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Ódio, era o que refletia nos olhos dos habitantes daquela vila. Logo que passaram pelo portão principal uma forte sensação de perigo rodeou os garotos

– Acho que isso é culpa minha – dizia Ury sem olhar Heren como se estivesse alerta a qualquer som ou ataque

– Por que, o que fez a esse povo?



– Eu, nada. Minha raça, muito – respondia ainda cauteloso ao andar em meio as pessoas que aos poucos se afastavam deles.

Enquanto caminhavam em passos curtos Heren ouvia alguns comentários pela metade “Pobre humano”, “Olhem o que ele veste” “Será que foi feito de escravo por aquela criatura nojenta?”

– Vem comigo – dizia Ury pegando o garoto pelo braço, puxando-o agora em passos largos, evitando olhar para qualquer pessoa que fosse

– Aonde vamos? — perguntava Heren um pouco assustado.

– Ouvi falar quando vinha pra cá sobre pessoas que irão nos receber melhor do que essas

– E lá tem internet? — perguntava o garoto já achando a pergunta um pouco engraçada tendo percebido que aquilo não era bem seu mundo e que Ury nada sabia sobre isso

– Talvez, ele é órfão? Se for é bem provável que sim.

Com Heren rindo enquanto era puxado logo saíram do meio das pessoas e das ruas de terra batida, subindo agora um monte de grama

– É ali? — Perguntava Heren vendo uma casa humilde de madeira um pouco mais acima do monte

–Acho que sim – respondia Ury parecendo estar um pouco nervoso.

Ao aproximar da casa isolada já era possível ouvir as vozes...

“E isso é coisa que se faça? Sabe o perigo que você corre fazendo isso? Não dá mais valor a vida?” dizia uma voz grossa e brava. “Eu precisava saber o que era, elas não...” ia respondendo uma voz feminina e acanhada até o som da porta interromper a conversa “tum, tum”

– Quem bate na minha porta tão cedo? — respondia o dono da voz grossa abrindo a porta

– Somos órfãos meu senhor. Ouvimos dizer que cria crianças abandonadas em sua casa

– Isso é verdade, mas é verdade também que qualquer pessoa odeia ser incomodada tão cedo em casa

– Por este comportamento peço desculpas, mas estamos com fome e não temos pra onde ir. A vila, como pode imaginar, me vê como uma praga.

Enquanto olhava Ury, Edan coçava a barba ruiva um pouco pensativo, mas logo quebrava o silêncio

–Entre. Minha casa não é nenhum castelo sabe, mas garanto que é melhor que o lado de fora em dias de frio ou de chuva, entre,entre – dizia o lenhador meio sem graça saindo da porta indo em direção a cozinha.

Então Ury limpou seus pés com a educação de sempre e entrou na casa se esforçando para não reparar nos morfos e na estrutura frágil de que Edan chamava de casa, ouvindo novamente a voz grossa daquele homem

–Me perdoe a grosseria que recebi vocês, a culpa é dessa garota que não sabe mais o que é perigo – resmungava o lenhador com os garotos enquanto a jovem Vivi estava sentada junto a mesa com a cara emburrada. Está era ruiva de tudo com lindos cabelos cacheados e olhos castanhos que faria uma criança parar de chorar a qualquer momento

–Por que, o que ela fez? — perguntava Heren curioso

–Saiu por aí em mais uma de suas “expedições” — respondeu o lenhador com uma certa ironia se dirigindo a um fogão de lenha

–E o almoço? Fica pronto hoje? — dizia a menina com um olhar arrogante ainda sentada na mesa. Então Heren se lembrou de sua mãe e das inúmeras vezes que reclamava mesmo tendo tudo a sua mão e não conteve o riso

–Hahaha você é muito folgada pra uma órfão não acha não? — perguntava ele com um sorriso estampado no rosto

–Folgada eu?! Não me lembro de bater na porta de ninguém tão cedo pedindo abrigo — respondia ela fechando as sobrancelhas em atitude de teimosia

–Isso é verdade – dizia agora Ury rindo de Heren – mas também não muda o fato de que ela também precisa de abrigo.

–Calados, apenas sentem e esperem! – repreendia o lenhador enquanto balançava a cabeça negativamente – quanto mais crianças eu adoto menos eu entendo o motivo de fazer isso — ia resmungando em seguida bem baixo — ah Lynder, se você estivesse aqui...

–Ury, preciso ir a cidade, pode me esperar aqui? — perguntava Heren ainda de pé

– O que vai fazer na cidade? — estranhava o garoto

– Vi uma coisa...não importa, você me espera?

– Ta – respondia ele tentando conter a curiosidade. Curiosidade tão exposta que Vivi mesmo percebeu ao olhar o pequeno elfo

– Ei, garoto – chamava ela agora interessada – você já ouviu falar sobre as traças de Jaha?

– Traças? Perguntava o garoto sem saber do que se tratava

– É, traças – repetia Vivi com um ar de mistério e um um sorriso malicioso – aquelas enormes traças que se movimentam como as ondas do mar

– Não, nunca ouvi. Elas são mesmo tão grandes? Como elas são? — Perguntava o garoto um pouco assustado mas não contendo a fome por conhecimento, fome natural dos elfos

– Seus olhos são como noites sem estrelas, seu corpo, mole como um slime e seus dentes, bom, sobre esses eu prefiro que veja por si mesmo – em seguida retirava um cordão com um pingente de quase quinze centímetros – milhares destes, fileiras e fileiras de dentes – Já pude ver uma dessas roendo um homem inteiro – dizia Vivi com os olhos brilhando de encanto enquanto o garoto se acanhava imaginando a cena.

Enquanto isso Heren descia o monte de grama em direção a cidade falando sozinho

– Tenho absoluta certeza de que vi um cachorro entre as pessoas que nos olhavam, será que Ury gosta de cachorros? — Ia perguntando ele a si mesmo lembrando de sua promessa. Não demorou muito e viu um estranho cachorro com muitas patas e dentes, tendo dentes até mesmo para fora da boca. Estranhou, mas achou o bicho interessante, mas logo desistiu ao ver que estava acompanhado de muitos filhotes idênticos a ele que como pintinhos o acompanhavam.

Procurou, procurou e como procurou, já era com certeza a hora do almoço quando encontrou um bichinho muito bonito, branco, com a cara afinada e olhos avermelhados semelhante a um coelho que o olhou de cima embaixo, o que o fez pensar “é esse, esse Ury definitivamente vai gostar”. E então, quando aproximou as mãos do corpo cilíndrico daquele estranho animal, ouviu um rugido grosso alto e assustador que fez com que ele visse em sua mente aquele mesmo bicho dez vezes maior em suas costas como nos desenhos que assistia pela manhã nos dias que acordava cedo demais. Mais uma vez desejou ter ido direto a sala de xerox de sua escola e ser um menino melhor, mas logo se virou com muito medo para ver o que era, mas não havia nada, e para o seu espanto ao se virar novamente ouviu o rugido, mas ele vinha daquele pequeno bichinho mesmo. Isso fez com que Heren se irritasse, bem mais do que com as chiadas daqueles “abacates alados” como chamava, e então sem pensar duas vezes chutou o bicho morrendo de raiva tampando-o pro alto, depois com o bicho já desmaiado e com menos raiva colocou ele na bolsa. Não era um exemplo de garoto quando irritado.

O cheiro quente e fresco da comida já atraia Heren quando chegou perto da casa. Na cadeira de balanço estava Ury um pouco assustado lendo um livro que trouxera na bolsa, na porta, Vivi com a mesma expressão maliciosa no rosto. Foi quando interrompido por um rugido de leão Ury deu um pulo e quase gritou de medo da fera, que em sua mente o espreitava. Heren sem resistir a brincadeira apertava o bicho por dentro da mochila para que ele repetisse os rugidos e em um flash tampava ele encima de Ury, que já quase chorava de medo.

–Isso?! Era isso que estava rugindo? — perguntava Ury com a voz fina já em lágrimas de medo.

–É – respondia Heren segurando o riso, e rapidamente os dois começavam a rir juntos, sendo interrompidos apenas pela voz grossa do lenhador

–Estes dois já comeram, venha comer garoto! — Heren ainda rindo ia saindo de perto do pequeno elfo quando o mesmo segurou ele pelo braço

–Obrigado por cumprir sua promessa, mas não posso ficar mais de dois dias aqui Heren. Preciso encontrar uma pessoa, agora que já está junto da sua raça tenho que ir. Boa sorte com sua busca pelo Internet

Heren sem entender o que Ury tanto buscava sorriu

–Não seja idiota Ury, passamos a noite aqui, amanhã continuaremos a estrada...juntos