Fantasynn - O Estrangeiro
1 Capítulo 1 - O mundo em si
Deitado em sua cama, Henry observava o céu acinzentado da manhã sem nenhum sinal de vida nos olhos.
Ali parado, pensava em diversas coisas que preenchiam a sua cabeça de receitas para a felicidade, tais como seu sucesso financeiro ou amoroso. Em seguida se levantava expirando forte o ar como quem ainda está cansado, andando em direção ao banheiro com a ponta da toalha amassada em uma das mãos.
Henry sempre pensava esse tipo de coisa antes de ligar o chuveiro, e depois, parado embaixo da água quente, refletia sobre sua vida e seus arrependimentos por um bom tempo. Tempo que sem reflexões poderia ser usado até para três ou mais banhos sem pressa.
Quando enfim saía do box, cercado de todo aquele vapor, ainda pensava em como mudar uma coisa ou outra de sua vida, mas logo acordava daquele turbilhão de pensamentos confusos e se dava conta do tempo que estava perdendo. Tempo que naqueles dias aquilo era tudo.
Sentado junto a mesa, com a xícara de café entrelaçada nos dedos, Henry agora encarava o relógio da parede da cozinha com seus olhos inchados de sono, tentando ou apenas fingindo pra si mesmo que queria esquecer sobre uma certa pessoa que não saía de sua cabeça. E como a luz que atrai as mariposas, seus pensamentos atraíram aquele estranho som que ecoou pela cozinha “Na ra na ra na...” era o começo de uma música que colocou para alerta de mensagens, mas que nunca dava tempo de tocar por inteira antes que a visse.
“Henry, os meus pais brigaram ontem a noite e estão a manhã inteira falando em divórcio, esqueci do trabalho de física que era pra hoje e minha cabeça tá explodindo, me encontra no intervalo? Queria muito falar com você.”
–E o que eu tenho a ver com isso? — dizia o garoto em voz alta ao ler a mensagem de Katrin, mas por dentro, comemorava e sorria como as traças devem sorrir ao encontrarem seda nas gavetas, bichos que até então não lhe preocupavam muito.
Enfim, havia chegado a hora de ir. E do mesmo jeito ansioso que fazia todos os dias fez também hoje, andando em passos largos até a estação e sendo como sempre um dos primeiros estudantes a esperar pelo metrô. Com aquele sorriso quase que estampado no rosto e totalmente diferente do garoto sentado junto a mesa à alguns minutos atrás. Sorriso que na maioria das vezes é visto pelos adultos e os fazem pensar em ser jovem e sem preocupações novamente.
Ao chegar na escola assistiu as aulas sem um mínimo de atenção pela matéria, que sempre julgou aprendida. Fingindo pra si mesmo esperar a hora de ir embora quando na verdade esperava apenas a hora de falar com Katrin, ensaiando possíveis diálogos.
Mais uma vez um som ecoou trazendo-lhe um pouco de ânimo, era o sino do intervalo. E como quem não quer mostrar ter pressa ou estar gostando da situação caminhou tranquilamente até a sala da garota.
–Bom dia – disse ele todo educado e aparentando não ter problemas.
–Bom dia – respondeu ela sorridente já conhecendo o jeito que o garoto se aproximava.
–Ta melhor? — perguntava ele estranhando o sorriso para quem descreveu tantos problemas pela manhã.
–Sim, sim. A não ser pelo trabalho, claro. Precisava mesmo conversar com você sabia?
–Sobre o que?
–Não sei Henry, tenho pensado, esses dias que agente tá muito longe um do outro e minha sala tá organizando uma viagem. Disseram que poderíamos convidar alguns alunos de outras salas, um amigo, então pensei em levar você – explicava ela de modo tímido pausando inúmeras vezes enquanto olhava ao redor.
–Por que não? — respondia o garoto com um pequeno sorriso no canto dos lábios, mais falso que um sorriso de criança pra foto claro. Ir a uma viagem com sua ex parecia uma ideia legal, mas ser chamado de amigo por ela o fazia ser falso quase que instantaneamente.
– Que bom, vou colocar seu nome na lista então tá? — dizia Katrin bem animada perguntando já sem esperar resposta – era só isso mesmo – completava ela parecendo apressada pra alguma coisa e logo se despedia subindo para o refeitório do colégio onde ficava quase sempre com suas amigas.
Henry respirava forte, quase desabafando consigo mesmo como aquilo lhe frustrava e ia voltando pra sala antes mesmo do sino bater. Em passos lentos já desanimado novamente. Foi quando viu seu professor de português vindo em sua direção e pensou “vai pedir favores” e não deu outra.
–Menino. Você pode ir até a sala de xerox buscar as provas que mandei fazer? — perguntava ele um pouco longe olhando para o garoto.
“Menino? Você por acaso sabe meu nome?! Não quer o giz também não? Não vou, pede sua mãe!”, pensou, mas respondeu de forma amigável “claro” e foi reclamando de deus e o mundo pelo caminho.
E era neste mesmo caminho que estava o que ia fazer aquela manhã ser tão diferente das demais. Não era nenhuma nota de cem dessas que se encontra na rua uma só vez na vida, mas sim uma porta. Ali, um pouco antes da sala de xerox uma porta de madeira já envelhecida estava semi-aberta dando vista pra uma sala enorme, cheia de entulhos. Para muitos isso não tem nada de especial, já para Henry que sempre fez jus ao ditado em que o gato morre pela sua curiosidade, era muito mais que uma simples porta.
A sala já estava em reforma a mais de seis meses e ninguém sabia ainda o que seria depois que terminassem. E, é claro, o professor podia esperar mais um pouco.
Inocente e um pouco iludido o garoto empurrava a porta bem devagar enquanto via se ninguém passava, em seguida começou a olhar pra todo tipo de coisa que estava jogado, o quadro negro, as cadeiras, as janelas quebradas e toda aquela escuridão e umidade que encontramos em lugares abandonados. Andou um pouco mais e tudo que ouviu foi um grande estalo de madeira se quebrando e sentiu seu corpo cair, seus olhos se fecharam com o susto e a sensação fria subir pelo seu corpo. Naquele exato momento em que caiu pensou muitas coisas, mas principalmente na vergonha que iria passar se alguém o encontrasse ali após ouvir o barulho que fizera.
Com um estranho gosto de ferro em sua boca, Henry entendeu que aquela não foi uma queda qualquer. Assim que abriu seus olhos preferiu ficar parado, ali no chão mesmo observando o lugar.
As paredes eram de madeira, cobertas de musgo e muitos outros sinais de abandono. O lugar exalava um cheiro úmido de lodo e era muito mais escuro que a sala anterior, estava aos pedaços, com o chão tão sujo de poeira que se Henry fosse alérgico, passaria mal antes que se levantasse. Seu uniforme, antes branco, agora estava sujo e manchado pela poeira do chão. A iluminação estava por conta dos vários buracos espalhados pela estrutura, fazia um sol radiante lá fora e feixes de luz atravessavam e iluminavam o garoto como uma estrela de teatro.
Como um recém-nascido, olhava curioso para todos os lados. Podia ouvir um barulho distante de pássaros cantando e uma estranha presença o observando. Por um momento, desejou ter ido direto a sala de xerox e ter sido um bom garoto, mas não teve muito tempo para pensar nisso.
Um desconfortável som de folhas secas se quebrando fez com que ele se virasse rapidamente para olhar o que a muito já o observava. Estava tão curioso quanto ele aquela pequena criatura. Seus olhos entraram em conflito com sua lucidez ao ver aquele estranho tamanduá verde abacate de asas, sim asas, finas e transparentes acompanhadas daquela barriga enorme que o empinava para frente. Andava ereto pra perto dele em passos tão curtos que causava preguiça em quem olhasse. Tão curioso, mas não era nada assustador. Seus olhos miúdos encaravam ele de cima a baixo e o cheiravam com sua enorme fuça, era um pequeno shiu.
Henry um pouco espantado por nunca ter visto aquela criatura nem mesmo em seus estranhos livros de biologia, os quais folheava apenas quando ganhava para ver as imagens, logo foi chegando a mão próximo a cabeça do bicho e, ao encostar em sua cabeça, sentiu uma sensação tão macia em sua pele que pensou ser uma pelúcia.
Com o tempo, o garoto se sentou, olhando aquela estranha criatura que não passava de trinta centímetros, de altura claro, porque sua barriga deveria ser um pouco mais.
Cheirando as mãos do garoto, o estranho animal se aproximava mais, procurando em seus bolsos, em suas roupas e em sua pele por alguma coisa. Foi quando Henry começou a pensar que aquele animal podia ser sua companhia até que alguém chegasse e resolveu falar com ele, mesmo sabendo que não teria respostas.
–O que... – mal começou a falar e o estranho animal arregalou um olho de todo o tamanho para ele como quem diz “meu deus você fala!” e começou a emitir um som irritante e sussurrado “xiu, xiu, xiu!” e em seguida muitos deles apareceram, saindo de todos os buracos da casa, correndo como loucos de um canto ao outro, emitindo o mesmo som em conjunto “xiu, xiu, xiu”. Henry desesperado, tentava acalmar os animais, em vão.
Foi quando imitando o barulho do primeiro shiu uma voz começou um som bem alto, uma voz humana, ou quase humana. E todos se calaram no mesmo instante e voltaram em passinhos lentos para seus respectivos buracos na parede com aquela cara de sono. E o pequeno shiu que observava Henry, continuou ali, parado de frente pra ele.
–Este está sem toca – disse um menino de pele clara com a franja sobre os olhos.
–Você também caiu aqui? — perguntava Henry
–Caí? De onde? – dizia o menino, mais confuso ainda.
–Ora da sala que fica... – mas ao olhar para cima, Henry percebeu que não havia buracos no teto que pudessem ter passado um ser humano, e com o tempo percebeu que o sol vinha de fora, pelo teto, sugerindo não ter nada encima. Naquele momento começou a pensar em uma explicação lógica que explicasse aquilo, e pensou, e pensou, até ver, é claro, as orelhas daquele garoto, foi quando finalmente achou uma lógica.
– Um sonho! – foi o que disse ao ver que as orelhas do menino eram pontudas e um pouco maiores que o normal no sentido da ponta.
–Sonho? O que é isso?
–Você não sabe o que é um sonho? É claro, você é apenas fruto da minha imaginação...
–Imaginar dá frutos? Como é o gosto de uma fruta imaginária?! – perguntava o garoto muito alegre e desacostumado com as gírias de Henry, mas Henry achando estúpido da parte dele perguntar aquilo, começava a rir como um louco, o que só fez ele pensar que o gosto da tal fruta seria tão maravilhoso a ponto de fazer as pessoas rirem só de imaginar. Ou talvez, ele estava comendo ela, agora que lembrara de imaginá-la não é?
E o garoto insistiu.
– Eu só quero saber o gosto dela!Não se faça de bobo, estava comendo agora, eu vi você pensar e sorrir em seguida – mas Henry ignorou o garoto e se deitou novamente no chão fechando os olhos.
“Logo eu acordo” – pensou ele. E após horas, caiu em um sono profundo, mas não sonhou, e então acordou. Com seus olhos inchados de sempre, se levantou, era noite, mas não era sua cama e nem era o seu quarto, então se assustou. Principalmente ao ver os olhos dos shiu’s que brilhavam como fogo azul à noite. Foi então que percebeu que não era um sonho e a preocupação e angústia tomaram conta. Em seguida viu que um pouco mais a frente dormia também o pequeno menino, resolveu não acordá-lo, porém, ao pisar em um ninho de terra úmida que estava no meio do caminho acabou despertando um dos animais. E novamente o barulho começou “xiu, xiu, xiu!”, era o pobre shiu reclamando do seu ninho que havia sido pisado, o mesmo olhava para cima com uma expressão de indignação, o barulho fez com que fez o garoto acordasse e olhasse diretamente para Henry.
–Você já acordou? Pensei em ficar aqui e viajar com você pra Ravena, é pra lá que você estava indo não é? — perguntava ele com uma voz baixa de sono.
–Ravena? Eu não sei nem aonde é isso e não pretendo viajar com quem não sei nem quem ou o que é! – respondia o garoto sendo bastante arrogante, mas Ury estava acostumado com a arrogância dos humanos e pouco se importava, após esfregar os olhos respondia com enorme educação.
– Ravena fica ao sul, e eu sou Ury, um elfo...
–Elfo?! – Henry mostrara um olho maior ainda que do pobre shiu, espantado e sem pensar duas vezes, saíu correndo floresta a dentro com medo daquele garoto e até de si mesmo.
“Louco, é o que sou agora, um louco.”
Pensava ele afundando cada vez mais naquela escura floresta.
Ury rindo um pouco da reação do garoto, entrou na floresta com extrema tranquilidade colocando o ouvido nas árvores a cada dez ou vinte passos, até que chegou a Henry com o mesmo sorriso no rosto, enquanto Henry, já cansado de dar voltas estava ainda pensando em sua possível loucura.
–Você correu para o pior lugar se queria fugir de mim. Posso não ser nenhum grande talento entre os elfos, mas ainda sim sou um elfo e a natureza é minha casa.
–Existem mais?
–É claro que existem! – afirmava o garoto estranhando a pergunta – Os elfos brancos da cidade de Brechio são os mais sábios do mundo — e de fato eram. Elfos, mesmo que sejam criados longe de outros da sua espécie acabam buscando conhecimento em exagero e são sempre a autoridade quando o assunto é sabedoria, mas para Henry elfos eram pequenos, como formigas e não tão grandes como Ury, que quase chegava ao seu tamanho e que, aparentemente era uma criança.
–Mas o que você esta fazendo sozinho se existem tantos assim?
–Ah, eu? Eu, eu vim atrás de um desses – imediatamente o garoto levantava um dos shiu's que passava por ali pelo pescoço, colocando-o na mochila como se fosse mais um de seus muitos objetos que carregava para viagens.
Foi então que Henry percebeu que o garoto escondia alguma coisa e resolveu não perguntar mais.
Um silêncio se alojou entre eles e nem mesmo o shiu, esganado e abafado dentro da bolsa ousou interromper. Pelo contrário, ficou em silêncio também, como se estivesse dormindo mas com os olhos arregalados no escuro da bolsa querendo saber se tinha comida. Para sua infelicidade e a felicidade de Ury, a comida estava em outro compartimento da bolsa.
Henry olhava para o elfo sério e Ury cada vez mais sem graça e sem muito o que dizer permanecia calado. Naquele enorme silêncio um baixo som das águas fez com que Henry voltasse a falar.
–Um rio?!
–Ah sim – respondia o elfo, conseguindo enfim a quebra do silêncio – esse é o rio Zimu, quer ir lá ver? — mas sem dar muita importância ao elfo Henry já estava próximo de lá, se guiando pelo som, repetindo consigo mesmo – Zimu? Nunca ouvi falar desse rio na minha vida – mas quando chegou lá viu que o rio tinha um volume de água tão baixo que mais parecia um córrego, ou melhor, um mini-córrego. Suas águas eram cristalinas e refletiam a luz da lua deixando tudo que passava naquelas águas visíveis como a manhã de um céu sem nuvens. Os peixes e as demais criaturas passavam por ali sem se importar com a presença do garoto que os observava estranhando sua aparência.
– Sim, Zimu, esse rio pode nos servir de orientação. Ele passa por Ravena no sentido sul – dizia o elfo respondendo a pergunta que nem havia sido feita para ele assim que chegou.
– Ravena? Não parece um nome comum para uma cidade, digo,só Ravena? Nunca ouvi falar dessa cidade — Perguntava Henry estranhando tudo e todos de maneira que não pensava mais estar na terra, e talvez não estivesse.
– É, a cidade tem esse nome por causa da garota que morreu afogada nesse rio.
– Afogada? — perguntava ele abaixando uma das sobrancelhas – Impossível, o rio não passa dos meus joelhos.
– Não me pergunte como, acharam o corpo dela boiando no rio, mas isso já faz muito, muito tempo.
– E como é Ravena? Tem internet lá?
– O que é internet? Também é uma fruta?
– Esqueça, eu só preciso achar um jeito de falar com alguém conhecido.
– Uma vez ouvi dizer que em Ravena existe uma garota que já esteve em todos os lugares desse mundo e que sabe sobre todos os bichos de todas as tocas e cavernas escondidas que há por aí, ela deve saber onde você pode achar o internet.
–E então vamos para Ravena? — perguntava Henry com pressa de chegar a qualquer lugar que fosse.
–Pode-se dizer que sim, mas não iremos pela estrada, há muitas coisas esperando por viajantes desacostumados e algumas estradas nem mesmo levam a um lugar certo, muitas são falsas e recheadas de saqueadores e assassinos, seguiremos pelo rio, vamos voltar a dormir, a noite não é bom viajar por aqui. Esteja pronto amanhã, antes do sol nascer.
“Saqueadores? Assassinos? O que diabos a polícia faz nesse lugar?”
E então Henry confuso com toda aquela história resolveu confiar na única pessoa que se preocupava em lhe dar explicações e deitou-se de lado na margem do rio, voltando a observar os peixes que de um momento ao outro passavam lentamente por ali.
Tinha acordado mais cedo por puro susto e ainda sentia muito sono, se cobriu com uma espécie de manta que Ury lhe dera e embora estivesse com sono, só dormiu quando o intervalo entre os peixes foi maior.
Já Ury, falava muitas palavras em uma língua estranha e bonita de se ouvir, mas nem mesmo ele deveria saber o que significavam, visto que já estava dormindo com a mochila bem perto. Era necessário dormir naquele dia, Henry por não ter entendido ainda tudo que se passava com aquele lugar e Ury por estar com fome, visto que dividira seu ultimo alimento com Henry antes de dormir. E assim dormiram, mas não sonharam, nem mesmo lembrariam de ter dormido, porque o lugar em que estavam não era um lugar para sonhos, nem mesmo um lugar para se dormir, este lugar, era Fantasynn.
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