Fantasmas do Natal
3 Fantasma do Natal Presente
Era sim, um pesadelo, simplesmente por estar acordado e ter arrepios, pensando naquele fantasma. O olhar de Dégel realmente podia ser assustador, ainda mais quando levantava a voz, isso fazia Afrodite pensar em alguém, alguém muito parecido com aquele cara.
“Camus... É exatamente a versão nerd do Camus...” resmungou enquanto abria a geladeira. Pegou uma garrafa de leite e observou o relógio. Oito da noite, é claro que não teria sono a uma hora dessas.
Respirou fundo e pegou o celular sobre a bancada, enviando uma mensagem para Vincenzo. “Preciso de você, amigo.” Foi o que mandara e em resposta, apenas recebeu um “Sabe onde me encontrar, se precisa tanto, que venha.”
— Céus! Que homem grosso! Poliu as ferraduras. – resmungou e antes que pudesse revidar a resposta mal dada, sentiu os dedos congelarem. – Mas... – encarou os fios ruivos a sua frente e temendo que o pesadelo voltasse a acontecer, olhou diretamente para o homem a sua frente. – Ok... O que está fazendo aqui?... Camus.
O aquariano apenas deu de ombros e sentou-se sobre a bancada, tomando o celular da mão do loiro, desligando o mesmo. Estalou a língua duas ou três vezes e negava algo com a cabeça, deixando o sueco um tanto confuso.
— Não entendeu? Eu sou o Fantasma do Natal Presente, mon ange. – tamborilou os dedos sobre a superfície de mármore.
— Ok, conte outra. Você está muito bem vivo, Camus. E devia estar na “festinha” de vocês. – resmungou.
— Mon Dieu! Onde foi que eu errei? – apontou para o lado do sueco, onde havia uma réplica do mesmo, parado e mexendo no celular. – Meu tempo é curto, tanto quanto sua inteligência, agora venha.
— Não tenho escolha mesmo.
— Oui! – segurou o pulso do mais velho e congelou o ambiente. Caminhou até a sala e observou a conversa que houve ali mesmo, mais cedo. – Preste bem atenção no pouco caso que você fez... E agora olhe bem as consequências...
... .... ... .... ~ Mais cedo, naquele mesmo dia... ~ ... .... ... ...
— Está mesmo em forma. – o grisalho falou em um tom rouco, observando as formas do loiro.
— Eu sei. – sorriu – Vamos, diga o que quer logo e o que vai me custar. – o tom soou autoritário e bem “ditado”, como sempre.
— Queria que fosse comigo a essa festa. Não vai te custar nada. – respondeu com leve irritação. – Larga a mão de ser orgulhoso e venha comemorar o Natal.
— Não é orgulho. Só não sinto vontade de estar junto desse povo. –falou como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Você devia pensar duas vezes. Essas festas costumam ser divertidas.
— Não mesmo. Eles formam aquele monte de casais no final e eu ficaria entediado.
...
O loiro não entendera o motivo de pararem justamente ali, naquela parte. Pelo que lembrava, foi quando o italiano fora embora e depois teve o início da grande “aventura” que chamava de noite.
—Tudo isso é porque eu recusei um convite pra uma festa? Não acredito nisso...
— Não é bem isso. – o ruivo falou em seu tom sério, interrompendo qualquer coisa que o outro pudesse falar e o puxou para que acompanhasse o trajeto do italiano... ...
Vincenzo saía do apartamento de Afrodite quando se lembrou de algo em seu bolso. Parou diante do elevador, retirando uma caixa com anel dentro, uma aliança de prata, algo que queria dar àquele “incrível idiota” que chamava de amigo.
Era um fato que o canceriano não era o tipo meloso, menos ainda grudento, mas achava que já era a hora de amadurecer e seguir adiante com um relacionamento sério também achava que, provavelmente seria uma boa ideia com alguém do mesmo mundo que o seu, com os mesmos gostos e afinidades.
— Caspita! – murmurou irritadiço, entrando no elevador.
Era corajoso para falar tudo o que queria e na cara de quem deveria, mas Afrodite, de uns anos pra cá, tornava-se irreconhecível. O orgulho do mesmo não o deixava ver o quanto era importante.
Assim que conseguiu sair do prédio, fora encontrar Shura em um bar antes de seguirem para a festa. Aquilo teria de acabar de algum modo e nada melhor que a bebida para afogar aquele sentimento “nojento” que sentia.
Quando chegou no lugar de sempre, vira o espanhol trocando mensagens de texto com o namorado e por alguma razão, sentia algo como uma pontada de inveja. Justo ele, que apesar de ser louco por Afrodite, mantinha uma vida boêmia e de certo modo galinha.
— Essa cara não combina com você, Vincy. – o moreno falou em um tom calmo, enquanto pedia uma cerveja para o atendente. – Pelo visto seu pedido não deu certo.
— Ele não me deu abertura para pedir. – fez o mesmo acendera um cigarro, tragando profundamente e soltando toda a fumaça.
— Não precisa de abertura para pedir alguém em namoro. Você pede e pronto. – tomou aquele vício da boca do italiano e jogou no chão, pisando. – Aposto que ele nem mesmo percebeu que você começou a fumar por causa dele.
— Tsc! – estalou a língua e bebericou a cerveja. – Não foi por causa dele! Caspita! Minha vida não gira em torno da dele! Tenho vontade própria!
— Você negou um trabalho na Nova Zelândia porque o “Senhor Me First” tinha de ir pra Boston no mês passado. Seu mundo sim, gira em torno do dele. – o capricorniano fora sério. – Das duas, uma, Vincenzo. Ou termina essa amizade, ou ataca logo esse desgraçado.
— Tem razão. Ele não pode e não deve estragar meu Natal.
— É assim que começa. Depois converse com a senhorita Saori e veja se ela ainda está com aquela proposta em aberto. – comentou enquanto bebia.
— Boa ideia.
...
— Péssima ideia! Ele não pode ir! Quem o Shura pensa que é pra dar palpites na vida do Mask? – o loiro observava aquilo indignado.
— Alguém sensato. – o ruivo manteve o tom sério, o que fez o sueco observa-lo. – Afrodite, você monopolizou a vida do seu amigo. Se não o queria tão íntimo, devia ter deixado claro suas intenções com ele. – o aquariano seguia todos os passos que deveria, acelerando o tempo conforme o necessário.
Caminharam até a zona portuária, onde aconteceria a festa, bem na mansão Kido. O loiro pensava e pensava. Ainda daria tempo de voltar atrás? Talvez sim, talvez não. Olhava bem o italiano, que parecia com raiva de algo, mas mantinha o jeito imponente e com o ar sedutor, mesmo que apenas pra os poucos ali presentes.
O resultado disso era óbvio. O pisciano não conseguia parar de olha-lo, desde a camisa levemente desabotoada, até os cabelos bagunçados. Sabia que era errado, mas estava adorando vê-lo com o ar “rebelde”, com o cigarro entre os dedos e a garrafa de cerveja na mão.
— Oh céus, Afrodite! Você não pode ser normal! – o ruivo comentou, ao ver o pisciano tocar o rosto do italiano e sorrir bobo. – Venha pra cá, estou me assustando com isso!
...
O aquariano então, desfez a ilusão. Mantinha o olhar no outro e o via pensativo. Não. Ele ainda não havia entendido tudo, sabia disso. Olhou no relógio e vira que ainda tinha tempo. Tempo pra fazer o que seu antecessor não tivera.
Aproximou-se do loiro e tocou o rosto do mesmo, fazendo-o encara-lo profundamente. Camus ainda tinha esse poder, mesmo como um fantasma, ele era capaz de prender a atenção de qualquer um que fosse.
— Você é mau, infantil e egoísta. – falou firme. – Você manipula as pessoas de acordo com suas vontades e isso está afetando até mesmo aquele que sempre esteve contigo sem pedir nada em troca. Já destruiu sua família. Vai acabar também com os amigos? – repreendeu.
— Nunca obriguei ninguém a fazer nada por mim, Camus. – respirou fundo. – Ele me ama, que bom, bom pra ele. – recebeu um tapa estalado, bem no rosto, o que o deixou com a face virada para o lado e os olhos arregalados.
— Cale a boca! – ditou o ruivo. – Você é um orgulhoso... Um metido a superior, quando na verdade é uma criancinha que tem medo do escuro. Tem que crescer muito pra entender o que ele realmente fez por você, seu infeliz.
O sueco escutava aquilo tudo e aos poucos voltava a si. Segurou o francês pela gola e o encarou como uma fera. Uma fera sem presas ou garras, já que, para o espírito, Afrodite não passava mesmo disso.
— Você fala de amor. Fala demais de sacrifícios, mas fez a mesma coisa com o Milo e o pior, ficou comigo por meses, ajudando a “torturar” o Vincy. Quem é você pra me dizer o que fazer, Albert Camus Lenoir?
— Alguém que sabe o quanto dói ver quem ama com outro. – foi a última coisa que dissera, antes de se auto congelar e o loiro voltar ao estado normal.
Talvez aquele vai e vem de aura, espíritos e cosmos estivesse deixando Sigvard em completa loucura, mas enfim entendia o motivo de Camus andar sempre tão sério. Há anos, três ou quatro, Milo e o aquariano eram noivos e por motivos desconhecidos até então, os dois romperam e se afastaram.
Como o escorpiano não era bobo, logo já estava engajado em projetos novos. Belo como é, arranjou logo um novo amor, um belo tibetano de aparência delicada e que nem de longe, lembra o ar autoritário e seco daquele francês.
Era isso. Tinha de impedir aquela loucura. Não podia perder aquele homem.
“Espere-me aí mesmo” mandou a mensagem, correndo para o quarto e começando a se vestir... Tudo porque ele era o cara que dava atenção aos seus desejos, o mesmo cara que esteve ao seu lado até mesmo em uma mentira imensa e ajudou a superar tantas coisas.
Mais uma vez por motivos egoístas, já que Afrodite, nem mesmo nesse momento, pensava em como o outro ficaria. Isso sim era trabalho pra outra pessoa. O próximo fantasma.
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