Fantasmas do Outono
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Notas iniciais
Sempre fui apaixonada pela ideia de me apaixonar, poderia culpar as comédias românticas dos anos 2000 e caramba poderia culpar até a maldita da Barbie com sua magia e seus príncipes bonitos. A questão é que meu coração tinha sido fisgado, não por uma pessoa, mas por uma ideia.
O problema é que os filmes e os livros não contam é o quanto se apaixonar é complicado, principalmente quando se tem 17 anos, primeiro você conhece, se apaixona e torce para ela sentir o mesmo enquanto você passa um furacão de emoções repleto de insegurança e incerteza, bom se você der sorte de ser correspondido vamos para a terceira fase: o namoro, aprender a estar num relacionamento, lidar com a expectativas e inseguranças do outro, isso é um tanto complicado quando se está no ensino médio.
Não que eu soubesse disso por experiência própria, passei a vida toda só observando meu irmão mais velho Leo, num ciclo vicioso de se apaixonar, fazer de tudo por alguém e quebrar a cara, sério o garoto encontrava o amor da vida dele duas vezes ao mês. E claro além dele eu tinhas meus amigos, a maioria deles já tinha namorado pelo menos uma vez na vida. Não que eu ficasse me sentindo fracassada por nunca ter namorado ou pelo menos ter dado um beijo decente, eu estava bem com isso, já tinha um futuro planejado no qual eu encontrava o amor da minha vida na faculdade e vivíamos felizes para sempre.
Claro que não foi isso que aconteceu
Estava tomando meu café na minha caneca favorita enquanto meu irmãozinho se agarrava ao meu moletom.
— Por favor Bruninha, é só um bolinho de chocolate, não tem nem que ser grande! Eu nunca te peço nada — pedia Nicolas me olhando com a súplica estampada nos seus grandes olhos cinzentos, o único dos filhos que os herdara do meu pai.
Tirei gentilmente suas mãos das minhas vestes antes que a amassem muito e me agachei um pouco para ficar na altura de um menino de 8 anos – Nick, você sabe que não posso te trazer nenhum bolinho, mesmo que eu queira a mamãe me mataria se desobedece às ordens dela, aliás não falta muito por fim de semana e logo mais você vai ter permissão para comer quantos bolinhos você quiser.
Ele deu um suspiro derrotado e não disse mais nada apenas virou-se para sala para continuar assistindo os desenhos que passavam na tv.
Disse a mesma coisa que Leo dizia para mim nessas situações quando era eu a submetida as dietas restritivas da minha mãe, não que eu fosse gorda, mas também nunca fui magra, vivia nesse limbo onde não me encaixava nesses rótulos, nossa família tinha tendência a engordar e sempre foi difícil conciliar isso com a imagem do que a sociedade achava bonito. Mamãe tentava manter nosso nível de calorias controladas e incentivar esportes, deu certo com meu irmão mais velho, ele gostava de correr, jogar futebol e até estava na atlética de sua faculdade, já eu detestava qualquer esporte que faziam meus seios pularem como se fosse carnaval, o que só me deixava com a natação e isso era tanto quanto complicado de achar algum lugar para nadar estando no centro de São Paulo e que não custasse uma fortuna.
Já estávamos no meio do segundo bimestre do terceiro ano do ensino médio e eu estava atrasa para aula, normalmente eu acordava ás 06:00h em ponto, pegava 1 ônibus e andava 10 minutos até o colégio para chegar a tempo da primeira aula as 07:30h, porém hoje acordei uma hora atrasada e corria para chegar pelo menos para terceira aula. Não tinha muito o que dizer sobre o colégio, não era legal nem chato, era só uma escola particular, ou seja, tinha alunos que os pais se matavam para pagar a mensalidade e alunos que os pais não notavam quando ela era descontada no débito automático.
Eu novamente estava no limbo, com o dinheiro o bastante para algumas extravagâncias, mas não com o suficiente para viajar para fora do país.
Consegui afinal chegar para a terceira aula, ouvi algumas reclamações de monitores, mas nada que matasse, corri para subir as escadas que levavam a minha sala na esperança e chegar antes de meu professor, o suor pelo esforço estava começando a deixar minha franja húmida, como se eu já não tivesse motivo o suficiente para estar arrependia de ter feito aquele corte.
Cheguei a sala e o professor ainda não estava lá, que sorte. Me dirigi a minha carteira enquanto cumprimentava alguns colegas, sentei e acomodei minha mochila e só então percebi que ele estava num sono profundo, ondas de seu cabelo louro cor de areia lhe caiam pelo rosto adormecido, fiquei me perguntando com que Tiago tinha ficado ocupado na noite anterior para estar dormindo em uma de suas aulas favoritas. Fui tirada dos meus pensamentos com o Mahara me cutucando.
— Atrasada de novo Bruna- ele bufou- já é a terceira vez que tenho que contar as fofocas para Ana primeiro porque você se atrasou e você sabe como ela é com esse papo de ser moralista e não querer saber da vida dos outros
— Isso tudo porque você chama de fofoca, a gente já combinou de apenas falar “acontecimentos”, não fomos fofoqueiros, somo fifis lembra a diferença?
Mahara revirou os olhos negros enquanto lembrava da frase que eu sempre lhe dizia
— ‘’Fofoqueiros aumentam a história já nós fifis apenas relatam acontecimentos da sociedade atual’’ mas sério a Ana tem que ver os conceitos dela, pois para mim é quase um estudo antropológico.
— Não poderia concordar mais, vai me contar ou não? – Estava com pressa pois a qualquer minuto o professor de física iria chegar e não poderíamos conversar direito.
— Clara e o Henrique terminaram- e abriu um sorriso triunfante- aparentemente ele estava traindo ela com uma garota da igreja dele, dá pra acreditar? Justo na casa de deus, pelo menos ele não vai ter que ir muito longe para se confessar né?
Eu ri tanto, mas principalmente porque a felicidade de Mahara era contagiante, seu grande sorriso branco contrastando com sua pele morena só podia significar uma coisa, ele ainda gostava da Clara e bastante pelo visto.
Estava prestes a fazer outro comentário maldoso sobre Henrique quando o professor chegou pedindo silêncio, me virei imediatamente para verificar se o Tiago continuava dormindo.
Ele deve ter ouvido a voz do professor pois começou a se mexer, sua pele branca estava marcada onde seu rosto estava pressionado pelos seus braços minutos antes, ele virou seus olhos castanhos para mim quando notou minha presença.
— Pelo visto não fui só eu que acordou tarde- Disse ele se espreguiçando- Bom dia Bruna!
E me deu um sorriso mostrando suas covinhas, e quando ele se virou para prestar atenção no professor eu percebi o quanto eu estava perdida.
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