Fantasmas do Outono
2 Lembranças
Não sei quando comecei a me apaixonar por ele, foi como adormecer, você não percebe que está caindo no sono até que, Bum! Você está dormindo.
Se eu tivesse que apontar quando meus sentimentos começaram a mudar certamente escolheria a festa de aniversário de 16 anos da Ana, os pais dela tinham uma casa na beira da represa e o aniversário dela era em janeiro, caindo assim no auge do verão, não era surpresa nenhuma eles terem unido o útil ao agradável.
Nadamos a tarde toda e estávamos exaustos. Milena era a menos atlética do grupo e nem chegará a entrar na água, porém lá estava ela com joelhos submersos tentando chegar o mais próximo o possível de nós.
— Eles já estão preparando as coisas para cantar parabéns- ela deu uma mordida no espetinho que estava sua mão e continuou com a boca cheia- Ana estão pedindo para você ir se secar e levar o pessoal com você.
Ana bufou cansada, o pôr do sol refletia em sua pele bronzeada e em seus cabelos vermelhos molhados.
– Vamos lá galera, talvez ainda tenham restado pães de alho para gente — e começou a nadar para a margem onde Milena a esperava devorando a carne que tinha restado no seu palito, Mahara e nosso outro amigo, Matheus, a acompanharam.
Estava um pouco decepcionada por já ter que sair da água, eu amava nadar e não era sempre que tinha a chance. Olhei para Tiago que estava boiando num estado quase vegetativo, alheio a conversa e então propus a ele.
— E se a gente apostar corrida até aquele barco? — Disse apontando para o barco que estava mais para uma canoa de madeira velha e furada que servia de ‘‘decoração” para a enseada.
Ele balançava a cabeça tentando tirar água dos ouvidos e me olhou como se eu fosse criança.
— Você chama aquilo de barco? Credo deve ter pelo menos uns cinco tipos de bichos nojentos morando naquelas tábuas podres.
— Então você está recusando por nojinho? – Perguntei provocativa.
— Só não vejo vantagem de pegar doença de graça- Seus olhos faiscaram- Seguinte, o primeiro a chegar lá vai ganhar uma refeição completa no McDonald's paga pelo perdedor.
Mahara já estava impaciente gritando para nós irmos logo se não perderíamos os parabéns.
— Já estamos indo- gritei para ele e me virei para Tiago- Saiba que eu não saio do Méqui sem comer ao menos 2 batatas grandes.
Tiago afastou os cabelos dos olhos e abriu um sorriso largo
— No 3 hein, 1......2.....3!
Saímos em disparada, eu dava longas braçadas na maior velocidade que conseguia, percebi que ele tinha mergulhado escolhendo a tática de ir por baixo da água, talvez tivesse sido eficiente se estivéssemos em uma piscina, mas ali onde a água era turva e o sol dava seus últimos raios do dia, ele não teria muita visibilidade para onde estivesse indo.
Eu já devia estar a menos de 1 metro da antiga canoa quando vi ele submergir, ele nadava rápido, mas como eu tinha previsto de desviou da rota e estava a mesma distância que eu agora.
Ganhei dele em detrimento de sua confusão, quando ele notou onde estava, minhas mãos já alcançavam a proa. Ele se aproximou ofegante enquanto balançava os cabelos tentando em vão os afastar de seus olhos.
Meus dedos afundavam na madeira podre tentando manter meu rosto acima do nível da água, estávamos muito longe da margem e já não dava pé para mim, alta com certeza nunca foi adjetivo meu. Tiago pelo contrário estava com as pontas dos ombros para fora da água.
— Quer ajuda aí Oompa-Loompa?- e me ofereceu seu braço para que me apoiasse, o que aceitei de bom grado desesperada para tirar as mãos das tábuas pútridas.
Enlacei meus braços em seu pescoço e deixei que Tiago me carregasse até a margem. Depois que ele recuperou o folego comentou
— Sinceramente não achei que ganharia, você não parece uma lá muito atlética.
Meu estômago foi ao chão, eu sabia que não era magra e que meu corpo não era o mais definido da classe, mas que tipo de idiota faz esse comentário.
Eu devia ter ficado vermelha de raiva porque ele logo tratou de se corrigir.
— Ei calma, só to falando que nas aulas de educação física você sempre inventa que está com cólica para não ter que jogar.
— Isso é porquê vocês meninos jogam como se fosse copa do mundo- pensei um segundo antes de adicionar- e correr quando se tem seios não é a coisa mais divertida que existe.
Por um milissegundo seus olhos desviaram dos meus para o meu colo totalmente coberto pelo maiô, mas foi o suficiente para meu rosto ruborizar
Ele tratou de mudar se assunto
— Sabe, você deveria sair mais com a gente- foi o sol que tinha queimado seu rosto ou ele estava envergonhado? – Nós sempre chamamos você para dar um role depois da aula, mas você sempre diz não, por quê?
Já tínhamos chegado perto da margem e então me soltei dele começamos a caminhar para fora da água. Parei assim que alcançamos a grama e pensei em mentir na reposta aquela pergunta, mas não me pareceu certo.
— A verdade é que eu acho que vocês ficam melhor sem mim, digo, eu não sou a engraçada, esse é o Matheus, ou inteligente que nem a Milena, sedutora como a Ana ou popular do Mahara. E você, bem você é aventureiro, parece que todo mundo tem um papel, menos eu.
Cruzei os braços na tentativa falha de esconder meu corpo e talvez esconder a mim mesma, que saco, por que diabos eu fui falar uma coisa dessas?
Tiago pareceu refletir sobre a minha resposta, chegou mais perto e pegou minha mão, se inclinou para que seus olhos castanhos prendessem os meus. Nunca tinha ficado tão perto assim dele, poderia contar facilmente as sardas em seu nariz, podia até sentir o cheiro das balinhas sete belo (as quais ele era viciado) em seu hálito.
Achei que ele iria me beijar, droga eu queria que ele me beijasse.
Mas então vi um sorriso zombeteiro se formar em seus lábios e então ele apenas disse.
— Você é a cola Bruninha.
Se afastou e pegou duas tolhas que estavam em cima de um banco e me entregou uma. Comecei a me secar enquanto lutava para sair daquele transe no qual ele me colocara.
— Vamos, eu realmente quero um pão de alho, uma pena pra você não servirem isso no Méqui, vai ter que se contentar com as batatas! — Disse rindo e rumando em direção a casa.
É acho que vou ter mesmo que me contentar com as batatas.
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