes
–Todos que ficam na região do poço por mais de uma hora, são iluminados com milhares de ideias novas e as vezes confusas. Quando estão em grupo brigam entre si e se matam, quando estão sozinhos discutem com si até se tornarem loucos. Alguns choram de tanto rir, outros choram de tanta tristeza e muitos choram sem saber nem mesmo o motivo.
–Isso tudo por causa de um poço? — perguntava Heren, se lembrando de ter visto o suposto poço
–E quem disse que aquilo é um poço comum? — respondia aquele garoto olhando como um cão desconfiado a direção do poço — algo está ali, posso sentir, mas nem mesmo eu entendo — dizia ele desconsolado, mas logo olhava para Heren continuando
–Se seguirem adiante, atravessarão o Zimu e a partir dali não existirá mais um lugar seguro. Já ouvi muito sobre o que vive do outro lado, mas nunca saí deste lugar, nasci aqui e aqui cresci, tenho curiosidade de ver todas as coisas que existem por lá e não me sinto mais bem aqui.
–E por que não foi ainda? — perguntava Heren curioso como sempre.
–Porque não sei o que me espera – respondia ele com um pequeno tom de medo.
–Mas se não for, nunca vai saber, não é mesmo? — respondia Ury sem entender o medo daquele meta-morfo
–Se quiser, pode nos acompanhar – continuava Heren
–Não sei — respondia o garoto com sua voz grossa e logo ficava constrangido — Quero dizer, quero, mas, não quero — respondia ele sem graça.
Então Heren revirando os olhos insistia
–Vem com agente
E logo era respondido com a mesma indecisão
–Não sei o que tem lá
–Bom, então você fica aqui e se diverte com essa "enorme" floresta que tem antes do rio — dizia Heren em tom irônico pegando novamente a mochila que deixara no chão e seguindo adiante
–Vamos Ury — dizia ele com um piscar de olhos
–Sim. Foi um prazer — acompanhava o garoto se despedindo
–Esperem! — dizia o recém conhecido, tenho que buscar uma coisa, esperem — e em segundos sombras o cobriram e se transformou novamente na criatura enorme que era, passando a correr e estar no ponto mais longe que os olhos de Heren conseguiam ver tão rápido como um raio.
Ao voltar, o que não demorou muito, se viu sozinho novamente, não podia ter errado o caminho, mas não estavam ali. Então Shin pela primeira vez em muito tempo deixou de fingir ser o forte e assustador meta-morfo e chorou, mas não com lágrimas ou berros como os humanos costumam fazer, chorou em sons finos e granidos como um cachorro faz.
Nesse momento Ury e Heren saíram de traz da árvore que se escondiam e agarraram sua enorme fuça em um grande salto.
–Viu, não disse que era solidão? — dizia Heren a Ury como se tivesse ganhado uma aposta.
–Nossa, e eu pensando que ele ia sentir o nosso cheiro, pra que serve essa fuça? Enfeite? — e logo os dois começaram a rir feito loucos, não adiantava, não tinham um pingo de maturidade e sempre que podiam, brincavam.
Ao parar o choro Shin se viu sorrindo como um bobo. Rindo como a famosa traça na seda.
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