Fantasmas do Natal

4 O Fantasma do Natal Futuro


Afrodite corria contra o tempo e nada estava ajudando. As luzes do prédio piscavam e com isso o elevador fora desativado. Resultado: Descer doze degraus de escada. “Com minha forma física perfeita, chegarei em menos de cinco minutos.” Pensou ao começar a descer.

Olhava para os degraus e os mesmos pareciam duplicar. Respirando cansado, olhou pra trás, vendo que nem meio lance havia descido ainda. Passou a ir mais devagar, escutando réplica dos próprios passos. Era realmente estranho, sem contar o silêncio que o edifício estava.

— Entendo... Pode aparecer, sua ilusão não tem graça. – comentou ao sentir que os passos pararam. Olhou pra frente e viu um pequeno ser encapuzado, que sem dizer uma palavra sequer, desci as escadas. – Ok...

Seguia o terceiro fantasma sem temer o que viria adiante, afinal, achava que seu futuro seria perfeito, digno da estrela que era... Que achava que era. Sentia a respiração mais pesada ainda e ao chegar no oitavo andar, parecia morto.

Suspirou e continuou a seguir aquele espírito, que não parecia se importar com o estado de sua “vítima”. Quase vinte minutos depois e com o pisciano pálido, conseguiram chegar no térreo.

Com a respiração falha, o loiro se sentou naquele degrau e observou aquele ser a sua frente. Não parecia ter mais de um metro e sessenta e as pernas bem longas para uma criatura de pequeno porte.

— Pelo visto fantasma não sente frio, não é? – provocou, puxando a peça negra que cobria o corpo. – Olha! Uma criancinha é o Futuro... Bem pensado. – riu.

Em resposta, aquele ali presente apontou uma batuta bem sob o queixo do sueco, pressionando. Olhava-o de um jeito analítico, deixando bem claro que não havia achado graça alguma. Puxara o rosto do outro para perto e o deixou a ponto de sentir que, o mesmo não respirava.

— Criança irritadinha, você. – ainda provocou, levantando-se. Em uma nova resposta, o maior acabou com a panturrilha chutada, bem na dobra dos joelhos, voltando a sentar nos degraus. – Hei!

— Não sou uma criança. – a voz grave do outro fizera o loiro arregalar os olhos. Definitivamente não era uma criança como havia pensado. – Meu nome é Krest. E você claramente é um acéfalo que julga as pessoas e a si mesmo pela aparência. – manteve o tom sério, fitando o outro com um ar superior.

— Ah! – levantou-se e tirou a batuta de perto de si, arremessando o objeto longe. – OK senhor Krest. – o tom fora irônico novamente. – O que vai fazer? Mostrar o ministro que eu me tornarei se não fizer as coisas do jeito que vocês, a trindade fantasmagórica e um travesti semi-reflexivo dizem?

— Um o que? – piscou e franziu o cenho. – Venha.

Em passos rápidos, o fantasma seguia em direção ao exterior do prédio e o loiro, ainda cansado, fazia o possível para acompanhá-lo. Foi então que Afrodite percebeu que não estava em uma forma tão boa quanto imaginava.

Krest parecia não se importar com a velocidade e propositalmente aumentou a velocidade dos passos. Tortura? Talvez um pouco de sadismo que pairava na mente daquele espírito. O rosto inexpressivo parecia ainda mais gélido e quando parou, nem ao menos olhou pra trás.

... ... ... ... ~ 5 anos depois ~ ... ... ... ...

— Esse é exatamente o ponto. – apontou a batuta para uma mansão bem decorada. Inicialmente o sueco não entendeu, mas quando se aproximaram tudo se tornou óbvio.

— OK, estamos em uma mansão em Paris. – sorriu. – Meu futuro é mesmo interessante. Fui bom o suficiente para comprar essa belezinha e... Olhe aquilo. – referia-se ao carro esporte que chegava com Vincenzo dentro. – Uma casa perfeita, com muitos criados para me servirem, além do homem que me ama... E um cachorro? Ele sabe o quanto odeio cães.

— É, ele sabe. – era um fato. O fantasma escondia algo, tanto, que um pequeno e tortuoso sorriso apareceu em seus lábios... ...

...

Vincenzo chegava de mais uma viagem. Depois que se casou e largou a vida de modelo com o esposo, passara a fazer o que realmente gostava. Agora, milionário, estava no ramo empresarial e fazia tudo por conta própria, passando por cima de quem quer que fosse.

Adentrava a mansão e observava atentamente as modificações feitas por Afrodite. Deixou o cachorro livre pela sala e logo recebeu o olhar assassino do sueco, que desenhava suas roupas no tablet.

— Quantas vezes terei de dizer pra tirar esse pulguento de dentro de casa?! – comentou s um tom sério e um tanto cansado. – Eu odeio cães.

— Sei, mas eu quero o quero em casa, pelo menos ele abana o rabo quando está comigo e fica feliz com pouco. – sentou-se ao lado do esposo e olhou o que o mesmo fazia. Aparentemente Afrodite ignorara o que fora dito e de maneira desarmada. – Pra quando o desfile?

— Próxima semana. Tenho logo que desenhar essas peças.

— OK, mas eu quero você lá em cima em cinco minutos. – avisou. – Sigvard, não estou brincando. – tomou o tablet das mãos do esposo e jogou o objeto no outro sofá.

— Vincenzo! – o sueco usou um tom de voz alto e irritado . Levantou-se para pegar o eletrônico, mas teve os cabelos segurados e puxados pelo outro. – Solte-me agora.

— Eu disse lá em cima, agora em dois minutos e sabe o que vai acontecer se não for. – empurrou o pisciano contra o tapete da sala e o mesmo apenas teve tempo para rosnar em desgosto.

Era sempre isso. Afrodite se levantou e observou a casa arrumada, cheia de luzinhas piscando e também observou seu reflexo em alguns objetos da casa. Fora ao andar de cima como esperado e encontrou o outro no quarto.

O loiro não estava com a mínima vontade de contato, mas aos poucos havia se acostumado ao jeito do italian , que mudara drasticamente depois do casamento.

— Vamos, comece a se despir. – o tom autoritário do outro era irritante. – Vai me contrariar de novo? Já se esqueceu do que aconteceu da última vez?

— Não... – começara a retirar a camisa, deixando as manchas roxas e marcas de queimadura aparecerem. – Vá com calma, as costas ainda doem.

— Eu faço como bem entendo. Se fugir de novo, a surra vai ser maior.

...

O loiro estava com uma palidez no rosto. Algo misto entre surpresa e pânico. Não entendia o motivo daquela mudança de Vincenzo, menos ainda o motivo para tê-lo deixado marcar tanto sua pele.

— Surpreso? – o espírito mais velho perguntou em um tom baixo e ainda com um meio sorriso no rosto. Olhou para o outro, que nada disse, o que deu a brecha para que a lição fosse dada. – É esse o futuro de um egoísta. Você se encontrou com ele naquele dia... Começaram a namorar desde então e se casaram. Por amor a você, ele largou o emprego e investiu no seu trabalho e depois, para continuar a vida de luxo e desordem, conseguiu seguir em sua carreira empresarial... Mas mesmo assim, você não conseguia perceber o que ele queria mostrar, Afrodite. Você foi egoísta e narcisista durante todo esse tempo e aquela foi a única maneira de te chamar atenção.

— Ele marcou todo o meu corpo...

—Acorde! Ele se tornou você, mas em uma versão muito pior. – virou-se para o loiro e o encarou. – Ele odiava tanto o seu jeito egoísta, que acabou se tornando isso aí. Não há amor, não há nada além de dominação.

...

E em um gesto com a batuta, o espírito voltou ao presente com o pisciano. O loiro estava pálido ainda e respirava descompassadamente. Olhava o chão de um jeito desolado, sem entender o que fazer.

— O que eu faço? Se o encontar , acabaremos daquele jeito, se fico, nunca mais o vejo. – apertou os lábios.

— Acho que não é um problema meu. – o espírito disse em um tom calmo. – Ou muda teu jeito, ou sabe o que vai acontecer.

E foram as últimas palavras do Fantasma do Natal Futuro. Talvez aquele fosse mesmo o único jeito de mudar a mente daquele homem. Em um pensar rápido, o loiro saiu de sua indecisão e encarou a porta do prédio. Já sabia o que fazer.

Notas finais
Novamente, peço desculpas por qualquer erro encontrado no meio do texto. Escrito, revisado e postado via tablet